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Full text of "História orgânica e politica do exército portuguêz"

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OPTHE 
UNIVBRSifY 

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HISTORIA 



EXERCITO POETUGUEZ 



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HISTORIA 



ORGÂNICA E POLITICA 



EXERCITO PORTUGUEZ 



CHRISTOYAM lYRES DE MAGALHÃES SEPÚLVEDA 



lajor de ciTiIUm. LeDle h Kuola do Eiereilo. 

Smí« effBclir» da Academia leal dai Seieaciai de Lisboa, e correspoadeote da Real Icademia de Historia de ladríd 

e do Inslilnto de Coinbra. Cri Cru de Isabel a Catbolica. Cooneadador das ordeis de S. Thiaf o, 

da Coroa leal da Prossía, de lerito lilitar e de Ronero de Carlos 111, de Hespaba. Of ciai de Atíi. 

Bepatado da Nasit 



Volume III 

INTRODUOÇÃO. — Inflnenola dos Árabes na Milícia portagueia. 
O OONDADO DE PORTUGAL. 



LISBOA 
1902 



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V,2> 



OJlí cSCtn ^ãfjn 



Ô Smhot (JnfatiU £). Jíffonòo Jítnthmé 



CoDsap e dedica lespeitosamente. 



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D'e8te8 Anríque 

experimentado, 

Fortngal houve em sorte, quo no mundo 
Entam não era illnstre, nem prezado, 
£ pêra roais sinal d*amor profundo, 
Quis o Boi castelhano, que casado 
Com Theresa sua fllha o Conde fosse ; 
E com ella das terras tomou posse. 

Este, depois que contra os descendentes 
Da escrava Agar victorias grandes teve. 
Ganhando muitas terras a^acentes, 
Fasendo o que a seu forte peito deve : 
Em premio destes feitos excellentes, 
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve. 
Um fliho, que iUustrasse o nome ufano 
Do belllcoso Reino lusitano. 

CamÔéi. — Lusíadas, canto III. 



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i 

'1 



e mais responsável é a sua situação. 
Do consorcio do Senhor D. Luiz I, — cuja memoria o 
tempo n&o faz mais do que avultar, pela lembrança de 
quanto foi bom de coraçSo, e atilado de razíto e entendi- 



A ninmlaim qae adorna eita pa^na é copiada do Livrada» Horas de D. Dnarte, 
qne eati na Torre do Tombo. Representa um peão piqueiro. 



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10 



mento, no diflScil papel de reinar, — com a Senhora D. Ma- 
ria Pia — cujas qualidades de espirito tâo admiravelmente 
se casam com o seu porte de rainha por excellencia, — 
nasceram dois príncipes que honram os seus progenitores, 
porque são dignos herdeiros das suas qualidades de cora- 
ção e caracter. 

Á um d'esses príncipes está hoje confiado o destino 
da nação, que elle, com pulso firme e superior luoidez, con- 
duz entre os escarcéus de uma má politica e as restingas 
da penúria publica, para as quaes se afigura difficil encon- 
trar um piloto! 

Ao outro coube, naturalmente, em sorte um papel mais 
modesto, e por isso também de muito menor responsabili- 
dade. Na sua elevada posição junto do thronO; é um cidadão 
como qualquer outro, com a differença de se exigir d*elle 
mais do que se pode exigir de qualquer individualidade 
menos evidente. 

A essa justa exigência, porem, tem o Senhor Infante 
D. Affonso sabido corresponder tão galhardamente, que 
hoje o seu nome é por todos considerado e respeitado como 
o de um homem verdadeiramente útil á sua pátria. 

Tudo que se conhece da influencia exercida por Sua Al- 
teza junto de sua excelsa Mãe ou do seu augusto Irmão, 
ou dos poderes públicos, redunda em seu favor e em seu 
credito : — o seu fito é o bem fazer. 

Não ha noticia de nenhuma ingerência sua nos negócios 
públicos, como tem sido a veleidade, por vezes funesta, de 
tantos príncipes; não ha memoría de nenhuma pressão 
para o gozo de um capricho ou para a execução* de uma 
vontade ruim. A estrada da sua vida está juncada de actos 
de caridade, de protecção ao fraco, de amparo ao desva- 
lido. Para prova de que é fundamentalmente bom, bas- 
tante é dizer que tem amigos, cousa de que raros princi- 
pe$ se podem gloriar, pelas condições especiaes em que 
são nados e criados, numa atmosphera de conwnçíles e no 
alheamento dos homens e das cousas. 

Na vida publica é, principalmente, um soldado, que ama 
a profissão das armas e tem por ella gosto e paixão. 
No serviço, desde subalterno, ou como cora mandante do 
grupo das baterias a cavallo, as praças mais humildes en- 
contram no príncipe a lição mais salutar, a do exemplo, 
quando o vêem occupar-se, com conhecimento e interesse, 
tanto dos minimos assumptos como dos mais elevadoB, 
numa camaradagem activa e sympathica a todos, e que dá 



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a segurança no commando, criando ao mesmo tempo a 
confiança e o affecto dos inferiores e subordinados. 

A prova da estima que inspira áqaelles com quem tem 
servido obteve-a Sua Alteza por occasiSo do seu restabe- 
lecimento de uma grave doença em 1894. A missa campal 
em acção de graças na parada do regimento de Campolide 
nSo foi apenas a solemnídade de uma corporaçSo, mas a 
festa da arma de artilharia, e pode dizer-se também que de 
todo o exercito, pois que nella estiveram representadas 
todas as armas, e em todas ellas o Senhor D. Affonso tem 
dedicações e sympathias. 

Mas na sua vida publica já Sua Alteza conta um bom 
serviço ao pais. Beferímo-nos á sua ida á índia, onde um 
desvario funesto, cuja responsabilidade não é esta a occa- 
sião de apreciar, levara á rebelliSo uma vasta e impor- 
tante provincia, trazendo em perigo todo aquelle Estado. 

Mais com a sua presença do que com a sua espada, 
concorreu Sua Alteza para a pacificação dos ânimos, tra- 
zendo para Portugal a convicção de que a nossa casa rei- 
nante e o prestigio do nome português teem naquellas 
paragens um culto sincero, e de que é um grave erro que- 
rer governar hoje colónias á laia dos capitães-mores do 
século XVIII, com o desprezo pelos indígenas e com o des- 
respeito pela lei, pelos compromissos adquiridos, pelos cos- 
tumes e pelas tradições sempre respeitadas. O problema da 
colonização portuguesa e da radicação do nome e dos in- 
teresses portugueses no solo ultramarino, vira-o claramente 
já no século xvi o génio de Aflbnso de Albuquerque, ho- 
mem extraordinário, de cuja estatura de militar e de po- 
litico ninguém em Portugal ainda se approximou sequer ! 
De quanto esse visionário ingente divisava, ha perto de 
quatro séculos, com lucidez genial, teve a prova o Senhor 
Infaot*) D. Aflfonso ao encontrar na índia, vivo e palpi- 
tante, o affecto pelos portugueses, no meio das ruinas em 
que o rigor do tempo tem convertido os monumentos do 
passado, e a que a inépcia dos homens tem reduzido a 
confiança, a boa fé, o affecto de muitos corações! 

A acção do Senhor Infante D. Affonso, segundo Víso- 
Rei da Casa de Bragança naquella longinqua e gloriosa pos- 
sessão, foi toda de apaziguamen to, de carinho, de confiança 
inspirada, de affectos conquistados. Foram essas as se- 
mentes cujos frutos se colheram mais tarde. 

Depois d'isto, o Augusto Príncipe não tem repousado da 
sua tarefa do bem. Vêmo-lo em segnida empenhado de 



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coração numa obra a que o seu nome ficará vinculado por 
um modo perdurável e eminentemente sympathico. O Ins- 
tituto para a educação das filhas dos ofiSciaes, orphãs ou 
destituídas de meios, honra a iniciativa e a previdência de 
Sua Aitezai que por essa forma se mostra digno da he- 
rança de coração recebida de sua Augusta Mãe^ — a quem 
Pia chamaram no berço, e que á piedade tem votado a sua 
actividade e intelligencia. 

Vendo reflorescer no filho essa sua primacial virtude, a 
excelsa Senhora não podia encontrar na terra nenhuma tão 
grande e tão viviíicadora consolação. 

A muitas iniciativas de caridade e beneficência se tem 
ligado o nome de Sua Alteza. 

O Senhor Infante D. Affonso usa o nome do fundador 
da monarchia portuguesa e chefe de uma grande dynas- 
tia; este volume é consagrado aos factos militares que 
abriram esse glorioso período da nossa historia e oielie fi- 
gura já o nome de Afibnso Henriques, por uma forma de- 
cisiva nos destinos da pátria. 

Estava, pois, naturalmente indicada a consagração doeste 
livro. Aquelle que na serie dos príncipes portugueses 
guarda hoje o nome do criador da nossa nacionalidade. 



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INTRODUGÇÂO 



INFLUENCIA DOS ÁRABES 



MILICIA PORTUGUEZA 



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INTRODUGÇAO 



INFLUENCIA DOS ÁRABES NA MILÍCIA PORTUGUEZA 

CAPITULO I 
O que devemos aos árabes 

íellia o árabe, 
abelha vae aos ca- 
lores, pelo infinito 
, sugar os néctares, 
Tso sabor e distin- 
com que fabrica o 

o génio árabe foi Oenlo arabo. 

caracter peculiar a 
ação que conheceu, 
s por onde passou 
sentou, a feição, o 
rma da sua civilisa- 
ção, que acabou 
por ser tão origi- 
J nal e tão caracte- 

rística; e como o 
mel, que é manjar e panaceia, delicia e reconforto 
a um tempo, aquella civilisação alimentou o espirito 
de muitos povos e nutriu muitas gerações de fortes, 
sendo ainda hoje um elemento vivo e resistente, no 
seu caracter fundamental. 



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16 
ReiaçSetdaAra- Já Grecía 6 Ronia se utilisavam dos seus merca- 

bia com o Occi- ^ i . i r% • . • • • • 

dente e orien- dores para ooter do Oriente asjoias, as especiarias, 
os tapetes, o oiro em pó, o marfim, os perfumes, 
os escravos, as pedras preciosas ; e Carthago valia- 
se dos seus soldados para engrossar os seus esqua- 
drões conquistadores. 

Antes mesmo de Mohamede*, as florescentes ci- 
dades do lemem (Arábia Feliz) e mais tarde os 
reinos de Hira (Caldeia) e de Grassam (Syria da- 
mascena), representavam grandes centros do com- 
mercio oriental e africano, em relações constantes 
com o Mediterrâneo por um lado e com a índia por 
outro. Durante dois mil annos as cidades do lemen 
representaram o papel que depois passaria a ter 
Veneza no seu máximo explendor; nos reinos de 
Hira e de Gaçam os árabes estavam em intimo 
contacto com os persas e com os romanos. 
Papel dos ara- Observa Humboldt * que os árabes se achavam 
admiravelmente preparados para representar o pa- 
pel de mediadores e actuar sobre os povos com- 
preheudidos desde o Euphrates até ao Guadalqui- 
vir e na parte meridional da Africa média. 

• Possuiam uma actividade sem exemplo, que 
marca uma epocha distincta na historia do mundo ; 
uma tendência, opposta ao espirito intolerante dos 
israelitas, que os levava a fundirem-se com os po- 
vos vencidos, sem comtudo abjurarem, a despeito 
d'essa perpetua mudança de regiões, do seu cara- 
cter nacional e das tradicionaes recordações da 
sua pátria originaria.» 

Ao passo que as raças germânicas € não começa- 



1 Adoptamos n^este trabalho a transcripçSo do professor e nosso 
amigo o 81'. David Lopes, que nos fez a fineza de uuiformisar a or- 
thograpbia das palavras de origem árabe segundo o que deixou ex- 
posto no seu livro Textos em aljamia portugueza, pag. 26 e seguin- 
tes, 1897, publicação da serie do centenário da índia. 

* Humboldt, Cosmos, t. ii. v. 



bes. 



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ram a polir-se senão depois das suas migrações, os 
árabes traziam comsigo, não só a sua religião, mas 
também uma lingua aperfeiçoada, e as flores deli- 
cadas de uma poesia que se perpetuai-ia pelos tro- 
vadores e pelos minnesinger». 

Por intermédio .dos phenicios, primeiramente, e 
depois por conta própria, era o árabe o corretor da 
civilisação entre os povos europeus e asiáticos; en- 
carregava-se da permuta dos productos de cada 
região; e, n'essa convivência com as diversas, na- 
ções, ia assimilando o que n'ellas havia de interes- 
sante e de progressivo, e o transmittia logo. 

O que o espirito mercador havia começado, cedo o espirito guer- 

1 4 • • • :i reiro secunda 

o completava o gemo guerreiro, ao serviço de uma o espirito mer- 
fé ardente e inquebrantável, a fé porventura a **"*"' 
maior que a idéa de Deus ainda encontrou para a 
realisaçâo de altos destinos. «Nem que viessem 
para mim trazendo n'uma das mãos o sol e n'outra 
a lua, me fariam recuar!» Estas palavras do fun- 
dador da religião são a synthese da firmeza d'essa 
nova crença. 

Nos confins da Arábia, um vidente, um revolu- Hohamede, e a 

• • • j] 1 • A uai dade árabe. 

cionario, um magico da palavra, tcommerciante, 
propheta, orador, poeta, legislador, e debaixo de 
todas estas formas, sempre fiel ao t j po árabe » , er- 
guia o pendão de uma doutrina, que não era abso- 
lutamente nova, porque tinha origem na Biblia, 
mas que no pandemonio de mythos e idolos em 
que a Arábia se dividia, representava uma neces- 
sidade da unificação de um povo e de uma raça ; 
doutrina cheia de promessas no futuro e de com- 
pensações no presente ; doutrina baseada nas aspi- 
rações mais vivas da natureza: a lucta e o prazer; 
e animada pela esperança de se fruir alem tumulo, 
engrandecido e multiplicado, aquillo que a vida 
i ndicára como digno de ser gosado e fruido. 

Os torneios poéticos entre os bardos das diver- 



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sas tribus e povos nas feiras de Ocade, haviam 
preparado a unidade moral e a da linguagem, 
enaltecendo sentimentos que eram de todos, e com- 
pondo-se os poemas n'uma linguagem que era por 
todos entendida. A palavra inflammada do pro- 
pheta, pregando a unidade divina, a união e con- 
córdia entre os homens da mesma crença, a sim- 
plicidade, a mansidão, a caridade como norma da 
vida, destruia os Ídolos antigos, obliterava as su- 
perstições, as nigromancias e os hábitos grosseiros 
que embruteciam e escravisavam os povos. 
Keiiguo. «Deus único, que não gerou nem foi gerado», 

era a fórmula concreta que arredava dos espiritos, 
conturbados pelas ficções do paganismo, as confu- 
sas creações do polytheismo idolatra, com o seu 
cortejo de animaes e plantas sagradas, de astros 
convertidos em divindades, e dos sacrifícios, dos 
tormentos, das alcavalas do magismo. Abolindo es- 
sas differentes formas do culto, que diíFerenciavam 
e dividiam os povos e as raças, a concepção sym- 
pathica de um Deus uno foi o primeiro grande 
passo para a unificação da humanidade. O próprio 
christianismo, cujo conteúdo moral era aliás mais 
consentâneo com uma forma superior do espirito 
e com as aspirações da liberdade humana, só con- 
seguiu essa unificação mais tarde, com o progresso 
das idéas. 

Nenhuma religião creou maior numero de ade- 
ptos do que o islamismo, que ainda hoje conta com 
milhões de proselytos em todo o mundo, apesar de 
. todos os propagandistas e missionários das outras 
religiões. Na opinião de Max Muller ella pregou a 
«moral mais elevada» que antes do christianismo 
se ensinou á humanidade, independentemente de 
Ídolos e de altares, e na de Baile produziu « os mais 
excellentes preceitos que se podem dar ao homeni 
para praticar a virtude e fugir do vicio». 



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Mohamede (o Glorificado) era o homem que toda Tran«fonnaçao 
uma sociedade desnorteada reclamava, e o desti- 
nado, pela resultante de mil causas convergentes, 
a iniciar uma transformação profunda no meio em 
que dominasse. Representava uma necessidade. 

<Como teria podido esse homem, pergunta um 
escriptor hespanhol, levar atraz do seu verde estan- 
darte 200:000 árabes, se não tivesse vindo melho- 
rar a pátria oriental, derrubar milhares de idolos, 
destruir os túmulos dos reis que se tinham feito 
enterrar com os seus leaes servidores, matar o an- 
tropomorphismo, salvar a vida do prisioneiro con- 
demnado á morte, dar á mulher direito á vida e 
aos bens da familia, e iniciar mil e mil liberdades 
que hoje parecem mingoadas, porque vivemos a 
vida de uma sociedade mais culta, resuscitada 
pela philosophia sobre as ruinas da arbitrarieda- 
de?.^ 

Mohamede realisava a aspiração que, pôde dizer- 
se, existia de ha muito na consciência dos povos 
semitas, os quaes na Caba de Meca, espécie de \2!'^^ ** "*' 
pantheon sagrado da Arábia, haviam reunido 360 
deuses diversissimos, como que indicando assim que 
não passavam de puras formas de um mesmo inti- 
mo culto. Para levar a eíFeito a obra da unificação 
Mohamede desenvolvia esse gérmen de unidade 
que ligava os variados cultos da Arábia, compre- 
hendendo que chegara o momento de todos os ára- 
bes se poderem reunir na mesma crença*. O templo 
da Caba fundára-o Abrahão; a doutrina da uni- 
dade divina era do mesmo venerável patriarcha 
bíblico ; o apostolo d'essa doutrina,[transformadora 
do mundo, sete voltas dera em redor d'esse san- 



^ R. Contreras, Recuerdos de la dominadon de los árabes en Es- 
pana, pag. Ô5. 

2 Guetave le Bon, La civilisaíion dts árabes , liv. i, cap. in, § 3.® 



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20 

ctuario, como para affirmar a sua absoluta submis- 
são ao legado que recebera de um tão sublime ini- 
ciador da sua fé. O génio semita, ligando a tradição 
do passado com a aspiração do futuro, encontrava 
a consagração da sua grande obra, no sentido de 
progresso da consciência humana. Na direcção da 
Caba ficava, em todo o mundo musulmano, o ponto 
de orientação de todo o templo, a Quibla, para o 
qual todo o fiel tinha de estar voltado no acto da 
oração *. 
paretadomoDo- Supcríor ao budhismo na forma pratica da sua 
mLT**"^' essência, e superior ao christianismo na subjectivi- 
dade singela da sua concepção raonotheista, de 
uma grande pureza, foi o mahometanismo a mais 
absoluta das religiões monotheistas do mundo. 

íÉ d'este monotheismo puro, diz Gustavo Le 
Bon, que deriva a grandissima simplicidade do is- 
lamismo, e é n'essa simplicidade que se deve ir 
buscar o segredo da sua força. De fácil comprehen- 
são, não offerece aos seus adeptos nenhum d^esses 
mysterios, d'essas contradicções tão communs nos 
outros cultos, que muitas vezes ofl^endem o bom 
senso... Foi de certo esta extrema clareza do isla- 
mismo, junta ao sentimento da caridade e da 
justiça de que está impregnada, que em muito con- 
tribuiu para a sua diffusão no mundo. Essas qua- 
lidades explicam a rasão por que populações, de ha 
muito christãs, como as egypcias na epocha do 
dominio de Constantino, adoptaram os dogmas do 
propheta, mal os conheceram, ao passo que senão 
cita povo algum mahometano que, vencedor ou 
vencido, se tenha tornado christão *. » 

Um dos processos pelos quaes se realisou a uni- 
ficação foi o admittir no mesmo culto os sectários 

1 Alcorão, Sura ii, v. 139. Sigo a traducçSo de Kasimirski, 
Idem, liv. ii, cap. ii, § 2.® 



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do Velho Testamento. Além do Alcorão, eram crenças e costa- 

Uj 17% ir T% A. j. mes estabcleci- 

vros sagrados o Jiivangelno, o rentateuco e os dos. bua trana. 

Psalmos; os Enviados de Deus eram, pela sua **^°''** 

ordem chronologica: Moysés, David, Jesus e Mo- 

hamede. 

Alcorão representa a transigência com muitas 
crenças e costumes existentes, e até com ceremo- 
nias do culto; a concepção do paraizo musulmano 
baseou- se nas ficções religiosas dos índios, dos per- 
sas, dos judeus; também entre povos orientaes es- 
tava perfeitamente justificada a immortalisação dos 
gosos e delicias dos sentidos. 

Segundo o Alcorão (aUcoran, a leitura), ca a guerra. 
guerra é a chave do céo e do inferno, uma gota 
de sangue vertida pela causa de Deus, uma noite 
velada sobre as armas, valem mais que dois mezes 
de jejum e de oração». Era a fé convertida em 
estimulo á lucta e ao esforço pessoal ; o Alcorão e 
o alfange! 

Por isso o fundador da religião foi a um tempo 
um apostolo e um cabo de guerra, e o Alcorão o 
Livro da Espada; e é bem certo que se não fora a 
guerra entre Medina e Meca talvez nunca o maho- 
metanismo passasse de uma de tantas seitas que 
desde tantos séculos se vinham pregando na Syria 
e em toda a Ásia Menor *. 

Inflammadas pela fé, as hostes musselimicas co- a expansão da 
meçaram a conquista do mundo. A Syria e o Egy- *^°^'^'^*' 
pto renderam-se desde logo ao poder das suas ar- 
mas. A Syria, onde dominavam os gregos, era 'Um 
alfobre de tradições clássicas e hebraicas ; o Egy- 
pto era o laço de união, activo, entre o Oriente 
e a Europa, e a reliquia de uina grande civilisa- 
ção. 

A pouco e pouco as expedições árabes faziam a 

1 Bafael Contreras, Rec. de la dom, de los arab. en Eep,, pag. 48. 



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22 

quista da índia, representante e depositaria de um 
opulento património scientifico e litterario do pas- 
sado, e do Magrebe ou o Occidente, nome que el- 
les deram á parte da Africa do Septentrião, até 
defrontar com a Europa. 

Começara a expansão guerreira ainda em tempo 
do propheta, que conquistou os seus primeiros cré- 
ditos de cabo de guerra no combate de Bedre, onde 
com os seus 314 discipulos armados, dos quaes 
apenas três a cavallo, derrotou 2:000 adversários 
da tribu dos coreixitas*, aos gritos de ahadhum! 
ahadhum! (oh Deus único!) Foi no segundo anno 
da hégira: em Medina ficara estabelecido o centro 
das operações activas (624 da era de Christo); tinha 
Mohamede então 54 annos de idade. tO combate 
de Bedre conseguiu mais a favor do islamismo que 
as mais eloquentes prédicas; os crentes fortalece- 
ram-se na fé; os que hesitavam pronunciaram-se, 
os incrédulos ficaram abalados^ > 

Começara o propheta por ter apenas o apoio de 
duas tribus, a dos Aus e a dos Cazraje, que no sé- 
culo V tinham arrancado Medina á posse de tribus 
judaicas, e eram inimigas figadaes das de Meca. 
Agora innumeros se tornavam os proselytos^. 
Novas expedi- Scguiram-sc 37 expedições contra os mesmos 
de*MecI*'°'**** adversários, todas commandadas pelo propheta, 
que n'ellas contou nove victorias^. O seu exercito 
foi augmentando, aos estímulos da fé e dos trium- 
phos adquiridos; e dos próprios revezes, que ás 
vezes sobrevinham ao maior numero de êxitos, sa- 
bia o seu verbo inspirado tirar novos incitamentos 



^ A mais importante das tribus da Arábia, que se dizia descen- 
dente de Ismael. 

2 L. A. Sedillot, HUt. gen. dea árabes, liv. ii, cap. ii, 

3 R. Dozy, Hist. des mysul. d^Esp., tom. i-ii. 

* Observai, hist et crit, sur le mahométismef por G. Sale, trad. do 
inglez. Sec. ii« nos Liv. sacr. de VOrient de G. Pauthier. 



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23 

para a vindicta! Quatro annos depois da jornada 
de Bedre, já Mohamede se apresentava com 4:000 
homens em frente das muralhas de Meca, e a cidade 
rendia-se-lhe sem combate. 

Occupado este. principal objectivo militar e poli- convite pmr» a 

- • • j 1 • .••«!. nova fé. 

tico, cuja posse determmava a prompta sujeição 
de muitas outras tribus, além dos coreixitas, que 
eram os mais intransigentes, Mohamede tentava no 
anno seguinte levar para além dos lindes da Ará- 
bia o seu activo proselytismo. Embaixadores e 
emissários foram enviados ao rei da Pérsia, Cos- 
roés Parviz, ao imperador de Roma, Heraclito, ao 
rei do lemem, tributário dos persas, aos da Ethio- 
pia, do Gaçam e do Egypto, a todos os príncipes, 
emfim, mais ou menos vizinhos, árabes ou nào, 
que assim eram convidados a abraçar a nova fé. 
Como em Meca, começava pelo convite amável, 
disposto porém, como se viu mais tarde, a levar a 
imposição das armas onde nao sortisse effeito o 
convencimento. 

Dois capitães famosos, que acabavam de se con- 
verter ao mahometanismo, deram ao nascente im- conquinudasy- 
perio, logo no anno seguinte, a posse de duas im- Jtô.'' ^'^ ^^^' 
portantes provincias: Calede Benabulualide con- 
quistava a Syria, e Amru Benalace parte do Egypto. 
No entretanto Meca, sujeita mais pelo temor do 
que pela crença, tentara um esforço de emancipa- 
ção; Mohamede, á frente de 14:000 homens, entra- 
va na cidade, destruia os idolos, subjugava de vez 
08 coreixitas, e com elles as outras tribus, mais ou 
menos afins, que se convertiam á nova fé. 

O mahometanismo passava a imperar de facto unincnçâo da 
em toda a Arábia, ainda em vida do seu fundador; 
e quando este, por sua morte, deixou indicado Abú 
Becre para seu successor no califado, que firmara 
em tão vastas e solidas bases, já o crescente se al- 
teava nos minaretes de uma grande parte da Ásia 



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24 

e do Egypto. Era o undécimo anno da hégira (632 
Morto de Moba- da cra christã)^; Mohamede descia ao tumulo com 
63 annos de idade. 

Mas não se encerrava com elle, nas frias pedras 
do sarcophago, a aua idéa, que já fructificava vigo- 
rosa; e o povo árabe, cuja unificação politica se 
acabava de fazer, ia em breve, animado pelas suas 
crenças juvenis, e conduzido por hábeis chefes, 
realisar a conquista do mundo. 

Com o caracter de simples chefes de uma gran- 
de democracia nascente, com um espirito eminen- 

succesflores do tcmcntc rcligioso e politico, os primeiros successo- 
prop cta. ^^^ ^^ Mohamede reputaram-se meros depositários 
do thesouro da fé e da conquista, legados pelo pro- 
pheta, comquanto as antigas rivalidades entre os 
de Medina, os Defensores por excellencia da fé 
pura, e os de Meca, seus rivaes, de onde provieram 
os Omeiadas, representasse um permanente estado 
de discórdia intima. 

Foram Abú Becre, Omar, Otmam e Ali, n^um 
periodo de vinte e oito annos. Abú Becre. o com- 
mandante dos crentes (Emir al-muminin), limitou- 
se, nos dois annos do seu caHfado, a fazer manter 
a lei e as tradições. 

Novas conquis- Com Omar começaram as conquistas, na Baby- 
lonia que era dos persas, e na Syria, que era ro- 
mana; Jerusalém e Alepo na Antioquia cederam ás 
armas mahometanas (637), e o mesmo succedeu a 
Farmaque, Memphis, Alexandria (641), onde os 

* A hégira é fixada em 16 de julho de G22 da era de Christo. Foi 
assim instituído pelo califa Omar, á imitação dos christâos, que con- 
tavam a era dos martyres a partir da perseguição de Diocleciano, 
284 da nossa era. 



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25 

soldados de Amru, como os antigos legionários de 
Roma, executaram trabalhos de reparação e con- 
strucção no canal sumptuoso, obra dos antigos egy- 
pcios, que liga o Nilo ao Mar Vermelho, e ergue- 
ram edificações novas *. 

Foi este o período da infiltração das civilisações periorio de mm- 
antigas ; o poder árabe defronta va-se com os dois '"^°' 
grandes impérios, o persa e o bysantino, que, em- 
bora roídos já pelo bacillo da decadência, eram 
ainda uma grande força. 

Na Mesopotâmia e na Pérsia, em dois mezes, foi 
extincta a dynastia dos Sassanidas, com a victoria 
alcançada em Cadécia, no Iraque babylonio; a Nú- 
bia e o resto do Egypto eram também presa dos 
árabes. Em dez annos (634 a 644) não se podia 
fazer mais! 

Com Otmam augmentam e consolidam-se as 
conquistas na Syria, na Pérsia, na Arménia, na 
Mesopotâmia; Rhodes é destruida; as gazivas mu- 
sulmanas chegam ao Cáucaso e tomam os cami- 
nhos da índia. Foram onze annos de affirmação 
por um lado, e por outro de iniciação da obra que 
Ali, o ultimo dos companheiros do propheta, não 
conseguira em cinco annos (655-660) levar muito 
longe. 

Moauia, o primeiro Omeiada, e também o pri- 
meiro califa com caracter de monarcha, faz durante 
os vinte annos do seu governo a conquista da 
Africa septentrional, funda, por intermédio do seu 
general Ocba bem Nafi, a cidade de Cairám (670), 
com o nome de Ifriquia, que havia, mais tarde, de 
estender-se por toda a província; passeia numero- 
sas esquadras pelo Mediterrâneo, onde toma posse 
das ilhas e archipelagos que orlam a Europa; 



* Girault de Prangey, Essai sur Varchit. des arab. et dea maures 
en Espagne. 



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26 

além de Magrebe, que é agora propriamente a re- 
gião que passaria a chamar-se Mauritânia, é a Sicí- 
lia um dos pontos em que assenta a sua base 
de operações contra o continente europeu; o vali 
do Egypto Haçam bem Naam toma Oarthago; 
Muça bem Noceir faz a conquista de Tanger (Tin- 
gis) com o titulo de vali d'essa nova provincia; 
Constantinopla é investida e assediada durante 
oito annos ; transpõe-se o Oxus e chegam até Sa- 
marcanda as algaras da temerosa invasão. Gigan- 
tesca obra de menos de um século! 

Estão de novo em presença a raça arica e a raça 
semitica, como no tempo dos romanos contra os 
carthaginezes. Na Ásia as conquistas são levadas 
até á China, e do mar da China ao Atlântico só 
havia um dominio real e duradouro: o dos Omeia- 
das*. 
ApeniiLuiaibe- Clicgára a vez á península ibérica de soflFrer o 
rigor das armas mussulmanas, mas também de re- 
ceber o influxo fecundo de uma civili sacão por tan- 
tas maneiras notável. Dos factos militares nos 
occupuremos adiante ; aqui procuraremos apenas 
indicar os sulcos profundos que essa civilisação 
imprimiu em toda a organisação social dos pe- 
ninsulares, num dominio de séculos, sulcos que 
ainda hoje o tempo não conseguiu apagar. 



Oimrabesnape- Eui qualqucr ramo da actividade social que es- 
tudemos as nacionalidades que se formaram na 
idade média, sobre as ruínas do império musulma- 
no, na península, encontrámos logo a irrecusável 
prova da influencia exercida pelos árabes nos usos, 

1 G. le Bon, La civil, dea arcUf., liv. ii, cap. ii, § 4.<» 



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27 

nos costumes, nos gostos, no caracter dos nossos 
antepassados. Para o demonstrar não é necessário 
o exaggero a que alguns escriptores têem levado o 
seu arabismo, ao ponto de encontrar em quasi tudo 
a imitação do árabe; basta examinar, serenamente, 
as influencias que mutuamente exerceram, um so- 
bre o outro, o elemento oriental e o elemento euro- 
peu, sempre que se acharam em contacto, resal- 
vando porém as suas qualidades fundamentaes de 
raça e civilisação. 

Ao contrario dos visigodos, que nunca se haviam 
consubstanciado com a raça nativa, nem deixado 
do seu dominio, a nao ser nas leis e na religião, 
grandes vestígios, no que representa a acção supe- 
rior do espirito, em manifestação de cultura e de 
progresso, os árabes amoldavam aos seus gostos e á 
sua civilisação as populações onde dominavam, e ao 
mesmo tempo accommodavam-se aos gostos e cos- 
tumes locaes. N^sto se pareciam com os romanos. 

Quando entraram na peninsula vinham já im-A.uacuitora. 
pregnados do perfume e nutridos da essência das 
grandes civilisações que conheceram na Ásia, no 
Egypto, no Mediterrâneo. Em contacto com os 
greco-romanos na Syria, e tendo ao mesmo tempo 
bebido na Mesopotâmia, na índia, no Egypto, na 
Phenicia, na Judéa, as bellas tradições do mundo 
oriental e do mundo clássico, dotadas de um espi- 
rito de assimilação verdadeiramente assombroso e 
de um génio essencialmente progressivo, nenhum - 
povo estava mais apto do que o árabe para a mis- 
são de conquistar e civilisar o mundo, que se ia 
afundando n'uma decadência profunda. 

A Europa, que a dissolução do império romano Renovação da 
e o dominio dos bárbaros haviam feito retrogradar ^"^p*- 
no caminho dos seus antigos progressos, passava a 
dever aos árabes o seu primeiro renascimento. 

Com a cultura da mathematica, da chimica, da 



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28 



astronomia, da medicina, que haviam aprendido no 
Oriente ; da philosophia e da musica, que guardava 
as tradições gregas ; da geographia, que proveitosa- 
mente haviam estudado e desenvolvido ; da archi- 
tectura, que denotava inspirações diversas, mas que 
ao influxo do seu génio assumia formas caprichosas 
e encantadoras, como também o mosaico e as pin- 
turas muraes; com a introducção na Europa do 
estudo das hnguas orientaes, como o árabe, o tár- 
taro, o arménio, e da bússola, da pólvora e das ar- 
mas de fogo ; com a traducção de innumeros livros 
clássicos e a formação de soberbas bibliothecas, co- 
mo as de Constantinopla e de Córdova, os árabes 
eram a personificação da mais alta cultura do seu 
tempo. Ao mesmo passo novas plantas, novas se- 
mentes, novas culturas vinham alentar o envelhe- 
cido solo europeu: era o linho, o arroz, o café, o 
limão, a laranja, o damasco, o algodão, a canna 
doce ; a fauna domestica era acrescida com novas 
espécies curiosas e úteis ; nos mercados scintilla- 
vam as jóias de preço e luziam os mais ricos pro- 
ductos de todo o mundo industrial e artístico: 
crystaes, tecidos, perfumes, os xaropes, o papel, as 
drogas odorosas e salutiferas. 

Era o resultado, não só do estabelecimento e in- 
fluencia dos árabes na Europa, mas do movimento 
das cruzadas, tão fecundo para a civilisação, com- 
quanto falho no ideal que se tinha proposto. 

Os povos, que o feudalismo dividira e procurara 
encerrar dentro dos ameiados adarves dos castellos, 
eram attrahidos ás festas publicas nos arraiaes, nas 
feiras, nos bazares; á religião soturna das cata- 
cumbas e dos concilies era dado o espectáculo fes- 
tivo de uma religião alegre, cheia de luz, de cantos, 
de guzlas tangidas e adufes rufados ! A pertinácia 
na perseguição, na tortura, na conversão á força 
de supplicios e ameaças, era substituída pelo prin- 



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29 

cipio da tolerância e da caridade. Na sua rudeza 
primitiva, pelas próprias condições da natureza 
onde se creára sem peias, o árabe realisára pelo 
instincto o principio da liberdade, igualdade e fra- 
ternidade, que só muito mais tarde seria procla- 
mado pela revolução franceza *. 

Dozy, citando Burckhardt, que assevera não ha- 
ver na Ásia povo mais tolerante que o árabe, ob- 
serva que essa tolerância data de longe, porque um 
povo tão cioso da sua liberdade difficilmente ad- 
mitte a tyrannia, em matéria de fé, e já no século iv, 
Marta, rei do Yemem^ costumava dizer: t Reino so- 
bre os corpos e não sobre as opiniões; exijo dos 
meus súbditos obediência ao meu governo, pois 
quanto ás suas doutrinas ao Deus creador com- 
pete julgal-as^. > 

É verdade que na polygamia e na escravidão a p«i7gamia 
estavam dois grandes germens do mal que de fu- *'*^*' 
turo havia de enfraquecer e tomar incompativel 
com os progressos da consciência humana o isla- 
mismo. É porém necessário considerar qual a con- 
dição da mulher antes de Mohamede^, que pro- 
curou tornar policiado e legal, em determinadas 
condições, o que era um verdadeiro arbitrio escan- 
daloso, até entre christãos, como succedia com os 
godos na Hespanha. O Alcorão tornou as filhas 
herdeiras dos pães, e acabou com o bárbaro cos- 
tume d'estes as poderem enterrar vivas; impoz ao 
marido o respeito e o amparo ás mulheres ; regulou 
o dote e a situação das viuvas perante a lei ; res- 
tringiu a quatro o numero de esposas; sujeitou o 



^ K. Dozy, Hiãt des mussul. de Esp., tom. ii. 

* R. Dozy, idem, tom. i-ii. 

3. . .«partout on voyait le triste aacrifice d'an sexe àPautre, Tes- 
clavage de Ia femme, Ia polygamie autorisée, les filies enterrées vi- 
ves par le père pauvrc qui craignait de voir un jour son nom des- 
honoré. . .», Sédillot, op. cit., liy. i, cap. ii. 



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30 

divorcio a formalidades; prohibiu casamentos em 
determinadas condições de parentesco ; puniu seve- 
ramente o adultério. Ainda hoje, como affirmam os 
viajantes e os escriptores, a polygamia «não só 
não é tão comnium entre os árabes, como se ima- 
gina na Europa, mas é rara», e a nSo ser em algu- 
mas cidades, «as mulheres árabes gosam de uma 
grande liberdade e sobretudo de um grande poder 
nas suas casas ^). 

Tudo isto representa ura grande progresso em 
relação ao anterior estado social. 

Também a accusação de ter Mohamede decretado 
o fatalismo. Q futalisuio como doutriua religiosa, e ser essa a 
causa do estacionamento da civilisação árabe, é 
exagerada, apesar de ter passado em julgado ; 
Elsner pretende que se lhe agradeça o haver esta- 
belecido, embora á sua maneira, a crença da im- 
mortalidade da alma; Sedillot observa que em todo 
o seu livro, ao contrario do fatalismo, elle admitte 
a «liberdade do homem e a acçno omnipotente da 
sua vontade para o bem e para o mal*. » A princi- 
pal rasão da intransigência doutrinaria do islamis- 
mo está na própria essência da sua fé, na pureza 
absoluta do seu monotheismo, creação do deserto. 
Fallando do caracter das religiões semitas, diz Re- 
nan que a rasão por que a Arábia foi sempre «le 
boulevard du monothéisme le plus exalte», é por- 
que o deserto é monotheista: «sublime na sua im- 
mensa uniformidade, revelou desde logo ao homem 
a idéa do infinito, mas não o sentimento d'esta vida 
incessantemente creadora que uma natureza mais 
fecunda inspirou ás outras raças. O monotheismo 
explica todos os caracteres da raça semitica, onde 
a consciência é clara, mas pouco extensa, compre- 



* Adolpbe d'Avril, VArahie contemporaine, p. ii-2. 
2 Sédillotj op. cit., liv. II, cap. iii. 



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31 

hendendo maravilhosamente a unidade, mas uao 
conseguindo alcançar a multiplicidade'.» 

A causa fundamental dos progressos do christia- 
nismo em paralello com o islamismo, não nol-a ex- 
plica apenas o critério religioso, mas o critério 
geographico e também o ethnico. A civilisação 
musulmana foi difterente na Hespanha como o foi 
na Berbéria, e o christianismo na peninsula ibérica 
foi, é, e continuará a ser difíerente do christianismo 
nos paizes do norte. E uma questão que se prende 
com o que Buckle denomina t aspectos da natu- 
reza». 

Quanto á escravidão, que subsistiu, bastante será Ae.cr»vid*o. 
lembrar que era essa uma das condições da exis- 
tência das sociedades n'esse tempo, e que povos 
christãos, até aos nossos dias, continuaram no uso 
e no commercio da escravatura. A abolição doesse 
trafico odioso foi obra do progresso das idéas, e só 
se realisou, ainda assim, n'este século; note-se, 
todavia, que no Alcorão se impõem obrigações ao 
senhor em relação ao escravo, e que se estabe- 
lece que a alforria é das coisas mais agradáveis a 
Deus. 



Não só durante o seu dominio na peninsula, mas civiíiiaçio me. 
em todo o período da Reconquista, e muito depois, «*»• 
a sciencia e a arte dos árabes imperaram entre nós. 
A sua influencia foi profunda. 

N'uma informação enviada ao conde de Raczins- 
ki, dizia Alexandre Herculano que «nos primeiros 
tempos da nossa monarchia éramos obrigados a 
recorrer aos architectos mouros e mesmo a artistas 



^ £. Kenan, HiH gén. et st/ethme compare des langues semiliques, 
liy. I, cap. I, lS6d. 



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32 



cl'essa raça para a construcção das igrejas chris- 
tasi. Os prisioneiros das Navas de Tolosa foram 
empregados na construcção dos templos christãos. 
O mesmo succedeu com as fortalezas e com os en- 
genhos de guerra, em toda a península. 

Kaczinski observa que não 6 isso de admirar, 
porquanto n'essa remota epocha os moiros de Hes- 
panba cultivavam com grandíssimo êxito as artes 
e as sciencias, o que é attestado pelos monumentos 
e pela forma dos minaretes, que prolongaram a sua 
existência em JPortugal até aos nossos dias *. E o 
que está comprovado pela infinidade de estudos 
feitos principalmente em Hespanlia. 

Não foi o território portuguez aquelle onde os 
árabes deixaram mais grandiosos vestígios da sua 
passagem, havendo mesmo regiões onde nao assen- 
taram ; mas ao sul do Douro, e muito particular- 
mente no Ribatejo, no Alemtejo e no Algarve, ainda 
hoje podemos reconhecer a influencia poderosa que 
teve entre nós aquelle povo, na forma das casas, 
com os seus pateos, mirantes, varandas caracterís- 
ticas, grades de tijolo, chaminés redondas; nos res- 
tos de antigas construcçôes; no systema da aboba- 
dilha; nos representantes de antigas industrias, 
como o fabrico dos tecidos em Arrayollos; nos 
azulejos em relevos; nas diversas formas e nomes da 
cerâmica, como a de Extremoz*; na variedade dos 
doces ; nas palavras ainda em uso ; na designação 
de muitas ruas, logares e objectos'; em certos cos- 
tumes e tradições; e até no typo dos habitantes. 



^ Raczinski, Les arU tn Portugal, pag. 831. 

2 86 em nomes de vasos temos, por exemplo^ albarrada, alcadefe, 
alcatruz, almoíía, almotolia, bacia, barranha, bátega, botija, jarra, 
garrafa, alguidar, etc. 

3 Só no Alemtejo, temos os seguintes nomes de rios e ribeiras : 
Odejebe, Xarrama, Almanzor, Odecexe, Odiana, Odivellas, Oriola, 
Odiaxere, Odoloca ; de povoações : Bensafrim, Benalifé, Bencafede, 
Macbede, Manizola. Entre oatros nomes de povoações do Alemtejo 



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33 

Referíndo-se ás tradições mouriscas de que está 
embebido o meio em que foi nado e educado, diz 
um escriptor portuguez, n^um seu recente livro, 
que foi «nascido no campo, no meio dos encantos 
da natureza, n'uma terra pittoresca, onde tudo, 
até o próprio nome d'ella*, as designações das 
localidades, dos instrumentos agrários e dos obje- 
ctos de uso commum, são ainda vocábulos da lin- 
gua dos habitantes de ha oito séculos ; costumado 
a ouvir fallar a toda hora no Castello dos mouros, no 
Lago dos mouros, na nora mourisca, no telhado á 
mourisca, em Al-farim, em Al-cerbe, em Az-zoya, 
em Al-queidão, ligando esses testemunhos da rea- 
lidade e da historia aos encantos da lenda e da 
phantasia^.» 

Foi a architectura uma das bellas manifestações Architeciura. 
do génio árabe na península; Córdova, Sevilha, 
Granada, Toledo, lá estão para o attestar. Em 
Portugal, se não existem monumentos de igual 
grandeza, muito ha ainda que nos faça admirar a 
actividade e a originalidade esthetica d'aquelle po- 
vo: — Cintra (Xintara), guardando na cinta den- 
tada das muralhas que ornam o altivo cabeço, restos 
sagrados de uma mesquita; no valle os banhos do 
antigo alcaçar, e, sentinellas do passado, arrogan- 
tes no espaço, as gigantescas chaminés mouriscas ; 
Lisboa (UlixbonaJ, conservando ainda nos pannos 
da muralha da antiga Medina a porta que Maitim 



temos: Alcanede, Alcalya, AlvitOi Divor, Alcouchel, Motain, Alcá- 
çovas, Cuba (de Alcube), Alcácer, Alpedriche, Almodovar, Albu- 
feira, Bencatel, Benamorique ; sâo ínnumeras as palavras em lodos 
os géneros, que entre nós mostram ainda a grande influencia do povo 
árabe nos diversos ramos da activididade. Veremos como essa in- 
fluencia foi particularmente notável na milicia. Sobre a origem árabe 
d'es8as palavras vejam-se os trabalhos de frei João de Sousa e 
frei José de Santo António Moura, Pihan, Dozy e Engelmann, 
Eguilaz 7 languas, Littré, etc. 

^ Azeitão. Azeitam em árabe, olivedo. 

* Oliveira Parreira, Os Iwo-arabes, vol. i. 



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34 

Moniz tornou veneranda ; em Évora as janellas que 
ainda se vêem rasgadas nos adarves romanos do 
castello ; S. Thiago do Cacem, com as duas cercas 
primitivas e a cisterna ; Silves {Xilh), com as suas 
muralhas de taipa, e povoada de lendas e de ruinas 
suggestivas ; em Lamego a porta primitiva da mes- 
quita sobre que se fundou Santa Maria de Alma- 
cave, etc. 

Seria em extremo curioso o estudo que se fizesse 
sobre o que ainda hoje se conserva com evidente 
marca d^aquella civilisaçâo. 

Nas suas edificações maiis notáveis na peninsula, 
ArtistM orien- OS arabes começaram de recorrer aos artistas gre- 
tMs e gregoB. ^^^ ^ oricutacs, até se assenhorearem dos segredos 
das artes, e serem depois, na Reconquista, os edi- 
ficadores das melhores obras christãs. 

Foi assim que na edificação do maravilhoso al- 
caçar de Córdova, a Meca do Occidente, typo da 
primeira maneira da arte architectonica árabe na 
peninsula, Abdarramão mandou vir os mais há- 
beis architectos de Bagdade, de Constantinopla e 
de outros pontos, que trabalharam sob a direcção 
de Abdallah Beniunas*. Era uma obra cosmopo- 
lita; porque, do mesmo modo que os artistas, de 
diversas partes do mundo vieram os materiaes: 
de Almeria o mármore branco, de Tunis o már- 
more verde e côr de rosa; de Constantinopla ou da 
Syria, como outros referem, veiu, trazida pelo 
grego Ahmada, a monumental fonte onde se collo- 
caram as doze figuras de aniraaes em oiro, fundi- 
das na real manufactura de Córdova ^. 

Como toda a civilisaçâo árabe, principalmente 
n'essa epocha, os seus monumentos representavam 
um consorcio harmónico de inspirações, estylos e 



* Girault de Prangey. 01, cit., pag. 55. 
2 Idem. 



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35 

materiaes de outros povos e civilisações, do mesmo 
modo que a sua língua conserva, na infinita varie- 
dade dos seus dialectos, uma absoluta homogenei- 
dade *. Nos conhecimentos adquiridos sobre as di- 
versas partes da construcção e decoração dos edi- 
fícios; na riqueza dos materiaes; na adopção de 
certas formas de arcos, de cupolas, tectos doira- 
dos, columnas, pilastras e ornamentações, mais 
tarde modificados e aperfeiçoados, imprimindo-se- 
Ihe um cunho original, seguiam as inspirações e 
processos persas, gregos, romanos e bysantinos; 
os mesmos motivos eram desenvolvidos em-sym- 
phonias de mármore, de agatha, de porphiro, de 
oiro, crystal, pedras preciosas, cedro aromático, 
estuques esculpidos, mosaicos polychromos (feci 
feqá), em Bagdade, Cairo, Damasco, Cairúm, Pa- 
lermo, Kavena, Amalfi, Veneza, Constantinopla, 
Córdova, Granada, Palma de Maiorca, Cintra; e 
ii'esta concorrência de aptidões e de talentos os 
artistas árabes tornaram-se rivaes dos artistas by- 
santinos da Europa e da Asia^, representantes da 
fusão da arte clássica com a do oriente. Crearam 
uma arte original ^. 

Um escriptor superficial no assumpto, e que evi- opinuo errad». 
dentemente não aprofundou os estudos sobre a arte 



' Burckhardt, eit. por G. le Boií. Ob. cit., pag. '273. 

2 G. le Bon. Idem, pag. 49. 

' «A verdadeira originalidade, diz Gustavo le Bon, revela-se na 
rapidez com que sabe transformar os materiaes que tem á mão 
para os adaptar ás suas necessidades, crear assim uma arte nova, 
onde os elementos antigos se transformam em novas combinações. * 
O caracteristico d^ess i arte é a imaginação, o brilho, a scintillnção, 
a exuberância no ornato, a phantasia nos minimos pormenores. «Uma 
raça de poetas e escriptores, — e qual é o poeta que d&o ó ao mesmo 
tempo um artista, — que se tornasse bastante rica para realisar to- 
dos os seus sonhos, devia conceber aquelles palácios phantasticos 
que parecem rendas de mármore incrustadas de oiro e pedras pre- 
ciosas, ^eubum povo possuirá taes maravilhas, nenhum as possuirá 
mais. Corresponde a uma idade de juventude e de illusão que se 
desfez para sempre.» Civ. des arab. 



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36 

aràbe, Daniel Ramée, diz, na sua Historia da Ar- 
chitectura^yQTíirQ outras as seguintes barbaridades: 
íA sombra das artes da Grécia projectada por 
meio dos romanos na peninsula ibérica não deixou 
Testigios, porque foi apagada pela acção dos ma- 
hometanos. A grandeza, a elegância e a graça ar- 
chitectonicas faltaram aos edifícios hespanhoes du- 
rante a idade media. Vê-se ali reinar o arbitrário, 
o extravagante mesmo, acompanhados de uma so- 
brecarga prodigiosa de ornamentação, que raras 
vezes é de um gosto elevado. Sente-se em toda a 
parte e sempre a influencia maliometana, que natu- 
ralmente perpetuou o espirito selvagem do deserto 
nas bellas e ridentes regiões do sul e do leste da 
Hespanhai. Como se vê, este historiador de arte 
suppõe que os árabes de Córdova com os Abdar- 
ramães, e os de Granada com os emires almoha- 
das, eram selvagens do deserto, e o que é mais, attri- 
bue-lhes a superstição e o phanatismo que reina 
em Hespanha ! E o inconveniente de tratar da arte 
de um povo sem lhe conhecer a historia; do mes- 
mo modo que é impossivel tratar da sua historia 
sem lhe conhecer a arte ! 

Temos, porém, para contraste, o parecer de ou- 

opiniio de *^^ escriptor que mais particularmente estudou o 

^^^9^7' assumpto: 

«Por estas asserções tão positivas de um auctor 
tão estimado como Bem Saíd, diz Girault de Pran- 
gey*, parece que a Andaluzia era ainda, nos séculos 
XII e XIII, o paiz por excellencia, como no tempo 
•do esplendor de Córdova no tempo dos Abderra- 
mães. A tradição vem, pois, como o exame dos 
monumentos da Hespanha mussulmana, dar tes- 
temunho de um desenvolvimento extraordinaido 



* Daniel Ramé, Hist. généralt de Varchittcture. 
2 Girault de^Prangey. Ob. cit, pag. 117. 



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37 

das artes, das sciencias e das lettras na Andalu- 
zia, mesmo depois da queda do califado de Cór- 
dova.» 

Prangey refere-se também aos azulejos < peças Asni^yos. 
de faiança de cores brilhantes, que uma arte nova 
dispõe symetricamente em desenhos maravilho- 
sos», e n'este particular não é Portugal das regiões 
menos ricas da peninsula; basta citar os soberbos 
azulejos árabes, com relevos geométricos, da Sé 
velha de Coimbra, antiga mesquita, os do alcazar 
e do palácio da Pena em Cintra, os de Alcochete e 
os que se encontram em abundância em Évora. 
cOs azulejos, diz Raczinski, constituem em parte 
a physionomia de Portugal», e mesmo que o seu 
nome nao provenha do árabe (azulaj ou azulec) 
como alguns pretendem*, entre outros o nosso vis- 
conde de Jorumenha, a verdade é que os mais anti- 
gos que entre nós se encontram têem analogia com 
os de Alhambra *, e os azulejos relevados do século 
XVI denotam evidente influencia árabe'. 

A arte árabe tem um caracter inconfundivel, e o ca«cter da ar^ 
seu estudo, como o da litteratura, legislação, arte j^l**'^*'^» »'»• 
da guerra, e outras manifestações do seu génio, 
são absolutamente indispensáveis para a compre- 
hensão exacta do seu papel na historia. Expressão 
das idéas e dos sentimentos de um povo, bastam 
só por si os productos artisticos para nos fazerem 
comprehcnder a forma e o caracter de um deter- 
minado estado social. cA mesquita, a um tempo 
escola, templo, estalagem e hospital, revela-nos a 
fusão completa da vida civil e religiosa entre os 
discipulos do propheta; um palácio árabe, como o 



* Caiai, de algun. vocês castel. puramente arábigas, 6 derivadas de 
la lengtta griéga, y de los idiomas orientales, pêro introducidas en 
JBêpana por los árabes. Mem. da acad. de la hist. de Madrid, tom. iy. 

í Kaczinski. Ob. cit, 2á« lettre. 

* Gabriel Pereira, Est. eborenses 



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38 

de Alhambra; com o seu exterior sem decoraçiío, o 
seu interior brilhante, mas frágil, dizem-nos da 
existência de um povo engenhoso e superficial, que 
ama a vida exterior, só pensa na hora presente e 
abandona a Deus o futuro. > 

Distingue-se em três períodos bem característi- 
cos a architectura árabe: o periodo dos Abdarra- 
maes, de directa influencia bysantina, cuja sede 
foi Córdova e Toledo antes do século x; o periodo 
arabe-mourisco, de transição, depois da queda do 
califado de Córdova, mais elegante de formas, e 
tendo por sede principal Sevilha; e o terceiro, in- 
teiramente mourisco, caprichoso nos pormenores 
ornamentaes (como a escripta nesqui, cursiva, de 
formas angulares, substituindo os caracteres cufi- 
cos), periodo que tem por empório Granada, e 
Alhambra por jóia de inestimável preço. 
Influencia em D'este8 pcriodos liavia de certo de ter feito sen- 
tir entre nós a sua influencia o primeiro, e em 
parte o segundo, em cidades tao importantes como 
eram Silves, Lisboa, Alcácer, Évora, Condeixa a 
Velha, e outros centros populosos; o terceiro, po- 
rém, floresce já quando o dominio portuguez poe 
fora da influencia da Andaluzia musulmana o novo 
reino christao. Nao nos pertence esse estudo, que 
se prende com interessantes questões da origem e 
epocha de florescimento na peninsula das arcarías 
árabes em forma ogival e de ferradura, dos mina- 
retes de forma quadrangular, da columna, tão ca- 
racterística, nas suas proporções e forma, e ou- 
tros pontos curiosos. Um facto apenas deixaremos 
apontado, e é que quanto mais periclitante e res- 
tricto se torna o dominio árabe na peninsula, mais 
o génio d'esse povo recorre ás suas tradições e 
origens. A situação da Andaluzia, e as antigas re- 
lações com o Oriente e o Egypto, facilitaram essa 
reflorescencia oriental. 



Portugal. 



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39 

Os árabes e os mouros tinham creado escola, e Artimag penin 
o que Herculano affirma com relação aos archite- 
ctos árabes em Portugal encontra-se confirmado 
em toda a península. E assim que desejando o rei 
de Castella, D. Pedro o Cruel, reconstituir em Se- 
vilha os alcaçares, árabes, mandou vir de toda a 
parte operários mudéjares *. Era já no meiado do 
século XIV. 

Fora Toledo uma creadora de bons artistas ára- 
bes, e segundo uma inscripçao do mencionado ai- 
caçar de Sevilha, o rei mouro Nazur mandou vir 
d'iiquella cidade o architecto e mestre principal na 
construcção dos palácios, e de Toledo eram tam- 
bém os outros artistas^. Diz o escriptor árabe 
Bemsaíde: tfoi da Andaluzia, então reunida ao im- 
pério de Magrebe, que os emires almohadas, luçufe 
e lacube Almançor, mandaram ir architectos para 
todas as edificações que se levantaram em Marro- 
cos, em Rabate, em Fez, em Mançoria; e é um 
facto muito conhecido que em epocha alguma a 
capital do Magrebe foi tão florescente como sob o 
domínio dos descendentes de Abdalmúmem. Por 
outro lado é igualmente notório que hoje (1257) 
esse esplendor, essa prosperidade de Marrocos, pa- 
rece ter-se transportado para Tunis, cujo actual 
sultão constroe monumentos, edifica palácios, 
planta jardins e vinhas á maneira dos andaluzes. 
Todos esses architectos são naturaes d'este paiz, 
como também os pedreiros, os carpinteiros, os fa- 
bricantes de mosaicos, os pintores e os jardineiros. 
As plantas dos edifícios são delineadas pelos anda- 
luzes, ou copiadas dos monumentos do seu paiz ^ » 

São conhecidas as intimas relações dos nossos o Aigarvo. 



* Cean Bermudez, NoUcias^ tom. i, pag. G6. 

2 Idem, pag. 238. 

3 Cit por G. de Prangey. 



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miliUrea. 



40 

Algarves com a Andaluzia, n' esses tempos; e é li- 
sonjeiro para a peninsula ter sido definitivamenta 
com os árabes a civilisadora da Africa do norte, 
desde Ceuta a Tunis. 
coDstrucçset Vcrcmos n'outro capitulo como o mesmo facto 
se dá em construcções militares, fabrico de enge- 
nhos de guerra, e também no reflexo da organisa- 
ção militar da peninsula no norte da Africa. 

Mesmo depois da reconquista, como durante 
ella, os christãos continuaram a edificar á maneira 
mourisca. E também o que militarmente succedia 
nas formações, modos de combater, armas e outros 
instrumentos, que continuaram a ser mouriscos, 
ou á laia mourisca, entre os christãos. 

A tomada de Toledo por Affonso VI, para Cas- 
tella e Leão, a acção persistente dos Berenguer na 
fundação do reino de Aragão e Catalunha, a inte- 
gração do reino portuguez até Affonso III, a ren- 
dição de Granada pelos reis cathoHcos, realisaram 
na peninsula a mesma obra de approximação e 
fusão dos dois elementos antagonistas, do mesmo 
modo que ella se produzia na Secilia^ pela con* 
quista dos normandos. D'ahi a origem do estylo 
architectonico denominado mudéjar, que não é 
mais do que o consorcio auspicio da arte mussul- 
mana com a arte christã ^ 

Isto nos mostra, mais uma vez, que não é possi- 
yel fazer-se a historia isolada de qualquer ramo da 
actividade de um povo, sem lhe conhecer-mos as 
relações com outras formas d'essa actividade. A 
arte da guerra, n'um determinado meio social, é o 
producto e o reflexo do que n'esse meio se produziu 
em matéria de artes, litteratura, industrias, leis, e 
até de religião. Em nenhum povo está isso melhor 



^ Portada de uma casa de Toledo. Arte de D, Manuel de Âssas^ 
no Musea Espan. de Antig., tom. ui. 



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41 

demonstrado que no povo árabe, que deveu tudo á 
sua actividade guerreira, animada pela fé religiosa, 
e engrandecida e embellezada pelas variadas e bri- 
lhantes manifestações do espirito. 

Nos outros ramos das bellas artes não foram os 
árabes tâo notáveis como na architectura ; em todo 
o caso deixaram vestígios luminosos no tocante á 
pintura, á escultura, á musica e ás artes indus- 
triaes. 

A pintura e a esculptura tiveram o caracter deB*cuiptara. 
simples tributarias da architectura, sem individua- 
lidade e desenvolvimento próprios ; comtudo, mes- 
mo antes da arte se ir emancipando, como os cos- 
tumes, das severas prescripções religiosas que pro- 
hibiam a representação de seres creados, a pintura 
e a esculptura procuravam na phantasia e no ca- 
pncbo remediar a deficiência que lhes provinha de 
não puderem ir buscar modelos á natureza; com- 
binavam os themas mais irriquietos e graciosos so- 
bre o motivo constante das figuras geométricas, da 
linha e do polygono, que em variações geniaes se 
desenvolvem nos mais formosos arabescos, nos 
mais complicados esfusiamentos de traços, de fitas, 
de curvas, de laços, de circules, de triângulos, de 
elypses, de espiraes, — como uma symphonia que 
fixasse em relevos de pedra, ou em lavores de es- 
taques polychromos, o (caminho aéreo das suas 
escalas chromaticas; mas esculpindo-se de facto, 
em caracteres angulosos e firmes, inscripções e 
dísticos, destinados a entoar, através dos séculos, 
graças e louvores á divindade! Formosa idealisa- 
çâo da arte! 

Alguns chronistas árabes referem-se a estatuas 
existentes nos palácios de Hespanha e do Egypto, 
mas não ficaram vestígios 'd^essas producções artís- 
ticas, não se podendo por isso avaliar o grau de 
perfeição que haviam attingido. 



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42 

Pintura. O mesmo succede com relação á pintura, pois 

nào se encontram provas reaes da existência dos 
quadros muraes representando scenas de caça e 
figuras de mulheres, a que alguns escriptores se 
referem, com informações sobre escolas de pintu- 
ras ; Macrizí, fazendo a biographia dos pintores 
musulmanos, refere se a estofos pintados a primor 
pelos árabes do Cairo; na peninsula raros espéci- 
mens, alguns de authenticidade duvidosa, como as 
pinturas do tecto da sala de justiça em Alhambra, 
e algumas illustrações em manuscriptos antigos, não 
fornecem elementos para uma apreciação segura. 

Musica. A musica não se elevou a altas concepções entre 

os musulmanos; mas a paixão dominante dos ára- 
bes da peninsula como em toda a parte foi a mu- 
sica e a dança. Como ainda hoje entre os beduinos, 
era para os árabes do deserto uma consolação e 
um deleite. Começando por serem cultivadas e 
exercidas por classes inferiores, sobretudo pelas 
mulheres, a musica passou nno só a interessar su- 
periormente a gente culta, mas a constituir-se em 
matéria de estudo para gente grave e erudita que 
fse esforçaram por dar a esta arte uma theoria 
racional»; como n'outros ramos da arte, fora a 
Pérsia a mestra e inspiradora *. 

O persa Alfarabi, primeiro commentador da Poé- 
tica de Aristoles, deixou estudos sobre a musica, 
entre elles o códice do Escurial, Elementos de mu- 
sica, que foi examinado por Casiri, e Munk é de 
opinião que elle fez adiantar muito entre os árabes 
a theoria da musica^. São innumeros os tratados 
de musica 'que possue o archivo do Escurial, e no 
tempo dos Omeiadas a musica mereceu culto en- 



* HÍ8t, Gen. de la musique, por F. J. Fetis, tom. ii e Almanak da 
Dyn. Mahomet, em Hesp.^ trad. de Gftyangos. 

2 Menendez Felayo, Hist. de las idéas esiét. en Esp., tom. i-iii. 



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43 



thusiastico em Córdova, Toledo e Granada. — De 
origem ou de adopção árabe temos o adufey o mafil^ 
a aravia, o oi^ahUy os atalaies, a rabeca, etc. 

• Não ha cacida (poesia narrativa), conto ou 
bailada, sem músicos e tocadores, tomando parte 
nos prazeres de familia e nos negócios de Estado. 
Assim, pois, de todos os povos da idade media, foi 
o árabe aquelle que mais se occupou da arte e 
o que maior numero de instrumentos exercitou, 
poique todos os que se transmittiram da Grécia 
ao império de Bysancio, e os que usavam as an- 
tiquissimas tribus da Pérsia, foram conhecidos na 
peninsula durante o dominio bárbaro e romano, e 
desde os tempos da invasão houve orchestras har- 
mónicas que se compunham de sete ou oito instru- 
mentos. Eram estes: o mizmar, espécie de Hauta 
sem chaves ; o zolami, como o oboé ; o zemer, trom- 
pa de metal ligeiramente aberta n'um extremo ; o 
bok, cano de metal que se alongava por meio de tu- 
bos ; o herbat e o rebal, guitarra e violino, e o canom, 
tympano ou psalterio*. Foi commum o uso da harpa 
ou cithara entre as mulheres, e uma espécie de gui- 
tarra redonda que soava como a bandurra. O tam- 
bor e 08 pitos serviam apenas pai'a marcar o passo 
ás tropas. Os cantores principiavam com uma es- 
pécie de cantochão, que servia para a leitura do 
Alcorão, e d'este género passavam ás cadencias 
mais doces, com as quaes recitavam as suas poe- 
sias. 

• Havia orchestas nas justas e torneios, nos co- 
lumpios, cavallinhos de pau (kewedj), e nas danças 
de mulheres que acompanhavam com xms pausitos, 
entoando coros. Tal era a affeiçao á musica que. 



' Aliipins doestes iDstrumentos indica-08 Felio com a fórina La- 
non, rébahf zarrir; Gayangos n'uma nota ao cap. iii, tom. i, Hv. i, 
cita rabáb, dámin, zalémi, miamar, bok, e outros. 



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44 

quando Ziryal veiu de Irac para Hespanha, prece- 
dido da sua immensa reputação, Abdelramão II 
saiu de Córdova para receber o artista, o encheu 
de presentes, o sentou diariamente á sua mesa e lhe 
arbitrou uma avultada pensão. Todos os músicos 
árabes desde então acommodavam as suas compo- 
sições ás regras d*este celebre maestro ^» 
DaoçM monris- Em Portugal impcrou por muitos séculos o uso 
cu em porta-^ gQsto dos cautos c dauças á maneira dos árabes; 
as tradicionaes danças mouriscas, com o seu rei 
mouro e alfaqui, encontramol-aS; em grande afifei- 
ção, desde os primeiros tempos da monarchia. 

Herculano, no seu conto Arrhas por foro de Hes- 
panha, apresenta-nos danças judengas, folias mou- 
riscas e trebelhos ou jogos», a esperar no Porto 
el-rei D, Fernando I quando fugiu de Lisboa com 
D. Leonor Telles. • Adiante d'el-rei, as danças dos 
mouros e judeus volteavam rápidas, ao som da 
viola ou alaúde árabe. > 

São as mesmas danças a que se referem os em- 
baixadores de Frederico III da AUemanha que em 
Lisboa vieram (1451) buscar-lhe a noiva, a infanta 
D. Leonor, filha de el-rei D. Duarte e irmã de Af- 
fonso Y; as mesmas do tempo de D. João 11, a que 
se refere Garcia de Rezende : 

Vimos grandes judiarias, 
judeus, guinolas e touras, 
também mouras, mourarias, 
seus bailes, galantarias 
de muitas formosas mouras. 

D. Manuel tinha ao seu serviço c músicos mou- 
riscos que cantavam e tangiam com alaúdes e pan- 
deiros >• 

Na corte de D. João III, tendo a rainha D. Ca- 
tharina os seus bailadores e tangedores de Mouris- 

^ R. Contreras. Ob. cit. 



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45 



ca, em 1551 mandava-lhes dar 2(21000 réis pelo 
corregimento da casa em que se agasalhavam junto 
do paço real de Almeirim ; d^esses artistas ficaram 
os nomes de Francisco Teixeira, Rodrigo Teixeira 
e António Fernandes, que assignaram o recibo, e 
que eram portanto os legitimos representantes da 
tradicção musulmana no tocante á arte da dança, 
como do século xvii nos ficou, entre outros, o de 
Francisco Ferreira, mestre de dança moirisca *. E 
assim até aos nossos tempos^. 

Nas artes iudustriaes o cunho deixado pelo génio 
árabe na sua estação na peninsula denuncia desde 
logo um povo de um fino gosto artístico, de uma 
esthetica levantada e pura, de um encanto raro no 
seu viver domestico e social. Não ha objecto de 
uso, por mais vulgar que seja, — uma bilha de bar- 
ro, uma faca, uma taça, — que não tenha uma for- 
ma graciosa e um typo inconfundível. Seria longa 
a lista dos objectos que enriquecem os museus do 
mundo, provenientes da industria peninsular : me- 
dalhas, moedas, jóias cravejadas de pedras precio- 
sas ou encrustadas de metaes finos, mosaicos aper- 
feiçoados dos romanos e dos orientaes ^; armas tau- 
xiadas de oiro ou prata, damasquinadas, objectos 
de crystal, de marfim, de vidro ; a louça esmalta- 
da, os tecidos tintos em cores vivas e formosas, os 
tapetes e estofos de uma grande riqueza de tons e 
de desenhos, productos que têem excellentes repre- 
sentantes ainda] hoje em toda a peninsula, mesmo 
em Portugal, etc. 



* Freire de Oliveira, Elementos para a historia do muniàpio de 
Lisboa, vol. V. 

2 É curioso, sobre este assumpto, o capitulo consagrado ás dan- 
ças portuguezas pelo nosso amifi^o dr. Sousa Viterbo no seu livro 
Artes e artistas em Portugal, 1892. 

5 Mosaicos, aliceres, azulejos árabes y mondejares, por D. Ro- 
drigo Amador de los Rios y Villalt.— Mus, Esp, de Ânt., tomo iv. 

8 



Art«i indas- 
triMB. 



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46 

Diífeitmiei oíft. Eram os luouros e os judeus os que especial- 
*'"*** mente exerciam as industrias mais caseiras e tri- 

viaes, do mesmo modo que eram, por excellencia, 
os cultores das letras e das sciencias ; em moura-- 
rias, como a que em Lisboa legou o nome a um 
bairro, ou pelos campos, exerciam os misteres de 
alfagemes, serigueiros, chapineiros, pantufeiros, 
tecelões, oleiros, entalhadores, lavrantes de oiro e 
prata, douradores, malagueiros» gibeteiros, agricul- 
tores. De tudo havia na cidade de Évora no sé- 
culo XIV, como informa o nosso amigo sr. Gabriel 
Pereira, pelos estudos feitos em documentos his- 
tóricos d^aquella cidade, principalmente do livro 
de Acenheiro, do archivo da Misericórdia. 

«Na turba enxameara judeus e mouros ; estes na 
maioria cultivadores de hortas, ferregeaes e vinhas; 
alguns sapateiros, ferreiros, oleiros ; os judeus ne- 
gociantes, mercadores, curandeiros e astrólogos, 
rabis ; bastantes em officios, filtreiros, tecelões, es- 
maltadores, alfaiates, gibeteiros, especieiros. Mou- 
ros e judeus occupavam bairros especiaes, geral- 
mente, e tinham suas communas organisadas, com 
seus alcaides ou arrabis, mesquita ou esnoga (sy- 
nagoga), com seus talhos e albergarias. Um do- 
cumento municipal mostra-nos que ainda em tempo 
de D. João I, na mesquita da mouraria, o almuad- 
den fazia a invocação exterior. . . Pela sua indole 
de raça o hebraico conservava-se isolado do iX)vo ; 
quando o mourisco, ferreiro, sapateiro, curtidoí', 
oleiro, hortelão ou vinhateiro, vivia perfeitamente 
misturado com as camadas populares». 

F«]eo«iroi. São muito iuteressantcs estas informações para a 

comprovação da nossa tliese; na resenha d'aquelles 
oííicios falta o do falcoeiro, ou dos que t fazer aves 
tinham cuidado». Era natural que os houvesse em 
Évora como os havia em outras terras, por exem- 
plo, em Santarém, como informa Fernão Lopes: 



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47 

«Elle (el-rei D. Fernando) trazia quarenta e 
cinco falcoeiros de besta, afora de pé, e moços de 
caça, e dizia que não havia de folgar até que po- 
voasse em Santarém uma rua em que houvesse cem 
falcoeiros. Quando mandava fora da terra por aves, 
não lhe traziam menos de cincoenta, entre açores 
e falcões nevris e girefaltas, todos primas. Com 
elle andavam mouros que apresavam garças e ou- 
tras aveS; e estes nadavam os pegos e paúes se os 
falcões caíam n'elles))^ 

Nas sciencias e lettras foi realmente grande o sciendu e let- 
movimento produzido em o mundo árabe, que *'^*"* 
passou a ser o depositário da sciencia greco-ro- 
mana e o seu propagador. Bemsaide dá-nos noti- 
cias de muitos escriptores que deixaram renome na 
Peninsula *. 

Em Hespanha era a academia de Córdova, no Aoademu de 
tempo dos Omeiadas, um foco de luz, e ali se en- ^'*'*^** 
sinava, segundo as tradições greco-orientaes, a 
theologia, o direito, a philosophia, a rhetorica e a 
philologia. Não se contentavam, porém, os sábios 
peninsulares com a elaboração propría ; iam bus- 
car a toda a parte onde floresciam a sciencia e as 
letras árabes, a renovação e a afirmação dos co- vugem de em- 
nhecimentos adquiridos. Almakarí dá noticia de ***^'' 
3U4 eruditos da peninsula que foram em viagem 
de instrucção aos principaes centros da sabedoria 
árabe: Alexandria, Cairo, Damieta, Bagdade, Da- 
masco, Alepo, Jerusalém, Hama, Mossul, Meca, 
Medina, Bácora, Cufa, Sana, Samarcanda, Balac, 
Ispahan, etc. D' esses 304 sábios, 194 eram juris- 
consultos, tradicionalistas, 54 leitores e commen- 
tadores do Alcorão, pregadores, muftis, 30 eram 
philosophos, sofis, ascetas, santos; 53 poetas, 

^ Fernão Lopes, Chronica de el-rei D, Fernando, 
^ P. Gayangos, Hiêt. of the Moharnmedan dyn. in Spain bj. Al- 
Makkari, tomo ii, liv. ii. 



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o direito. 



48 



grammaticos, litteratos; 12 médicos, naturalistas, 
mathematicos, etc. Comprehende-se a importância 
enorme que isto teria para o progresso scientifico 
e litterario em toda a Peninsula *, porquanto esses 
homens eram naturaes ou habitantes das cidades 
de Córdova, Valência, Xatiba, Tortosa, Denia, Al- 
meria, Jaen, Beja, Toledo, Xerez, Maiorca, etc. ^ 

O direito nasceu logo nos primeiros voos da dou- 
trina do Alcorão, que era, além de um código reli- 
gioso, um código civil, um código penal e um có- 
digo militar. Os que combatiam longe do propheta 
pela sua fé e pelos seus princípios, tiveram de se 
constituir em interpretes da nova lei, e d'ahi a ori- 
gem dos imames ou doutores. Formou-se assim a 
escola; fixou-se a doutrina; foi a soniia a segunda 
fonte da theologia e jurisprudência musulmana, 
como mais tarde seriam as leis conhecidas pelo 
nome de concordância e analogia^. Foi Isa bem 
Dinar um dos maiores, senão o maior jurisconsulto 
natural da peninsula. No território hoje portuguez 
indica Almacarí o jurisconsulto e poeta celebre 
Abulualide Albagí e Mohamede bem Baxir, natu- 
raes de Beja *. Casiri dá noticia, entre outros, de 
Bemalaki Alelique Benanes, doutor em direito ca- 
nónico ; de Ahmede bem Saíde, jurisconsulto ; de 
Abdallá bem Mohamede e Solimao bem Mohamede 
bem Batal, ambos professores de direito e poetas, 
e todos naturaes de Beja. 

Como ramo do direito, mas intimamente ligado 
com a arithmetica e a álgebra, estava (ca mais 
elevada das scienclas, e a segunda na nobreza», 
como dizia o propheta: a de repartir as heranças, 



1 Al-Makkari, Analecfes sur Vhistoire tt la litt. des arab. en Esp.^ 
intr. V. 

2 D. Julian Ribera Tarrago, Orig. deljvsticia de Aragon, pag. 36, 

3 L. A. Sedillot, Hiatoire des arabesy liv. vi, 

4 Al-Makkari, Analectes, intr. v. 



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49 

faraidy que demandava conhecimentos sobre a me- 
dição das terras, repartição dos impostos, etc.»*. 
Os que ficaram de posse de todos os seus segre- 
dos eram os sábios, os ulemas, verdadeiros juriscon- 
sultos, e theologos a um tempo; a theologia e a ju- 
risprudência eram sciencias consorciadas. 

A sciencia da grammatica foi também das que ^ grMnmauc». 
desde logo se desenvolveu, pela própria necessi- 
dade da interpretação dos textos sagrados; foram 
os persas, foi principalmente Ez-Zejadji quem 
começou de iniciar o povo árabe n'essa sciencia 
que lhes abriu os horizontes para outras, não me- 
nos illustres, como a philosophia e a historia. Per- 
sas foram os mais antigos grammaticos e theologos; 
nomes dos mais celebres lexicographos e gramma- 
ticos, scolasticoB e rhetoricoS; figuram na impor- 
tante bibliographia árabe. 

Com o estudo da theologia desenvolvem-se as Atheoiogiâ. 
diversas formas da litteratura ; foi a linguagem do 
Alcorão a que se fixou e se adoptou, ao ponto de 
ainda hoje ser comprehendida por todos, do Indico 
ao Mediterrâneo. Ainda mais: dava-se com a lin- 
guagem um phenomeno idêntico ao que se deu 
com as crenças e cultos, phenomeno «absoluta- 
mente único em philologia», isto é, existindo na 
epocha da conquista musulmana apenas duas lin- 
guas semiticas, o arámeo e o árabe, este absorve 
todos os dialectos da Arániea e fica sendo o único 
representante do semitismo^. 

Fora a poesia o laço espiritual dos povos da a po«ri». 
Arábia, mesmo antes de Mohamede, N^esses po- 
vos, diz Herder, a analogia de situação e de senti- 
mento inspirava a todos os mesmos pontos de 
honra; a espada, a hospitalidade, a eloquência 

* R. Coutreras. Op, ciL^ pag. 20. 

2 E. Renan, Hist gen, et ayat. des langues semitiquca,, liv. v, cap. i. 



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60 

eram a sua glória; a espada representava a ga- 
rantia única dos seus direitos; a hospitalidade era 
para elles o código da humanidade, e a eloquên- 
cia, á falta de escripta que a todos chegasse, ser- 
via para pôr termo ás dissensões que se não re- 
solviam por meio das armas. N'esta8 condições, a 
poesia realizou uma das grandes aspirações da 
raça árabe: a unidade da linguagem, como laço 
concreto da unidade dos espiritos, do mesmo modo 
que o ideal da unidade divina realizada pela raça 
semitica foi <ca pedra fundamental da unidade e 
progresso humano*». 
Lf MaembióM Nas fciras ou assembléas de Ocade, em Macjna 

de Ooade. e -n i * ) * j * i * 

a vnifieaçfto 6 em Dulmejaz, n uma espécie dos jogos olympicos 
da (Jrecia, se reuniam os poetas das diversas tri- 
bus, com as suas armas de guerra, deante do embio- 
cado auditório, recitavam poemas eloquentes sobre 
as lendas guerreiras, as tradições do povo árabe, 
os heroes, os sentimentos nobres, a hospitalidade, 
a bravura, a honra, os encantos da natureza, as as- 
pirações á conquista e á gloria. Como ao fogo se 
fundem os metaes, ao calor d'aquella inspiração se 
fundiam os sentimentos e se unificavam os cora- 
ções ; mantinham a ligação do passado com o pre- 
sente e indicavam o caminho do futuro ; a voz dos 
bardos era ouvida com desvanecimento e respeito; 
n'ella se agitavam as paizões e se vivificavam as 
esperanças. Os vencedores no torneio recebiam 
no fim de um anno, durante o qual tinham de dar 
provas de bravura e de bondade, os seus diplomas 
de honra, os seus poemas escriptos em letras de 
oiro, sobre telas preciosas, que eram suspensas nas 
paredes da Gaba. Se eram dois ou mais os que obti- 
nham a palma, ficavam ligados para sempre n'uma 



^ E. Renan, HisL gtn. et syst. comp, des langues semittques, liv. i, 
cap. I. 



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51 

espécie de alliança de triumpho. Foi a origem dos 
moallacas, poemas dourados, que faziam parte do 
thesouro real, entre cujos auctores mais celebres 
sobresahiu Antara, na transição do século vi para 
o VII, o brilhante período anti-islamico. Todos estes 
germens de idealidade, de generosidade, de heróis* 
mo, dourados pela poesia, haviam de florescer mais 
tarde na Europa, no periodo cavalheiresco, e tao 
bello, da Meia Idade. 

A prohibição das assembléas de Ocade por Mo- 
hamede, naturalmente por motivos de ordem publi- 
ca, atrazou nos primeiros tempos do islamismo o 
desenvolvimento da poesia e da litteratura, tendo- 
se perdido muitas composições que só se conserva- 
vam de memoria ; a preoccupação principal era a 
guerra*. Com a paz, porém, começou a poesia a 
reflorir ; em cada região onde os árabes assentaram 
os seus arraiaes surgiram poetas de grande nomea- 
da, que, como nos primeiros tempos, e. sobre tudo 
porque á veia lyrica costumavam de juntar a veia 
satyrica, representavam a elite e tinham logar nos 
régios paços. Principalmente os que se dedicavam 
á carreira das armas, encontravam no seu estro 
poético um grande prestigio com que se impu- 
nham aos seus companheiros da guerra. 

Em toda a península se distinguiram poetas ara- a poeiu n«pe- 
bes, que eram também soldados. Os emires, mor- °*"*' 
mente os omeiades, foram homens cultos, dou- 
tos muitos d'elles, verdadeiros chefes pela sua 
superioridade de gerarchia e cultura. Cita-se um 
chefe guerreiro, Ocailida, que nas suas violentas 
algaradas escrevia versos nas muralhas dos castel- 
los conquistados: 

«Meu é o cavallo impaciente, que na sua car- 
reira alcança quanto quer ; minha é a espada que 

^ G. Sale. 0b8,hÍ9t, et crit. mr le makometanisme, traducçâo do inglez. 



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52 

despede relâmpagos ondeantes; minha a dura lança, 
cuja ponta parece que foi aguçada pela morte; 
com estes dons adquiro riquezas, e outhorgo á libe- 
ralidade das minhas mãos pleno poder para gastar». 
int<««^w» Antes dos almiravidas a cultura chegara a um 
alto grau ; de 44 volumes era, segundo Almacari, 
só o catalogo da bibliotheca de Córdova no tempo 
de Alaquem; essa bibliotheca foi destruida pelos 
almoravidas, espécimen da obra de destruição que 
os christãos haviam de levar a cabo, como o arce- 
bispo Ximenes em Granada; Sevilha, Córdova, 
Granada, eram grandes centros litterarios e scien- 
tificos, do mesmo modo que, fora da peninsula, 
Bagdade, Jerusalém, Ispahan, Damasco, Alexan- 
dria, Bruza, Stambul, Medina e tantas outras ci- 
dades ; havia na peninsula 70 bibliothecas publicas 
que, com as universidades e laboratórios scienti- 
ficos, representavam fontes perennes de illustração 
e progresso ; em Almeria, capital de um pequeno 
estado, existia no^ tempo de Alotacem uma escola 
de poetas e litteratos, de grande fama ; a corte de 
Almançor foi muito reputada pelo brilho e excel- 
lencia dos seus homens de lettras, sábios, e mú- 
sicos; mesmo depois da expulsão dos mouros, os 
poemas e versos árabes continuaram a ser ouvidos 
entre christãos, traduzidos, paraphraseados, mes- 
clados e deturpados; e continuou a influencia da 
poesia árabe nos poetas christãos da peninsula 
ainda na Renascença e nos trovadores da Pro- 
vença, porque não só a peninsula, mas a Europa, 
deve aos árabes a arte da rima*. Hugo Manrique 
imitou Abulbeca, de Ronda; Perez Hita imitou os 

1 «II parait démontrc aajourd'hui que la rime a été empruntée 
par les européens aux árabes. Les dissertations de Viardot et de 
divers auteiirs me semblent avoir fixe ropinion sur ce point enon- 
cé d^ailleurs depuis longtemps et notamment par Tévêque Huet». 
Le Bon. op. cií., liv. y. 



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53 

romances árabes e compoz versos com metrifica- 
ção árabe, para as mouriscas; as muvaschahá de 
origem árabe, com metrificação nova S foram imi- . 
tadas por Galderon, Roja e outros escriptores*. «E 
tão profunda tinha sido a influencia da lingua e da 
raça árabe, com a qual o povo peninsular se con- 
substanciara, que, no século ix, que foi o tempo 
dos melhores triumphos para o catholocismo, disse 
o bispo de Córdova, D. Álvaro, que os mais dou- 
tos dos seus correlegionarios estudavam as obras 
dos philosophos e legisladores mahometanos, para 
dar correcção e elegância aos seus escriptos; e 
quando se esqueceu o latim e os próprios chris- 
taos desprezaram a lingua christã, foram os Câno- 
nes da Igreja traduzidos em árabe «^ 

O sol vivificador, que enchia de flores os jar- inflaeocu a© 
dins, de cachos as videiras, de fructos os pomares; 
as noites de luar tépidas e bellas, o temperado do 
clima, a fertilidade do solo, a frescura das aguas, 
a fauna abundante, a riqueza dos jazigos metali- 
feros, tudo fazia da península um paraizo ideal, 
como que a terra da promissão, para os que aca- 
bavam de transpor em luta armada os climas mais 
inhospitos. A terra da Peninsula «só tinha um de- 
feito: o de fazer esquecer a pátria»*; os rios pare- 
ciam cícaudaes de vinho, e as casas taças para os 
receber» ^ Como é que a poesia deixaria de flores- 
cer n'estas condições? Almacari, fallando da poe- 
sia entre os andaluzes, refere factos que provam a 
natural propensão entre elles para o verso, que as 



* Vide o que a respeito doesta nova metrificação e forma de ver- 
sos de origem peninsular transcreve Almacari das informações de 
Bem Galib, e a nota respectiva de P. Gayangos, HisU of the moham. 
dyn. in Spain,^ tomo ii, liv. ii, cap. i. 

* K. Contreras, Recuerdo de la dom. de los arab. en Eap., pag. 138. 
3 Idem, pag. 84. 

* Palavras de Açaracci. 

^ Versos de BemaUbana, citado por Almacari. 



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b4 



mulheres, e até as creanças, cultivavam e improvi- 
savam *, 
Poeta* nas ter. Seria longo eiiumerar aqui todos os poetas que, 
gai. nos diversos géneros, se distmguiram por toda essa 

Peninsula*; só Almacari, como vimos, se refere a 
53 que floresceram no tempo dos Omeiadas. Basta, 
porém; citar alguns que foram filhos do torrão hoje 
portuguez, por exemplo : Benammar, natural de Es- 
tombar, afamado poeta e politico da corte de Mola- 
mide, rival do Zaidum de Córdova ; alem de poeta, 
philosopho e sábio muito notável, aos seus talentos 
deveu ser nomeado gran-vizir de Córdova'. Be- 
nabdum, poeta do Balsameiro ou Collar da rosa, 
nascido e fallecido em Évora, e elevado a cargos 
altos pelos seus merecimentos e vasta erudição, 
notável principalmente pela sua elegia á queda 
dos Aftasidas; Bem Badrúm de Silves, que còm- 
poz o Cálice de flores ou Concha de pérolas; 
Alállam, de Faro, mestre do eborense Benabdum ; 
Bem Mocania, de Lisboa ; Abul Valid e Abu Ab- 
dallá Mohamede, de Beja; Bem Salame, de Silves, 
como de Silves eram também as poetisas Mareamí 
e a Xelbia, ou a Silvense, e tantos outros, pois Sil- 
ves foi um centro luminoso das artes e das lettras 
musulmanas, etc, etc. 

Nos trabalhos de Casiri sobre os códices ára- 
bes do Escurial, nos de Codera, nas referencias de 
Almacari, de Hooguliet, de Dozy, innumeros da- 
dos se encontram para este estudo*. 

Entre outros ramos da litteratura árabe avulta 
o conto, a novella de imaginação, narrativa de amo- 
res, de proezas, de aventuras, na maior parte em 



o conto o a no* 
yella. 



1 Pascual GayangOB, op. cit., tomo i, liv. ii, cap. iii. 

2 B. Contreras. Hecutrdos de la dom. de los arah. ea Esp. 
5 Contreras. Op. ctí., pag. 127. 

* Entre nós ha os trabalhos dos srs. David Lopes, Gabriel Pe- 
reira, Oliveira Parreira, que se occupam do assumpto. 



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66 

verso. As Mil e uma noites, repositório da phanta- 
sia de umas poucas de gerações, constituem um 
modelo no género ; as Sessões de Harirí e os tra- 
balhos de Hamadani, tomaram-se celebres ; na pe- 
nínsula avulta o nome de Mohamede Bem Tufaíl, 
de Cadiz, cujo notável romance philosophico foi 
traduzido pelo orientalista Pocock. 

«Em Hespanha, a imaginação dos poetas exer- 
ciase em noveUas e romances ; os sectários de Mo- 
hamede foram sempre grandes contistas; reuniam- 
se á noite, sob as suas tendas, para ouvir alguma 
narrativa maravilhosa, á qual se misturava, como 
em Granada, o canto e a musica; o romancero, 
composto de peças tradazidas ou imitadas do árabe, 
traça com exactidão as festas do tempo, o jogo dos 
anneis, as corridas de toiros, os combates dos chris- 
tãos com os mouros, os altos feitos e as danças dos 
cavalleiros, e essa galanteria delicada e requintada 
que tomou os mouros hespanhoes famosos em toda 
a Europa*». 

Celebres foram tambein as fabulas árabes, e o a fabnía. 
lendário Locmam, o Esopo da Arábia, foi apresen- 
tado por Mohamede como o typo da sabedoria ; e 
como Esopo ou Calidasa, é elle o mythico represen- 
tante de tradições communs em toda a humanidade. 

Os provérbios de origem árabe constituem hoje 
um opulento thesouro na tradição peninsular : uma 
grande parte dos que representam o fundo inesgo- 
tável da sabedoria de Sancho Pança, é de origem 
muBulmana^. 

Foi a historia um dos ramos mais fecundos da AUstori». 
litteratura árabe, e n'elle sobresairam homens do 
valor de Atabari, que escreveu no século x uma 
historia universal ; Maçudí, do mesmo século, que 



^ SediUot, HÍ9Í, dei arahea. 

2 G. le Bon, La civ. des araòcê, lir, t, cap. ii-3. 



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56 

mostrou uma extraordinária erudição, não só sobre 
a historia dos árabes, mas no que respeita aos co- 
nhecimentos clássicos e orientaes, na sua Historia 
do tempo, Os prados de oiro, etc; Abulfarage no 
século xm, Bem Caldiim, Abulfeda e Nosirí no sé- 
culo XIV. Haji Califa, que morreu em 1658, indica 
na sua Bibliotheca oriental 18:500 obras e 1:200 
historiadores ^ Entre simples naiTadores ou chro- 
nistas, na maior parte, como nao podia deixar de 
succeder n'aquella epocha, são dignos de menção o 
espirito critico e a alta concepção que tem da his- 
toria Bem Caldum «africano de nascença, peninsu- 
lar de espirito»*. No prefacio dos seus Prologome- 
nos (1374 a 1378) diz o seguinte: 
Bcmoaidom. «Eucaremos a historia na sua forma exterior : 
serve para relatar os acontecimentos que marcaram 
o curso dos séculos e das dynastias, e que tiveram 
por testemunhas as gerações passadas. Foi por 
causa d'ella que se cultivou o estylo ornado e se 
empregaram as expressões figuradas; ella fez o 
encanto das assembléas litterarias, onde os inte- 
ressados accorrem a flux ; é ella que nos ensina a 
conhecer as revoluções porque passaram todos os 
seres creados. Offerece-nos um campo onde se vêem 
os impeHos acabar a sua carreira; mostra-nos como 
todos 08 diversos povos encheram a terra até lhes 
ser annunciada a hora da partida e lhes ter che- 
gado o momento da abandonar a existência. 

«Vejamos agora os caracteres externos da scien- 
cia histórica : são o exame e verificação dos factos, 
a investigação attenta das causas que os produzi- 
ram, o conhecimento profundo da maneira por que 
os acontecimentos se deram e de que se tomou co- 
nhecimento. A historia, portanto, forma um ramo 

* G. le Bon.' Op. cit. 

* David Lopes, Textos fim aljamia portuguesa, no seu muito inte- 
ressante Prefacio. 



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57 



importante da philosophia e merece ser contado no 
numero das sciencias». 

Não se dirá que é um eâcriptor moderno? 

Na península, Benalfarade escreveu no começo 
do século XI, em Córdova, uma historia dos sábios 
hespanlioes; Humardi de Mayorca, em lOtíO, apro- 
fundava este assumpto; Abu Bohu Mohammede, 
filho de uma mulher goda (Benalcutia)^ e o profes- 
sor de historia em Sevilha, Azubaidi, foram histo- 
riadores; em historia e geographia se distinguiram 
Bem Haiane, Benalabar, Benalcatibe, Bem Saide; 
mas entre todos estes sobresae Bem Bassame, na- 
tural de Santarém, que floresceu no século xii, 
deixando três volumes de ura diccionario bibliogra- 
phico de muito valor para a historia da peninsula; 
e em território hoje portuguez ha a notar Bem Sa- 
hibacalá, natural de Beja, do século xii também, 
auctor de uma historia dos Almohadas, e Bem Mo- 
zaim, de Silves ^ 

Como nos rendilhados arabescos e graciosíssi- 
mas formas da sua architectura, e na elegância e 
cunho artístico que requeria em todo o objecto das 
suas artes e industrias, assim também na forma da 
sua litteratura era o árabe muito exigente. A elo- 
quência era um dom altamente apreciado entre os 
árabes, desde os primitivos tempos; a eloquência, 
como vimos já, e o conhecimento perfeito da lin- 
gua, a dextreza no manejo das armas e do cavallo, 
e a hospitalidade eram considerados os dons por ex- 
cellencia^. Das primeiras arengas, de uma eloquên- 
cia espontânea e nativa, se passou para a oração 
em forma ; a eloquência sagrada veio a ter como 
rival a eloquência tribunicia. D'ahi a rhetorica e 



Bistorladorei 
da penin> 
sul a. 



Litteratura. 



* Dozy, Ilist. des mus. é Becherches; e David Lopes, Textos em 
aljamia portuguesa, prefacio. 

2 G. Sale, Oò*. hist. et crit. sur le mahomelanisme. 



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68 

08 tratados de estyliBtica, dos quaes só na biblio- 
theca do Escurial se encontravam trezentos. 

AphuoiopLi* Depositários da sciencia greco-romana, os ára- 
bes não podiam deixar de ser os representantes 
das idéas philosophicas do seu tempo. A própria 
fé religiosa os levou a isso, principalmente quando 
começaram de apparecer protestantes contra a or- 
thodoxia absoluta do Alcorão, por vezes reputado 
contrario ao progresso. A noção de Deus era um the- 
ma vasto e seductor que fatalmente havia de con- 
duzir ás controvei*sia8 de todos os tempos. Houve 
mesmo entre os árabes, constituindo escola á par- 
te, 08 philosophos puros, que abstrahiam a religião 
da pliilosophia. 

Comquauto faltasse ao árabe, como a todos os se- 
mitas, que tinham a vontade divina como a suprema 
rasão das coisas, a curiosidade da investigação das 
grandes causas e eífeitos, e, como observa Renan, 
aquella raça não tivesse na sua philosophia e na 
sua sciencia a extensão e a variedade, e portanto o 
espirito analytico ; comquanto se possa acceitar a 
opinião do mesmo escriptor de que a philosophia 
árabe era a philosophia grega' «escripta em ára- 
be», e uma «reacção do espirito indo-europeu con- 
tra o islamismo», a verdade é que o árabe conti- 
nuou a manter vivo. durante a idade media, o fogo 
sagrado dos estudos philosophicos. 

DiverMf ewo- Em muitas escolas e seitas philosophicas se divi- 
diram; mas o racionalismo de Aristóteles e os di- 
versos ramos em que se diflferençava a sua dou- 
trina tiveram a primazia. 

O grande philosopho grego fora profundamente 
estudado e traduzido, desde Honain e lahia, um 
chefe de escola, que teve grande influencia pelo 
seu exemplo. Al Farabi pôz n'um livro de Aristo- 

^ £. Renan, Ht9t. ffen. des langues êemitiqueê, liy. i, cap. i. 



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59 

toteles a seguinte nota: tli-o duzentas vezes». Pla- 
tão e Pythagoras lhes eram também muito familia- 
res, bem assim todo o movimento scientiíico e o das 
idéas clássicas; «foram elles o élo que ligou a es- 
cholastica á pUilosophia antiga»*, elles e os judeus. 

A longa controvérsia entre os realistas e os no- 
minalistas teve entre elles os seus representantes , 
€ as doutrinas de Alberto o Grande podiam ser rei- 
vindicadas pelos árabes, cuja influencia se fez sen- 
tir até sobre os mysticos da idade media, como S. 
Boaventura»*. Houve entre elles, e em toda a Hes- 
panha, precursores dos mais ousados e revolucio- 
nários philosophicos dos tempos modernos. 

Ia travada a disputa entre os partidários da es- 
senda e os dos attributos de Deus. Por outro lado 
havia os partidários da fé absoluta, sem a menor 
intervenção da rasâo (os sufis); os que acceitavam 
a rasão, mas tendo por base a religião (os motaca- 
limes); e finalmente os que reputavam a rasão su- 
perior á fé (os nwtazitas). Cada uma d'estas esco- 
las teve proselytos illustres. 

Entre os philosophos de maior nomeada basta 
citar Avicena (Bem Sina) que, com o persa Alfa- "'imoViToV.* 
rabi, systematisou o estudo daphilosophia; Avem- 
pace (Bem Beja) natural de Beja^, racionalista e 
evolucionista, um dos mais importantes philoso- 
phos árabes da peninsula; e Averroes, o maior de 
todos, (Bem Roxede), partidário do aristotelismo na 
sua essência, e a cujos commentarios sobre Aristó- 
teles cse reduzem os ideaes litterarios dos hespa- 
nhoes de raça e cultui'a semitica» *. 

i SedUlot. Op» cíí., liv. vi, cap. iii. 

* Idem. 

3 Alguns dizem que de Saragoça, outros de Córdova. Gayangos 
aparou que «o texto de duas copias por elle consultadas dizem dis- 
tinctamente filho de Bfja no Andaluz». 

* Menendez Pelayo, Hist. de leu idéoê estet. en Esp,, tom. i. É in- 
teressante o estudo feito por este escriptor sobre as «idéas estheti- 
cas entre os árabes e judeus hespanhoes». 



Os «raodes phl- 



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puiMopiKM pe- Entre os philosophos peninsulares estão, alem 



nlnanlares. 



dos já citados Avempace e Averroes, Bem Tufáil, 
de Cadiz (seu discípulo) * e o medico Avenzoar (Bem 
Zor), de Sevilha, e Bem Hazme Azahiri, de Córdova, 
«um dos mais nobres caracteres produzidos pela 
dominação árabe em Hespanha», e auctor de nu- 
merosos volumes de philosopliia, legislação e scien- 
cias; uma familia, a dos Avenzoar, da qual Aver- 
roes era intimo, «reunia todo o movimento scien- 
tifico da Hespanha musulmana no século xii»^. 

Estes philosophos, perseguidos e renegados pelos 
que na peninsula passaram a combater por todas 
as formas a philosophia, como contraria á ortho- 
doxia religiosa, são mais philosophos europeus do 
que propriamente árabes; «acoçados pelo fana- 
tismo, diz Renan, Avempace, Abubacer, Avenzoar, 
Averroes, viram o seu nome e as suas obras en- 
trar na corrente da vida europeia, isto é, da ver- 
dadeira vida da humanidade»^. 
MoTim«Dto phi. Até ao século x vieram da Ásia á peninsula tra- 
oMp CO. (JuctQres dos livros clássicos, e desde então passou 
a haver um grande numero de indivíduos, árabes 
e christãos, que professavam a philosophia. Abri- 
ram-se escolas onde alem da philosophia se ensi- 
nava o Talmud e os Evangelhos, a medicina, as 
sciencias naturaes. As mazanas, ou universidades, 
representavam o lustre e a gloria de muitas cida- 
des ; Toledo, sobretudo, antes da invasão dos almo- 
hades, era o refugio e o imporio dos philosophos e 
dos sábios. Foi o fundador da dynastia dos Omeia- 

^ Falando da original issiin a novella philosophica de Tufáil, que 
tem o titulo Hay hem Jokdam, diz Mejiendez Pelayo que «não ha 
obra mais original e mais profunda em toda a litteratura arábica; é 
mais do que isso : poucas concepções do engenho humano têem um 
yalor táo synthetico e profundo ; é, por assim dizer, uma phantaaia 
psychologica, um discurso sobre o methodo desenvolvido em fórma 
poética». Ob. cit. 

2 E. Renan, Averroes et Vaverrotsme, part. i, cap. i. 

3 E. Renan, idem. 



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61 

das quem deu maior impulso ás traducções das 
obras antigas, contra a opinião radical dos ortho- 
doxos, produzindo assim «uma verdadeira revo- 
lução philosophica no maliometanismo ' » . 

Resta-nos ver o que aos árabes devem as scien- scienoias. 
cias, principalmente na peninsula. Nâo ha ramo 
nenhum d'ellas em que não caiba a primazia aos 
árabes, na fecunda elaboração da Idade Media, tão 
calumniada. Foi Bagdade o primeiro grande im- 
porio. 

No século IX as scíencias mathematicas tiveram Mathematica. 
notável incremento pelo conhecimento dos traba- 
lhos da sabedoria grega e indiana. Foram tradu- 
zidos Euclides, Archimedes, Ptolomeu e outros au- 
ctores gi^egos. Com uma individuahdade própria, 
cedo os árabes trouxeram acquisiçÕes novas e de- 
ram poderoso impulso a esse grande ramo dos co- 
nhecimentos, que haviam adquirido principalmente 
por intermédio dos sábios da escola de Alexandria, 
e iniciado pelo Âlmagesto de Ptolomeu. Por meio de Aitroaomia. 
observações directas, a astronomia começa logo de 
progredir a passos gigantescos ; multiplicam-se os 
observatórios ; nomes illustres de astrónomos ára- 
bes se inscrevem no kalendario dos beneméritos da 
sciencia. A Taboa verijicadaj producto das obser- 
vações feitas nos observatórios de Bagdade e Da- 
masco, dão a determinação precisa da obliquidade 
da ecliptica; fixou-se a duração do anno pela ob- 
servação dos equinoxios ; ensaiou-se mesmo medir 
um arco do meridiano terrestre, etc. A escola de 
Bagdade era uma verdadeira escola scientifica, nos 
seus rigorosos processos; o periodo do califa Al- 
mamum, o Mecenas e o Augusto dos árabes, é um 
periodo fecundo; os seus successores proseguem 
activamente, mas passo a passo, no caminho dos 

1 Vid. o cap. Movimiento filosófico de los árabes, em R. Contre- 
ras. Op. cit, 

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62 

progressos iniciados; e mesmo quando o grande 
império se retalha, núcleos de actividade scientifica 
continuam, ou se formam de novo, em diversos 
pontos do globo. Caíam as dynastias . e ficava de 
pé o principio da solidariedade scientifica ; os prín- 
cipes Buidas continuavam a obra de Almamum e 
seus des^ndentes. É assim que nos séculos ix e x 
appareceram homens de alto valor: Albatequi, o 
Ptolomeu dos árabes; os Amadjur, pae e filho, au- 
ctores de notáveis taboas astronómicas; os três fi- 
lhos de Muçabem Xaquer, que determinaram os 
equinoxios com a máxima precisão e as ephemeri- 
des dos logares dos planetas ; Abú Isaac, um ma- 
thematico profundo; al-Sagani, que na sciencia 
da meclianica se tornou eximio; e Abulefa, o pre- 
cursor de Ticho Brahé, e inventor de foiínulas im- 
portantes, chegando-se com elle, na opiniâo'de Se- 
diliot, cao limite extremo a que se podiam levar 
os conhecimentos astronómicos». 

No século XI, como consequência de guerras e 
invasões, Bagdade tem de ceder o sceptro da so- 
berania intellectual, o qual passa para o Cairo na 
Africa, e Córdova, Sevilha, Granada, e por fim 
Toledo, na peninsula ibérica. Comtudo, quanto á 
astronomia, a escola de Bagdade leva a sua activi- 
dade até meiados do século xv. 

Na escola do Cairo, com o seu celebre observa- 
tório no alto de Mokatam, e a bibliotheca onde se 
contavam 6:000 obras de astronomia e mathe- 
matica, sobresae Beniones que t fixou a obliquidade 
da ecliptica, a excentricidade da terra na sua or- 
bita e as desigualdades maiores dos astros * . 
Napenimnia. Na pcniusula ibcrica foi grande a attenção dada 
ao estudo da astronomia, e na plêiade brilhante 
dos cultores d'esta sciencia, que tinham n'es8e 
tempo um prestigio muito grande, sobresaem Azra- 
chel (século xi), auctor das Taboas toledanas, que 



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63 

teve observações muito notáveis para determinar o 
apogeu do sol e o movimento de precessão dos equi- 
noxioa; Jabre Benoflá, de Sevilha, auctor de um 
tratado traduzido em latira; e Averroes que, alem 
de medico e philosopho, era astrónomo. O museu 
archeologico nacional de Madrid possue ura pre- 
cioso astrolábio toledano *. 

Em Hespanlia, como em outros pontos onde do- 
minaram ou influenciaram, deram os árabes a co- 
nhecer, antes de ninguém, to diâmetro da terra, a 
duração do anno solar, o pêndulo, a photometria 
dos astros, a refracção atmospherica, a altura da 
matéria gazosa que respirámos, taboas de cálculos 
aperfeiçoadas, o raio, a regularidade dos ventos, e 
muito mais; o que tudo traduziram nos seus li- 
vros com denodada applicação, fundando o pri- 
meiro observatório de que ha noticia na Idade 
Media. Sedillot é de opinião que na descoberta do 
movimento da elliptica dos planetas e da theoria da 
mobilidade da terra, os árabes antecederam Kepler 
e Cupernico. 

Gustavo Le Bon resume assim as descobertas Descobertas ai 
astronómicas dos árabes: introducção, desde o se- *'*'°''°***'"- 
culo X, das tangentes nos cálculos astronómicos ; 
construcção das taboas de movimento dos astros ; 
determinação rigorosa da obliquidade da ecliptica 
e da sua diminuição progressiva; calculo exacto da 
precessão dos equinoxios; primeira detenninação 
exacta da duração do anno ; e, finalmente, o conhe- 
cimento das irregularidades da maior latitude da 
lua e a descoberta da terceira desigualdade lunar 
designada hoje com o nome de variação, que se 
julgava ter sido apenas determinada pela primeira 
vez em 1601 por Tycho Brahé *. 

1 Astrolahioê aràbca, por D. Eduardo Saavedra, Mus. Esp. de 
Ant,, tomo vi. 

« G. Le Bon. Op. cit. pag. 501. 



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64 

Arte de adivi- Ao conhccimento da astronomia estava ligada 
°^*'^' n'esse tempo uma arte muito estimada, e a que 

recorriam todos, desde o soberano até ao mais hu- 
milde vassallo: a arte de ler no futuro, parte char- 
lata da sciencia, mas que tinha, pelo menos na 
crendice do tempo, foros de sabedoria, e que na 
Europa chegou até Kepler. Mesmo depois da re- 
conquista ficaram os árabes com essa especialidade. 
É assim que encontrámos no nosso Fernão Lopes 
a informação de que, andando o rei de Castella 
D. Pedro em guerra com D. Henrique, quizera estar 
ao facto do que lhe esperava, e como «fazia muito 
por saber de seus astrólogos a certidão das cousas 
que lhe haviam de vir, e não somente pelos letra- 
dos de sua terra, mas ainda a Granada, mandava 
perguntar a Abenahalim, mouro, gi-ande sabedor 
e philosopho, que lhe escrevesse a certidão das cou- 
sas que lhe podiam aquecer». Respondeu-lhe o 
mouro que seria cercado pelo inimigo n'um logar 
que tinha uma torre chamada Estrella; suppoz <> 
rei ser Carmona, que tinha realmente uma torre 
doesse nome e tratou de bem se fortificar n'ella. 
Mas o inimigo não foi lá ter; e pôz cerco a Montei. 
Indagado o caso. Montei também tinha uma torre 
com o mesmo nome. A culpa não fora do mouro, 
que adivinhara certo *. 
Astrologia. Lougos scculos coutínuou consorciada a astrolo- 
gia com a arte de prever o futuro. E assim que, 
segundo o nosso Fernão Lopes, o pae de Nuno Al- 
vares Pereira, que «era astrólogo e sabedor, e quan- 
do lhe alguns filhos nasciam trabalhava-se de ver 
a sua nascença, e por sua sciencia entendeu que 
havia de haver um filho, o qual seria sempre ven- 
cedor em todos os feitos de armas em que se acer- 
tasse, e que nunca havia de ser vencido». Ou fosse 

* Fernão Lopes, Chronica d*d-re% D, Fernando, cap. xlyi. 



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65 

o próprio pae quem fizesse a observação, ou cum 
grande letrado e muito profundo astrólogo, que 
chamavam mestre Thomaz», que em sua casa an- 
dava, o facto é que ao nascimento de Nuno Alva- 
res se ligou a idéa de uma devinação astronómica *. 

Evidentemente, com a sciencia astronómica ha- 
viam de progredir as mathematicas puras, como 
instrumento indispensável ao methodo de observa- 
ção e experiência com que os árabes, desde o sé- 
culo IX, anteciparam os modernos processos scien- 
tificos desconhecidos aos outros povos da Idade 
Media, methodo que consistia em «caminhar do 
conhecido para o desconhecido, tomando conta exa- 
cta dos phenomeuos para em seguida remontar ás 
causas, acceitando apenas o que era demonstrado 
pela experiência i. 

Nos ramos das sciencias naturaes, o estudo dos scienciu nata- 
metaes, de que era tão abundante e rica a penin- 
sula ibérica, mereceu particular attençâo aos ára- 
bes ; foi grande a exploração das minas de cobre, 
de ferro, de mercúrio, de oiro ; a tempera do aço 
chegou á máxima perfeição, como em Toledo, onde 
o fabrico das armas brancas é ainda hoje modelar. 
Â8 plantas, muitas das quaes foram por elles intro- 
duzidas na Europa, e enriqueceram os jardins e os 
herbarios, mais sumptuosos, a pharmacopeia e a 
culinária da epocha, e a introducção também 
do assucar, do rhuibarbo, das folhas de sene, da 
camphora, de muitos xaropes, electuarios e con- 
servas da Ásia e da Africa, representam um 
capitulo vasto da actividade árabe; foi isso um 
grande subsidio da medicina, e deu origem a jar- 
dins botânicos, como o de Abderramão em Cór- 
dova. 



4 Fernão Lopes, Chronica d'el-rei D. João I, cap. xxzit. 



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66 

cOs árabes, diz Sedillot, deram-nos a conhecer 
a noz moscada e o crava da índia. Correia da Ser- 
ra, auctoridade muito completa, notou que, culti- 
vando muitas arvores de fructos dióicos, elles ti- 
nham tido idéas muito claras acerca da fecundação 
sexual. Na sua excellente apreciação da obra de 
Abú-Zacharia, demonstrou com clareza a vasta ins- 
trucção dos árabes em economia rural. Embora 
n'isso se mixturasse a superstição, tinham proces- 
sos que merecem a attenção dos agricultores ; a 
Hespanha deve-lhes as ríoras, rodas em rosário a 
que são adaptados os alcatruzes. Levaram a agri- 
cultura ao mais alto grau de perfeição, e occupa- 
ram-se também de geologia ; a obra de Lyell faz- 
Ihes o este respeito a justiça que merecem. O sr. de 
Sacy publicou muitas partes intei-essantes da obra 
de Cazwini, com rasão appellidado o Plínio dos 
Orientaes; devemos mencionar também o nome de 
Aldemiri, o Buffon dos árabes, cuja historia dos 
animaes é justamente celebre. Póde-se portanto 
afiirmar que todos os ramos das sciencias naturaes 
eram conscienciosamente estudados ^ • 
Sciencias phy Nas scicncias physicas, apesar das principaes 
obras se terem perdido, as que ficaram dão idéa 
do desenvolvimento por elles adquirido; Humboldt 
considera os árabes como verdadeiros fundadores 
d'essas sciencias. 

Na physica, a obra do Alhazen, na qual Ke- 
pler baseou os seus estudos, é reputada a origem 
dos nossos conhecimentos em óptica. As suas luzes 
sobre mechanica são comprovadas por muitos ins- 
trumentos que chegaram até nós, ou cujas descri- 
pções se encontram nos tratados da epocha. Na 
chimica, cujas suas melhores obras se perderam 
também, ficaram ainda assim as de Rhasis e de 6e- 

* L. A. SediUot. Hist des árabes, liv. rv, cap. ii. 



•iças. 



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67 

ber, sendo a doeste um verdadeiro repogitorio que 
dá idéa do grau de adiantamento a que os árabes 
haviam conduzido esta sciencia. Desenvolvendo 
muito os conhecimentos summaríos que haviam re- 
cebido dos gregos, descobriram o álcool, o acido 
nitrico, o acido sulfúrico, e outros corpos; conhece- 
ram a distillação, as propriedades do gaz, da po- 
tassa, do nitrato de prata, do sal ammoniaco, do 
sublimado corrosivo, etc; tiveram importantes la- 
boratórios ; na arte da guerra os preparados explo- 
sivos alcaçaram grande e poderosa applicação. E 
não só na arte da guerra, mas em todos os ramos 
da industria, as sciencias naturaes, embora em em- 
brião, prestaram serviços, como na industria mi- 
neira, na da tinturaria, na do fabrico do papel, 
aprendida dós chinezes, mas com a substituição da 
seda pelo algodão, etc. 

Um dos conhecimentos em que os árabes foram Navegação, 
exímios, e em que se valeram também dos seus aper- 
feiçoamentos e applicações scientificas, como a da 
bússola, foi o da navegação ; n'este particular, são 
os antecessores e os emulos dos portuguezes. Foi 
pela navegação e pela conquista que se tomaram 
os verdadeiros mestres de uma sciencia antes d'el- 
les desconhecida na Europa, onde Ptolomeu era 
ainda o oráculo : a geographia. Foi um árabe pe- 
ninsular, Edrici, quem deu a conhecer os novos ho- 
risontes abertos a esta sciencia. Innumeros foram os 
livros de geogi*aphia e os mappas publicados pelos 
árabes; muitos são os nomes dos viajantes e geo- 
graphos que se tornaram celebres e deram a conhe- 
cer as diversas partes do mundo, desde Nadar de 
Bassora, no século viii, até Abulfeda, e Ben Ba- 
tuta. 

Aos conhecimentos anteriormente accumulados 
pelos árabes, e até a informações directas doestes 
se pôde dizer que deveram em parte os portugue- 



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68 



zes a sua iniciativa nos descobrimentos. Sabe-se 
que o nosso infante D. Henrique recebeu de viajan- 
tes e geographos árabes em Ceuta, quando por nós 
foi tomada aquella praça, informações que o leva- 
ram a encetar as suas explorações no Atlântico, 
como reconhecimentos indispensáveis para a grande 
campanha épica através dos mares. 



veBMgiot pro- Foi um povo n'e8ta8 condições de cultura o nosso 
fllTencu \rt cducador durante sete séculos, e foi tão grande a 

be entre nós. • n • 1 1 • j i 

influencia por elle exercida nos usos, nos costumes, 
na maneira de ser, de pensar, de proceder dos po- 
vos peninsulai^es, nas regiões onde dominaram, que 
não ha ramo algum da nossa actividade onde se 
nao encontrem profundos vestígios d'essa influen- 
cia. ' 

Póde-se applicar a toda a península, com pe- 
quena differença de nomes, no que respeita, por 
exemplo, ás artes e officios, o que um distincto 
arabista hespanhol diz n'um bello estudo sobre as 
influencias árabes em Aragão: 
EmArftgio. «En las iudustrias e oflicios, la huella aiin se 
percibe en los nombres árabes de tahoneros, guada- 
macileros, olfareroSy cdbarderosy albaniles, alarifes, 
albéitares^ algeceros, etc, con una multitud de vo- 
cábulos e denominaciones que denotan de quién se 
recebian por entonces estas enseftanzas: aldabasy 
andamioSy azoteas, zaguanes, alcohas, algibes, algor- 
fas, etc, etc, un sin numero que llenarian varias 
cuartillas; en matéria de tintorería muchos colo- 
res : azul, anil, amarillo, escarlata, carmesi, etc. ; en 
tecidos' ó prendas de vestir una larguísima pro- 
cession: zaragilelles, almohadas, alfombras^ alama- 
resj etc.» 



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69 

E o que se deu na península ibérica, dá-se, EmPr»nça. 
nos paióis de Auvergne e do Limousin^ e p6de-se 
dizer em todos os paizes banhados pelo Mediter- 
râneo: 

til était tout naturel que les árabes, maítres de 
la Méditerranée depuis le huitièrae siècle, diz Sedil- 
lot, donnassent à la France et à Tltalie la plupart 
des termes de marine: amiralj escadre, floite, fréga- 
te, corvette, caravelle, felonque^ chàloupe, aloop, bar- 
que, chiourme, darse, calfat, estacada, et, en première 
ligne la houssole, improprement attribuée aux chi- 
nois; que dans la formation des armées perma- 
nents on adoptat les titres donnés aux officiers des 
aiinées musulmanes, le cri de guerre des árabes, 
Temploi de la poudre à canon^ des bambes, des gra- 
nades, des obus ; que dans Tadministration, les ter- 
mes de syndic, aides, gaòelle, taille, tarif, duane, ba- 
zar, etc, fussent empruntés aux gouvernements de 
Bagdad et de Cordoue. Les róis de France de la troi- 
sième race les imitaient en tout; c'est ainsi que la 
plupart des termes de grandes chasses sont árabes: 
chúÃse, meute, laisse, curée, hallali, cor de chasse, 
fanfarre, etc. ; que le mot toumoi, que les lexico- 
graphes modernes font venir de torneamentium, 
est bien Tarabe toumou, espectacle militaire; mais 
c'est principalement à la nomenclature scientifique 
que nous devons nous attacher. Nôtre astronomie 
est peuplée d'expres8Íons árabes: azimut, zenith, 
nadir, les pièces de Vastrolabe, alidade, alancahuih; 
les noms d'étoiles: Aldébaran, Rigel, Althair, Wé- 
ga. Acamar, Aghol, etc; chimie: alchimie, álcool, 
alcali, alambic, etc; pour Thistoire naturelle et la 
médecine: boi, elixir, 8Írops,juleps, sorbet, mirolans, 
etc, et ce haschich d'oú nous est venu le terme as- 
sassins > . 

Nem em todas estas palavras se pôde dar por 
apurada a sua procedência árabe; é fora de du- 



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raçaa. 



70 

vida*, porém, que a grande maioria d'ellas tem essa 
filiação. 
FuíiodasdMs Apesar da differença de religião e de raça, por 
tal forma se aproximaram os povos, conquistado- 
res e conquistados, que em muitos pontos se fun- 
diram. O mosarabe e o mudéjar sao os typos ca- 
racterísticos d*essa fusão, que não se deu apenas 
nas classes populares, mas nas mais preponderan- 
tes da sociedade, chegando a cpnfundir-se até nos 
, trajos, nos nomes e appellidos, que sendo mouros 
figuraram entre muitas famílias christãs, e vice- 
versa *. Príncipes árabes esposavam mulheres chris- 
tãs, sendo muitos os exemplos d^esses consórcios em 
Castella, Aragão e Navarra, como também de 
príncipes christãos com musulmanas, o que foi 
ainda mais frequente, havendo portanto grande 
parcella de sangue rausulmano nas veias dos mo- 
narchas e principal nobreza peninsular^. 

Em Portugal basta citar o casamento de D. Luiz 
de Lencastre, primeiro commendador-mór da or- 
dem de Aviz, oitavo filho do infante D. Jorge, du- 
que de Coimbra, filho amado de D. João lí, com 
1). Magdalena de Granada, filha de D. João de Gra- 
nada, governador da Galiza, irmão de Mahunad 
Abandalim (Bpabdil), ultimo rei de Granada, e fi- 
lho do rei de Granada Muley Abul Caiem. D. Ma- 
gdalena de Granada se chamou por isso a quarta 
filha de D. Luiz de Lencastre, casada com D. João 
de Silveira, filho herdeiro do conde de Sortelha, que 
não chegou a succeder a seu pae por ter morrido 
na batalha de Alcácer Quibir, mas que deixou des- 
cendência, onde se entroncam muitas famílias das 
mais illustradas de Portugal; e igualmente de no- 
bre sangue mourisco descendem todos os que tive- 

1 L. A. Sedillot, Híst des árabes, liv. vr, cap. ii. 

2 Herculano, Hist. de Port,, D. J. Ribera Tarrago, Orig, deljus- 
ticia de Aragon, pag. 10. 



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71 

ram por progenitores os outros filhos da princeza 
granadina, esposada pelo commendador-mór de 
Aviz*. Náo só a lingiia árabe foi familiar a esses intimidado cn- 
monarchas, tal como a D. Pedro I de Aragão, que e^hrLSoir' 
em árabe assignava os documentos, e se suppoz que 
só sabia escrever n'essa lingua, mas também a cul- 
tura árabe deu realce ás suas cortes onde eram 
musulmanos, por vezes, os ministros, os médicos, os 
thesoureiros, os professores. Em toda a epocha da 
reconquista, tão estreitas e intimas eram as relações 
dos príncipes christãos com os musulmanos, que 
mutuamente se associavam, muitas vezes contra 
inimigos da sua própria religião, enviando-lhes tro- r 
pas e auxilio de toda a natureza. Ha aventureiros 

^ D. Luiz de Lencastre, cotnmendador mór da ordem de Aviz, 
•casou no anno de 1540 com D. Magdalena de Granada, dama da 
rainha D. Cathaiina, que a estimava muito, a quem os reis casaram 
com o commendador mór, fazendo-lbe muitas mercês, segnrando-Ihe 
as suas arrhas. Era filba do infante D. João de Granada, governa- . 
dor de Galiza, e de D. Brites de Sandoval sua primeira mulher. £ra 
o infante D. João de Granada irmão de Mahunad Bandalin, cha- 
mado o Chico, ultimo rei de Granada, filho de Muley Abul-Hayen, 
rei de Granada; porém D. Joào, da segunda mulher (que tendo sido 
christã, EI-Kei seu marido a fez tornar moura) chamada Zoraya, de 
quem também foi filho D. Fernando, infante de Granada, que com 
seu irmão antes se chamava Cad, e sou irmão Nncre, tomaram os 
nomes, o primeiro de £Í-Rci D. Fernando o Catholico, e o segundo 
do príncipe D. João seu filho ; e a rainha Zoraya sua mãe reconci- 
liando-se á Santa Fé, se chamou D. Isabel de Solir ; e eram des- 
cendentes legitimos do primeiro rei de Granada por linha feminina 
e por varonia de Arraez de Málaga Farrachem, valeroso, e mui es- 
timado, em quem muito antes tinha entrado o sangue real dos reis 
de (jrranada; porque Muley Abul-Hayen, pae dos ditos infantes, que 
morreu no tempo de El- Rei D. Henrique I V , foi filho de EI-Rei Aben 
Ismael, que succedeu no reino no fim do reinado de El-Rei D. João II 
de CasteUa». 

Do casamento de D. Luiz de Lencastre, com D. Magdalena de 
Granada, nasceram os seguintes filhos : 

D. Luiz de Lencastre, segundo commendador-mór de Aviz, que 
herdou a casa de seu pae. 

D. João de Lencastre, commendador de Coruche. 

D. Brites de Lencastre, duqueza de Bragança, por ter casado 
com o duque D. Theodoro I, de quem foi segunda mulher. 

D. Maria de Lencastre, casada com D. João Gonçalves, segundo 
conde de Calheta. 

D. Anna de Lencastre, commendadeira de Santos. — Hist. Gen, 
da Casa Heal, tom. xi, liv. zi, pag. 197 e 203. 



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72 

de alta nomeada, como Rodrigo de Vivar, cogno- 
minado o Cid, figura que passa a representar a 
encarnação do ideal da revindicta chrlstâ e neogoda, 
mas que fora, durante muito tempo, um bravo cam- 
peador ao serviço dos musulmanos de Aragão con- 
tra 08 estados christaos dos Pyrinéus. Os arraiacs 
christãos enchem-se de desertores musulmanos e 
vice-versa; mouras criam os filhos dos christãos; na 
rua as duas religiões confundem os seus trajos, ritos, 
danças, jogos, costumes ; em frente do minarete de 
uma mesquita, de onde a voz do almoédano chama 
os crentes á oração, ergue-se a torre da igreja onde 
^o repique do sino convoca á missa; os christãos 
guardam o domingo, o sabbado os musulmanos ; 
às formas exteriores do culto, amplamente per- 
mittidas, não se aff^rontam, antes se respeitam mu- 
tuamente; os diversos mesteres liberaes são exer- 
cidos por todos, consoante as suas aptidões, sem 
exclusão nem vexames para ninguém; os bairros 
são communs, commum o viver quotidiano, em 
todas as suas manifestações. 
consequenciM. D'esta conviveucia, que prolonga o estado das 
relações durante o dominio mourisco, provém a 
imitação, a adopção de inúmeros usos, hábitos, 
funcções publicas, e diversos meios de regular e 
harmonisar a economia social; e com essas formas 
e funcções se adoptam os nomes árabes que lhes 
correspondem, e os quaes persistem através' os 
tempos, mesmo muitas vezes quando as respectivas 
funcções desappareciam ou se modificavam. E assim 
que enchem o vocabulário da peninsula nomes de 
vestuário, de indumentária, de medidas e pesos, de 
ofíicios, de industrias, de cargos públicos, de mi- 
licia, etc, etc*. 

^ Citaremos alguns nomes, dos quaes alguns correspondem a 
funcções ou objectos já em desuso, outros que representam objectos 
e funcções modificadas ou diifereutes, e outros que dcsappareceram 



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73 

Depois de concluída a obra da reconquista ainda 
por muito tempo permaneceram em equilíbrio as 
boas relações entre mouros e christãos; os reis 
tomaram, por solemries capitulações, debaixo da 
sua tutela os mouros, estabelecendo-se penalidades 
grandes aos que os desrespeitassem e molestassem; 
eram aquelles collocados em igualdade de condi- 
ções com os christãos. Nas leis das Seté^ Partidas 
que vigoravam em toda a península, mesmo divi- 
da em vários reinos cUristãos, estava estipulado o 
seguinte: cE como quier que los Moros non ten- 
gan buena Ley, pêro mientra uiuieren entre los 
Christianos dellos, non les deuen tomar, nin robar 
lo suyo, por fuerça; e qualquier que contra esto 
fiziere, mandamos que lo peche doblado, todo lo 
que assi les tomare*f. 

O consorcio do espirito chrístão com o árabe a «ne ia mu- 
encontra-se até nas obras mais características da 
arte mndejar; é assim que, por exemplo, noTripti- 
co Relicário procedente do Mosteiro de Pedra de 
Aragão, e que estava na academia de historia de 
Madrid; nos nimbos e nas túnicas dos anjos se 
lêem inscripções em árabe, e árabes são também 
alguns disticos e legendas dos frontaes pintados nas 
miniaturas que illustram o celebre códice das Can- 



do vocabulário em uso com o desappareci mento do que significa- 
ram. Assim temos : 

No vestuário e roupas : Albornoz, gabão, alamar, almofada, al- 
fombra^ alcatifa. 

Nos pesos e medidas : Alqueire, adarme^ arroba, salamim,fanga 

Nos cargos : Alcaide, mustaçaf, aguaail, alfaqueque, adail, ar- 
raes. 

Nas moedas : MorábHino, 

Nos officios : AlbardeiroSf algibebes, (dfageme, alvestar, afafonei 
roa, arraes, alfaiate, alfeireiro. 

Nas plantHs e fructos : Alfavaes, alfarroba, alfazema, alfena, 
alforva^ algodão, alface, albricoque, cUperce, alcachofra, alcaçuz, al- 
cali, alcaparra, alamaque. 

* Partida vu, lei i, tit. 25. 



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74 

tigas do Hei Sahioy do século xm *. O Libro dei 
Juego de las iablas, escripto em Sevilha em 1321, 
e que se acha no Escurial, é um preciosiswmo re- 
positório de pinturas representando os trajos, a 
architectura, as armas, os utensílios d'aquelle sé- 
culo, e n'elle figuram christãos e árabes, em intimo 
convívio, e encontram-se pormenores da civilisa- 
çâo e costumes de uns e outros, em encantadoras 
illuminuras^. 

Vemos já como artistas mudejares foram de pre- 
ferencia encarregados da construcção dos templos 
christãos. Continuava o espirito de tolerância, de 
que os árabes haviam dado um tão grande exem- 
plo. Parecia até que permanecia o mesmo estado de 
cousas, tendo apenas mudado a religião dominante 
do estado. 

«Um rei christão, observa um escriptor do vi- 
zinho reino, cujos dependentes, no que toca á mi- 
lícia, são os alcaides, os almotacés, os adaís, os 
almogavares, um rei christão com auctoridades 
amovíveis, como as jícstiças, zalmedinas, mostafa- 
ses, almoxarifes, etc, em que se differença de um 
sultão, a não ser na religião e no nome? E no 
nome nem sempre, porque algumas vezes ao rei de 
Castella lhe chamaram Emir alcatoliquim^ á simi- 
Ihança dos reis almoravidas^». 
Modificaçses A pouco B pouco, porém, as cousas foram-se mo- 
d^inírt" diíicando; veiu a intransigência religiosa, o despo- 
reH^Ma* tismo do vcnccdor, o capricho do mais forte; de 
igual ao christão no trato social, passou o mouro 
ti ser inferior, e acabou por ser excluído. Foram-lhe 
prohibidas as manifestações do culto externo; a 



1 Códice de las cantigas dei Ruy sábio, art. de D. José Amador 
de Sevrin. Mns. esp. de anfig,, tomo ni. 

2 Los libros dei ajedrez, de los dados y de las Ublas^ art. de 
D. Florêncio Janer. Mus. esp, de Anteg., tomo iii. 

3 D. Julían Ribero Tarrago, Oríg, ddjttsticia de Aragon^ vi. 



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75 

sua fé foi violentada, primeiramente pela interven- 
ção dos sacerdotes christãos que iam ás mesquitas 
increpar os que pregavam as doutrinas do Alcorão, 
perturbar as suas cerimonias religiosas, estabelecer 
a inquietação e a desordem, e por fim destruiudo- 
Ihes os templos, e christianisando-os á viva força. 
Da tolerante harmonia entre as duas fés, passou-se 
á imposição ao mouro, para que se descobrisse e 
ajoelhasse na passagem das procissões christãs, as- 
sistisse ás cerimonias do culto catholico e guar- 
dasse o domingo. Nas feiras, nos mercados, nos di- 
vertimentos públicos, onde todos d' antes bailavam, 
cantavam, folgavam juntos, ordenou-se a mais abso- 
luta differença e separação entre as duas religiões, 
que não raças, pois essas estavam bem mescladas ; 
pois, se já o mosarabe não era godo ou romano, o 
mudejar tão pouco era árabe. Extremaram-se os 
trajos, prohibiu-se o estado servil dos christãos na 
casa do mouro, mesmo ás amas de leite; castiga- 
ram-se as mesclas carnaes, e acabou-se por os pôr 
á margem, em bairros separados, as mourarias, nos 
arrabaldes dos povoados, como animaes em pateos . 
distantes das habitações christãs. Aqui mesmo porém 
os não deixaram em paz; ali foi ter com elles a 
mesma intransigência religiosa, a perseguição sys- 
tematica, o ódio fomentado em nome de uma crença 
que aliás assenta na base da igualdade e da justiça. 

Houve por vezes tentativas de reacção; elles Tontatiy» de 
eram porém os mais iracos ; já estavam muito di- 
zimados e divididos; a voz dos seus caudilhos er- 
guia-se em vão, supplice e humilde, a impetrar mi- 
sericórdia e generosidade. Acabaram por ceder de 
todo o terreno á intransigência perseguidora e 
cruel, e uns deixaram-se christianisar para evi- 
tar os tormentos, outros passaram para a Africa, 
onde prolongaram a civilisação andaluza, cujos 
vestígios ainda hoje lá se encontram. 



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76 

infioeiíeu na Um tSo cxtraordinario povo, por tal fórm^a radi- 
cado ao solo da península que foi necessário, du- 
rante séculos, a acção do ferro e do fogo para os 
arrancar de lá, deixando comtudo esse solo tao 
profundamente removido, transformado, fecundado 
pela sua acção, um povo de tão singulares quali- 
dades não podia deixar de ter uma influencia deci- 
siva no instrumento com que foram quasi sempre 
combatidos, e por vezes auxiliados: a milícia 
christã. 

E esse o objecto do capitulo que se segue, onde 
estudámos a organísaçào militar dos árabes e a 
]joderosa influencia que ella teve na organisação mi- 
litar medieva na peninsula, muito particularmente 
em Portugal. 



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CAPITULO II 



Organisação militar 



«Comtndo, pelo qae se escreve nas Histo- 
rias e oom bom jnizo se pôde entender delias, 
eu oreo que da Milícia dos Mouros (contra 
qnem oato séculos earapeario as armas de 
Espanha) recebemos a mayor parte dos insti- 
tutos mllirares. . . Esta dontrina, sobre barba- 
ra, proveitosa, se estendeu mais especialmente 
o uso da eauallaria, em que os Africanos mos- 
trio major destreza ; e a nós passou c5 seus 
termos, armas e nomes. Inteiramente». 

D. FiiAKCisco Makuel. — Spanaphoraê de 
Varia HMoria. 




ONSTiTUiA a guerra para ò o musnimano 
musulmano uma necessi- **«^®"*- 
dade, um dever, uma reli- 
gião. 

Era a guerra o instru- 
mento mais poderoso da sua 
fé; pela guerra dilatara o 
seu domínio pelo mundo in- 
teiro, e com elle um novo 
credo religioso dimanado, 
^ como a fé christa, dos pre- 
ceitos fundamentaes da Bi- 
blia. 

Foi inspirando o espirito de proselytismo, diz 
Sedillot, que Mobamede se propoz desenvolver o 
génio militar dos árabes «persuadindo-os de que 



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18 

Deus lhes dava o mundo em partilha»*; redobrava- 
Ihes as forças; uma exaltação religiosa se apo- 
derava de todas as almas ; com estas simples pa- 
lavras «na vossa frente está o paraíso, atraz o 
inferno», os chefes arrastavam os seus soldados 
ao meio de uma furiosa refrega; e esse delirio 
supersticioso, essa vehemencia de sentimento e de 
acção destruia os maiores obstáculos*. 
Preceitos roíi- Scguudo O Prophcta, tres cousas garantiam ao 
f ^wrl?^'* musulmano o paraiso ; ura bom golpe de espada, 
um bom acolhimento feito ao hospede, e a oração 
nas horas prescriptas ; e todos os divertimentos de- 
viam ser considerados como frivolos «menos o 
exercicio do arco, o manejo do cavallo e os praze- 
res em familia».* 

Nos versiculos do Alcorão e nos preceitos do 
Sonnay recolhidos das boccas do propheta e dos 
seus companheiros, se encontram os mais salutares 
incentivos para o sacrifício da vida, em holocausto 
ao dever e á fé^. Aquellas palavras «na vossa 
frente está o paraiso, atrás o inferno», queriam di- 
zer que era sempre para a frente o caminho da 
bemaventurança e da gloria; recuar era caírnades- 
honra; morrer combatendo era o supremo triumpho ! 

O destino tinha as suas leis irrevogáveis e fa- 
taes; não havia maneira de lhe fugir; jogar a 
vida não era mais do que proporcionar ao des- 
tino um meio d'elle se realisar ; e a vida era uma 
cousa que se valorisava quando com ella se po- 
diam comprar as delicias do alem-tumulo. 

Já na terra, para os que combatiam, estava as- 
segurado um largo quinhão dos espólios da gueiTa 



* L. A. Sedillot, Hist. dea árabes^ liv. iii, cap. n. 

2 Na chronica árabe de Zinadim, sobre a conquista da índia pe- 
los portaguezes, traduzida pelo sr. David Lopes, está todo um ca- 
pitulo dedicado aos yersiculos e tradições referentes ás excellen- 
cias da guerra santa. HisL dos portug, no Malabar, P. i. 1898. 



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79 

(quatro quintas partes). Todo o musulmano era 
um soldado ao serviço da fé e da pátria* ; o manejo 
das armas um acto de religião que não era bem 
cumprido senão dedicando-se a elle absolutamente ; 
estando enr armas, ninguém poderia recusar-se a 
bater-se, nem mesmo em duello, se pelo chefe lhe 
era ordenado; um dos crimes mais odiosos era a 
deserção, outro a recusa da contribuição para as 
despezas da guerra ; dispensados de combater eram 
apenas as creanças, os loucos ou doidos furiosos, 
todos os mais tinham de accorrer, até á distancia de 
30 léguas, ao ponto ameaçado ou atacado pelos in- 
fiéis, abandonando todas as suas occupações parti- 
culares e sem necessidade de ordem especial; todos, 
livres ou escravos, homens ou mulheres, sãos ou 
doentes, estropiados ou fortes, todos eram obrigados 
a concorrer, quanto possivel, em commum ou in- 
dividualmente, até ao ultimo extremo, a repellir 
o inimigo; culpada era a mulher que não pre- 
ferisse a morte ao sacrifício da sua honra *. 

Esta comprehensão do sacrifício dada á mulher a mniher guer- 
árabe enche a historia de exemplos brilhantes. 
Yemol-a combater nas batalhas, como em Campo 
de Ourique e em Silves, ao lado dos pães, dos fí- 
Ihos, dos maridos, com um heroismo notável. São 
ellas até as encarregadas de trespassar com os seus 
dardos, dando lhes morte prompta, os que tentas- 
sem fugir. Assim o fez um troço de amazonas na 
batalha de Bosra (633); e na batalha de lermu- 
que foram as mulheres que lograram congregar e 
levar três vezes ao ataque, até decisiva victoria, 
os árabes, que três vezes haviam sido repellidos. 
Em Ourique (1139), diz Herculano, fundado na 

^ Sâo innumeras as paesagens do Alcorão a este respeito. Vejam- 
«e também os manuscriptos cit. por Beynaad. De Vart mH. chez lee 
arab* au moyen age. Paris, 1848, pag. 16. 

í A. Herc, Hist, de Port,, tit. i, liv. ii. 



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80 

chronica dos godos, «as mulheres almoravides, 
vestindo as armas, vieram pelejar ao lado dos seus 
maridos e irmãos em defeza da terra que as tribus 
de Lamtuna olhavam como nova pátria, depois da 
conquista do Andaluz*». Guardavam através dos 
tempos as suas virtudes primitivas, e ainda hoje, 
como vem narrado no livro de Adolphe d'Avril, 
UArabie contemporaine, essas qualidades persistem 
no mais alto grau *• 
Preceito! Biiii- Scguudo O Alcorão ((OS fieis que se deixassem 
urw do A- g^^^ ^^ ^^^ ^^^ guerra contra os infiéis) sem que 

absoluta necessidade a isso os obrigasse, seriam 
tratados difierentemente d'aquelles que combatiam 
na senda de Deus com sacrifício dos seus bens e 
das suas pessoas. Para estes estava guardado um 
logar mais elevado». 

É um appello a todas as forças de um povo e 
de uma raça ; é um recrutameneo geral, impellido 
pela fé. Não bastava a ambição dos espólios da 
guerra, era mister alguma cousa que fallasse á ima- 
ginação, que acendrasse os sentimentos da resis- 
tência contra o inimigo. Foi essa força interior que 
levou o musulmano á conquista do mundo. 

O Alcorão está cheio de incentivos para a guerra 
e de preceitos militares : 

<(A guerra é como que a chave do céu e do in- 
ferno. O que morre n'uma batalha obtém o per- 
dão dos seus peccados, e no dia do juizo as suas 
feridas apparecem vivas como o camiim, perfu- 
madas como o almiscar, e os membros que tiver 
perdido serão substituidos por azas de anjos e 
cheinibins. Uma gotta de sangue vertida pela causa 
de Deus, uma noite passada sobre as armas vale 
mais que dois mezes de jejuns e orações. A guerra 

* A. Herculano, Hiet dt Port^ tit. i, liy. ii. 
^ L*Arabie eontemporainef avec la descrip, dupderinagt de la 3fe- 
ejt/e, par Adolpbe d'AyriL Paris, 1868. 



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81 

aos infiéis tinha de ser feita até todos elles pa- 
garem tributo e ficarem subjugados. Morrer com- 
batendo na senda de Deus é ganhar a sua indul- 
cia e misericórdia, que valem mais que todas as 
riquezas.» 

Estas palavras constituíam o grande estimulo 
para a lucta, onde o menor perígo era a morte! 
«OhPropheta! estimulae os crentes ao combate; 
vinte homens firmes de entre elles derrubarão du- 
zentos; cem porão em fuga dois mil!» 

Ao mesmo tempo, quantos preceitos para a boa . 
ordem no combate, para a vigilância contra as sur- 
prezas do inimigo, para se evitar a deserção e o 
abandono do posto de combate: «sempre que fa- 
çaes cumprir ás tropas o preceito da oração, pro- 
curae que uma parte d'ellas pegue n£is armas e 
reze; quando estes tenham concluido as orações, 
que se retirem para a retaguarda, e que outra parte 
do exercito os substitua. Tomae todas as precau- 
ções de segurança, e que se esteja sempre sobre as 
armas, porque os infiéis quereriam que abandonás- 
seis as armas e as bagagens para cair sobre vós de 
improviso. O' crentes I sede cautelosos na guerra, e 
avançae, quer por fracções quer em massa! Quando 
encontrardes o exercito inimigo marchando em or- 
dem, não fujaesl O' crentes, quando tiverdes na 
vossa frente uma tropa armada, sede inabaláveis, 
e repeti sem cessar o nome do Senhor: assim sereis 
abençoados». 

Para fazer do musulmano um soldado soflfredor, virtude, miu- 
moderado nos seus hábitos e instinctos, o Pro- *""' 
pheta prescreveu a sobriedade na comida, a absti- 
nência no vinho, a prohibição dos jogos de azar e 
da ociosidade, o uso da oração, a pratica do bem, 
o estudo e meditação dos livros sagrados; sobre 
esta base de disciplina social, não se converteram 
em perigos, antes se tornaram forças impulsivas, 



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82 

poderosas, os estímulos á guerra e á destruição do 
inimigo ! 

Os filhos eram educados na idéa de serem o 
valor e a destreza as condições essenciaes n'um 
povo, que devia á lucta de cada dia os seus pro- 
gressos. 

Bem Máam, filho de Zaida (790) tinha maior 
predilecção pelo seu sobrinho lacide, do que pelos 
seus três filhos, Caças, Zaida e Abdallah. Como 
sua naulher se lamentasse muito d'essa desigual- 
dade, Bem Máam respondeu uma manhã : 

— Pois bem, vaes ter já uma prova das rasões 
em que baseio a minha preferencia. 

E voltando-se para o pagem : 

— Vae chamar os meus filhos. 

D'ahi a pouco entravam os três filhos, vestidos 
de perfumadas zangaias e sapatos de sindia, porque 
em danças e prazeres haviam passado a noite. 
Cumprimentaram e sentaram- se. 

— Agora, pagem, vae chamar meu sobrinho. 
Não tardou que lacide se apresentasse trazendo 

vestida a sua armadura; entrou, deixando á porta 
da sala a sua lança. 

— Para que vens n'este apparato ? lhe pergun- 
tou o tio. 

— Emir, respondeu lacide, como um mensa- 
geiro me fosse chamar da vossa parte, cuidei que 
de alguma cousa importante se tratava. 

Tão frisante contraste entre a viril galhai-dia do 
sobrinho e a molle e perfumada inutilidade dos fi- 
lhos, calou no espirito da mãe *. 
proceiíoa huma- Ao par da paixão pela guerra cultivava-se no 
espirito de todo o musulmano a generosidade e a 
magnanimidade para o vencido, para o fraco, para 
o inerme, poupando as mulheres, as creanças, os 

^ R. ContreraS; Rez. de la dom, de los árabes en Esp., pag. 9é. 



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83 

velhos, 08 sacerdotes, de qualquer religião que elles 
fossem; estabelecia- se, como nas relações com o 
adversário, a lealdade nos contratos e o respeito á 
palavra dada. Nao só o Alcorão, que era um có- 
digo a um tempo religioso, civil, criminal, militar, 
mas os commentadores á sua doutrina tinham tido 
necessidade de explicar e^accentuar o ideal de tole- 
rância e justiça que as palavras inspiradas do 
Propheta haviam proclamado. Essa necessidade 
tomava-se tanto maior, quanto eram de origens 
diversas, de sentimentos violentos e de instinctos 
primitivos as tribus, os povos que vinham, de todos 
os lados, engrossar os exércitos muslimicos. 

Ao investir lezide no commando do exercito que Leu da guem. 
ia conquistar a Syria, dizia Abu Becre, immediato 
successor de Mohamede, na sua allocução ás tro- 
pas: . 

tf Não abuseis da victoria ; não mancheis as vos- 
sas espadas no sangue dos vencidos, nem no das 
creanças, mulheres ou velhos. Quando vos achar- 
des em território inimigo, não corteis as suas arvo- 
res, nem destruaes as suas palmeiras ou os seus 
finictos; não saqueies os seus campos nem as suas 
casas. Tomae dos seus bens e do seu gado aquillo 
de que tenhaes falta ; mas não destruaes cousa al- 
guma sem necessidade. Occupae as cidades e for- 
talezas e derribae as que possam servir de refugio 
ao inimigo. Tratae com compaixão os que se ren- 
dam e se humilhem, e Deus vos tratará com mise- 
ricórdia. Opprimi os rebeldes e os soberbos, e os 
que faltam aos tratados. Nos vossos convénios com 
o inimigo, não haja dolo ou ambiguidade. Sede 
fieis e leaes com todo o mundo, mantendo sempre 
a vossa fé e as vossas promessas. Não perturbeis o 
repouso dos monges e dos solitários, nem destruaes 
as suas moradas; mas feri de morte o inimigo que 
vos resistir.» 



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84 

Tinham, pois, os árabes, por norma e ideal, mui- 
tos dos princípios que o direito internacional só 
conseguiu fixar em adiantados quartéis d'este sé- 
culo. Sao elles a explicação melhor da tolerância 
com que a politica dos árabes tornou facilmente 
acceitavel o seu dominio, e assimilável a sua civi- 
lisação. É o mozarabe peninsular o producto doesse 
systema de administração, baseado o principio da 
justiça. Abusos houve-os, como em todos os po- 
vos e em todos os credos ; nenhum principio reli- 
gioso foi mais longe que o christianismo no ideal 
da caridade, e nenhum povo como o christão abu- 
sou mais da força e empregou maior crueza na 
conquista de outros povos e na christianisaçao a 
ferro e a fogo. 
A litteratara e Na litteratura eram os assumptos da guerra os 
predilectos ; poeta e guerreiro eram qualidades que 
frequentes vezes se ligavam ; a poesia que unificara 
08 povos árabes, n'uma grande communhSo espiri- 
tual, continuou sendo o estimulo e o premio d'es- 
ses conquistadores do mundo. 

Ocailida, que Já citámos, escrevia nas muralhas 
das fortalezas os seus versos, infiammados de ardor 
guerreiro ; o seu cavallo impaciente, que tudo ven- 
cia na sua carreira vei*tiginosa, a sua espada que 
despedia ondulantes relâmpagos, a sua dura lança 
que parecia aguçada pela morte, eram os dons com 
que adquiria riquezas, para as poder prodigalisar 
á vontade *. 

Até na poesia lyrica as imagens eram buscadas 
nas alfaias guerreiras : 

«Do coração do arco, escrevia Abú-Alaquim, 
parte a flecha, que é sua filha ; o arco geme, tal 
como chora a mãe ao separar-se do filho*.» 



a gnerra. 



* Contreraa, Op. cit. pag. 131. 
^ Contreraa, Op. cit., pag. 98. 



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85 



Ainda hoje um escriptor, que observou os ára- 
bes no seu próprio paiz de origem, diz que «a re- 
ligião, a guerra, a caça, o amor e os cavallos, são 
entre elles assumptos inexgotaveis das conversa- 
ções ao ar livre, e representam verdadeiras escolas 
onde se formam os guerreiros e onde se desenvolve 
a sua intelligencia, colhendo uma multidão de fa- 
ctos, de preceitos, de provérbios e de sentenças, a 
que frequentes vezes encontrarão applicação no de- 
curso de uma vida cheia de perigos*». Persistentes 
qualidades de raça ! 



Desde o combate de Bedre (624), logo nos ini-mioioigtterrei- 
cios da sua propaganda militante, Mohamede dera 
aos seus proselytos uma organisação militar ; elle 
próprio era um guerreiro de raça, e comprehen- 
dera que o instincto da gueiTa era qualidade fun- 
damental nos árabes. 

De trezentos e quatorze homens, dos quaes ape- 
nas três de cavallo, com que se aventurara n'esse 
combate, passava no fim de seis annos (630) a 
apresentar em frente de Meca dez mil homens, e 
no assedio de Tabuque, n'esse mesmo anno, vinte 
mil. Com a rendição d'esta ultima cidade submet- 
tia a Arábia inteira. 

Tudo nos leva a acreditar que essas primeiras primeira» lo- 
luctas dos árabes entre si, para a unificação da 
raça e para um commum objectivo religioso e poli- 
tico, não passassem de sangrentos prélios, pelos mais 
simples e primitivos processos de guerra: luctas 
corpo a corpo, mesnadas de homeYis a pé, a esmo, 
mal armados de sabres, dardos, piques, lanças, 

1 Le general Daumas, Le8 chevaux du Scíhara, pag. 37. 



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86 

clavas; troços de cavallos e camellos, entrecho- 
cando-se, em ordem unida, ou envolvendo-se em 
escaramuças, em phantasias, em que o natural 
animo guerreiro, o enthusiasmo pela victoria, a 
absoluta indifferença pela morte, a frugalidade, a 
resistência tenaz e soffredora, davam aos árabes, 
como ainda hoje, os créditos de serem dos melho- 
res soldados do mundo. Essas qualidades pessoaes, 
todavia, que podiam supprir a falta de conhecimen- 
tos tácticos e de instrumentos polyorceticos, em- 
quanto as luctas foram entre tribus ou povos des- 
tituidos também dos conhecimentos da arte militar, 
não lhes bastaram quando tiveram de defrontar-se 
com povos que haviam herdado essa arte da Pérsia 
e das duas civilisações clássicas da Europa. Foi o 
que succedeu na Syria, nos primeiros descalabros 
soíFridos (633), e que oa levaram a aperfeiçoar-se 
na sciencia de combater. N'isto se pareciam com 
os romanos, pois de cada desastre tiravam uma li- 
ção profícua, no sentido da melhoria das suas insti- 
tuições. 
Rapidoí progreB. No iuvestimcnto dc Damasco, n'esse mesmo 
anno de 633, e na batalha dada ao exercito de He- 
raclio, três vezes mais numeroso, que vinha em au- 
xilio da cidade, os árabes mostraram-se, não só 
mais temerários, mais aguerridos e com uma 
gi^ande superioridade no chefe que os comman- 
dava, mas já conhecedores da táctica dos adversá- 
rios, e munidos de poderosos engenhos de guerra. 
Generaes illustres, convertidos expontaneamente 
ao islamismo, vinham pôr-se á frente das ardidas 
hostes, que desfraldavam ao vento das batalhas o 
estandarte verde do Propheta. Os árabes, em con- 
tacto com os romanos e bysantinos, e familiares 
da sabedoria oriental pelo conducto dos persas e 
dos egypcios, soffriam na sciencia da guerra as 
mesmas influencias que deram, como vimos, um 



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87 

cunho tão original á sua litteratura, á sua arte, a 
todos os ramos, emfim, da sua actividade intelle- 
ctual. 

Nas successivas conquistas, — depois de sujeita Enorme activi- 
toda a Arábia — , daSyria, da Palestina, daMeso- ríf®*^"""*' 
potomia, do Egypto, da Arménia, e mais tarde de 
Constantinopla, como ameaça á Europa central, 
da Pérsia, como base de operações para o extremo 
oriente, e da Africa, até ao Magrebe, como ponto 
de apoio para um salto sobre a peninsula ibérica, 
n'uma serie de assédios, de gazivas, de algaradas, 
de batalhas campaes, de cidades e fortalezas to- 
madas pelo ardil ou pelo esforço das armas, que 
enorme somma de actividade e de sabedoria mili- 
tar, adquirida e applicada ! 

Era o povo árabe, guerreiro por excellencia, o 
que vinha substituir o povo romano nas suas ma- 
ravilhosas enterpresas militares, na vassallagem do 
mundo ! 

Eram já eximios na arte de atacar e derruir progressos 

j • j» j A / • 1 crescentes. 

impenos, quando, invadmdo a Africa, no alvorecer 
do século VIII, conseguiram plantar as suas tendas 
de guerra sobre as praias do Mediterrâneo, frontei- 
ras ás apetecidas ribas da Hespanha, de onde as 
auras traziam os echos das surdas dissenções entre 
os visigodos. 

Essas dissenções franqueavam as portas da pe- 
ninsula ás naturaes ambições dos árabes, attrahi- 
dos pela noticia das suas riquezas mineiras e da 
fertilidade do seu solo. 

A investida venturosa de Tárique, um berbere, invasRo da Pe- 
com um exercito composto, na maior parte, de gente 
da sua raça, que sob o dominio árabe seguia os 
seus processos de guerra ; em seguida, com a che- 
gada dos reforços com que Musa vinha colher as 
palmas das victorias tão brilhantemente iniciadas, 
a invasão do território peninsular, por três linhas, 



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Reconquiit*. 



88 

e com objectivos habilmente escolhidos, provam 
conhecimentos estratégicos, que se auxiliaram das 
condições a que a politica dos visigodos havia 
reduzido as populações, umas indiflferentes, outras 
favoráveis ao novo dominio, e põem em evidencia 
uma organisação militar solida. 
No período d» Na lucta cruenta com os christãos, durante o 
bellicoso periodo da Reconquista, o árabe continua 
a mostrar as mesmas qualidades de bravura e os 
mesmos conhecimentos da guerra. Não pôde ser 
n'e8te particular suspeito o parecer de um homem 
illustre, que entre o século xni e xiv floresceu pe- 
las armas e pelas letras, e que os conheceu de 
perto, porque com elles batalhou. D. Juan Manuel, 
filho de São Fernando e de D. Beatriz, de Saboya, 
diz d'elles no Livro dos Estados : 

«Et en verdad os digo, sefior infante, que tan 
buenos homes de armas son, et tanto saben de 
guerra, et tan bien lo facen, que si non porque de- 
ben hacer et han á Dios contra si, et porque no 
andan armados et encabalgados en guisa que pue- 
den sofrir feridas como caballeros, que yo diria que 
en el mundo non ha tan buenos homes de armas, 
nin tan sabidores de guerra, nin tan aparejados 
para tantas conquistas ...» 

Mas como era essa organisação ? 

Seria diíficil, senão impossivel, determinar bem 
os diversos estádios, porque a arte da guerra foi 
entre elles passando desde a invasão ; mas basta- 
nos estudar, nos seus traços geraes, a organisação 
militar daquelle povo ou povos, que durante sete 
séculos exerceram dominio no território que é hoje 
portuguez, deixando por tal forma impressa a sua 
influencia na organisação militar do nosso paiz, 
que a sua doutrina, como bem observa D. Fran- 
cisco Manuel, a nós passou «com seus termos, ar- 
mas e nomes». 



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89 



Os cuidados que a arte militar mereceu aos ara- Bibuographia 
bes e o grau de adiantamento a que entre elles Trllb". xti' 
chegou, attestam-no os numerosos tratados de mfiSur *'^ 
gueiTa que ainda existem ou dos quaes nos ficou 
noticia, depois da barbara destruição de tantas bi- 
bliothecas d'esse povo, essencialmente culto e de- 
votado ás letras. 

Casiri dá-nos na sua Bibliotheca arabico-hispano 
escurialensis noticia dos seguintes tratados milita- 
res contidos no códice 1647 do Escurial, e de cu- 
jos títulos árabes, que publica em notas *, devemos 
a traducção á amabilidade do nosso amigo e distincto 
arabista o sr. David Lopes : 

Preserúe (feito) às alvias, 6 conforto dos hahitan- o. traudo» mi- 
tes do Andaluz ^, por Aly Bemabderramão Bema- "«uí. ^"^ ^" 
zil, natural de Granada. 



' Casiri indica estes tratados pela seguinte forma : 

Aidmorum Múnus et Tessera Hispana^ auctore Ali Ben Abdalra- 
man Ben Hazil, Granadenci, qui librum Abilhagigeo Ismaeli Ben 
Nassero, Regi Granato anno egiro 763 dedicavit. 

Tractatas Dt Belli prestancia et virlute, auctore Ben Jonasso, 
cordttbensi. 

Opus De Animi in probis constantia, qúaHispani coe terás inter 
nationes procellunt, olim editum a Ben Mondero Valentino. 

Opus De Belli Begimine, auctore Bem Hazemo Hispano. 

Tractatus De Arte Equestri, quem in lucem edidit Aldhamiathi, 
patri cordubensis. 

Liber De Animi fortUuâini, auctore Homaideo, Hispano. 

Liber De certamine hac de instruenda acie. 

Liber De Equilis Begimine, 

Liber De Equis et Armis, 

Liber De PreHdiorum Limitaneorum Prffecto. — Biblioth. Arab, 
Hisp. Escurial Vol. ix, pag. 29. 

Por informações de Casiri, estas mesmas obras vem menciona- 
das na Bibliotheca Militar Espanola, de D. Vicente Garcia de la 
Huerta 

2 D. Serafin Estebanez Calderon, na sua Historia de la infanteria 
espahola, cujos uns trechos apenas foram publicados na Bevista 



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mazil. 



90 

Livro acerca da Excéllencia da guerra santa, por 
Benionas, de Córdova. 

Livro acerca Do Ribat * e a sua excéllencia para 
a guerra^ especialmente na península de Andaluz, 
por Benalmóndir *, de Valência. 

Livro do Governo da Guerra, por Bem Házem, 
de Andaluz. 

Livro acerca Da cavallaria, por Adametí Alcor- 
tobi. 

Livro Da Bravura, por Homeidí, de Andaluz. 

Livro sobre Formações de tropas para a guerra 
santa ^. 

Livro Do Adestramento do campeão cavalleiro. 

Livro Da Cavallaria e das armas. 

Livro sobre as AttHhuiqdes dos valis das fron- 
teiras. 
o tratado de Be- Como SC vê, são ua Diaior parte obras de escri- 
ptores militares da península, e sendo o primeiro, 
como informa Casiri, do século viii, provam a an- 
tiga e persistente attenção dada ás cousas da 
guerra. 

Estebanez Calderon, que do primeiro doestes có- 
dices se aproveitou para as informações que nos 
lega sobre a organisação militar dos árabes, diz 
que essa obra se divide em dois tratados, de vinte 
capitules cada um, o primeiro dos quaes trata da 
guerra santa, dos rábatas, algaras e outras incur- 

militar, de Madrid, traduziu : Begalo de las almas y damidt de lo$ 
habitantes dei Andaluz, Este mesmo escriptor informa o seguinte : 

«Nâo temos noticia de que se encontre em Hespanha outio 
exemplar doesta obra curiosa e importante; mas lord Munster teve 
informação d'ella e a cita no Catalogo dos livros que lithogi*apliou 
para derramar pelos paizes do Oriente em busca de todos os livros 
militares que podesse encontrar com o fim de escrever a historia 
militar dos árabes, das suas armas c modo de combater». Btvista 
militar f de Madrid. 1850. — O catalogo referido possuia a biblio- 
theca da nossa academia real das sciencias». 

1 Vide adiante a significação de rihal. 

2 Houve outro Benalmóndir, de Silves. 

3 Este livro e os seguintes sâo anonymos no texto de CRsiri. 



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91 



soes nas terras do inimigo ; e o segundo se occnpa 
de cavallos e armas. Os vinte capítulos do primeiro 
tratado tem os seguintes títulos: 



I. — Do quanto a Dtiis é agraciarei a guerra santa, 
quanto elle se compraz com os guerreiros e 
glorifica os que morrem combatendo, 
II. — Das expedições ein paiz inimigo; das excel- 
lencias d' tilas e de quanto eram frequentes 
nas terras de Andaluz. 
III. — Dos estatutos da guerra, santa e dictames dos 

sahios a respeito dUlla. 
IV. — Do que deve o guerreiro fazer para ir á 
guerra santa. 
V. — Dos que acompanham e auxiliam o guerreiro 
e dos aprestos que este tem de fazer. 
VI. — Do que o principe ou emir necessita de fazer 
em caminho da expedição. 
VII. — Da obediência que deve prestar o soldado ao 
império do seu Inmm, ao emir do seu exer- 
cito e ao Kaid do seu corpo. 
VIII. — Da jurisdicção dos valis ou adiantados das 
fronteiras, e descripçao das cavalgadas no 
verão. 
IX. — De vários avisos e instrucçoes dadas aos emi- 
res dos exércitos. 
X. — Da instigação oti predica para a guerra santa. 
XI. — Do que se pode fazer no acto da expedição e 
do que não é licito fazer nella. 
XII. — Do que se deve executar antes de se entrar em 
combate. 

XIII. — Da peleja, do modo de entrar nella, e de vá- 

rios ditos notáveis acerca da retirada e da 
deiTota. 

XIV. — Da constância contra o inimigo e da firmeza 

no combate. 
XV. — Das escaramuças. 
XVI. — Da bizarria e galhardia mostrada na guerra. 
XVII. — Da descripçao da peleja, sua boa direcção, e 
ardis nella empregados. 
XVIII. — Da cavallaria e do esquadrão. 



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92 



XIX. — Commemoração dos mais famosos ginetes. 
XX. — Das cousas cuja ohseiTancia liberta do perigo 
e chama a victoria para o lado de quem as 
pi^afica *. 



Basta a indicação d'estes títulos para se ver 
quaes os assumptos a que se votava mais particu- 
lar attenção. Está ali um verdadeiro tratado de 
guerra. 
Outro traudo Outro codice do Escurial é também indicado por 

importante. Qj^gJj.J^ ç^jjj ^ j^ o g^^Q^ ^^^ ^^^^ j^g^ j.^^ título ; eil- 

contramos, porém, uma noticia circumstanciada 
d'elle no trabalho de Estebanez Calderon, que de- 
certo o leu e o estudou. 

O desconhecimento do titulo e do auctor provém 
da falta das primeiras folhas do codice ; pelo texto 
se vê, porém, que se trata muito especialmente da 
arte da cavallaria, das armas que então se usavam, 
e da maneira de as manejar ; é propriamente um 
tratado de equitação e de esgrima a cavallo. 

O assumpto dos dois priucipaes capitulos é a 
arte de domar os cavallos; o terceiro trata da 
arte de cavalgar com firmeza e garbo, e de ajaezar 
o cavallo, contendo informações curiosas sobre di- 
versas espécies de freios, sellas, estribos e outros 
jaezes, e sobre os andamentos e movimentos dos 
cavallos. O capitulo quarto occupa-se da esgrima 
de lança, a uma e a duas mãos, assumpto que ainda 
se desenvolve n'outro capitulo. 
KouciadeE. ' «Os capitulos seguiutcs, diz E. Calderon, tratam 
de varias maneiras de pôr a lança em riste, as 
quaes o auctor enumera e distingue em classes di- 

^ Estebanez Calderon. Fragmento da Historia de la infaníeria 
eêpahola. Na Bevista Militar, de Madrid, tom. viii. 

D. José Almirante informa no seu Diccionorio Militar, pag. 1037, 

2ue esse capitalo foi pablicado em folheto em 1851, com o titulo 
H la mUida de los arwts en Espafía, 



Calderon. 



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93 



versas : o enriste coraçanita^ antigo, com mudança de 
rédea; o enriste tagaHno ou fronteiriço; o calaita; 
o rumi *. 

«Se um artigo trata do ataque o outro occupa-se 
da defeca. Reduz-se a apresentar varias maneiras 
de se defender com a lança a cavallo, conforme o 
modo de empunhar e sobraçar a haste. O auctor 
continua explicando as diversas formas de pôr a 
lança em riste e as diversas guardas, cujos nomes 
deixámos indicados, e cujas differenças se cifram, 
principalmente, no modo de ter a lança n'uma mão, 
sujeitando as rédeas com a outra, trocando-as, con- 
forme a necessidade o requeresse ou o aconse- 
lhasse a destreza, movimentos todos que, se muito 
difficeis eram de entender, mesmo com as expli- 
cações oraes de um dextro instructor, quasi impos- 
siveis se tornam de conhecer com a corrupção do 
texto.» 

«O manejo da lança, explicado com muitos por- 
menores, e indicando o grande numero de sortes 
que se podem fazer com ella, dá assumpto para 
dois capítulos, que têem por titulos : Da aprendiza- 
gem da lança e Modo de sa(r contra o inimigo. 

«O choque de frente, o assalto tagarino ou fron- 
teiriço, e 08 preceitos que se devem seguir para 
accommetter o inimigo, dão assumpto para três 
capítulos diversos. O primeiro ensina a maneira 
de resistir áquelle assalto ou ataque; o segundo 
mostra os diversos modos de pegar na lança para 
executar o assalto que descreve; e no terceiro en- 
tretem-se o auctor em referir vários assaltos e en- 
ristes, por processos diflBceís e raros, cuja diversi- 
dade e contraste consistem na posição que se dá á 
lança, na maior ou menor distancia em que é se- 



1 De Coração. 

2 ChriBtâo. 



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94 

gura, no ferro, no conto, finalmente na dextresa 
com que a deviam correr ou recolher. Existem, fi- 
nalmente, do ultimo capitulo dois paragraphos que 
tratam das vaiias espécies de lanças conhecidas e 
das suas propriedades mais notáveis. Continua de- 
pois o auctor consagrando ao manejo da espada 
outi'0 capitulo, decerto o mais obscuro de todos, 
porque raras palavras ha n'elle que se encontrem 
nos diccionarios árabes. As diflerentes espécies de 
espadas que menciona, com os nomes de iamam^, 
calaita, indica, serendiP, selmanita, damasquina, 
egypcia, % franca ou europêa, concordam na maior 
parte com as denominações que Hozail aponta no 
seu Tratado militar. Isto prova que essas espé- 
cies de espadas eram conhecidas tanto na Hespa- 
nha como no Oriente. Alem d^isso, é muito para 
notar que. entre estas espadas haja uma com o 
nome de ai beida (ou branca), de onde parece, sem 
duvida, ter vindo o chamar-se entre nós arma 
branca a todas as de aço. Este tratado termina com 
dois capitules que tratam das flechas, arcos e bes- 
tas, e do modo de manejar essas armas.» 
o valor do lan- Esta simplcs iudicação do conteúdo da obra nos 

ceiro entre os :]i*ir i* «mi 

árabes. suggcrc um mundo de idéas, e exphca a rasao da 
principal força dos árabes, e seu característico na 
guerra: — o cavalleiro, armado de lança e espada. 
Que minuciosa attenção na educação, no adestra- 
mento, no ajaezamento do cavallo, a arma por ex- 
cellencia do árabe ! Que riqueza de géneros de lan- 
ças, variadas na forma, adoptadas dos povos com 
que se teve lucta! e que pericia no manejo d'es8a 
arma, tão temerosa e tão efiicaz, tanto nas batalhas 
em regra, alcançando de longe e de perto o ini- 
migo, como nas cavalgadas de suipreza! 



1 Do lamen? 

2 DeCeylâo? 



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95 

Nos exercicios militares, do mesmo modo que 
nas academias ou escolas, o manejo da lança era 
ensinado com todo o rigor, por meio de vozes, como 
as seguintes que constam do manuscripto estudado 
por Perez de Castro: — «enrolar bandeirola; des- 
atar cordão; passar da posição á retaguarda para 
a vertical ; da vertical, para o hombro ; do hombro, 
para o arção ; molinete na frente ; molinete dos la- 
dos; estocada em frente; estocada aos lados; esto- 
cada e parar». 

Os jogos de dextresa com a lança consistiam em 
coUocar no chão, ou presas a uma estaca, moedas, 
folhas, anneis, pedaços de panno, e levantal-os, 
na caireira, com a ponta da lança *• Tiraram d'ahi 
origem o jogo da argola e outros, que se continua- 
ram enti'e nós nos passatempos medievos. 

Ainda hoje é a lança uma arma terrível nas mãos 
do árabe, que conserva o segredo da sua esgrima 
perigosa e difficil ; na Europa tem a lança um po- 
der extraordinário nas mãos dos ulhanos, por exem- 
plo, e ha ainda hoje quem, apesar do admirável 
incremento das armas de fogo, preconise o seu em- 
prego na cavallaria. O general Brack dizia que não 
havia golpe de maior effeito do que uma parada 
de roda, com a lança; fere, desnorteia, desequili- 
bra, derruba. 

O árabe, lanceiro, fez a conquista do mundo! 

De outros tratados temos noticia pelo notável 
escriptor francez Reinaud, no seu estudo De Vart 
viilitaire ckez les árabes au moyen âge (1848). 

O mais antigo de entre elles vem citado no Qui-o tratado do 
tah aljirist (catalogo de livros), escripto na segunda ^^^ "**"•" 
metade do século x ; é o seguinte : A arte da guerra 
e maneira de tomar oã fortalezas e as cidades, de 
armar emboscadas, de mandar á descoberta, de col- 

* Perez de Casti o, Estúdios Militares, pag. 63. 



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96 

locar atalayas, de expedir destacamentos e de dispor 
corpos de tropa^ segundo um tratado que foi com- 
posto (no século m) por Ardexir Bem Babeque. 

odeBArámo&r. Alem d'estes, o Quitab indica um tratado de ati- 
rar ao arco, composto no século v pelo rei Barára 
Gúr, e uma exposição das antigas instituições mi- 
litares da Pérsia, com o titulo : Arte militar e re- 
gulamcTitos da cavallaria, com a maneira por que os 
reis da Pérsia defendiam oã quatro fronteiras do seu 
império. 

o de Bem^i. Estcs tratados eram ou a traducção, ou o reflexo, 
dos livros persas do tempo dos Sassanida^ ; indica 
o mesmo referido catalogo, porém, outros de ori- 
gem e elaboração propriamente árabe, taes como : 
Leis da guerra e maneira de ordenar um exercito, 
por Abdaljábar Bemadi ; um tratado em dois tomos 
do tempo do califa Almamum, por Calibe ; um ou- 
tro sobre o fogo, a naphta e o emprego que d'ella 
se fazia na guerra; e um outro, finalmente, onde 
se trata do aríete, das maganellas, e dos estratage- 
mas e ardis da guerra. 

Reinaud teve occasião de examinar mais os se- 
guintes códices: 

DOI0 eodieei de Na bibUotheca de Leyden, dois exemplares de 

Layden. ^^^ mcsuia obra, um com o n.*^ 96, outro com o 
n,** 499, tendo este a abril-o as seguintes palavras: 
Tratado dos ardis de guerra, da tomada das forta- 
lezas, da defeza dos desfiladeiros, segundo os precei- 
tos estabelecidos por Alexandre, o Bicorne, filho de 
Philippe da Greda, No verso da prímeira folha do 
códice n.*^ 92, diz-se: Tratado dos ardis e das guer- 
ras, dos instrumentos militares, do assedio das forta- 
lezas, da maneira deferir com a espada e de lançar 
dardos, bem assim de fabricar o barude *. Apesar 
d'esta ampliaçak) do titulo, porém, confirma Reinaud 

^ Pólvora, ou substancias incendiarias. 



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97 

que de tal barude ou pólvora se não trata em ne- 
nhum dos dois códices. No fim do ultimo códice 
vem a seguinte indicação, que leva a fixar no sé- 
culo xm dá nossa era a feitura do referido tratado 
de guerra: «A obra original foi acabada no começo 
do rejebe do a.nno 622 (julho de 1225 de J. C). 
Eis o que vi escripto no exemplar de onde fiz esta 
copia e de onde a tirei». 

D'este curioso códice obteve noticia mais circum-NouciadeDoxy. 
stanciada, mandada de Leyden pelo arabista Dozy, 
o já citado escriptor hespanhol D. Serafin Esteba- 
nez Calderon, que falleceu em 1867, deixando in- 
édita a sua Historia de la infanteria espanola, da 
qual apenas se publicaram, ha meio século, uns 
trechos na Revista militar de Madrid, e que me 
consta estar em manuscripto na bibliotheca do mal- 
logrado estadista Canovas dei Oastillo *. Nos tre- 
chos publicados está a parte que se refere aos ára- 
bes. 

Segundo as informações de Dozy, que era então 
professor em Leyden, uma das referidas copias, a 
menos incompleta, tem apenas vinte e nove capi- 
tules, dos quarenta de que a obra se compunha; 
mas existem os desenhos de machinas de guerra, 
que illnstram o texto. Para se avaliar do interesse 
6 importância d'este códice bastante é citar os titu- 
les dos capitules: 



I. — Das espadas e armas, e das suas diversas 

espécies, 
II. — Doà rodellas, sua^ diversas espécies , com 

a maneira de se servir d'ellas. 
m. — Dos arcos j e meihodo de os manejar, 
IV. — Do disparo de jlechas contra fortalezas. 



1 Quando estive em Madrid em 1893, procurei conhecer o manu- 
scripto ; mas Canovas dei Castillo não estava, infelizmente, n*eB8a 
occasiSo na capital. 



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98 



V. — De como se disparam de noite estas ar- 
mas. 
VI. — D(zs diversas espécies de naphta e outras 
misturas incendiarias. 
VII. — Das fogueiras que se accendem em volta 
dos exércitos. 
VIII. — De certos ardis que se dispõem com rou- 
pagens, e se levantam á maneira de es- 
trados. 
IX. — Das expedirdes nocturnas. 
X. — Da maneira de demolir as cidades. 
XI. — Das minas e trincheiras. 
XII. — Do modo de subjugar as cidades. 
XIII. — Da primeira noite que se passa na for- 
matura Ou debaixo de armas. 
XIV. — De quanto convém que se conheça a dis- 
tincção entre os dois géneros de ai^nas. 
XV. 

XVI. — Da constância e da firmeza. 
XVII. — Dos números do esquadrão no estandarte. 
XVIII. — Dos atabales e insignias de guerra. 
XIX. — Das derrotas, e do refugio que se ha de 
buscar em Deus. 
XX. — Do modo de combater entre os turcos. 
XXI. — Idem entre os judeus. 
XXTI. — Idem dos gregos do baixo império. 

XXIII. — Idem dos abyssinios e nubios. 

XXIV. — Idem dos árabes. 

XXV. — Das causas que motivam a tomada das 

cidades. 
XXVI. — De como se hão de guardar as muralhns. 
XXVII. — Dos apparelhoH úteis para entrar nas ci- 
dades e do rendar das atalaias. 
XXVIII. — Do modo de occuUar a situação de uma ci- 
dade. 
XXIX. — Do modo de se precaver contra as minas 

e as escaladas. 
XXX. — De certas figuras talismanicas , mortíferas 

para o inimigo. 
XXXI. — Do modo de as executar de prompto, 
XXXII. — Do modo de as executar a cavallo. 

XXXIII. — Do modo de lançar fogo nos fossos. 

XXXIV. — Do modo de dirigir para a frente (enris- 

tar) os piques. 



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XXXV. — De certas rodas que giram por si mesmas 

e são de quatorze espécies, 
XXXVI. 
XXXVII. — Da construcção de apparelhos ou machi- 

nas ígneas. 
XXXVni. — Do fabrico de espelhos ustorios ou incen- 
diários. 
XXXIX. — Da construcção de certos botes (cujo uso 
não é fácil de se comprehender pela 
corrupção do titulo doeste capitulo). 



Para se fazer acreditar na grande antiguidade 
d'esta obra, que tem aliás todo o caracter e feitio 
árabe, diz-se no prologo que foi encontrado «nos 
subterrâneos do palácio de Alexandria». 

Na bibliotheca nacional de Paris viu Reinaud 
outros códices, de data mais recente, onde já appa- 
rece o uso do salitre; do principal d'elles se ser- 
viu para o seu estudo, feito de collaboração com 
Favé, sobre o fogo grecisco, fogos de guerra e ori- 
gens da pólvora *. 

Tem esse códice por titulo: Tratado da arte mili- Tratado de k». 
tar e viachinas de guerra^ e diz no começo que foi ^*°** 
composto pelo illustre ostade (mestre) Maçam, 
a quem chamaram também Nedimadina (estrella da 
religião), e Arramao (o lanceiro) ; é o resumo das 
lições de seu pae, de seus avós e de outros mestres 
da arte. Suppõe-se que este trabalho foi escripto 
entre 1285 e 1295 da nossa era, tendo o auctor 
fallecido no anno 1295 (695 da hégira). No pre- 
facio leem-se as seguintes palavras: lEste livro 
contém tudo que é necessário aos mestres, aos ho- 
mens de guerra, aos bravos, e aos homens dos ar- 
tifícios, tudo quanto é preciso para as cousas da 
guerra, e também para o manejo da lança, da 



* Reinaud et Favé. Du feu gregeois, des ftux de gutrre, et de la 
origine de la poudre à cânon, Paris, 1845. 



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100 

clava e da flecha, confecção dos mixtoS; construc 
ção das manganellas, e lançamento do fogo, etc., 
combates no mar, e outras cousas peregrinas. Queira 
Deus que tudo isto seja em proveito dos musul- 
manos». 

O códice, que é bem escripto, e acompanhado de 
desenhos coloridos, que Reinaud e Favé aproveita- 
ram para illustrar o seu trabalho, parece ter sido 
destinado oí&cialmente ao uso dos especialistas ^ 
ontoojr»t»do d^ Outro tratado da mesma bibliotheca, obra de um 
parii. profissional que declara não querer fazer mono- 

pólio dos seus conhecimentos e segredos, tem por 
titulo : Compendio desthiado ás pessoas que cultivain 
os dijfferentes ramos da arte militar, e que se exer- 
citam no manejo da lança, bem como nas manobrai 
de que esse exercido é susceptiveU. Tanto o auctor 
d'este tratado como o do anterior citam como au- 
ctoridade na matéria os escriptores Mohamede, filho 
de Alxedami, e Ibraim, filho de Sallame, citando o 
ultimo ainda outro escriptor, o ostade Naceradim 
Benatterabelluci, cognominado Arramão (o lancei- 
ro), que deve ser o já acima mencionado. Aquelle 
tratado está juntamente com outro, no mesmo có- 
dice, mas sem titulo nem indicação da data em que 
foi escripto, parecendo, todavia, posterior a 1300, 
por n'elle se mencionar um modo de combater a 
cavallo intitulado • evolução de Gazam», que, na 
opinião de Reinaud, deve ser o Cam Mogol da Pér- 
sia desse nome, fallecido em 1304. 



^ «Ce yolume est execute evec beaucoup de soin et est accompagné 
de figures coloriées ; c'e8t de la que nous avons tire plusieurs dea 
dessins qu'ou trouvera à la suite de cet ouvrage. On volt probable- 
ment ici un de ces exemplaires que ie gouvemement faisait ezécu- 
ter pour Tusage de ses artifíciers ; si ud grand nombre de termes 
techniques sont prives de points diatriques, c*était probablement afín 
d'en rendre rintclligence presque impossible à toute antre personne 
que les agents officiels». Keinaud et Favé. Du Feu GrtgtoU, etc. 
Paris, 1845. 



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101 

Um outro códice d'essa mesma bibliotheca é 
constituído por extractos do livro de Maçam, já ci- 
tado, mas traz conjuntamente um outro tratado com 
o titulo : O que se propõe de mais levantado na theo- 
ria e na pratica dos exercidos militares^ entendendo 
Reinaud que os exercicios ali contidos, em numero 
de sessenta e dois, e que se encontram em muitos 
tratados da epocha, sao vozes de commando para 
diversas manobras. É seu auctor Mohamede, filho 
deLagin Alocami, cognominado Atteraboluci, como 
o pae de Naceradim, acima indicado, naturalmente 
por ser também de Terabulus, Tripoli, na Syria, e 
conhecido também por Arramão (o lanceiro). 

Reinaud cita ainda um manuscripto que per- um códice de s. 
tenceu outrora ao conde de Rzevuski* e que está ^**'*"**'""*°' 
no museu asiático de S. Petersburgo, e n'outra 
sua obra dá a versão d^elle^. Intitula-se Compen- 
dio dos diversos ramos da arte. Deve também ser 
dos fins do século xiv, ou principios do século xv, 
porque se refere ao tratado de Maçam, e á evolu- 
ção de Gazam. 

Comquanto o ache menos desenvolvido do que 
o tratado de Maçam, em certos pontos, Reinaud 
entende que, no seu conjuncto, té de todos os livros 
d'es8e género, por elle conhecido, o que abraça 
maior numero de questões, e está redigido com 
mais methodo, começando pela acquisição do ca- 
vallo e sua educação, e acabando pelos mais com- 
plicados exercicios » . 

O mesmo illustre arabista e escriptor propende 
para que este tratado seja o mesmo que vem ci- 
tado no Diccionario hihliographico de Hagi Califa, 
com o titulo Arte da guerra de Mohamede ou Arte 



* Reinaud. Dt Vari miliiaire chez Ua árabes au moyen àqe. Paria , 
1848. 

* Keinaud et Favé. Du feu gregeois et desfeux de gueiTe, etc. 



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102 

da gueixa para icso dos mahometanos^ por Xemca- 
dim Mohamede, filho de Abií Becre, e neto de 
Caim Aljuzié, que nasceu em 1292 e falleceu em 
Damasco em 1350, da nossa era*. 

Este códice foi também vertido pelo professor 
Fleischer, e está publicado no Tratado da pólvora , 
corpos explosivos e a pyrotechnia, dos drs. Upman 
e Von Meyer. 
Ainda oatro tr»- Ximeucs dc Saudoval diz ter visto citada uma 
outra obra, escripta no Egypto; Tratado de guerra 
contra os infiéis *. 

Por essa simples resenha se vê a grande impor- 
tância que a litteratura militar attiugiu entre os 
árabes, e, portanto, a instrucçSo e educação da sua 
milicia. 

* 

Araboi e bcrbe- Mas cram propriamcntc árabes os que domina- 
"'"* ram na peninsula ibérica e nos transmittiram tão 

indeléveis característicos da sua organisação? 

Assim o podemos considerar, a despeito de se- 
rem na sua grande maioria berberes (mouros), os 
primeiros invasores, e haver diíFerenciações a esta- 
belecer entre esses e os que mais tarde, syrios, al- 
moravidas, almuhadas e tantos outros, vieram com- 
bater e expulsar do nosso solo os seus emulos na 
religião, e ás vezes irmãos na raça. 

Berberes e árabes unificaram a sua arte da guerra, 
e as diflFerenças a estabelecer entre os processos de 
combater nas diversas invasões musulmanas não 
são tão fundamentaes que interesse ao nosso estudo 
o estabelecel-as. Basta que fixemos os traços phy- 
sionomicos essenciaes e geraes. 



* Reíitaud. Dt Vart militaire chez les árabes. 

* D. C. Ximenes. Guerras (2e Âfiica en la antiguidad, cap. vi. 



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103 

Do mesmo modo que á raça semita se nega as a theoria de 
altas faculdades de espirito que á raça indo-euro- ^'^**®"- 
pêa deram a supremacia em todas as manifestações 
da arte e da litteratura, assim se lhe nega também 
a qualidade de organisadores militares e politicos, 
devendo o islamismo o seu poderio e grandeza a 
elementos que não eram semitas: — na Ásia ás duas 
raças de élite^ os persas e os turcos uralofiiiezes 
ou turanianos, e na Africa e Europa aos berberes, 
turano-arianos*. É verdade que os berberes conser- 
varam, através dos tempos, os seus característicos 
distinctos, sobretudo ethymologicos e linguisticos, 
mesmo depois da dominação bysantina,^ue não 
logrou fundil-08, e da musulmana que a absorveu 
completamente, depois de uma resistência tenaz. 
N'esta lucta ficou, entre outros, memorável, o nome 
do caudilho berberisco Roceila, que, na sua resis- 
te^icia, muitas vezes appellou para as tropas by- 
santinas, e chegou mesmo, pela morte de Ocba, o 



* Sâo d'essa opinião Henri Fournel, e Louis Rinn: «Un historien 
modeme, Mcnri Fournel, a, un des premier8,bienmÍ8 en relief cette 
action purement négative des semites musulmans sur les Berberes, 
action qui, pour lui, resume dans Véchec des árabes comme conqué- 
rants de V Afrique. Et, en efFet, il démontre bien comment lea semi- 
tes musulmans se sont fondus en Afrique, et comment ils ont été 
absorbés ou débordés par les aborígenes, qui n'ont retenue d'euz 
qu'une vague étiquette, sans grande valeur, car de tous temps les 
Berberes se sont distingues et se distioguent encore soit par des 
schismes ou hérésics nationales, soit par une tiédeur de croyance 
et anc indifférence tant soit peu sceptique. 

«En résumé, les divers conquérants de T Afrique septentrional ont 
disparu, sans avoir réussià modifíer sensiblement Tethnographie ou 
la langue des Berberes. Les débris phéniciens« grecs, romains, vân- 
dalas ou árabes restes dans le pays, se sont fondus complétement 
dans cette puissante race berbere dont la vitalité et Ténergie les 
ont absorbés, comme jadis la vieille race des Gall absorba tous ses 
conquérants (Romains, Gotths, Burgondes, Belges, Kimri ou Ger- 
mains), et iroposa son génie aux vainqucrs eux-mêmes. Et de même 
que la tribn belge des Frank a donné son nom et ses lois à notre 
patrie sans que pour cela nous ayons cesse d'être touiours et quand 
même des Gall ou Gaulois, de même, au sud de la Méditerranée, le 
^9émite a pu imposer longtemps son coran, sa souveraineté et jus- 
qu*a son nom d'Ârabe\ mais la masse est restée et restera berbere». 
Luís Rinn, Les orig. berhhres, cap. xiv. 



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toas. 



104 

temeroso general árabe, a constituir um grande 
estado berbere. 

A influencia dos berberes no território hoje por- 
tuguez tinha de ser grande, desde o momento que 
núcleos importantes de população eram de origem 
berbere e doesta raça eram também os mais fortes 
contingentes dos exércitos invasores árabes na pe- 
ninsula. Tárique era berbere de Nefta, de origem 
persa, e já Tarife, seu antecessor, era berbere tam- 
bém. 
influenciu ma- Scm cntrarmos na discussão sobre se ao caracter 
indo-europeu dos berberes deveram ou não os ára- 
bes as qualidades militares e politicas que revela- 
ram no seu dominio na Europa*, temos de acceitar, 
como facto incontroverso, que na influencia mutua 
daà duas raças se havia de ter modificado a sua 
arte da guerra, e que também em muitos dos fun- 
damentos d'estas se teriam adoptado os preceitos 
da arte grega e romana perpetuados pelos bysan- 
tinos, com os quaes árabes e berberes estiveram 
no norte da Africa em renhida lucta. 

Nas invasões e luctas gueiTeiras dos africanos 
na peninsula encontrámos muitos dos característi- 
cos das guerras que os berberes sustentaram no 
norte da Africa contra os bysantinos, e que vem 
descriptas nos historiadores d^aquelle periodo da 
decadência da civilisação clássica. 

Um trabalho moderno de Charles Diehl que 
temos presente, recompilando esses escriptores, 
e baseando-se n'um tratado de táctica da epocha*, 
dá-nos.o quadro das modificações profundas que 
os bysantinos foram obrigados a introduzir nas 
suas formações de guerra, armamento, e modos 
de combater, em presença da táctica tão estranha 



* Charles Diehl, UAfriqae bysantine, liv. i, cap. ni, 1896. 
2 Tratado de Táctica, ed., Kochly et Rustou. 



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105 

e tão singular dos berberes; foi o mesmo facto que 
se deu depois com os christãos na península, diante 
da táctica dos árabes. 
O mesmo escriptor dá-nos noticia do que era o Armamento dos 

. j •• I » 1 "* berberes. 

armamento dos berberes n essa epocha, o que nao 
deixa de nos interessar, apesar das modificações 
introduzidas desde então até á conquista da Ibéria. 

«O armamento dos berberes era inferior ao dos 
bysantínos, o que explica o serem considerados pelos 
generaes imperiaes como adversários sem defeza. 
Pés e braços nus, cabeça e corpo envolvidos h'um 
grande albornoz ^de pano; cavalleiros e peões não 
tinham outra arma defensiva alem de um pequeno 
escudo de couro; para o ataque serviam-se de uma 
curta e larga espada, e cada qual trazia dois longos 
e sólidos dardos; este ligeiro armamento, porém, 
dava-lhes uma mobilidade extrema, e n'essa van- 
tagem se fiavam pai^a cansar, envolver, romper a 
pesada infanteria inimiga ; segundo o costume de 
todo o nómada, levavam comsigo, nas excursões, as 
mulheres, as creanças, o gado da tribu; mas não 
era isso um obstáculo á marcha, porque os animaes 
tinham um papel na batalha, e as mulheres, levan- 
tando entrincheiramentos, cuidando dos cavallos, 
limpando as armas, deixavam os guerreiros mais 
frescos para a lucta, e, além d'isso, mais de uma 
vez tomavam furiosamente parte no combate.» 

Como se vê, é o que se repete mais tarde na pe- Forma do com- 
ninsula, e entre nós em Ourique, em Silves, e outros 
combates, quanto ao papel das mulheres nos com- 
bates. 

• Gostavam das guerras de escaramuças e de 
emboscadas, occupando passagens difiiceis na 
montanha, occultando-se ao abrigo dos bosques ou 
do leito deseccado dos rios; compraziam-se em 
surprehender o inimigo na marcha, fazer remoi- 
nhar em Volta das suas fileiras, meio rotas, o galope 



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106 



furioso dos seus esquadrões; combinavam fugas 
hábeis que arrastavam o adversário n'uma perse- 
guição imprudente, e o conduziam, exhausto e 
sem ordem, á cilada cuidadosamente armada; açu- 
lavam-no com cem ataques parciaes, furtando-se 
sempre, sem nunca arriscar ura combate regular, 
sem querer, sobretudo, acceitar uma grande ba- 
talha em forma, na planicie; mantinham-se nos seus 
postos, occupando as cristas dos montes, abrigan- 
do-se atrás de abatizes de arvores, espiando a mar- 
cha do inimigo para aproveitar o menor eiTO, 
investir o seu acampamento mal fortificado, e sur- 
prehendel-o no momento da sesta; simulavam a 
retirada, muitas vezes a derrota, para embair o ad- 
versário e attrahil-o, na perseguição, ás regiões de- 
sertas, onde a fome, a sede, o calor lhe quebrantas- 
sem a coragem; e mesmo, para melhor os estenuar, 
iam fazendo estragos pelo caminho. Se se chega a 
alcançar estes quasi inacessiveis cavalleiros e a for- 
çal-os a uma acção decisiva, a sua maneira de com- 
bater desorienta todas as previsões. Com os seus 
camellos dispostos em muitas linhas de profundi- 
dade, formam no meio da planicie um vasto in- 
trincheiramento circular, atrás d'esta primeira de- 
feza coUocam o resto das suas tropas, e os bois, 
cabras, carneiros, fortemente presos uns aos ou- 
tros ; no interior d'este parapeito vivo, cordas ten- 
sas, forcados, estacas cravadas na terra, abrolhos 
semeados no chão, reforçam os meios de resistência. 
N'esta espécie de cidadella, as mulheres, as crean- 
ças, os velhos ficam a guardar o acampamento; os 
peões, incapazes de sustentar o choque da cavalla- 
ria, abrigam-se á beira do acampamento entre as 
pernas dos camellos, e repellem com as suas flechas 
os assaltos do adversário; a cav aliaria toma posi- 
ção nos cabeços vizinhos, prestes a carregar de 
flanco, ou de revés os esquadrões inimigos em des- 



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107 

ordem; os indígenas esperam, com rasão, que a 
presença e os bramidos dos camellos espantem os 
cavallos bysantinos e quebrem sem difficuldade o 
impulso do primeiro ataque. Para melhor decidir os 
gregos a tomar a ofFensiva, alguns cavalleiros de 
eleição vem desfilar em frente das fileiras inimiga s ; 
deíítacamentos da cavallaria berbere chegam mes- 
mo a tomar a oífensiva e, soltando clamores fero- 
zes, precipitam-se no combate; mas quando a sua 
derrota, ou a sua fuga simulada, tem conduzido á 
beira do campo os esquadrões gregos, entSo a tá- 
ctica dos indígenas revela-se em pleno êxito: á vista 
dos camellos furiosos, os cavallos esquivam-se ou 
se empinam, e os peões,' saindo do seu abrigo, lan- 
çam-se sobre os cataphractas desmontados ou dis- 
persos, emquanto que os berberes, descendo das 
alturas, vem com as suas cargas completar a der- 
rota*.» 

Aparte o episodio dos camellos, e alguns por- 
. menores secundários, encontrámos aqui esboçada a 
physionomia dos combates entre os árabes e chrís- 
tãos na península. Vejamos, porém, outros espéci- 
mens curiosos: uma surpreza de cavallaria, por 
exemplo: 

fA approximação do exercito inimigo, os mou- surprot* d» c 
ros ganham o alto das collinas, e ficam alarpada- 
dos atrás de uma cortina da floresta, onde lavram 
grandes incêndios. A vanguarda grega, encarre- 
gada de explorar o terreno e reconhecer as posi- 
ções do inimigo, trava lucta na planicie; então al- 
guns cavalleiros indígenas descem das alturas, e, 
soltando grandes gritos, lançam os seus cavallos 
ao galope sobre as linhas do adversário ; e, a pouco 
e pouco, massas de cavallaria, mais profundas, 
desembocam todavia no terreno, sem parecer que 

* Tratado de Táctica, ed., Kochly et Rustow. 



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108 

buscam o combate. Em vista d'isto, as tropas by- 
santinas param, prestes a reuni rem-se ao corpo 
principal; mas então, por toda a parte, os esqua- 
drões berberes precipitam-se sobre a planície fa- 
zendo remoinhar em volta das linhas inimigas os seus 
ligeiros cavallos num idas, esforçando-se por envol- 
ver o destacamento inimigo e cortar-lhe a retirada. 

• Trava-se uma refrega temvel, onde só se com- 
bate á espada; e sob â massa, sempre crescente, 
dos seus adversários os cavalleiros inimigos destro- 
çados vão-se reunindo, como podem, n'uma altura 
vizinha, e preparam-se para vender caro a vida, 
quando por felicidade o grosso da cavallaria appa- 
rece para desembaraçar a sua vanguarda. Falho o 
plano, os berberes não esperam por mais, fogem e 
vão tomar os altos das coUinas». 

Esboço do uma Vcjamos aiuda o escorço de uma grande batalha: 

• Em presença das linhas inimigas os berberes 
construiram um enorme acampamento circular, 
formando com os seus camellos e os seus rebanhos 
um parapeito defendido pela infan teria; uma parte 
da cavallaria conserva-se em reserva sobre as col- 
linas ; o resto inicia a acção, cobrindo de settas as 
linhas inimigas, e, como é de uso, o combate tra- 
va-se á distancia entre as duas cavallarias. Imme- 
diatamente, n'uma carga furiosa, os berberes lan- 
çam-se sobre os esquadrões gregos repellidos em 
desordem, fazem frente á retaguarda, e concen- 
tram-se ao galope atrás da sua infanteria, arras- 
tando n'uma perseguição louca o inimigo que lhe 
vae no encalço, até mesmo á orla do acampamento; 
mas ali se reconstituem, recomeçam a carga, e 
dá-se na planicie uma vasta refrega de cavallaria. 
Em derrota os mouros são repellidos até aos seus 
entrincheiramentos, e a batalha parece perdida, 
quando das alturas, de onde observava a lucta, a 
reserva se lança n'um impeto furioso sobre o flanco 



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109 

das tropas inimigas, as quaes, surprehendidas, des- 
vairadas, fogem em desordem, abandonando os 
seus chefes em pleno combate. Todavia, graças 
aos esforços dos officiaes gregos, a batalha restabe- 
lece-se, e se torna mais ardente em frente do campo 
berbere. Intrincheirados na sua cidadella viva, os 
indigenas oppõem uma defeza desesperada; as mu- 
lheres, as creanças, os velhos, todos tomam parte 
na lucta; os assaltantes são repellidos á pedrada, 
esmagados debaixo de contos enormes; attira-se- 
Ihes para cima com ban-as de chumbo e archotes 
inflammados, emquanto a cavallaria mourisca se 
prodigalisa em sortidas, e desenvolve, á vost dos 
seus chefes, uma coragem a que os seus adversá- 
rios sao os primeiros a prestar homenagem; até 
que afinal são repellidos, e a grandes golpes de 
espada os bysantinos abrem passagem através das 
sebes vivas*». 

Quasi todos traços physionomicos que caracte- Na peniD«uia. 
risam estes typos de combate se reproduzem fiel- 
mente, como veremos, nas guerras dos que entre 
nós continuaram a ser chamados cmouros», contra 
os christãos. O elemento árabe, comquanto se fun- 
disse pela religião com o berbere, não logrou tirar 
a este os seus principaes característicos e peculiar 
feição. Na guerra o berbere continuou a combater á 
sua maneira; comor succedia com as diversas tribus 
de origem asiática ou africana que compunham os 
exércitos, a táctica árabe aproveitou, dentro dos 
seus lineamentos geraes, as qualidades guerreiras 
d'esses povos, principalmente do berbere ou mou- 
ro, ao qual a experiência da guerra com os by- 
santinos 6 com os árabes havia dotado com largos 
conhecimentos militares. 



* Charles Diehl, segando a descripçao de Corippus, na Johannts 
Mun. Germ. Hist. 



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110 



organiMçjiomi. Scm enti*annos, porém, n'esses pormenores que 
bw!^ ^*" "*' demandariam demorados estudos, para os quaes 
nem sempre haveria elementos seguros, e que mesmo 
sairiam dos limites e do caracter d'este trabalho, 
vejamos, nos seus traços geraes, qual a organisa- 
ção militar que os árabes apresentam no seu do- 
minio na península; e a influencia d^essa organisa- 
ção na nossa maneira de ser militar nos primeiros 
séculos da monarchia. 

NainTadU). A iuvasão saiTaccua foi sangrenta nos raros re- 

contros armados; depois da batalha de Guadalete, 
ou propriamente de Barbate, muitos dos castellos e 
povoações fortificadas foram entregues, sob o im- 
pério do medo ou da traição, sendo principalmente 
a população judia que auxiliou os mouros na con- 
quista. 

Ella tirava assim a desforra dos antigos vexa- 
mes e aggravos de que atrás demos já noticia, 
e ao mesmo tempo obtinham vantajosas capitula- 

Equiiibrio entro coes, cstabelccidas por tratados. O accordo ou 
M dnu raçM. equiií|jj.ÍQ entre os invasores e as populações, que 
passavam a estar sob um novo dominio, fez-se fa- 
cilmente, e só se rompeu nas Itictas civis entre as 
tribus de diversa origem que entre si disputavam 
o predomínio, e com as quaes padeceram por igual 
os musulmanos e os christãos, por abusos dos emi- 
res e valis, e pela violação dos pactos estabelecidos. 

Regimendaster. As tcrras coutínuaram em grande parte a serem 
cultivadas pelos antigos buccelarios, colonos, li- 
bertos, servos, depois de divididas pelos conquis- 
tadores, primeiro por tribus, depois em fracções 
individuaes, e em parte foram conservadas aos seus 
antigos possuidores. Essas terras eram as que no 



TM, 



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111 

domínio vesigotico haviam pertencido aos nobres, 
ao clero, ou aos mosteiros. D^entre esses proprietá- 
rios muitos se tinham refugiado nas Astúrias, em 
NavaiTa e na Catalunha; e também, mais tarde, se 
dividiram as propriedades dos judeus que, abando- 
nando as suas terras, foram, arrastados pela seduc- 
ção do falso propheta Zonarias, até á Palestina. 

Dos seus productos tinham os cultivadores de 
entregar ao dono quatro quintas partes; nas terras 
propriamente do Estado, que depois passaram 
também, em commendas, á posse de particulares, 
davam apenas a terça parte. 

D'essa grande população de agricultores, como Koiarabes. 
também dos que se dedicavam ás artes domesticas, 
se formou o núcleo da população mosarabe, que 
mais tarde se alastrou, e quasi se confundiu com a 
população propriamente árabe, adoptando até os 
seus usos, costumes, vestuário e a própria religião. 

Para o árabe a guerra era uma obrigação geral; obri^mçâo d» 
todo o musulmano tinha de ser soldado ; impunha- *"*"^*' 
lhe esse dever o seu. código religioso, emanado da 
divindade, e que convertera a guerra no verdadeiro 
instrumento da conquista, para o engrandecimento 
e enthronisaçao de uma raça. 

O musulmano, entendendo ser a guerra uma 
necessidade da condição humana, reconhecia como 
legitimas duas espécies d'ella: a guerra santa 
(jihadj contra christãos, e a guerra entre nações 
ou governos, para fazerem respeitar a sua auctori- 
dade e direitos*. Todos os preceitos religiosos e 
doutrinas dos tratados, como já tivemos occasião 
de ver, impunham a guerra como um dever pri- 
mordial entre os musulmanos. lA conversão do 
principio religioso em signa militar, diz um escri- 
ptor hespanhol, foi o que imprimiu uma physiono- 

^ Ibn Ealdum. Prologomknes^ trad. de Slane, tomo ii. 



l 



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112 

mia nova e original ao systema do legislador da 
Arábia, a cuja influencia deveram os sarracenos os 
seus rápidos triumplios e o maliometanismo a sua 
assombrosa propagação. A guerra santa aos fieis 
é o serviço mais agradável aos olhos de Deus ; os 
que morrem pelejando pela fé são verdadeiros mar- 
tyres, e abrem-se-lhes as portas do paraizo. Se o 
legislador de Meca tivesse apenas em vista tornar 
um povo valente, guerreiro e conquistador, teria 
acertado, porque ao fanatismo que inspirou deveu 
as suas rápidas conquistas è a obstinada e por- 
fiada resistência que os conquistadores de Hespa- 
nha oppozeram ao valor e perseverança dos cliris- 
tãos**. 

Os mosarabes, alem da capitação a que eram 
obrigados, pelo cultivo das terras, e do imposto 
que pagavam pelos misteres que exerciam, tinham 
também por dever ir á guerra e defender o ter- 
ritório. 
Forma derem- Tal cra a fórma do recrutamento, na qual não 
havia isenções nem dispensas senão para os invá- 
lidos, porquanto até as mulheres e as creanças se 
empregavam na guerra, e muitas vezes na própria 
arena do combate. E essa obrigação civica não se 
tornava pesada, visto que o árabe, em extremo 
tolerante, não só não abusava da victoria, devas- 
tando as povoações inermes e opprimindo os ven- 
cidos, segundo os preceitos rigorosos do Alcorão, 
mas não tivera necessidade de assegurar o seu do- 
mínio, treduzindo-os á escravidão, despojando-os 
das suas propriedades, como haviam feito os bár- 
baros, nem privando-os sequer das suas leis civis, 
do seu governo interno, do seu culto ou instituições 
sociaes' » . 

^ Elem. de Ei$t. de Etp., por Sanchez j Casado, pag. 172. 
> D. Francisco de Cardenas. Ensayo sobre la historia de la pro- 
priedade, tomo I, Uv. II, cap. m. i 



Umento. 



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113 

O território era dividido em tahas, sujeitas cadaDivuiodoterri- 
uma a um chefe *. As antigas classes guardaram 
08 seus direitos: nobres e plebeus, curiaes e priva- 
dos, patronos e clientes, homens livres e servos, 
accommodando-se esses direitos ás condições do 
novo regimen, chegando os nobres mesmo a manter 
muitas das suas prerogativas. Os que abraçavam a 
religião nova ficavam equiparados aos musulma- 
nos, em sangue e bens, ficando isentos dos tribu- 
tos; o que fez com que muitos christaos e judeus 
adoptassem a nova fé, e os redditos do estado di- 
minuíssem sensivelmente*. Como prova das liber- 
dades e garantias que os mosarabes disfructavam, 
com o seu culto, com as suas leis, e com os seus 
condes e juizes para a applicação d'ellas, citam-se 
os santos martyres de Saragoça, Voto e Félix, t que 
viviam rodeados de clientes e de servos, no meio 
da opulência, exercendo a nobre profissão das ar- 
mas e entregando-se ao recreio da caça, só per- 
mittido aos cavalleiros, segundo os usos da idade 
media'». Frequente era ver nos altos cargos da 
milicia próceres christaos. 

Com estes elementos, assim recrutados em todas 
as classes e communhoes, se formava o exercito, 
que se congregava na occasião. Como tropas per- 
manentes havia apenas as que eram destinadas á 
guarda e segurança do califa; estava-lhes também 
confiada a policia em tempo de paz, e estaciona- 
vam nas cidades e povoações mais importantes. 

Os que especialmente se destinavam, mesmo naoigasia. 
paz, aos serviços da guerra chamavam-se na pe- 
ninsula ^azÍ5, que, segundo Gayangos, o mesmo era 
que mouros de guerra, derivando-se a palavra de 

^ Na Andaluzia conserva-se ainda o nome : Taha de Marchena, 
taka de Pitres. Almirante. Dice. Miliiarf voe. Taha. 
2 Dozy. Hist. des Muss. d^Esp., tomo i. 
' Idem. 



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114 

gaza^ que significava entrar no território inimigo 
em tom de guerra, de onde proveiu algazú^ correria, 
e a palavra portugueza gazua, algara ou rápida 
incurRão militar. 

Ofrotsodoexer. Quaudo dos divcrsos pontos do império musul- 
mano vieram tribus nómadas assentar arraiaes na 
península, estabeleceram-se nos campos, acolhen- 
do-se os mosarabes nas cidades e grandes povoa- 
dos; o grosso do exercito passou então a estar 
disseminado pelos campos, de onde era convocado 
nos rebates da guerra. 

Vencimentos e Em campauha, ou na perspectiva da guerra, as 
tropas tinham vencimento, e além d'isso pertenciam 
a cada soldado quatro quintas partes dos despojos 
obtidos, tirado o quinto restante para o califa ou 
emir, o qual tinha de lhe dar a applicação indi- 
cada no Alcorão; a differença estava era que, do 
monte geral, os cavalleiros tinham direito ao dobro 
do que pertencia aos peões. 

A repartição fazia-se segundo os méritos e cate- 
gorias de cada um; o mesmo succedia com as 
terras, que de direito pertenciam aos que as con- 
quistavam, sendo entre elles repartidas; qualquer 
podia, comtudo, ceder a sua parte a favor dos 
naturaes *. 

TributM. Sobre os paizes tributários fazia-se pesar, alem 

de outros, o tributo do dhiffay destinado á alimen- 
tação das tropas, de onde, de certo, deriva a nossa 
antiga adiafa. 

Viveres. Nas opcraçocs eram ás vezes fornecidos os vive- 

res ás tropas, pela munificência do califa; geral- 
mente, porém, eram ellas próprias que os adqui- 
riam com o dinheiro que levavam ^. 

A sua repartição se procedia no próprio local do 

* Est. Calderon. Ob. dt., segundo Baraazil. 

* D. Mariano Perez de Castro. Estúdios Militares, Orig. y prog. 
dei arte de la guerra en Esp., pag. 38. 1872. 



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í 



115 

saque ou da batalha; o pecúlio consistia em tudo Repartiçio dM 
aquillo de que se podia lançar mão, e em tudo que '*"*** 
o inimigo dava para obter a paz ou o resgate dos 
prisioneiros. Âs terras não contavam ao principio, 
naturalmente pela pequena importância que tinham 
para raças nómadas, antes de assentarem em ter- 
ritórios fixos ; quando se fixaram estabeleceram leis 
novas, princípios novos, correspondentes a esse seu 
novo estado social. D'ahi a divisão dos territórios 
conquistados, pelas tribus, n'uma forma de pro- 
priedade indivisa, communidade, passando-se mais 
tarde á propriedade individual. 

Nos primeiros tempos da conquista as terras con- 
fiscadas ás ordens religiosas e aos nobres, que ti- 
nham preferido o exilio a sujeitarem-se ao domi* 
nador, foram repartidas entre os conquistadores, 
deixando n'ellas os servos, que conheciam a agri- 
cultura, e que ficarauí obrigados a dar aos proprie- 
tários quatro quintas partes dos seus productos ; nos 
dominios do Estado só eram, como vimos, obriga- 
dos a dar a terça parte. Estes quinhões entravam 
ao principio no erário publico, mas depois foram 
com elles constituídas commendas que se deram 
aos árabes e syríos vindos de África em auxilio e 
reforço. Os christãos que se sujeitaram ao dominio 
árabe — os mosarabes — continuaram na posse in- 
tegral das suas terras, com a obrigação de pagar a 
capitação ao Estado ; tinham além d'isso os proprie- 
tários em geral de pagar o farach, especial contri- 
buição territorial*. E todos, senhores e servos, eram 
obrigados ao serviço da guerra. 

Os quadros das tropas, assim constituidas, eram Qaadroi de uo- 
formados pelas pessoas de maior distincção, tanto ^"' 
entre os propriamente musulmanos, como entre os 
que se punham ao serviço doestes, acabando por 

^ Sanchez j Casado. EUm, de Hist, dt\E9p.^ psg. 174. 



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116 



ser coiiimum a causa, e communs os interesses que 
defendiam. Para a nobilitação dos homens, conta- 
ram-se sempre entre as qualidades principaes o 
valor e o exercício das armas. 

^''mfSiSfn.es ^' Havia, porém, uma antiga nobreza, á qual desde 
sempre foram conferidos os com mandos, a dos me- 
dinenses, conhecidos pelos defensores, por terem 
constituido o primeiro núcleo de resistência em 
volta do Propheta*. 

Quando perseguidos pelas outras tribus que, nas 
suas continuas rivalidades, conseguiram successi- 
vamente a supremacia, refugiaram-se em Africa, 
onde se tornaram numerosos, encorporando-se no 
exercito de Muça*. D'essa nobre raça provieram os 
omáiadas. 

Effcoiha pelo me. Mas como O valor e a sciencia militar, provados 
nas batalhas, determinavam sempre a selecção para 
os commandos, eram estes escolhidos mesmo entre 
os povos dominados; assim succedeu com Tarique, 
por exemplo, que era berbere, e commandou a se- 
gunda e decisiva expedição á Hespanha, trazendo 
ás suas ordens muitos cabos de guerra da sua raça; 
e, igualmente, próceres de antigas origens godas e 
romanas obtiveram na península altos cargos e 
commandos. Havia familias árabes nas quaes era 
tradicional o officio de commandar as tropas, como 
na peninsula a familia dos Beni-Nasre, de Arjona '. 

poftos miuteres. Os divcrsos postos, muitos d^ellcs corresponden- 
tes também a funcçoes administrativas e cargos so- 
ciaes, eram os seguintes: 

ciuiiii. O califa era a suprema auctoridade que ao prin- 

cipio dominou em todo o povo musulmano, como 
vigário ou logar- tenente do Propheta, cargo que 

* Dozy. HÍ8t. dta Muasua, (TEsp., tomo i. 

* Idem. 

' Gayangos. Almakari, HUt, of the Mohammedan Dynaíti€4 in 
Spain, tomo i, liv. 8, cap. õ. 



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117 



por algum tempo foi exercido pelos seus discipulos 
e parentes; até que houve emires que, tornando- 
se independentes do poder central, adoptaram o 
titulo de califa^ como os emires de Córdova, quando 
se independentisaram do califado de Damasco. 

Os califas nomeavam os seus emires. Por occa- 
sião da invasão dos mouros na peninsula os emi- 
res da Africa do Norte eram nomeados pelo califa; 
os da peninsula passaram a receber a nomeação 
dos emires de Africa*. O grande califa era, por di- 
reito hereditário, o commandante de todos os exér- 
citos muslimicos, o generalissimo por excellencia; 
depois, quando os houve muitos, os califas eram os 
chefes supremos das tropas da região onde impera- 
vam. 

Emir queria propriamente dizer chefe ou senhor ; Emir. 
administrativamente era uma espécie de viso-rei, 
titulo que se dava a principes, ou pessoas de grande 
distincção ; como tal lhe pertencia o governo e o 
mando das tropas da sua circumscripção, auxiliado 
por um ou mais officiaes da nomeação do Califa*. 
O primeiro emir que ficou governando a peninsula 
foi Abdelásis, filho de Muça, que estabeleceu em 
Sevilha a sede do seu governo (714). No sentido 
de chefe superior, emir-almnsselemim entre os almo- 
ravides e emir almiimenim em Córdova e em Bagda- 
de, se chamava ao emir, como principe ou chefe dos 
crentes dentro do seu emirado ; d'ahi o Miramolim 
das nossas chronicas, que de modo algum repre- 
senta um nome, mas uma dignidade. Era coma Cé- 
sar entre os romanos, titulo genérico do Imperador, 
com quanto, como César, por excellencia, seja co- ' 
nhecido o vencedor nas G ai lias e em Munda. 
Ou por usurpação, portanto, ou por delegação, 



* Dozy. HÍ8t. des Mussul. en Esp,, tomo i. 

* Perez de Castro. Oò. cU,, pag. 59. 



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118 

na qualidade de naibe (logar-tenente ou viso-rei), o 
emir nSo só era o superintendente nas coisas da 
guerra, mas tinha também funcções administra* 
tivas, como succedeu na peninsula no tempo dos 
Omáiadas. 

Emir dos emires (emir alómra) passaram os per- 
sas a chamar á auctoridade suprema, quando se 
apoderaram do poder dos Califas*. 
Senil deveres. No tratado militar escurialense de Bemazil vem 
enumerados os múltiplos deveres do emir, tanto 
na paz como na guerra. Superintendia na organi* 
saçao e difinição das tropas a seu cargo, devendo 
fazer alarde d'ellas e passar-lhes revista todas as 
sextas feiras, ou pelo menos duas vezes ao mez; 
n'essa occasiao se daria baixa aos doentes, aos 
pusilânimes ou cobardes, aos cavallos fracos ou 
inutilisados, e se renovaria o armamento, etc*. 
Em campanha, altas qualidades tinha de possuir 
para ser credor d'esse nome: devia ser um mo- 
delo para os seus subordinados, pelo seu valor e 
virtudes, impondo-se-lhes e Fendo por elles amado 
como um pae, instruindo-os nas praticas religio- 
sas e militares, ensinando-lhes a serem modera- 
dos, pondo toda a vigilância em as tropas estarem 
ao abrigo das suprezas, estabelecendo atalaias e 
guardas, escolhendo os melhores logares para esta- 
cionar, provendo-os de petrechos e abastecimen- 
tos, etc. 

Quando o emir ordenava, pela voz do pregoeiro, 
a cada qual o seu logar, na vanguarda, nas alas ou 
na caga, não havia obtemperações a fazer-lhe, sob 
pena de rigoroso castigo. 

Quem ouvisse gritar ás armas devia acudir ar- 
mado, não ao local de onde o grito partira, mas 



* Ibn Kaldum. ProhgomhitB. Parte 2.» 
2 Idem. 



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119 

áquelle onde estava o Emir, a fim de receber as 
suas ordens; a não ser que o inimigo estivesse 
no- ponto de onde o grito saíra. A cada taifa, ou 
unidade em que se dividia o exercito, uma voz es- 
pecial indicava o ponto onde se havia de reunir 
em volta da respectiva signa, servindo também de 
orientação aos extraviados e dispersos durante a 
batalha; era um uso tradicional desde o tempo do 
Propheta. — cO' filhos de Aberramão!» era o grito 
para congregar os que o acompanharam na sua 
expedição contra Medina. 

Outra obrigação do Emir, diz Bemazil, consistia 
em reconhecer cautelosamente o estado das mon- 
tadas e azemulas do exercito, para se desfazerem 
das que, pelo seu mau estado ou doença, mais ser- 
viriam de empecilho do que de meio de transporte 
ou tracção. Devia collocar na retaguarda das for- 
ças em marcha um troço de homens que, nas en- 
tradas e rebates em terras de inimigo, tivessem por 
missão reunir os retardatários, mandando-os unir 
á frente, e também tomar conta nos feridos, com 
os quaes recommendaria o maior cuidado *. 

Essencialmente compassivo o povo árabe, esse Eufcrmos. 
cuidado com enfermos era imposto como um dos 
particulares deveres do Emir, que, nas marchas, 
longe do inimigo, devia regular o passo das tropas 
pela necessidade da marcha ou da conducçào dos 
doentes e estropeados; era a tradição do Propheta, 
que consumava dizer: tSe algum de vós se debi- 
lita ou se a sua montada succumbe, deve o resto 
da gente acommodar o passo ao d'aquelle que cair, 
e o Emir procurará cuidadosamente que os demais 
lhe não ganhem a dianteira». Isto não quer dizer 
que não estivesse recommendada a máxima rapidez 



* Est. Calderon. Frag. de la Hist. de Infanta espahola. La Rev, 
Militar, tomo viu, pag. 173. 



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1 



120 



nas marchas, quando necessário fosse, como succe- 
deu com a marcha de Said bem Ali Hinde que foi 
de Medina a Meca em três dias, merecendo os elo- 
gios de Omar *. 

€ Grande attençao, diz Bemazil, devia ter o Emir 
em cuidar do governo e regimen dos soldados, quer 
fossem os voluntários, que em árabe se chamavam 
almortavaes, quer os soldados estipendiados, que se 
chamavam almastarzequès ; para os manter, por- 
tanto, em boa ordenança, devia o emir impor, a 
cada companhia ou unidade, certos administradores 
ou inspectores, chamados naquibes ou arifes, que, 
exercendo attenta vigilância no estado das tropas, 
lhe dessem conta das necessidades d'ellas, com- 
municando-lhes as ordens do emir, e reunindo as 
forças quando necessário fosse, c Com isto se ganha 
muita rapidez nas operações militares, e se mantém 
a vigilância no soldado* »>. 

Emiraimanzii. Apparcceni mais tarde com o titulo de emires 
entidades que, decerto, para uma boa divisão do 
trabalho, e melhor funcionamento dos serviços, 
têem cargos especiaes, independentemente do com- 
mando ; ha assim o em?' almanzil, espécie de me- 
tator dos romanos, ou do nosso futuro aposenta- 
dor-vióvy encarregado de indicar a cada cabila ou 

Broir ai-iebiah. corpo O logar ondc havia de estacionar; o emir- 
al'lebiahy ao qual incumbia ordenar, dispor as tro- 
pas, segundo o que estabeleciam as instrucçoes 

Emirraídc. p^^a a formaçSo j o emir raíde ou dos forrageado- 
res, ou raíde simplesmente^. 

vizir. Entre os Omáiadas da Peninsula, vizir, se chamou 

primeiramente á auctoridade immediata ao emir; 
dividiu-se mais tarde o vizirato em muitos funccio- 



1 Ibn Kaidum. Prologomhnea. Parte 2.* 

2 Est. Calderon. Frag. de la Hist, de Infant. espahola, La Eev. 
Militar, tomo viii, pag. 173. 

3 Idem, 174. 



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121 



naríos ou ministros, para os diversos serviços, taes 
como a contabilidade, a correspondência, a vigi- 
lância das povoações das fronteiras, tendo cada 
um d'elles o titulo de vizir; esta organisação 
manteve-se até o fim da dynastia. 

Para este fim os vizires tinham uma sala de au- 
diência, com coxins sobre estrados, onde se recli- 
navam, para d'ahi expedir as ordens emanadas do 
Califa, com o qual se correspondiam por intermé- 
dio de um dos seus collegas que tinha o titulo de 
hajebe (espécie de camarista). Vizires passaram anajebo. 
chamar-se os reis de taifas (moluque attanaífe), che- 
fes de grandes partidos populares, governadores 
de provincias ou cidades, que substituiram a dy- 
nastia dos OmáiadaS; até serem desthronados pelos 
Almorávidas *. 

Os Almohadas imitaram n'este ponto, como n'ou- 
tros, os seus antecessores Omáiadas ; o hajebe occu- 
pava entre elles um grau superior aos outros mi- 
nistros. 

Vali se chamava o governador de provincia, que vau. 
como tal tinha o mando das tropas,- com a cate- 
goria immediata á do Emir, sob o ponto de vista 
administrativo. Eram os Valis collocados principal- 
mente nas terras da fronteira, onde o seu papel era 
muito importante, pela grande vigilância e cuidado 
que exigia. Bemazil requer n'elles os mais distin- 
ctos predicados: deviam ser varões fortes, de cos- 
tumes austeros, de valor provado, que quando não 
tivessem adquirido renome na guerra, fossem tidos 
como homens de bom senso e de grande seriedade ; 
< deviam ser pacientes e soffredores nas marchas e 
fadigas, entendidos nas astúcias da guerra, conhe- 
cedores da arte de esquadronar, hábeis em negociar 



1 Est. Calderon. Frag, de la Hist. de Infanl, espahola, La Rev. 
Militar^ tomo xui, pag. 682. 



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122 

e estabelecer pactos, e sabedores em matéria de tri- 
butos, quintos, presas e outras exacções militares *». 

Suas qualidades. Seguudo O auctor arabc, citado por Perez de 
Castro, o emir devia reunir as seguintes virtudes 
militares: «discernimento, alta intelligencia, paciên- 
cia, grandeza de alma na adversidade, e uma aptidão 
superior para a estratégia e para a emboscada, pois 
disse o Propheta que a guerra era uma serie de em- 
boscadas^». 

saes deveres. Pertencia-lhe attender aos abastecimentos e apres- 
tos para a campa.iha, ás cavalgaduras, bagagens, 
fortificações, e soldo dos adaís e exploradores ; recru- 
tar para o exercito os naturaes da terra, e em espe- 
• ciai a gente da fronteira, dando-lhes exercicios para 
adestar os peões no manejo da espada, lança e arco, 
e os cavalleiros em todos os difficeis exercicios da 
gineta. Com gente escolhida e provada na guerra, 
em destacamentos que se rendiam de seis em seis 
mezes, e que serviam de núcleo á gente armada, 
defendiam os pontos mais fracos e mais expostos 
da fronteira ^. 

Serviço nas fron- Como cra uatural n'uma epocha em que toda a 
lucta se cifrava no manter ou no alargar os domí- 
nios, arrebatando-os ao inimigo da sua raça e 
religião, facto que se deu em todo o período da Re- 
conquista, o serviço nas fronteiras era o mais im- 
portante e o mais considerado nas coisas da guerra. 
Os fronteiros eram os únicos que não necessitavam 
da ordem do Califa ou do Inian para entrar em 
operações; deteiminavam-se pela situação e attitude 
do inimigo. De modo que o fim principal d'essas 
tropas era, não só prevenir e repellir as incursões 
do inimigo, mas realisar expedições e surpresas nas 

^ Est. Calderon. FrcLg, de la Hist. de In/ant. espaiwla. La Rtv. 
Militar^ tomo viii, pag. 283. 

2 Perez de Castro, 06. ctí., pag. 59, nota. 

3 Est Calderon. Oh, cit, pag. 284. 



teiras. 



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123 

terras d'elle, tomando-lhe campos e povoados, ou pelo 
menos devastando-os ; essa era a missão principal 
do Vali, que assim dilatava o império do Islam e 
proporcionava pingues recompensas ás suas tropas 
com os despojos do inimigo *. 

Immediato ao Valij em categoria, era o cbefe da chefe de Taifa. 
Taifa, composta de uns 800 homens, força que 
se dividia em duas unidades de 400, denominadas 
seraia; em grau immediatamente inferior estavam 
os capitães de uma unidade de 100 homens, e fi- 
nalmente os que commandavam uma esquadra, que 
de 7 homens se compoz no tempo do Propheta, de 
10 no de Amer, sendo reduzida a 4 por Moavia; 
assim o aífirma pelo menos o manuscripto árabe 
de que trata Perez de Castro ^. 

Dava-se o nome de adail (do árabe dalil^ guia ^) Adaii. 
a todo o individuo encarregado de commandar ou 
conduzir superiormente as tropas; significava pro- 
priamente chefe, guia, e era, portanto, um homem 
considerado pelas suas qualidades de honra e va- 
lor, pelos seus conhecimentos e posição social, per- 
tencendo-lhe exercer, sobretudo quando estabele- 
cido nas fronteiras, uma vigilância constante sobre 
as tropas a seu cargo. Este nome permaneceu na 
milicia peninsular entre os christãos, sendo em Por- 
tugal um posto de responsabilidade e honra, como 
teremos occasião de expor. 

Tivemos adais portuguezes, desde os fundamen- 
tos da monarchia, como se pôde ver, por exemplo, 
no foral de Santarém* de 1179, até tempos re- 
centes. Nas nossas colónias assim se chamavam os 
commandantes de gente a cavallo. A João Froes 



* Perez Castro. Ob. cit., pag. 59. 

* Idem, pag. 288. 

3 DalU guia, pi. dalila. Gayangos. Almacari, liv. ly, cap. iii, nota. 

* •AdaiUdt» de scentaren non dmt quintam de quiniones eontm cor- 
porum» — PortugàUae MonumerUa — Leges., pag. 408. 



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124 

de Brítto, cavalleiro fidalgo, foi em 1749 perdoada 
certa pena, attendendo a que nas guerras com os 
moiros, em Mazagão, alcançara os postos de «caval- 
leiro acobertado, capitão de uma das guardas de 
cavallariã, primeiro Almocadem, Adail, cabo mayor 
de cavallariã d'aquella praça * » . 

Nas luctas com os mouros, primeiramente na 
peninsula, e depois na Africa e na Ásia, tivemos 
de adoptar muitas das formas e titulos da milicia 
Árabe. 
Adaiimór. Adail-mór era se pôde dizer o próprio rei, como 

AíFonso IV no Salado e D. João I em Aljubarrota. 
No regimento dado por El-Rei D. Diniz aos diver- 
sos cargos da milicia estão indicados os deveres dos 
adais, almocadens, alfaqueques^ atalayas^ e outros, 
de imitação mourisca; o adail ia geralmente na 
dianteira da hoste. 

Os mouros, diz Mendoza, chamavam adaís aos 
guias ou cabeças da gente do campo, que entravam 
a correr terras de inimigos, e á gente d'elles almo- 
gavares ; antigamente foi muito qualificado o cargo 
de Adail; era escolhido pelos seus almogavares; 
saudavam-n'o pelo seu nome, levantando-o ao alto, 
de pé, sobre o escudo. «Pelos rastros deviam os 
Adaís conhecer a passagem das feras e dos homens, 
com presteza, não se detendo em conjecturas, re- 
solvendo por signaes, fúteis no parecer de quem 
os observa, mas no d'elles tão certeiros, que ao 
vel-os encontrar o que buscam parece maravilha*». 

No código das Sete Partidas^ que foi também 
lei portugueza, vem os deveres dos adaís, que de 
simples guias de tropas, que ao principio significa- 
vam, ou caudilhos da peoada ou da gente de ca- 

* Requerimento de Joio Froes de Brito, Torre do Tombo, maço 
108, n.o 18. 

2 Mendoza . G. de Granada, cit. por D. J. Almirante. Dicc. Mi- 
litar. 



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125 

vallo, passaram a indicar o cliefe de uma qualquer 
partida de gente, ou mais particularmente um offi- 
cial com algum dos cargos que hoje pertencem aos 
officiaes do estado maior. Adail-mor n'e8te parti- 
cular corresponderia ao posterior mestre de campo 
general. Veremos adiante a importância d^aquelles 
cargos na milicia dos primeiros séculos da nossa 
monarchia. 

OhsLmsLY^-Be Abrwcadem^f democaddem, guia da Aimocadem. 
vanguarda, o que ia na frente; n'um sentido mais 
particular era o que commandava, dirigia, guiava 
os almogavares, tropas ligeiras encarregadas de ex- 
plorar e abrir caminhos para a marcha das tropas, 
e de realisar incursões no pais inimigo'. D'ellas 
nos occuparemos no seu logar. Parece que mesmo 
entre os árabes se generalisou o nome a diversas 
categorias ^. 

Era propriamente o caudilho das peoadas, se- 
gundo se infere da lei das Sete Partidas *, sendo 
evidente que os christãos adoptassem o titulo dos 
árabes. 

í^ernao Lopes cita os nomes de dois almocadens 
na sua narrativa das guerras de D. João I: Affonso 
Garcia e Aflfonso Alvares ^. Generalisando-se o ti- 
tulo até para os que conduziam ou governavam bar- 
cos, ficou subsistindo, e ainda hoje subsiste na nossa 
índia, entre os portuguezes, o nome de mocadao ^. 



' Gayangos. Almacari, tomo i, cap. viii, e Conde, vol. i, pag. 501. 

2 •Chciks do Sahará e de Barca, walis d*Andalús, Kayides e al- 
inocadeDs do exercito dos crentes... sois cobardes e desleaes.» A. 
Herculano. Eurico, xv. 

^ Fr. Pedro de Alcalá. Vocahdiata arábigo, cit. no Dicc. de scien. 
milit, tomo I. 

4 «Aimocadem llamam agora a los que antiguamcnte solian lia- 
mar cabdicUos de las peonadas». SeU Partidas, leis 5 e 6, tit. xxii 
da 2.» 

* F. Lopes. Chr, d^El-Rei D. João J, cap. cui. 

^ «O cargo de Mocadâo mor dos marinheiros Canarins, prouido 
pclloB Vizorreys, ttm de ordenado 539 x.*» seruindo bem, E fielmente; 



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^ 



126 

Desappareceu o almocadem na milícia do reino, e 
mais tarde o de adail, na nossa Africa. Diogo 
Correia era o nome de um alirwcadem de Ceuta 
em 1559 ^; de muitos outros resam os documentos. 
Desde os tempos do Propheta, segundo informa 
Bemazil, existiam os postes de naquihesy arifes * e 
arraesj como intermediários entre as tropas e o 
commandante superior, cujas ordens iam dos emi- 
res aos alcaidesy dos alcaides aos naquiheSy d'e8te8 
aos arifesj dos arifes aos nadires, e d'este8 ás suas 
tropas. 

Está nisto indicada a escala hierarchica. 

Alcaide Alcaide, pelo que se deduz da passagem de Be- 

mazil, começou por ser uma dignidade superior 
militar, caudilho de uma unidade grande do exer- 
cito ou governador das armas de uma cidade da 
província. 

No tempo dos omáiadas em Hespanha tinha 
qualquer d'essas duas funcções : ora de jurisdicçao 
territorial, com attribuiçoes administrativas e jurí- 
dicas, ora do commando de um exercito, sendo 
esse importante posto dado apenas a umas dez ou 
quinze pessoas, ao todo; mais tarde, com o fraccio- 
namento em muitos reinos, multiplicaram-se os al- 
caides, que em alguns pontos chegaram a reunir, 
como em Toledo, Sevilha, Valência, etc, a chefa- 
tura militar, politica e judicial, sendo como que 
verdadeiros reis '. 

ÃUaid» aiquair. Simonct falia mesmo no alcaide alquibir, como 

£ Dao o fazendo assy lhe importará mais de mil cada anno. O cargo 
de Roboam, que he Mocadâo mor dos Arábios, tem de ordenado 
16. 320 rs. por anno, que é soldo, mantimento de bn homem do 
mar». Lista de iodas as tuipitanias, cargas que ha na Indic^ E 9ua 
estimação, e rendimento pouco mais ou menos. — Ms. pablicado pelo 
sr. Martinho da Fonseca. 1901. 

1 Conde da Ericeira. Portugal Restaurado^ parte ii, liv. iv. 

2 Arraez queria dizer genericamente chefe, correspondente a 
cabo, cabeça. — Almirante. Op. cit., voe. Arraez. 

3 Bibera Taragó. Orig, dei Justieia, pag. 79. 



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127 

sendo entre os árabes o «generalissimo dos exérci- 
tos*». Na accepçilo de commando passou em Por- 
tugal, como nos reinos de Hespanha, a ser chamado 
alcaide o governador de um castello; descendo a 
funcção a pouco e pouco em categoria, ao ponto 
de significar apenas guarda; n'este caso estava o 
alcaide do cárcere publico, ou o alcaide dos domeis 
que dirigia, educava, capitaneava, guardava os 
donzeis, ou pagens, filhos da gente nobre, que nos 
psçoa reaes eram creados e instruídos no sentido 
da guerra'. Outros cargos houve entre nós, como 
veremos em occasião opportuna, em que a palavra 
alcaide foi adoptada para significar o individuo 
encarregado de uma determinada direcção ou su- 
perintendencia. Mais particularmente, porém, pas- 
sou a significar o commandante de uma praça, o 
governador de uma cidade, villa fortificada, ou 
província. N'este ultimo sentido ainda hoje existe 
QO vizinho reino. 

Chamava-se na península xorta á guarda de se-xona. 
gurança e policia, policia judiciaria propriamente, 
de uma cidade ; d'alii o nome de saheb axorta officio 
creado pelos Abácidas, e que tomou grande impor- 
tância entre os Omáiadas de Hespanha, e também 
o de saheb almedina^ como se chamou na Andalu- 
zia ao chefe d'essa guarda, e depois ao governador 
da cidade *; d'ahi o no&so zavalmedinaoxxzalmedina, zaimedin*. 

^' Simonet. Leyend, arab,, pag. 59, cit de Almirante. Dice. milit. 
voe. Alcaide, 

' . . . «sendo já alguns feridos e mortos, entre os qaaes morreu 
o alcaide dos donzeis». — F. Lopes. Chr, d^ El- Rei D. João I, cap. cxiv. 

' Zahbalmedina ou Zahbaleil. 

* £m cada capital e corte de omáiadas hespanhoes, no tempo 
do califado, havia um alto dignitário do império que os chronistas 
nos apresentam com o aparato e pompa de um rei, rodeado de altas 
personagens, dando audiência ás portas do palácio do Califa, juiz e 
alto inspector da policia, a um tempo. No principio o Zaímedina 
christão foi mais parecido com o dos mouros ; logo adquiriu jurisdic- 
ção civil, reunida á jurisdieção criminal primitiva, por ter voltado á 
auctoridade real o cargo de intervir nos pleitos particulares, d'an- 



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128 

empregado pelos christãos no mesmo sentido * e si- 
gnificando um alto cargo, a um tempo politico e 
jurídico, encontrando-se traduzido nos documentos 
do baixo latim por vice domimis civitatis e cúria. 
Nao só em Portugal, mas nos outros reinos chris- 
tãos da peninsula continua existindo este cargo*. 
8abebazoria. O soJich axovta cstava dcbaixo da direcção im- 
mediata do chefe do exercito c senhor da espada»; 
entre os Abácidas julgava os crimes e applicava-lhes 
a devida pena; era cargo de uma alta consideração, 
e só se investia n'elle grandes cheles militares, 
homens de confiança absoluta do sultão; a sua au- 
ctoridade, porém, não se estendia ás classes mais 
elevadas. 

Informa Bem Caldum que no império dos 
Omáiadas hespanhoes este cargo adquiriu uma 
alta importância e constituiu duas administrações 
distinctas: a grande xorta e a pequena xorta\ a 
primeira tinha auctoridade sobre todas as classes 
e pessoas, a segunda só a tinha sobre o povo. 
O cefe da primeira estacionava á entrada do pa- 
lácio imperial, rodeado de satélites que perma- 
neciam sentados e só se levantavam para cumprir 
as ordens que d^elle recebiam '. 



tcB entregues á amigável composição entre os visinhos. Ribera Tar- 
ragó. Orig, dd Justicia. — Santa Rosa de Viterbo, pag. G2 e 65, diz 
que Zavalmedina era o pretor da cidade, a quem pertencia, por 
commissao do Príncipe ou Rico bomem, todo o governo politico. 
Elucidário, voe. Zavalmedina. 

* Elueid. de Viterbo. — Zavalmedina. 

2 Curta eive malmedinatuz judex, vulgo alcaUe, — encontra-se 
nos documentos da epocha. 

3 aNo império dos omáiadas bespanboes, este cargo adquiria 
uma alta importância, e formou duas administrações distinctas : a 
erfináe xorta e a pequena xorta, A auctoridade da primeira esten- 
aia-se igualmente sobre os grandes e pequenos : o que a exercia ti- 
nha o poder de castigar mesmo os funccionarios públicos que oppri- 
miam o povo, como também os pães e pessoas que os protegifun. 
A pequena xorta só tinha auctoridade sobre a populaça. O chefe 
da grande xorla tinha a sua sede á porta do palácio imperial, com 
muitos satélites ao lado, assentados, e que não deixavam os seus 



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129 

Quanto aos outros postos, ouçamos o que Este- 
vanez Calderon, reproduziu de Bemazil : 

cO emir compunha as suas tropas de modo tal 
que, formando um todo completo e compacto, se 
dividisse em partes que podeósem dirigir-se e ma- 
nejar-se facilmente. Cada oito soldados eram in-Nadir. 
cumbidos a um cabo chamado nadir, condecorado 
com uma insignia chamada icda; por cabo ou chefe 
de cada cinco d'e8tes nadires punliam um arife, 
que levava por distinctivo uma bandeira ou hande. 
Cada cinco arifes obedeciam ás ordens de um 72a-Arife. 
quibe, que levava por distinctivo uma signa cha- 
mada Uva. Cinco d'estes obedeciam a um alcaide Kt^uih^. 
que, em signal da sua dignidade, levava um guião 
ou alamey e finalmente cada cinco alcaides rece- 
biam as ordens de um emwy cujo signal de distinc- 
ção era um pendão ou estandarte, raça, se a gran- 
deza do exercito o permittia. Conforme a maior 
ou menor importância das expedições assim eram 
diversos os cargos para ella designados * > . 

D'outra passagem do mesmo tratadista árabe se Hierarcbia. 
deduz que o emir exigia do naquihe e do arife a 
maior vigilância na boa ordem e disciplina da res- 
pectiva unidade, convocando-a quando fosse neces- 
sário e transmittindo-lhe as ordens superiores; 
c assim se ganhava muita rapidez nas operações 
militares e se exercia inspecção no soldado, que 
por essa forma se não descuidava em ter sempre 
em bom estado os seus apetrechos e munições^». 
Esta cadeia hierarchica fora já estabelecida no 
tempo do Propheta pelas necessidades creadas pelo 

postos eenSo para execatar as suas ordens. Como as fancções doeste 
cargo deviam ser exercidas por um dos grandes do império, passa- 
ram para as attribuiçoes do vizir ou do hagebe (camarista mor). — 
Ibn Kaldum. Prologomhnes, parte 2.* 

^ ^ Est. Calderon. De la milicia de los árabes. — Rev, Mil. de Ma- 
drid, tomo VIII. 
* Idem. 



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130 



augmento considerável dos exércitos, aos quaes elle 
tinha de transmittir as suas ordens. Essas ordens, 
como vimos, dava-as aos emires, estes as transmit- 
tiam aos alcaides, estes áos naquihes, estes aos 
arifeSy estes aos nadiresy e estes finalmente aos sol- 
dados*. 
AiferoB. A palavra alferes, que na Reconquista passou a 

indicar entre christaos um alto posto no exercito, 
sendo o alferes-mór a primeira dignidade depois 
do rei, entre os árabes queria apenas dizer caval- 
leiro. Em Castella e Aragão alferez se chamou ao 
que levava o pendão da unidade, e só mais tarde, 
em Aragão, se passou a chamar-lhe senyaler de 
origem castelhana, como se vê em diversos fo- 
raes^. 

Funcções ou cargos, até certo ponto militares, 
que, existindo entre os árabes, passaram a ser nos- 
sos, até com os mesmos nomes, são também as de 
Aifaqnoquo. olfaqueque, encarregado de resgatar os captivos, 
Aivazii. escravos, ou prisioneiros de guerra^, e alvazil, espé- 

cie de juiz fiscal da corte entre os musulmanos de 
Hespanha*, como depois entre os christaos'; os 
alvazis tinham começado por ser entre os árabes 
da Ásia verdadeiros potentados, vizires ou ministros, 
que chegavam a absorver o poder dos monarchas ^ 
Todos estes cargos passaram a ser adoptados 
pelos reinos christaos. RiberaTarragó, referindo-se 
ao destino que elles ahi tiveram através dos tem- 
pos, escreve: 

tO alferes morreu hontem, o alcaide agonisa e 



^ E. Cilderon. Dt la milicia de los arahea. — Bev. MU. de Ma- 
drid, torno Yiii. 

* Ribéra Tarragó. Oríg. dd Judicia, pag. 67. 

' Partida 2.% tit. 30, e Código Alfons., liv. v/tit. 49. 

^ Lafuente. Hist dt En>., tomo iy, pag. 120. 

^ Coram aluaxilibus ueljudieibuê. PorL Món. Leges., pag. 192. 

• Ribéra Tarragó. Orig. dei JutUcia, pag. 67. 



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se perderá amanhã * ; o alcaide, e o aguazi! permane- 
cem ainda com signaes de uma longa vida; porém, 
todos elles, como cantos rolados que a torrente dos 
séculos vae arrastando, permanecem no leito dos 
rios ; uns nas margens, limados pelo atricto, outros 
no fundo, acrescidos pelo contacto ; e hoje o obser- 
vador superficial mal se apercebe da relação de 
identidade que existe entre o abandonado seixo da 
margem e os elevados penhascos da cumiada, de 
onde as commoçoes da tempestade o empurraram 
para o valle». 

E accrescenta n'outra passagem : 

«A coincidência dos termos aguazil e almogá- 
var ainda se podia duvidar se obedecia á casuali- 
dade ou ao capricho da sorte ; mas que appareçam 
na organisação do reino (de Ai-agão) o alcaide, o 
alferes, o adail, o almogávar, o almoxarife, o zal< 
medina, o mustaçafe, o alvazil e o almotalefe, e 
em Castella, sujeitos a igual género de influencia, 
alem de todos estes, o zabazoque e o almocadem, 
cora os mesmos nomes e idênticas attribuições, prova 
é tão cabal do contrario que deve ser acceite por 
todos que tenham uso de rasão*». 

De todo o serviço militar o mais nobre era o 
da fronteira, onde a presença do inimigo, os cons- 
tantes sobresaltos ou as repetidas incursões no 
seu território o tornavam um encargo pesado, 
Quasi que era necessário renimciar a toda outra 
occupaçào, e assim se converteu n'uma espécie 
de apostolado militar, dando origem aos morabi- 
tas. A religião da fé dava as mãos á religião das 
armas. 

Ha mesmo quem faça derivar d'ahi a origem 



^ Km Portugal deu-se o contrario; existe ainda o alferes^ dcB- 
appareceu o alcaide. 

2 Ribera Tarragó. Ori^. dei Jnsticia, pag. 189 e 359. 



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das ordens militares christâs, que tiveram também 
de preferencia a guarda da fronteira. Eram os ra- 
hitas uma espécie de conventos-quai*teis estabeleci- 
dos na fronteira ou nas costas para combater os 
infiéis, e ali ganhavam a vida futura homens vota- 
dos á religião e ás armas, contra aá algaras dos 
almogávares e campeadores christSos^ A nossa 
Arrábida traz d'ahi a origem, como Rebat, em Mar- 
rocos, de um rabita que ali se fundou contra os 
attaques dos christaos. D'ahi o nome de almorávi- 
da, isto é, o que habita a rábita, em francez mara- 
hout. Lafuente, informa que o Califa de Córdova, 
Hixeme UI, em 1026, c fomentou muito a institui- 
ção das rabitas, núcleo sagrado dos musulmanos, 
dedicados voluntariamente ao serviço das armas 
e a defender constantemente a fronteira contra os 
almogávares christaos, origem, segundo muitos 
crêem, das ordens militares christâs^». 

Eábata, significava entre os musulmanos pro- 
priamente a vida sobresaltada das fronteii'a8, vida 
cheia de perigos, vivida sobre as armas, e consa- 
grada exclusivamente á defeza do pais. 

Baseado na opiniSío de Máleque, que reputa ser o 
mais auctorisado commentarista árabe, diz Esteba- 
nez Calderon que as seguintes cousas eram indis- 
pensáveis para entrar em rábata: — vocação deci- 
dida, provisões, armas, cavallos e ai>etrechos, e 
postos fortificados ^ «Um dia de rábata, àh o Al- 
corão, vale njais no caminho de Deus do que todo 
o mundo e quanto n'elle existe». 

As tropas e chefes destinados á defeza das frontei- 
ras eram dos mais aptos e escolhidos, concedendo- 



* Almirante. Dic. MiL, voe. Táctica. 

2 Lafuente. Hist. de Esp., torno iv, pag. 12(). 

3 Est. Calderon. De la milícia de Ioh árabes. 



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133 

se-lhes regalias especiaes. Na permanente lucta en- 
tre os povos vizinhos e contrários, as fronteiras 
oscillavam constantemente, no periodo violento da 
Reconquista. De modo que, tse o christão dava 
rebate sobre um determinado logar, ali era a fron- 
teira durante 70 annos; se repetiam o rebate, pas- 
sava a ser fronteira durante 120 annos; se os reba- 
tes excediam esse numero ficava, sendo fronteira 
para sempre, até ao dia de juizo» ; tal era a opinião 
de Sofiane; e Zafar, baseado na opinião de Abul- 
cáceme e outros tradicionistas árabes, diz que deve 
entender-se por fronteira o que t para traz só tem 
gente de paz e musulmanos « • 

Quando tratámos dos imlísy vimos quaes os re- 
quisitos exigidos nos que eram encarregados da 
defeza das fronteiras. Alem do que ficou dito, cum- 
pría-lhes attender a tudo que respeitava a abaste- 
cimentos e aprestos, cavallos e bagagens para a 
guerra, cuidar dos pontos fortificados, do estipen- 
dio aos adaís e exploradores, reforçar com gente 
nova as fileiras, adestrar o soldado no manejo das 
armas e nos exercicios a cavallo, etc. A justiça alli 
tinha de ser mais austera e mais escioipulosa ; as 
tropas dispunham de alojamentos próprios, e, de 
espaço a espaço, havia na fronteira adaís, ou che- 
fes de confiança, todos mussulmanos, que se ser- 
viam de infiéis, isto é, de pessoas de differente re- 
ligião, taes como christãos e judeus, para o mister 
de espiões; d'este deshonroso officio eram escru- 
pulosamente excluidos os musulmanos. Taes são 
as informações de Bemazil ^ 

E era na peninsula ibérica, no Andaluz, que esse no Andaiaz. 
serviço do rábatd assumia maior importância^ na- 
turalmente na epocha da Reconquista, porque se 
vivia em perenne guerra, e segundo uma tradição 

* Est. Calderon. De la mlicia de los árabes, pag. 283 a 285. 



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134 



antiga t o melhor rábata sobre a face da terra era 
no Andaluz, onde o inimigo estava ao nascente, 
ao poente, ao norte e ao sul; por isso, alli, um dia 
de peleja e de rábata era mais enaltecido 'e mais 
meritório do que dois annos em qualquer outra 
fronteira *». 



o cavaiio. O cavallo foi scmprc para o árabe um objecto 

de maior cuidado e estimação; prescrevendo que o 
paraiso estava reservado a quem bem tratasse o 
cavallo, o Propheta preparou o advento e a propa- 
gação do melhor cavallo de guerra do mundo, foros 
que ainda hoje conserva. 

Para crear o cavallo. Deus disse ao vento: — 
«Vou fazer sair do teu ventre um ser vivo; con- 
densa-te!i D'ahi, o chamarem os árabes ao cavallo 
uma cave sem azas». 

Na sua maneira peculiar de combater, as condi- 
ções essenciaes do cavallo eram a ligeireza e a velo- 
cidade. 

O Alcorão qualifica o cavallo «o bem por excel- 
lencia», o que levou os commentadores das Siiras 
a concluir que um árabe « ama o cavallo como uma 
parte do seu próprio coração e sacrifica, para o 
manter, até o alimento dos seus filhos •• 

Ao cuidado e carinho pelo cavallo, juntava-se 
uma educação muito especial, constituindo-o, se 
pôde dizer, na principal arma de guerra, 
o pefto. Comquanto os árabes tivessem em grande esti- 

mação a cavallaria, numerosa e forte era nos seus 
exércitos a infanteria, havendo mesmo epochas 
em que lhes mereceu uma grande consideração. 

2 Est. Calderon. De la milicia de las árabes. 



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135 



Era o alimogávaf o soldado de infanteria por 
excellencia, e continuou a sel-o entre os christãos 
da Keconquista. 

Foi a partir de Amer, na sua expedição ao 
Egypto, que a cavallaria tomou uma organisação 
a vfder, á imitação dos gregos, em cujos livros, 
mandados traduzir expressamente, se colhiam, 
para serem convenientemente adoptados, os me- 
lhores preceitos da milicia. 

A não ser na fronteira, onde se vivia com as Tropas. 
armas na mão, finda a guerra, as tropas recolhiam 
aos seus trabalhos ruraes ou officios livres, ficando 
apenas em exercicio o núcleo de soldados pagos 
que representavam o effectivo na paz, alem da 
guarda do corpo do Califa, que houve tempo foi 
de 600 homens. Para sustentáculo dos califas e 
dos principaes chefes também se organisaram tro- 
pas com escravos armados, como no tempo dos 
Fatimitas e Aiubitas, e com mercenários contra 
tados no estrangeiro, como succedeu na época dos 
Omáiadas e Abácidas, tendo estes sido a segurança 
e salvação d'aquellas auctoridades, pelo que tive- 
ram o nome pomposo de sustentáculos dos Califas. 
Almotácem-Bem-Raxide constituia a sua guarda 
com mancebos apenas na puberdade, tirados das 
populações subjugadas; e taes foram os privilégios 
que lhes concedeu que perturbações graves se 
produziram. 

Isto informa um escriptor militar hespanhol que 
diz basear-se n'um manuscripto árabe, inédito, o 
qual promettia publicar traduzido: não sabemos 
se chegou a cumprir a promessa*. 

Segundo esse códice árabe foi Amer Benalcre- ®'*^^**- 
tabe quem primeiro arrolou os nomes dos seus 
soldados, pagando-lhes um soldo. Aos chefes das 

1 Coronel Perez de Castro. Estttdioa Militares, etc., Madrid, 1872. 



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136 



Aride. 



grandes unidades e governadores de praça pagava- 
Ihes 7:000 dirliemes, tendo-os o califa Otmane ele- 
vado a 10:000. 

Quando as necessidades do thesouro obrigaram 
ou a diminuir os soldos, ou a deixar de os pagar 
uns mezes, como no tempo dos Abá- 
cidas, deram-se motins e revoltas; 
assim succedeu a Álmotácem, por ter 
cortado ao exercito três mezes de ven- 
cimento no anno, e a Amine por o ter 
licenceado. Os soldos eram recebidos 
diariamente ou aos mezes, na presença 
dos califas e dos emires. Dava-se ás 
tropas uma gratificação especial 
quando iam em expedição a teiTas 
inimigas, ou por occasião do advento 
de um novo califa; jdus se chamava 
Pig.i-Aifange essa gratificação. 

AHcle era o titulo do empregado de fazenda en- 
carregado de verificar o numero de individues que 
compunham o exercito, porque succedia muitas 
vezes que os emires apresentavam relações con- 
tendo um numero superior ao effectivo real *. 



Armamento. 



O armamento principal consistia, para as armas 
offensivas, na espada ou sabre, na maça, na lança, 
no punhal recurvo ou gomia^ na almarada, na aza- 
gaia^ e no tarasebte, armas de arremesso ; no arco 
e flecha, com o respectivo carcaz, e nos instru- 
mentos polyorceticos, nos quaes tinham grande 
applicação as substancias incendiarias. 



1 Perez de Castro. Eatudioa MilUares, pag. 57 e 58. 



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137 

Darante o domínio dos musulmanos na península 
armamento d'este8 padeceu varias modificações, 
dando-se mesmo o facto de muitas armas e processos 
de guerra dos christàos terem sido adoptados pelos . 
árabes^ ao passo que d'estes adoptávamos também 
muitos, no sentido do aligeiramento e das manobras 
mais rápidas. 

Descrevendo a batalha de Guadalete, dá Alma- Em Guadaiote. 
cari noticia das armas que então usavam os in- 
vasores : 

«Chegou o rei Rodrigo, trazido sobre um throno, 
e tendo ])or sobre a cabeça um docel 
de variadas cores que o resguardava 
do sol; vinha rodeado de guerreiros, 
cingidos em aço brilhante, com pen- 
dões ao vento, e grande profusão de 
bandeiras e estandartes. Os homens 
de Tarique estavam apparelhados de 
modo differente : tinham os peitos co- 
bertos de amezes de malha, traziam 
turbantes brancos na cabeça, os arcos 
pendentes nas costas, as espadas sus- 
pensas dos cinturões e longas lanças, 
seguras na mão com firmeza * • . *'**»• * - cimiurr» 

De diversas fontes colhemos noticias mais com- 
pletas sobre o armamento dos árabes. 

Entre as espadas tinha o nome de alfange (fig, 1) Aifaaaro. 
unia espada de folha larga, curta, curva e de um 
só gume, e o de cimitarra (fig. 2)* a que tinha a 
folha também larga, que mais alargava na ponta, 
e era curva também ; o yatagan, de que temos um 

* Gayangos. Almacari, tomo i, liv. iv. 

2 Cesó el moro v muy gallardo 
Miro á to ias las caras, 
Y con soberbio desnuedo 
Empuuó Ia cimitarra, 

KOMANCEUO GUKEBAL. 



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138 



exemplar curioso na estampa i, são armas ainda 
em uso entre os orientaes. 
£ipad«8. As espadas eram também rectas, e usadas com 

bainha (fig, 3) ou sem ella, suspensas de um cin- 
turão, hendy ou de um cordão de seda 
que passava sobre o hombro em forma 
de bandoleira. 

Vimos já que os nomes das espadas 
vinham da sua proveniência, como a es- 
pada iamaní (do lamen), indica (da ín- 
dia), damasquina (de Damasco), egypcia, 
franca ou earopéa; tiravam-o também da 
sua forma, e da sua nitidez, provindo 
doesta ultima rasão a chamada espada 
branca, de onde talvez a nossa denomi- 
nação de arma branca. 
rig. 8-Eipad» Qu® 9- espada indiana era muito esti- 
com bainha mada, dcduz-sc do que no seu poema, 
consagrado a Texufin, filho do califa Ali-bem-Iúçufe, 
diz o poeta peninsular do século xu, Abu Becre 
Acirafe: «Pega n*uma espada indiana de lamina 
delgada; é mais cortante, e melhor penetra nas 
couraças • . 
Eigríma. Vimos também como os tratados de guerra 

mostram o cuidado especial que se votava á es- 
grima da lança, a pé e a cavallo. 

Ao punho da espada chamavam arriásy de onde 
o nosso antigo arrial ou arriei, com a mesma signi- 
ficação*. 

A habilidade no jogo do alfange ia ao extremo de, 

com a ponta d^elle, cortarem o atilho de um sacco, 

cheio de areia, sem ferirem o sacco^. 

Lanças. A lauça tíuha o ferro com formas diversissimas, 

e era mais leve que a dos christãos, em consequen- 



* Almirante. Dic, MilU., voe. Arrial e Arriaz. 
2 Perez de Castro. Estadias MUit, pag. 65. 



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k: 

^ 
^ 



"^ 



IMaittpftl 



I«tefu BodOTBo, ms d« Hégira — (Da ooltoeçio do Dr. Telzali» <U Ar«cio) 



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139 



cia do caracter ligeiro da sua cavallaria. Esta 
usava no ferro da lança uma bandeirola (fig. 4) 
ou um pequeno penacho de crinas de 
varias cores. Dos botes e guardas espe- 
ciaes de que se serviam na esgrima da 
lança, vimos já referidos alguns no tra- 
tado militar esQprialense de que atrás 
demos noticia. 

A lança era também arremessada 
para incendiar (fig. 5), tendo presa no 
ferro uma capsula de nafta (fig. 6). 

A gomía, ou adaga mourisca, tinha 
a folha um tanto curva, larga, com 
dois gumes e o punho sem guardas 

Almarada se chamava a um pequeno 
punhal agudo, de secção triangular e 
com corte, ao qual alguns, diz Santa 
Rosa de Viterbo, chamavam tfaca de 
fouce», por ser torta para dentro *. 

A azagaia era o nome mouro de uma 
pequena lança (fig. 8) (pilo, dardo, ve- 
nábulo, azcuna, lhe chamaram em di- Fig4-Lanç*com 
versas epochas e entre os diversos po- ^andeirou 
vos que estiveram entre nós). Era arremeçada á mão 
e com tal effeito que La Crónica de Alf. XI falia de 
um mouro Alicazar que deu no adversário com uma 
azagaia t et dióle por los pechos et pasóle un lori- 
gon e un gambaj que traia, e saliole el fierro a las 
espaldas». A forma dos seus ferros também variava. 
De todas as armas de haste era a mais comprida e 
leve, tendo algumas quatro metros de comprido*. 



Qomia. 



Almarada. 



Aaagaia. 



* Viterbo. Elucidário, voe. Âgomia. 

2 D. Mariano Rubió j Bellvé. Dicc, de ciências fnilitaret, tomo i, 
voe. Azagaya. 



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140 



Gosgas. 



Taraiebtc. 



Arco. 




Settaa. 



Segundo Florian de Campo, gorguz chamavam os 
mouros á azagaya, o que é confirmado pela asser- 
ção de outros escriptores *. 

Tarasebte era o nome de uma outra 
lança, também de arremessar. 

O arco de mão para despedir flechas, 
quebade (fig. 9), era feito de três peças li- 
gadas com tendões de animaes e n'uma só 
curva. Usava-se também para isso o bam- 
bu, a madeira e uma gomma especial elás- 
tica, formada de resina extrahida por meio 
de incisões feitas na arvore chamada neba^ e 
misturada com vinagre de Syria, raspa de 
veado, o que tudo constituía uma massa 
que, envolta em tendões de animaes, ficava 
com uma consistência superior á da ma- 
deira. As cordas d'este arco eram de seda, 
algodão, tiras de pelle ou tripa. 

Segundo o testemunho de Al m acari, 
• primitivamente o ligeiro arco usado pe- 
los árabes e que elles chamavam cauçala- 
'incendiar" ;»rt6; difcria da bésta dos christãos*». 
A bésta, porém, foi por elles adoptada. 

O árabe, alem de excellente cavalleiro, era um 
arqueiro de primeira ordem e como tal recratado 
até nos exércitos christãos ^. 

A flecha ou setta, ceáine ou 7iivél (fig, 10), era pri- 
meiramente de canna, bambiS, ou madeira, e depois 



Fig. 5 
Lança para 



1 Florian de Campo. Crónica^ liv. iv . — Mendoza. G. de Granada^ 
pag. 82. 

2 «The liffht bow formerly used by tke arabs, and wich they 
called kau9u-P'arahj was diffeVent from the cros-bow of the Chris- 
tians.» P. Gayangos. Hist. of the Mah, Dyn.^ tomo i, liv. iv, pag. 5. 

3 Em toda a Feninsula christã, tanto nos reinos de Aragão e 
Castella, como no de Portagal, os mouros se empregaram nao só 
como cavalleiros, em que eram dextros, mas como arqueiros peões, 
exímios na certeza do tiro, ou armados de lança, espada e rodela. 
Vid. Estebanez Calderon. De los sold, almogavares. JLa aevista Militar , 
tomo IV. 



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141 

de ferro, e havia-as de diversas espécies ; a persa, 

de madeira, chamada nexabe, a seni barbas, a dos 

dentes de serpente; a que ia presa a um cordel para 

a rehaverem; a que levava presa no 

ferro um escripto com uma ordem, 

aviso, ou um objecto qualquer, como 

signal; a incendiaria que podia ser 

ou simples, levando apenas presa ao 

ferro a nafta em tubos ou capsulas rig.s 

1 • /• 1, 1 1 • Capsnlit de nafta 

de coiro ou feltro, ou a chamada je- 
rida, muito maior, lançada por meio da besta, e 
que, alem do fogo grecisco, levava preso no ferro 
um cartucho de couro, ou de cana, como nos fo- 
guetes, ao qual, antes de partir, se lançava fogo 
por meio de uma mecha, e que a meio caminho, 
incendiando-se, dava impulso ao projéctil, sup- 
prindo a força que lhe ia faltando do impulso 
inicial ^ 

A verdadeira flecha era uma arma muito leve ^ oHroãa% 
bem direita, que se disparava com estrema 
facilidade e acertava a grandes distancias, 
ao contrario do quadrello da besta, de car- 
regamento lento e de pequeno alcance, com- 
quanto muito penetrante e solido. O tiro do 
arco era curvo, em parábola, para cair so- 
bre o inimigo, evitando o escudo, ou obliquo, 
para ir ferir o peito ou o ventre dos cavai- 
los. E por tal fóima se repetia que os chro- 
nistas o comparavam a nuvens de moscas, ^ ^ 
ao graniso, á chuva que obumbrava o céu «o"»ia 
antes de cair sobre a teiTa, «frechadas de arcos 
torquies que eram tam espesas que tolhiam o sol '» • 

Havia arqueiros não só a pé, mas a cavallo, como, AniaeirM. 
por exemplo, o corpo que na batalha de Elvira 



1 Almirante. Dicc. MUU., voe. Aljava. 

2 Fort, Monumenta. — Eêcríp., pag. 186 



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142 



Aljava. 



Carcas. 



Ornamentes. 



Besta. 



Armas defcnii- 
vas. 



Casco. 



oppoz Bensaíde a outro da cavallaria christa*; e 
de besteiros árabes se serviram como auxiliai-es 
D. Jayme de Aragão, na conquista de Valência, e 
D. Pedro III de Castella *, e nós, em muitos lances. 
As flechas iam dentro de uma aljava (fig. 11), 
bolsa de madeira ou coiro, com os respectivos ca- 
chuchos ou cânulos onde se mettia a flecha. 

Ha quem attribua origem árabe ou persa á pala- 
vra cavcaz, que era também onde se leva- 
vam as flechas ^. 

Estabeleciam-se prémios aos que melhor 
atirassem ao arco. 

Nas armas, principalmente nas espadas, 
punhaes, escudos e capacetes, punham ás 
vezes um grande esmero de ornamentação, 
, com incrustações de ouro e prata, engastes 
Éh em pedras preciosas, etc, havendo na pe- 
^m ninsula fabricas de armas tao perfeitas no 
H trabalho como as de Damasco, de onde vem a 
I palavra damasguinadas. Taes eram as fabri- 
cas de Toledo, Murcia, Córdova e Saragoça. 
Também usaram a bésfa^ mais leve que 
a dos christãos, (fig. 1 2). 

Das armas próprias para ataque e defeza 
de fortalezas, fallaremos quando tratarmos 
da fortificação entre os árabes. 

As armas defensivas eram o mon'iao, o 
magfavy a loriga, o arnez, a zardia, a alga- 
lota, a darca ou escudo, o hohite, etc. 

O capacete ou morrião tinha diversas fór- 
^"*^**' mas, (fig. 13, 14, 15 e 16 e estampa n), 
havendo-os de metal, ricamente encrustados ou cra- 
vejados de pedraria, como o de Boabdil, por exem- 



Flg. 8 



* Gayangos. Almccavi, tomo ii, liv. viii, cap. v. 
2 Bibera y Tarragó. Él Orig. da Jusíida, pag. 9. 
' Rubió y Bellvé. Díc. de cien. mi/., voe. Cracax. 



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BaUmpan 



OapAMte ârabt ^ (Dm ooUmçIo de Soa MiOMtftd* El-Rel) 



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143 



pio, que a Hespanha ainda lioje conserva; geral- 
mente, porém, tinha a forma semi-esplierica ou 
cónica, tendo por cimeira uma ponta aguda. Era 
dourado o casco do rei de Granada na batalha do 
Salado *. 

Havia-os de coiro de búfalo ou de boi, e de ferrp, 
sendo em volta d'elles que se enrolava o turbante; 
alguns tinham, para resguardar a nuca, o pescoço, 
e os hombros, uma rede de malha pendente, 

O mojTião^ segundo opiniões auctorisa- ^ worriao. 
das, é de orgem oriental ou africana, e foi 
muito usado pelos árabes ^. 

O turbante não era do uso de todos os ^\ Turbante. 
musulmanos, e, na peninsula houve tribus 
que o traziam como distinctivo de honra- 
ria, e outras nSo; assim, conta Bensaíde, 
que o turbante era usado n^umas provin- 
cias e n'outras não, e segundo a posição 
social dos individues; mesmo na Andalu- 
zia, onde faziam differença da Ásia em 
certos pontos, e em Valência e Murcia, 
andavam de cabeça descoberta, mesmo as 
pessoas de consideração, e tanto os solda- 
dos como os ofíiciaes, emquanto que em 
Córdova e Sevilha todos usavam turbante. 
Segundo Dozy as tropas não traziam tur- 
bantes em Hespanha ^. 

N'aquellas provincias era uzo o cabello curto e 
barretes de lã, até nos próprios ulemas e cadis, an- 
dando todos de aljuba ou taildsan; as pessoas gra- 



PlfiT. 9 
Qaebade 

(areo) 



* Llegó coutra el Salado 
El rrey moro de Granada, 
Bu bacínete dorado, 
£n Ia mano su espada. 

Poema de Alfonbo Onceno. 

2 Almirante. Dicc, MiL, voe. Morrion. 
5 D027. Dict, dt8 vét. des arab. 



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Zardia. 



Almafro. 




das enfiavam o capuz na cabeça* O oraxe ou tela 
do turbante era de simples tecido de linho ou al- 
godão, ou de tecidos de ouro e prata. 

O turbante era raramente usado pelos árabes no 
exercito, na Peninsula, segundo se pôde 
deduzir da seguinte passagem árabe ci- 
tada por Dozy : «Em seguida, tendo ten- 
ção de fazer guerra aos infiéis, Hixame 
lhe ordenou que elle, e todo o exercito, 
usasse o turbante. Assim o fez, e o exer- 
cito saiu de cidade levando turbantes; 
era um espectáculo infame, por ser con- 
trario ao uzo*». 
ceámê^ôtt^BiTei Como arma defensiva da cabeça havia 
^"^^*^ ainda o magfar (fig. 17), de onde derivou 
o nosso ahnofavy espécie de coifa de malha que 
cingia a cabeça toda, deixando apenas descoberto 
o rosto. Sobre o magfar se coUocava o casco, e 
comquanto fosse ás vezes uma peça in- 
dependente encarregada de guardar a 
cabeça e os hombros, fazia, em geral, 
parte da Zardia. 

Zardia (fig. 18) se chamava uma 
espécie de camisa de tecido de malha 
de ferro, até aos joelhos, com mangas 
até ao punho*. 
Fig. 11 -Aljava rp^^ ^^^^ ^ aspccto dc scr de origem 

árabe o almafre dos nossos antigos, destinado a 
proteger a cabeça, o que na nossa opinião é o mes- 
mo que almofar, e até modificação d'esta mesma 
palavra. Santa Rosa de Viterbo chama-lhe errada- 
mente morrião, elmo, capacete de aço ou de ferro, o 
que não pôde deduzir da própria citação da chro- 




1 Nowairi. EisU de Esp, cit. de Dozy. Dic. de$ noms des vet. deê 
árabes, pag. 306. 

» Perez de Castro. Ob. cU., pag. 68. 



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145 



Jornaa. 



Alpatraz. 



uica de D. Pedro I que apresenta, e onde se diz, 
«loriga com seu almafre * * . 

Joniua se chamava a cota de 
malha brunida*; dahi proveiu, já 
modificada no sentido, a nossa 
jornea. 

Era de origem árabe também 
o alpartaZy espécie de coUete de 
malha até á cintura que se usava 
por baixo do arnez ; foi adoptado 
pelos cbristãos ^. Para nao moles- 
tar o corpo vestiam a loriga ou 
couraça sobre o behnez * almofa- 
dado, chamado também Rambaz 
ou Rambah, de onde proveiu o 
nosso Gambax ou Gainbazj que era uma espécie 
de perpwnto. 

No Oriente Cazaghend se chamava ao gambaz, caraghend. 
dando na Europa origem ao gazigan que signifi- 
cava idêntica peça de vestuário guer- 
reiro; era também usado sobre a cota 
de malha ou zardia, que ali tinha o 
nome de ielba *. 

O poeta árabe do século xn, natu- 
ral de Hespanha, Abu Becre Açarafi, 
atrás referido, deixou-nos o nome de pig.i3-cap*c«te 



Fig.lS — BétU 




CotM de malba. 



1 «El Rei accrescentou ás moradias de 65 libras, que os cassai- 
los tinham d^antes, mais dez, que eram quinze dobras Mouriscas, e 
que por esta quantia havia de ter o vassallo um bom cavallo de 
accommetter, e loriga com seu almafre». Ch, d^El-Bei D, Fedro I, 
cap. ziu. 

2 Conde de Clonard. Hid. de la inf. esp., tomo i, pa^. 433. 

3 Almirante. Dic. Mil., voe. Alpartaz. — Alfredo RuBió e Belvé. 
Dic. de loa cita, mil. 

* Oa Vdmez. — aVelmeces, vestidos para sufrir las guarnizones.» 
Poema dei dd. 

^ « Arrivé au poste occupé par El-Malek-ed-Daher, je le tronva 
snr une colline prés de la mer, avec la garde avancée. II dormait 
revê tu de sa cotte de mailles (yelba)^ convert de sa casaque onatée 
(cazaghend) et tout prepare pour le combat«. — Beba-ed-Din, cit. por 
Delpech. 06. ciV., tomo ii. 2.* P., cap. ii. 



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146 

um famoso fabricante de malhas de ferro de lamen, 
Tobba: «Cinge uma d'essas duplas cotas de malha 
que Tobba, o hábil fabricante, legou aos vindou- 
ros*». 

A imitação dos orientaes attribuem alguns a 
adopção na Europa das armaduras inteiriças*, pois 
emquanto entre nós se usava apenas 
as defezas de tecidos de malha, os ára- 
bes serviam-se da couraça de ferro, 
brunida e muitas vezes tauxiadas de 
ouro, prata ou madrepérola. Não é 
bem assim. As luctas com os árabes, 
piff. u -Morruo tauto uo Orieutc, como em Hespanha, 
levaram os christãos a aligeirar as suaâ pesadas ar- 
maduras, e até a comprar aos árabes os seus teci- 
dos de malha ^. 

A couraça era geralmente defeza do busto hu- 
mano (fig. 19 e 20), sendo os braços 
guardadas por mangas de malha de 
ferro da musca (fig. 21), espécie de 
camisa que na parte que cobria o 
corpo era apenas de panno. 

A defeza do pescoço se chamava 

Botttto. Fig.lô-Cpaccte J^^^/^ç (fjg, 22). 

ouanie. O Quante, luva de malha para defender a mão, 

é igualmente nome árabe*. 

Também a cota de armas, que só no século xiv 

* Ibn Kaldum, Prologom, parte ii. 

2 No Panorama, tomo i, em artigo que alguns attribuem a Her- 
culano, vem esta asserção. 

3 «On commença par préferer aux lourds liauberts d*£urope les 
fins tissus de mailles que fabriquaient les Oricntaux. Les chréticns 
en dópouillèrent d*abord leurs adversaires sur le cLamps de ba- 
taille pour s^en revêtir. .. Mais une reesource aussi aléatoire que 
Ic pillage des champs de bataille ne pouvait pas suffire à Téqnipe- 
ment d*unc armée. Pour le compléter, Ics chrétiens ouvrinmt des 
relations commerciales avec les fabriaues d^arroures musulmanes 
et devinrent leurs meilleurs cliente». 11. Delpcch. La tactique au 
XIII* sihc.f tomo II, pag. 179. 

* Dozy. Dicí, d€$ noms des vttm. des arab., pag. 364. 



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147 



foi adoptada entre nós, por imitação, era já de uso 
entre os árabes; chamava-se algalofa, (fig. 23) eAigaiot». 
n'ella bordavam ou pintavam os nobres 
emblemas e distinctivos de qualquer 
espécie. 

Darca ou darga, de onde veiu a nossa Darca. 

adargay era o escudo, que tinha muitas j 
formas (fig. 24, 25 e 26), feito de ner- , 
vos de boi, pelle de búfalo, cannas de 
bambu, madeira, concha de tartaruga, 
ferro, consoante as epochas. 

Tinha em geral a forma de coração,"* '^~^""**" 
ou a forma oval; e para a infanteria ligeira era ás 
vezes a única arma defensiva: «et non traen arma- 
dura ninguna (los moros)» diz o in- 
fante D. Juan Manuel*. D. Francisco 
Danvila y CoUado, citando um ma- 
nuscripto portuguez do século xi, diz 
que alH viu dois mouros vencidos por 
Santhiago que trazem no braço escu- 
dos em forma de amêndoa como os 
visigodos, e o mesmo escriptor opina ^^fi^^^-^^fif*^»' 
que as adargas procedem de Africa e vieram á pe- 
nínsula com as tribus berbericas que faziam parte 
dos exércitos invasores de Tarique — 

e Muça *. 

Tomava o nome de hacaA, a adarga 
quando coberta de couro de boi; da 
mesma origem do nosso vacarí, que si- 1 

gnificava a mesma cousa, como se vê, 
por exemplo, nos foraes de 1). Ma- 
nuel ^^ Fig. 18-Zârdia 

^ Infante D. Juan Manoel. Lib. de loa Est. 

^ D. Francisco Danvila e Collado. Trajes y armas de los espan., 
pag. 137. 

3 «Vacaria, que sâo couros de bois e vacas.» — Foral de S. Fina. 
de Paiva, de 1513. «E outro tanto de carga de couros vacarÍ8».Doc. 
das Salzedas, cit. no Elucidário de Viterbo. 



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148 




Flg.lO— Conraça 



A interessante obra Museu Militar do escriptor 
^*j;SJ'/** '^^^ hespanhol sr. Barado, traz duas figuras de solda- 
dos árabes, reproduzidas do Apocn- 
lyi)se de Gerona- A primeira repre- 
senta um soldado a pé; o seu traje 
é umeijobba ou aljuba branca com 
mangas justas, e cingida na cinta 
por uma faixa, sapatos de couro, 
um casco de ferro batido, sem ci- 
meira nem viseira, um escudo rombo, espada di- 
i-eita de duas mãos (fig. 27). A segunda representa 
um soldado de cavallaria, sem es- 
tribos, armado de lança e natuitJ- 
mente de alfanje ou sabre, que deve 
pender-lhe do lado esquerdo; sobre 
a aljuba um peito de ferro, sem man- 
gas, calção, sapatos de couro, casco 
seguro com uma barbella e cingido 
Mg. 20 -Couraça ^^^ xoxe, quc tcm uma das pontas 

pendentes sobre as costas. 

Nos jaezes do cavallo punham também todo o 
esmero e cuidado, tendoa sella (fig. 28), 
o acicate ou espora (fig. 29), o estribo 
(fig. 30), a cabeçada (fig. 31), formas 
especiaes que se perpetuaram na penín- 
sula. 

São curiosos os modelos dos estribos 
e do acicate árabes do museu do dr. Tei- 
xeira de Aragão, que mandámos expres- 
Yig. 2i-Mu«a sãmente desenhar (fig. 32 e 33). 

Dos instrumentos musicaes empregados na 
guerra pelos mouros falia o seguinte trecho da 
descripção da batalha do Salado, do No- 
biliário attribuido ao conde D. Pedro : 
«Os mouros refrescauam-se cada vez 
pig.22-Botutej^j^yg Q jj^j^jg ^^g q^ç estauam folgados. 

£ os gintos deles e das trombas e anafis e daltan- 



Jaezes. 




Instramentos de 
musica. 




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149 



caras e atanaques e gaitas asi reteniam que parecia 
que as montanhas se arreygauam a todas partes^». 

Usavam também chirimias (fig. 34 
e 35), tambores e atabales (fig. 36 
e 37): 

MoroB estauan tanniendo 
Atabales marroquiles, 
De la otra rrespondiendo 
Tronpas com annafíles^. 

Como era natural, porém, tam- 
bém os árabes pelo seu lado imita- ^^* w-Aigaiou 
ram dos chrístãos alguns instrumentos músicos, 
e não só estes, mas vestimentas^, armas e arreios 
de cavallo *. 



Quanto a armas de fogo e á pólvora, parece Amas do fogo. 
ser ponto incontroverso que os árabes 
as conheceram antes dos christaos e 
que estes as adoptaram d'aquelles, 
vindo depois a aperfeiçoal-as rapida- 
mente. 

Depositários, transmissores dos pro- 
gressos do velho Oriente, da China 
receberam os árabes directamente, 
ou indirectamente pelos mongóes, o Fig.24-Darg» 



* Portugália Monumenta. — EacripL — Liv. de Linhagem, pag. 187. 

2 PfHíma de Affonso Onceno. 

3 a£a Espagne, les árabes, surtout peudant la dernière epoche 
de leur imçire, tirèrent un três grand parti du costume des cneva- 
liera chrétiens. Ibn Said atteste expressément que les kabas des 
árabes d*£8pagDe ressemblaient à ceux des chrétiens, et rhistorien 
Ibn-al Khâtib dit, en parlant de Mahommed-ibn-8ad-ibn Moham- 
med-ibn Ahmed-ibn Mardanisch, qui moarut dana la secoode moitié 
da sixième siècle de Thégire: «11 adopta la mode des chrétiens, 
pour les habits, les armes, y les brides et les selles de chevaux». — 
Dozy. Dict. des nom$ du vetementa chez lea árabes. — Préface, 

* Dozy entende aue as palavras cajpote, sayo e outras, foram pelos 
árabes adoptadas aos christaos de llespanha. Dict. des noms des 
velem, des arab. 




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150 




Fogo greclsco. 



N«ft«. 



SetUtc de fogo. 




O fogo greclsco 
o OB árabes. 



conhecimento dó salitre, o hamãe, ao qual chama- 
vam no Egypto neve da Chinoy e sal da China na 
Pérsia * ; d'ahi proveiu a composição das substan- 
cias incendiarias de diversas composições, que pas- 
saram a empregar-se na guerra, sem comtudo lhe 
aproveitarem a força impulsiva. 

Entre os árabes, dizem Reinaud e Favé, o fogo, 
considerado como meio de ferir directamente o ini- 
migo, tornara-se o agente principal 
do ataque, e serviam -se d"elie talvez 
de um cento de maneiras diversas "• 
Foi o que teve nas chronicas o 
nome genérico de fogo greciscoy que 
tanto figurou desde a século vii nas 
F!g.25-Darga gucnas da Rcconquista e nas Cru- 
zadas, mas que se diflferençava muito dos prepara- 
dos chimicos usados anterior e posteriormente. 

Uma substancia inflammavel muito em voga foi a 
nafta, producto mineral abundante na Ásia, que 
era arremessado por meio de flechas, maças, mar- 
mitas, etc. (fig. 38, 39 e 40). 

As settas para arremessar fogo também tinham 
o seu carcaz próprio (fig. 41). São interessantes 
n'este particular as figuras, tiradas de 
um manuscripto árabe, que illustram 
o livro de Reinaud e Favé. 

Dado o grau de desenvolvimento a 
que entre os árabes haviam chegado 
os conhecimentos sobre a chimica e a 
Fig.26-Darga botanica, para O que [bastaj conhecer 
o diccionario de Benalbeitar (de onde proveiu o 
nosso alveitar), natural de Málaga, fácil é compre- 
hender o partido que d^esses conhecimentos elles 
tirariam na guerra. 

1 Benalbeitar — cit. por^^Reioaud et Favé. Du ftu ^gregeois, 
cap. I. 

2 Keinaud et Favé. Du feu gregeots, pag. 51. 




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Diz-se porém, nao sabemos com que funda- 
mento, que a substancia incendiaria conhecida na 
Idade Media com o nome Ajòfogo grecisco, vieram 
os ai'abes a possuil-a, por traição, no século xi; por- 
quanto os gregos do baixo império guardavam 
esse segredo como segredo de estado, possuindo-o 
desde o anno de 668, trazido do Oriente e empre- 
gando-o Bysancio em 670 contra os árabes, e em 
678 contra os pisanos, com grande vantagem. 

Os árabes emprega- 
ram-o com certeza nas 
guen-as contra os chris- 
taos desde a primeira cru- 
sada, em Assur (1099) 
eS. João d'Acre (1101) e 
Damieta (1218), mas não 
nos parece que tivessem 
necessidade de aprender 
com os gregos, porque in- 
forma Bem Caldum que 
tendo-se no anno 64 da 
hégira (689-684 da era 
christã) Abdallah Bena- . 
zabur feito proclamar Ca- 
lifa 6 tendo-se entrinchei- Plg. 27-.SoldadodeinfanteHa 

j -wr T • J (<Jo Apocalypso de Gerona) 

rado em Meca, lezide, 

filho de Moavia, enviou contra elle Hoçaim bem 
Nomeir Acecuni, que sitiou Meca e incendiou o sa- 
grado templo com nafta ^. 

O que se pode dar como mais certo é que os 
árabes tivessem conhecimento da nafta, já conhe- 
cida na Pérsia, nas suas relações com este paiz, 
e que fossem aperfeiçoando os diversos processos 
de a empregar. 



* Ibn Caldum. PrologomhneSj ii, pag. 257. 



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152 

Bem anteriormente ao século xn os vemos ser- 

^tanciM inccn- vindo-sc de substancias incendiarias, compostas 

principalmente de salitre, enxofre, nafta, petróleo, 

carvão, etc, que arrenies- 
savam em lanças, flechas, 
massas, tubos, marmitas ou 
potes, com a mão ou com 
as bestas de muralha, ou 
mesmo com manganeis e 
outras machinas; e alem 
„, ,« „ „ d'isso o facto d'elles cha- 

Flg. 28 — Sella , 

marem ^or da China, flecha 
da China a algum dos projecteis mostra a origem 
de onde haviam tomado esses inventos K 

É mais natural, portanto, que no próprio Oriente, 
e das mesmas origens de onde haviam i*ecebido os 
primeiros preparados, lhes viessem também aquel- 
les de que se dizia possuirem o monopólio os by- 
santinos; e se os árabes nSo usavam o que propria- 
mente era conhecido pelo nome de fogo greohco, 
tinham pelo seu lado uma grande variedade de 
substancias incendiarias que empregavam, 
opiniio de Rei- ^ ^ ^^® ®^ dcduz do intcressaute livro de Rei- 
naudetFâvé. ^aud ct Favé : 

«O que os escriptores francezes chamaram ^ogro 
grecisco nao era, pelo menos entre os árabes do 
século xm, uma receita única; 
pelo contrario, os árabes faziam 
uso de um grande numero de com- 
posições diflferentes. O salitre, que 
^ , . nao sabiam preparar senão por 

Fig. 29 -Acicate j • /• -x i. 

um modo impeifeito, entrava como 
elemento na maior parte das suas composições. Fa- 
ziam mixturas de salitre, enxofre e carvão, n'um 
grande numero de proporções. Tudo concorre para 

* Reinaud et Pavé. Dufeu gregeoia, etc, cap. i. 




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153 



fazer crer que conheciam, pelo menos como acci- 
dente, o phenoraeno da explosão. Em verdade não 
o sabiam utilisar e ignoravam a força projectiva, 
que constitue o vérdadeií-o caracter 
da nossa pólvora; com tudo obti- 
nham d'essas misturas não só a 
combustão viva, e difficil de se ex- 
tinguir, mas também a propriedade 
de produzir, ardendo, uma força 
motriz, e tinham um nome particu- ng.so- Estribo 
lar para designar o foguete. 

«Os árabes haviam estendido o emprego das 
suas composições incendiarias a todas as suas 
armas e a todas as suas machinas de guerra. Arro- 
javam-as directamente com a mão, no estado de 
secções de quesmonata, de panellas, 
de bolas de vidro, atavam-as á ex- 
tremidade dos paus com que feriam 
os adversários, lançavam-as por 
meio de tubos que, como a massa 
de guerra de espagir e a lanqa de 
guei^ay dirigiam a chamma contra 
o inimigo; ligavam-as ás settas, ás 
lanças, e as projectavam finalmente 
a gmades distancias com bastas de 
torre ou com machinas de fundir. 
O fogo, considerado como meio de pig. 8i-c»beç*d» 
ferir o inimigo, tornara-se para elles 
o agente principal de ataque, e serviam-se d'elle 
de cem maneiras talvez *». 

N'este mesmo livro, cuja auctoridade é incontes- 
tável, vem consagrado todo um capitulo aos gran- 
des effeitos obtidos pelos árabes com as suas sub- 
stancias incendiarias nas luctas das cruzadas e 
outros encontros memoráveis com os europeus ; as 

1 Reinand etFavé. Dufeugregeoia, etc, cap. i. 



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154 



Na lucta corpo a 
corpo. 



informações são tiradas dos mais auctorisados es- 
criptores árabes e christaos. 

No livro Grant Conquista de Ultramar, attribiiida 
ao rei Sábio de Castella e taiubem a seu filho 

D. Sancho, vem a 
informação de que 
no cerco de Jerusa- 
lém os árabes pe- 
garam em longos 
tubos de latão, n'el- 
les m et terá m um 
azeite que na sua 
linguagem chama- 
vam óleo petróleo, 
de que se fazia o 
óleo chamado gre- 
cisco, e o lançaram 
sobre um engenho 
com que os christaos 
atacavam. 

Também na lu- 
cta corpo a corpo 
usavam a nofta, 
presa ás lanças e 
aos dardos, e, segundo o auctor árabe citado por 
Perez de Castro, havia estratagemas de guerra 
onde a nafta tinha um papel importante. 

«Collocava-se uma fileira de manequins de tur- 
bantes e com os attributos militares, tendo na mão 
a lança de nafta. Atrás doesta linha de manequins 
formava a cavallaria e atrás d'esta a infanteria, 
havendo o cuidado de deixar entre cada dez ma- 
nequins um espaço por onde passasse a cavallaria 
aos pelotões. A um signal do chefe a cavallaria 
saía por esses intervallos, em attitude de ataque ás 
linhas do inimigo, e antes de chegar a ellas reti- 
rava em debandada; vendo isto os inimigos arre- 




Fig. 32 — Ebtribo e acicate árabes (see. xii) 
(Collecç5c8 do dr. Teixeira do Aragilo) 



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155 



mettiam com os fugitivos. Estes abriam para a di- 
reita e esquerda dos manequins, e na sua arremettida 
o inimigo atirava por terra 
aquelles moldados fingi- 
dos, que ao cair se incen- 
diavam por lhes tocarem 
varías mechas que esta- 
vam em diversos pontos, 
produzindo estragos sem 
conto que se aggravavam 
com a arremettida de in- 
fanteria que estava á re- 
taguardaS). 

Os fogos usados pelos 



sarracenos, nos primeiros 



tempos, nas cruzadas, e 
portanto também na Hes- 
panha, não se pareciam 
com o fogo grecisco dos 
bysanthinos, e romanos. 
«Não é para admirar, 
diz Ludovic Lalanne, que 

08 chronistas tenham tan- I 

tas vezes empregado erra- ~ ng. 83 - Estribo árabe 

1 . ir (Collecçio do dr. Teixeira de AragftoJ 

(lamente o nome de fogo 

grecisco. Na epocha das cruzadas, os árabes, cujo 

gosto pela chimica foi sempre muito pronunciado, 



Differença entre 
o fogo doK ara- 
bes e o romano. 







Fig. 34 — Cliiriínia 



Fig. 3j — Chirimia 



eram infinitamente mais hábeis do que os chris- 
tSos na arte dos assédios, e estes vendo as suas 

* Perez de Castro. Ob. cit., pag. 65. 



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156 



machinas consumidas por projecteis incendiários, 
compostos de substancias que como a nafta, de- 
viam ser-lhes desconhecidas, applicavam a esses 
projeteis uma denominação que se tor- 
nara synonyma de todo o fogo violento 



Emprego do fogo 
grccisco. 



e extraordinário^ 



»• 



Flg. 86 
A tambor 



O mesmo auctor quer que' os sarrace- 
nos passassem a conhecer no século xin o 
fogo grecisco propriamente dito, encon- 
trando 08 característicos d'elle no que 
empregaram no cerco de Damieta(1218), 
conjecturando que tivessem obtido o segredo de al- 
gum grego fugitivo ou do desthionado imperador 
Alexis III, refugiado em 1210 na corte do sultão 
de Iconium, onde teve o commando 
de um exercito. E não só o adopta- 
vam, mas em breve praso aperfeiçoa- 
vam o seu emprego, augmentando-lhe 
pig.87-Atabai6 ^ alcancc c rectificando, quanto possí- 
vel, a irregularidade do tiro, por meio de bestas 
de muralha e engenhos próprios^. 

Na sétima cr usada, a de S. Luiz, o emprego 





Flg. 38 — Arab6« cançando sabsiancias ineendiariaa 
(Uanaser. da Btbl. Nacional de Paris) 

doeste fogo pelos musulmanos, de variadas for- 
mas, é confirmada por innumeras passagens de 
Joinville : era o raio do céic, era o dragão que pa- 

1 Ludovic Lalanne. Rtc^trcheê sur le /eu gregeois. Paris, 2.* ed., 
pag. 49. 

2 Idem, pag. 54. 



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167 



recia voar tio ar irradiando claridade, eram estrd" 
las caindo abundantes do céu^. 

É o mesmo fogo descriptó pelo' auctor árabe 
Âbulfeda, o barude que «rasteja como 
escorpiões; estes allumiam-se, inflam- 
mam-se e rebentam onde caem; es- 
tendem-se como se fossem uma nu- 
vem; rugem como se fossem o trovão; 
inflammam-se como um incêndio, e 
reduzem tudo a cinzas*». 

Reconhecidas as propriedades do 
salitre, proveniente da China, a pouco 
e pouco se foram inventando prepa- 
rados com este sal, ou sem elle, e ap- 
plicaram-se também outros, como o 
alcatrão e a nafta, producto minera- lig.ss-nechM 
lógico que se misturava com outras *•'**«• 
substancias resinoôas, oleaginosas ou combustíveis, 
como a resina, o pez, o coló- 
phano, o enxofre, dando excel- 
lentes productos com os quaes 
se incommodava e destruia o 
inimigo, inutilisando-lhe tam- 
bém as suas obras defensivas. 
Só mais tarde adoptaram os 
árabes o fogo greciscx). 

Possuiram os árabes de Hes- 
panha a verdadeira pólvora, 
evidentemente vinda lambem 
do Oriente. Ápparece em pleno 
uso no século xiv, è, segundo 




^ «La queae da fea, qui partoit da fea grégois estoit bien auBsi 
grani comme an grant glaive ; il fesoit tele noise aa venir qae il 
sembloit que ce feast la foadre da ciei ; il sembloit un dragon qai 
yolast par Taír tant getoit gpraot cl arte qae Ton veoit parmi Tost, 
comaie se il feast pour la grant foison de fea qai getoit la grant 
elarté.» — Joinville. 

> Casiri. BiJbl. arab. etp., tomo n, pag. 6. 

10 



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168 




ó manuscripto árabe de S. Petersbiirgo a que atraz 
nos referimos, era constituida por 10 dracmas de 
saliti-e, 2 ,de Carvão e 1 y^ de enxofre (alcrébitey. 
N^o nos parece que possa ter 
o menor fundamento a informa- 
ção, que o auctor da Historia da 
Dynastia dos Saditas em Marro- 
cos attribue a um sábio imane^ 
da pólvora datar do anno 768 da 
hégira, que corresponde de 7 de 
setembro de 1366 a 27 de agosto 
de 1367, sendo a descoberta de- 
vida a um medico alchimista. 
opiniio mbe. «Eui scguudo logar o prín- 

cipe disse que acabava de ser 
inventada (a pólvora) e que nao 
fora conhecida na epocha em 
que reinavam aquellas dynastias. 
Ora, eis o que eu li com respeito 
á data d'essa invenção n'um com- 
mentario que fez ao seu poema 
didáctico sobre os costumes de 
Fez o mesti*e dos nossos mestres, 
o imane, o erudito, Abú Zeide 
Abderrahmâo Benabdelcader 
Alfaci: — A invenção da pólvo- 
ra, no dizer de um auctor que 
fez um tratado sobre a guerra 
santa, dataria do anno 768 (7 de 
setembro 1366 a 27 de agosto 
de 1367); essa descoberta seria devida a um me- 
dico que se occupava de alchimia e que, tendo 
visto uma mistura, que compozera, fazer explosão 



rig.4S — Bandeira 



^ Ms. de S. PeiersburgOi traducçSo de Fleischer no TraiU sur la 
jxmdre, les eorps exploêifs et la pirottthnie^ de Upman e Von Meyer, 
cit. por Ârantegui, tom. i, pag. 81. 



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Iõ9 



teria renovado a experiência, satisfeito com o resul- 
tado, e preparado então a pólvora actual; só Deus 
sabe se isso é exacto. Deus no 
seu império faz tudo quanto lhe 
agrada^». 

Esta pólvora que muitos au- 
ctores filiam com o fogo grecis- 
00, começa de ser empregada em 
um rudimentar tubo cylindrico 
de fen'o seguro a uma coronha 
de madeira, que, carregada até á 
terça parte, arrojava á distancia 
uma bala ou h&ndoque^ por Rei- 
naud e Favé comparada a uma 
avela e por Fleischer a uma noz, 
nas respectivas traducções do já 
referido códice árabe de S. Pe- 
tersburgo. Medfa era o seu 
nome. 

Foi o inicio da arma de fogo 
poi*tatil, e ao mesmo tempo o 
inicio de artilheria, por que esse 
tubo era também applicado a um 
bloco de madeira. Ha quem sup- 
ponha que medfa era primitiva- 
mente o nome dado ao engenho 
neurobalistico destinado a arror 
jar pedras ou mixtos incendiá- 
rios, passando a significar a 
arma de fogo portátil depois da descoberta da pól- 
vora, e até mesmo a culebrina e o mosquete ^. 




Modfa. 



Inicio da arma 
de fogo. 



Flg. 43 
Bandoira 



i Hid. dt la dynoêtU cn Maroc (1511-1670). 

s «Medfa is the name for a cannon. Móeola is nearly the same 
ting with tbe Medfa ; it is aiso translated by eulemine, and means 
in the Life of Ttmur, toin. i, pag. 824, according to f^reytag in 
more recent times^ a musket. . The above passages led Qaatremère 
to iofer that the signification both of the Medfa and of the MekkUah 
was gradnallj changed. At first thej were forms of the balista and 



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160 

TroM. Foi essa arma a primeira a manifestar-se; e com 

quanto não possam ser acceites como boccas de 
fogo, conforme pretendem alguns escripto- 
res, 08 engenhos que despediam trons ou 
faziam trons no sitio de Madrid em 1084, 
no de Saragoça por Affonso o Batalhador 
em 1118*, no de Gibraltar em 1306 da 
parte dos christaos, no de Niebla por 
Affonso o Sábio em 1257*, no de Murcia 
em 1266, no de Baza em 1325^ da parte 
dos mouros, pois eram verdadeiras machi- 
nas polyorceticas que arrojavam substan- 
cias incendiarias, a verdade é que se pôde 
aí&rmai' sem receio que a primeira vez 
que troou na peninsula a artilberia, con- 
siderada no sentido que hoje lhe damos, 
foi no assedio de Algeciras de 1342, pelo 
tempo da celebre batalha do Salado, sendo 
empregada pelos mouros essa incipiente 
artilheria de praça na sua defeza. 

Emprego da ar- A iuformaçao de Zurita de como em 

1331 o rei de Granada Mohamede IV, 
dirigindo-se para as fronteiras de Alicante 
e Orihuela, apresentara a invenção «de 
pelotas de hierro, que se lanzaban com 
fuego», nao encontra comprovação nos 
documentos da epocha ^ 

Deve-se notar, porém, que o escriptor 
Bi?na hespanhol Arantegui, levado pelos seus 

catapult, destined to project stones, the gregorian fire, or other 
misBilis, and the same names were after the discovery of gunpow- 
der applied to designate cannons or stone — projecting machines.» 
Notes on Some old Armet and Instrumente of wat, chiefiy among ihe 
Araòs, hy £. Behatzek, 1879. The Journal oflhe Bombay brandi of 
Royal Ânatic Sodeiy. 

1 Conde, Hist, de la dom, de los arab. en Esp. 

2 Mellado. Encvclopedia, voe. Artilheria. 

' D. Ramon Sala, Memorial hist, de ia artiU, esp , pag. 14. 
4 Zurita. Anales de Aragon* 



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161 

sentimentos de aragonez, acceita como authentica 
esta informação para concluir que não em Castella 
mas em Aragão se conheceu primeiro a artilheria. 
O mesmo auctor, todavia, dá como data certa do 
uso da artilheria na Catalunha o anno de 1359. 

Ha ainda a informação de D. José Conde de 
que no cerco de Tarifa, em 1340, o rei de Fez co- 
meçou a combater aquella praça «com machinas e 
engenhos de trons que lançavam balas de ferro 
grandes com nafta, causando grande destrço nos 
seus bem torreados muros *i>; mas Conde não gosa 
de absoluta auctoridade em matéria tão impor- 
tante. 

Temos, portanto, de assentar na data de 1342-iaji«jo^d^«^u»j- 
1344, no referido assedio de Algeciras, a apparição ^^ 
da primeira verdadeira artilheria em Hespanha, e 
de origem árabe, comquanto tenhamos de reconhe- 
cer que não podendo, sobretudo n'esse tempo, ha- 
ver uma grande rapidez nos progi-essos materiaes, 
e não sendo a artilheria mais que o producto de 
uma evolução lenta, é natural que anteriormente a 
esta data já existissem trons, embora mais rudi- 
mentares. 

Fallando do cerco de Algeciras diz a Chronica de cerco de Aige- 
Afanso XI: '''^' 

«Et los moros de la cibdat lanzaban muchos 
truenos contra la hueste, en que lanzaban pellas 
de fierro muy grandes ; et lanzabanlos tan lexos de 
la ciudat, que pasisiban allende de la hueste algunas 
delias, et algunas ferian en la hueste; et otrosi 
lanzaban con los truenos saetas muy grandes e 
muy gruesas». 

E mais adiante: «Et tirábanles muchas piedras 
con los engeíLos et con cabritas, et otrosi muchas 
pellas de fierro que los lanzaban con truenos, de 

1 Conde* Bid. ck la dom, ék los arab. 



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162 

que los ornes avian muy grand espanto, ca e» 
cualquier niiembro dei oníe que diese, levábalo á 
cercén, como si ge lo cortasen con cocliiello; et 
quanto quiera poço que orne fuese ferido delia, 
luego era muerto, et non avia cerurgia ninguna 
que le pudiese aprovecbar : et lo uno porque vénia 
ardiendo como fuego, et lo otro porque los polvos 
con que la lanzaban eran de tal natura, que cual- 
quier llaga que ficiesen, luego era el orne muerto; 
et vénia tan recia, que pasaba un orne con todas 
sus aimasS). 

infomaçto de Isto dcixa O cspiríto pcrplcxo, porque parece que 
^'*®* não se trata ainda de peças de artílheria propria- 
mente ditas, mas de engenhos antigos porque «lan- 
çar com trueno», é, por bem dizer, lançar com o es- 
tampido que fazia a substancia incendiaria, e nSo 
atirar com o trom, no sentido de peça. 

A informação de Conde confirma os pormenores 
da chronica, pois diz que «os sitiados destruíram 
as machinas do sitiador com pedras que atiravam 
dos muros e com ardentes balas de ferro, que lan- 
çavam com troante nafta ^». 

Aqui «troante nafta» parece querer dizer que 
era a nafta que produzia ò arruido, e não qualquer 
boca de fogo. 

Os peiouroi. No dizcr da chronica christã os pelouros de ferro 
que os mouros lançavam eram «do tamanho de 
maçãs muito grandes, e uns quadrellos que aiTe- 
messavam eram tão pesados que um homem ti- 
nha muito que fazer para os levantar do chão», 
o que levaria a suppor que já n'essa epocha as 
peças tinham um calibre muito considerável, coisa 
é inverosimil^ em que pese n'este particular á opi- 
nião do sr. Arantegui. 



1 Crónica de Alfotiêo xi. 
^ Conde. Ob. cit. 



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163 

Este escriptor conjectura, pelas rasões que apre^ ongem doi 
senta, que os trons teriam vindo com ás tropas dos 
Merinidas de Africa, auxiliares do rei de Granada 
contra Affonso XI de Castella. Como isto vae de 
1331 a 1340, o illustre escriptor firma-se n^esse 
facto, entre outros, para acceitar a já referida opi- 
nião de Zurita de ter n'este ultimo anno troado 
pela primeira vez na peninsula a ai*tilheria. 

Annos depois, já ha noticia do apparecimento^ <>>▼•'• «• 
da verdadeira artilheria na Itália, na AUemanha e 
Inglaterra, onde por diversos conductos, mas evi- 
dentemente da mesma origem, é recebido o conhe- 
cimento da pólvora de guerra. 

Pretende-se que não já a artilheria de fortaleza, ^^«JJ^>»«^* ^ 
como em Algeciras, mas a artilheria de campanha 
tivesse figurado em Crecy (1346), conhecendo-a 
08 inglezes já em 1341. 

Em França ha quem queira encontrar a arti^ 
Iheria, no sentido moderno, já em 1338 em 
frente de Puig Guillaume ou mesmo antes, e na 
Itália remontam-n'a a 1326*; não são porénL fa- 
ctos comprovados, nem até certo ponto admissí- 
veis. 

Mas é incontestável que tendo os povos do inflaencia <ios 
sudoeste da Europa contacto com os turcos pélas *"^ *'* 
suas guerras, houvessem recebido doestes, — aos 
quaes já se attribue em 1290 o emprego da arti- 
lheria no cerco de Ptolemaida — , o conhecimento 
d'esta arma. De modo que, ao passo que nós os 
peninsulares recebíamos esse conhecimento dos 
árabes, pelo sudeste o recebiam os outros povos 
da Europa, apei*feiçoando-o a AUemanha, e d'ali 
irradiando para outros paizes europeus os produ- 
ctos da sua inventiva fecunda. Foi assim que, as 



1 Leon Lacabane. — Dela poudre à eanon^ et de 9Ón inlrodtíctian 
«1 France. 1845. 



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164 

nações européas venceram nos progressos da pól- 
vora e da artilheria os árabes, que as haviam ensi- 
nado a conhecel-a. 

«Os bysautinos, diz Delpech, passaram 600 an- 
nos (do século vii a xui) a manipular as matérias 
explosivas, sem crear nem artilheria nem mosque- 
teria seria; os europeus obtiveram esse resultado 
em menos de cem annos». (Do fim do século xm 
ao começo do xiv)*, 

Feçai ftmdidM.' Os allcmâes deveram a Schwartz a primazia nas 
peças fundidas, que Veneza foi a primeira a em- 
pregar, da mesma origem, na gueii-a de Chiaggia 
em 1380. 

opiniio de A verdade, porém, é que podemos acceitar como 
^^^'^^ exactos as seguintes conclusões de Arantegui *: — 
Que os árabes foram os introductores da pólvora 
e da sua applicaçâo á artilheria, sendo a origem 
d'ella chineza, syria ou egypcia; que dos árabes 
passou aos peninsulares por intermédio dos africa- 
nos ou propriamente dos reis de Fez; e que no 
cerco de Algeciras devia ter sido vista a artilheria 
pela multidão dos cavalleiros christãos estrangeiros 
que a elle assistiam, e que regressando aos seus 
paizes deram a conhecer a nova arma. 

Isto aproxima-se da asserção do conde de Cio- 
nard de que os peninsulares de ambas as religiões, 
«foram os primeiros a conhecer e usar a pólvora 
na Europa». 

primaBia dos A prímdzia pcrtenco aos árabes, e a elles ficou 

*~ *'' também peiiencendo, mesmo depois da restauração 

christã, a preeminência nas industrias da guerra. 

Ainda em 1525 os aragonezes representavam a 

Carlos V contra os grandes prejuizos causados pela 

expulsão dos mouriscos que sobi^esaíam no fabrico 

1 Delpech. Ob. cii, tomo ii^ pag. 828. 
< Arantegui. Ob. cit, pag. 50. 



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165 

das escopetas, pólvoras e outras muitas espécies 
de artilhería. 

* * 

Na arte de fortificar os árabes representam Ario do fortifl- 
também algum progresso, comquanto mantivessem "" 
as formas de fortificação gotico-romana ; não só, 
porém, no cimento com que construiam as suas^ 
muralhas, e cujo segredo ficou na peninsula entre 
os mudéjares, que de preferencia foram recrutados 
pelos reis christãos pai*a a construccão das suas 
fortalezas, mas em muitos dos aperfeiçoamentos 
por elles introduzidos, foram os mestres dos fortifi- 
cadores e engenheiros do seu tempo. 

O característico principal das fortificações árabes caracteristicoí 
mais recentes é o emprego da taipa, ou terra api- ^^ "' 
Bonada com pouca cal; o traçado e a estructura 
eram pai*ecidos com os da epocha, sendo em muitas 
fortalezas aproveitado, e mesmo imitado, o traçado 
romano-godo. 

Consistia a fortaleza em grandes lances de mu- 
ralhas reforçadas e flanqueadas de torres quadra- 
das ou semicylindricas, com um castello ou forta- 
leza dentro do recinto *. 

Nas obras de fortificação empregavam abobadas con.trucçio. 
de tijolo construidas com terra passada pelo crivo, 
em vez de areia. 

Em epochas posteriores ao periodo áureo do is- 
lamismo na peninsula as muralhas eram feitas de 
terra pedregosa ou de alluvião, ligada com uma 
terça pai-te de cal e fortemente pisada. 

«Esta clase de fábrica era la mas económica 
possibe, diz um escriptor do visinho reino, y se 
ejecutaba con cajones de madera que se Uamaban 

^ Hobió e fielfò. Dioc de cíen. milU., voe. Alcazaba. 



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166 

tahiales y com inazos de hierro. La formacion de 
los muros exigia grandes gruesos, y asi se observa 
que para alturas de seis metros se necessitaba 
siempre uno a lo menos de espesor. Solo en an- 
gostos Uipiales se empleaba el ladrillo, y para este 
caso los tendeles de tierra y cal (no arena) eran 
más gruesod. En los cimientos se aumentaba la 
cantidad de cal, y aun se reemplazada la tierra 
.por grava de piedras machacadas, lo cual consti- 
tuia un cimiento tan duro como el romano^». 

Bem Caldum do qual este auctor tirou eviden- 
temente estas informações, dá-nos noticias dos pro- 
cessos de construcção de muros: com pedra ou ti- 
jolo, e cal e areia; de taipa, (tabiaj ^, como ainda hoje 
se usa no nosso Alemtejo, etc. 
sobrcpoiíçsci. Aproveitando as construcções que encontrarani 
na peninsula, fízeram-lhe crescenças e enxertos 
que ainda hoje se conhecem perfeitamente, como 
em Montemor o Novo, Lamego, Alcácer do Sal, 
Cintra, Lisboa. A superfetação e complicação che- 
gava por vezes ao excesso, como se deduz da se- 
guinte passagem de uma obra que trata com*pro- 
ficiencia dos monumentos árabes em Granada: 

«Ao examinar a Granada dos Ziritas, achamol-a 
dividida em casas de povoações muradas, cada uma 

* Rafael Contreras. Bec, de Ia dom, de los arab.^ pag. 79. 

2 É curiosa a descripçfio da taipa dada por Bem Caldum; repro- 
duzimol-a da traducção contida nos tomos xix e xx das Notiees el 
extraits des manuscripts de la Bibliothhque Impéríale et autres hiblio- 
ihhqueSf de Paris, que nos tem servido para o nosso estado : aL'art 
de bâtir se partage en plusieurs branches ; Tune consiste à ftdre 
des mura avec des pierres de taille (on des briques), que Ton ci- 
mente ensemble au moyen de Targile on de la cfaauí^ matières qui, 
• en se consolidant, forment une seule masse avec ses matériaax. 
Une outre mode de bâtir, c*est de conetruire des murs avec de Tar- 

file seulement. On se sert pour cela de deux planches de bois, 
ont la íongueur et la largeur varient selon les u8ageslocaux;maÍ8 
leurs dimensions sont, en généraU de quatre coudées sur deux. On 
dresse ces planches sur des fondations (déjà préparées, en obser- 
vant de les espacer entre elles.. suivant Ia largeur que Tarchitecte 
a jugé à propôs de donner. à ces mêmes fondations. filies tiennent 



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167 



de per si, denotando as aggregações que se foram 
suecedendo durante o governo d'aquelles senhores 
que, no crescimento da cidade, duplicavam ou tri- 
plicavam os seus recintos, conservando sempre os 
anteriores, tornando mais inexpugnável tal conjun- 
cto de muralhas, de torres e fortalezas, engancha- 
das umas nas outras, e deixando talvez separados 
os respectivos recintos para as tribus ou raças dif- 
ferentes, e também para os emigrantes de diversas 
épocas ou logares. O certo é que a cidade veiu a 
ficar constituida pela forma peculiar ás fortificações 
árabes da idade media, e que, ao analysac os restos 
que hoje apparecem das suas antigas muralhas, sé 
notam as j unturas que n'ellas marcam essas uniões, 
e correspondem aos vários perimeiros que foram 
abai-cando, com relação aos ampliamentos da po- 
voação e ás desigualdades do terreno *». 

Uma passagem de uma outra obra nos dá tam- 
bém algamas informações : 

«Compunham-se geralmente as alcáçovas ou ci- 
dadellas árabes e christãs na Idade Media de dois 
recintos murados: um exterior, que corria sobre 

fosso, por nós chamado barbacã, e suluquia pelos 

ensemble an moyen de traverses en bois que Ton assujétit avec 
des cordes on des liens; on ferme avec deux autres planches de 
petite dimension Tespace vide qai reste entre les (extréinités des) 
deuz grandes planches, et Ton y verse un melange de terre et de 
chaaz qai l*on foule ensuite avec des pilons faits exprès pour cet 
objet. Quand la masse est bien comprimée, et que la terre est saíH- 
sament combinée avec la chaux, on y ajoute encore de la terre à 
plQsienrs reprises, ju8qa'à ce que le vide soit tout à fait comblé. 
Les particules de terre et de cbaux se trouvent alors si bien me- 
langées qu*elies ne forinent qu'un seul corps. En suite on place ces 

Í»]ancbe8 sur la partie dn mur déjà formée, on y entasse encore de 
a terre et Ton continue ainsi jusqu*à ce que les masses de terre, 
rangées en plusieurs lignes superposées, formeut un mur dont 
toutes les parties tiennent ensemble, comme si elles ne faísaíent 
qu'ane seule pièce. Ce guise de construction s*apelle taòia (pise), 

1 ouvrier qui la fait est designe par le nom de (aouwab (piseur)». — 
íhn Kaldum. Prologomhnes, 

1 D. Josó e D. Manuel Oliver y Hnrtado. Granada y sus monu" 
mentos arabeê. 



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168 

mouros, e outro interior, parallelo e mais alto, de- 
nominado o cu^or. Na cortina ou panno do primeiro, 
isto é, da barbacã, abria-se uma porta que dava 
ingresso ao espaço comprehendido entre os muros, 
a qual se chamava bab albácar, a porta dos bois 
ou vaccas, por ser por ella que safa este gado *». 
^mud!yarei**** ^^^* *^^^ * pcuiusula SC mostram ainda impor- 
tantes trabalhos de architectura chrístã executados 
pelos mudéjares, e o que se dava com a construc- 
ção dos edificios dava-se também com a factura 
dos engenhos e artificies de guerra. 

Com os mouros partilhavam os judeus esta pri- 
masia na industria militar. 

' Vimos já a opinião de Alexandre Herculano sobre 
o emprego de artistas árabes, e de origem árabe, 
nas nossas construcções militares; do mesmo modo 
que em Portugal, em maior escala ainda, dava-se 
esse facto nos outros reinos peninsulaies. 

Em Castella D. Affonso XI e D. Pedro o Cruel 
aproveitaram grandemente os especiaes conheci- 
mentos mechanicos e technicos dos mudéjares para 
os trabalhos de guerra, e quando este se preparava 
em 1360 para a guerra contra Aragão, escrevia ao 
seu thesoureiro de Murcia dizendo-lhe que levasse 
comsigo para Cartagena a Mohamede, filho do 
mestre Ali, e um outro seu innflo, para arranjai* en- 
genhos, mantas e gatas, e fabricar outros instru- 
mentos novos. 

Em Navana o encarregado de, em 1867, «ver 
continuamente e visitar as bestas dos castellos e 
reparal-as» era o mouro Leote Audali; em 1368 
á Aljama de Tudda era perdoada metade dos tri- 
butos, durante três annos pelos bons serviços pres- 
tados pelos naturaes, na reparai^ dos engenhosy 

1 Leopoldo de Aguilar. Glos, de leu vocês espanola dearigen orien- 
tal, voe. Âlbacara. 



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169 

e o mestre dos engenhos, era o mouro Mafoma, de 
Burgos; em Aragão devia succeder o mesmo visto 
que, como vimos, ainda no século xvi era ali tida 
como prejudicial ao fabrico das ai'mas a expulsão 
dos mouros ^ 

Innumeros sao os nomes que se adoptaram, n'este 
particular, da engenheria árabe. 

E assim que alca^^ova, de cUcasba, continuou si- Aicaiba. 
gnifioando foi*taleza, castello interior a um recinto 
fortificado, uma espécie de cidadella. 

Que alcasha era propriamente a cidadella, inde* 
pendentemente das muralhas, se vê da seguinte 
passagem de um manuscrípto árabe: 

«Mas esta (a cidade de Elvira) foi destruida, e 
esses habitantes passaram para Grranada, eHaçam 
Acinagi, foi quem a povoou e edificou a sua alcá- 
çova e os muros ^». 

Outras vezes, porém, indicava o conjuncto da 
cidade fortificada, como se deduz d'esta outra pas- 
sagem: 

«Cresceu depois a sua povoação (de Granada) até 
ao rio Darro, e no anno do Senhor seis mil, havia 
outra Alcáçova entre a velha e o rio, a qual tinha 
mais de quatrocentas casas e lhe chamavam Al- 
casha Gididej ou Alcáçova Nova^). Em Portugal 
designava-se por alcáçova ou alcaceva a fortaleza, 
o castello, o presidio militar *. 

Alcacary que também significava fortaleza 0UAie«ç«r. 
casa forte, era propriamente a habitação afortale- 
zada do alcaide, governador da praça, ou mandão 
senhorial, como o pola^ium dos romanos ; alcazar 
e alcacare se chamava também entre nós. 



^ Arantegui. Ob. cit., pag. 54 a 79. 

2 Ben AlhATàlPerola deu maravilhas cit. de Rabio y Belvé. Ob. cit, 

3 L. dei Marmol Carvajal, Rehdion y castigo de los moriseos de 
Granada, cit. de Rubió y Beiyè. Ob, eU., 

^ Elucida, voe. Alcáçova. 



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170 



AlearcoTa. 



Andaimo. 



Albacara. 



Albarrl. 



Anobda. 



Almagana. 
Algarrada. 



Para designar fortaleza ficaram ainda em Hespa* 
nha as palavras alcaXáy alcolea ou castello pequeno, 
e muitas das partes da fortificação continuaram a 
chamar-se como no tempo dos árabes, ás vezes com 
pequenas alterações. Assim carcova^ alcorcova, como 
se dizia em Portugal, continuou sendo o fosso; 
adarve a muralha, ou a parte superior d'esta, onde 
se abriam as ameias (almenas em hespanhol), peque- 
nos prismas que rematavam os muros e as torres, 
com intervallos para o tiro; andaime o caminho 
superior junto ao adarve, de onde se combatia o 
assaltante; albacara (de alhácar) a obra exterior 
que defendia a porta do castello ^, nome que sub- 
stituiu entre nós até na Renascença, como se lê em 
Damião de Góes*; albarrã a torre saliente do muro, 
alta e mais solida que as outras, espécie de gi-ande 
baluarte incipiente e onde se guardavam os the- 
souros e os dinheiros da coroa, como a torre Al- 
pram ou albarrã de Santarém^; anubda, a obriga- 
ção de acorrer á guerra, principalmente ao trabalho 
nas fortalezas, etc, etc. 

Em termos de instrumentos e armas de expu- 
gnação das praças ficaram designando igual objecto 
e funcção: a almagana ou almajaneqíie^, espécie de 
grande fundibalo ; a algarrada, espécie de besta de 
muralha, também conhecida por arrada, machina 



^ «En la cortina ou lienso dei primero (recinto), cu seja de la 
barbacana, se abria una porta que daba ingreso ai espacio conte- 
nido entre los muros, la qual llevaba el nombre hab albacar^ la 
puerta de bucs e vacas, por entrar o salir por ella el ganado do esa 
clasc.» — Leopoldo de Aguilar. G^«. de las vocês espcmoUu de origen 
oríentaL 

2 «Da estancia que estava diante da pr>rla de albacar lhe tirarain 
as Bombardas». Dafhião de Góes. Ch: d^el-rey D. Manoel, «E en- 
viou-lhes três bombardas para que tirassem direito á albatara do 
alcncar do castello, onde estava a porta. Idem. Ch. d^el-rei D, João II. 

3 «Costumo he, que nom devem dar carceragem da Torre dalprS, 
por liomÕ alá lev(^ preso.» Foral de Santarém. 

4 Pela sua vez os árabes tomaram a palavra do manganon grego. 



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171 

de menores dimensões que o manjaneque^\ a Aew-flend*m. 
dam, também machina de lançar projecteis incen- 
diários, como se vê em Bem Caldum*; a dobada, mb^Ati. 
instrumento de abrigo para derrocar as muralhas; 
a alcancia, bola de barro, espécie de granada deAiconcia. 
mao, cheia de substancias incendiarias, que se ar- 
remessava contra o assaltante, nome que ficou ás 
bolas de barro com que se entrava n'um dos jogos 
predilectos da Idade Media entre os cavalleiros. 

De muitos dos instrumentos que constituiam o instrnmentos de 
arsenal dos árabes nos dá noticia o livro a que já "**'**^' 
nos referimos, Grant Conquista de Ultramar, qaíínáo 
diz como elles se defendiam em Jerusalém, no cerco 
que lhe pozeram os christãos : 

«Para combatir traen cestos é paios, é picos, é 
azadones, é espuertas, é porras, é almadonas 
grandes de fierro, é ballones, é misericórdias, é 
cochiellos, é alfanges, é plomadas, é cadenas para 
dar grandes golpes, e brazaletes para echar piedras, 
e guisas . > • é palancas de fierro, é mazos, é mar- 
tielloS; e garfios con cadenas, é barras luengas é 
gordas . . . » e refere que as mulheres combatiam 
também atirando «bariles, é picheles, é terrazos, é 
calabazas, é botijas, é azacanesD. Era o caso ex- 
tremo, em qiie tudo servia de arma. 



^ «Arrada machina minor quam ea que medjiiiiic appellatur (cu- 
jas ope lapides ad terminum longe remotas jaciente). 

2 Na traducçâo do barão de SIane, da Historia do8 Berberes, 
falia- SC em •medjanic, e arrada, e hendam de mafta, que atiram 
de fogo, o qaal é lançado da camará (do hendam) antes do fogo pe- 
gar ao barude (substancia incendiaria) por um effeito espantoso e 
cujos resultados devem ser attribuidos ao poder do Creador». Favé 
explica que a palavra hendam significa, segundo Gastei, no seu 
Diccionario Heptaglotton, oongma mensura, e segundo Meniski, 
Diccionario árabe, persa e turco, justa constituitio, symmetria; e 
deduz d^abi que foi empregado n*am termo genérico, como quem diz 
engenho, — Du Feu Gregrois, etc., pag. 74. Se assim fosse, a tra- 
ducçâo própria seria : — vmedjanie, arrada, e outros hendam ou en- 
genhos, etc.» São assumptos difficeis de destrinçar. 



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172 
Emprogo doB Os preparados incendiários que foram, como vi- 

preparado! in- • . i i r ^ 

ccndiarioa. mos, copiOBamcntc empregados pelos árabes, tam- 
bém tiveram grande papel nos assédios. 
Minaa. Um processo, precursor das minas, que mais 

tarde haviam de pôr nas mSos dos sitiantes um 
forte elemento de destruição, consistia em abrir 
uma galeria que fosse até á muralha que se queria 
derribar, e enchel-a n'este ponto de lenha e ma- 
deiros que, depois de untados de naftay eram incen- 
diados, por meio de uma mecha; consumada a 
combustão, esboroava-se a terra, e com ella a cor- 
respondente porção de muralha ^. 

Bandeiras. Scndo a bandeira um signal do commando, o 

symbolo do poder e do direito de levantar, manter 
e dirigir as tropas, e ao mesmo tempo o ponto de 
referencia para a reunião das forças, não podiam 
os árabes deixar de a possuir também. 

O amor do fausto e da ostentação^ diz Bem Cal- 
dum, exige que o soberano se distinga por muitos 
signaes e emblemas que lhe sejam especialmente 
reservados, a fim de que se não confundam com a 
gente do povo, com os cortesãos e os grandes do 
império; elles indicam, entre os privilégios do so- 
berano, o direito de fazer desenrolar bandeiras e 
estandartes, rufar tambores, atabales e soar trom- 
betas e cornetas. 

O mesmo escriptor informa que o uso d'e88as 
insignias varia segundo as dynastias e os soberanos 
e segundo o seu gosto e poderio; que as bandeiras 
foram usadas como emblemas guerreiros desde os 
inicios do Califado, e já no tempo do Propheta; 

^ Perez de Castro. Ob. cit., pag. 65. 



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173 

• 

mas que no tocante a tambores e trombetas os não 
usaram os primeiros miisulmanos, por orgulho, por 
não quererem imitar outros povos, até que, com a 
realeza, adoptaram os califas e permittiram aos 
seus subordinados, essas manifestações de fausto e 
luxo das outras nações *. 

Grande copia de estandartes, bandeiras e pen-D.iyerMssignM. 
does variados se encontravam nos seus exércitos 
(fig. 42 e 43). A insignia do Califa era um estan- 
darte que, tendo sido branco no tempo dos Omáia- 
das, passou a ser negro no dos Assidas. Verde fora 
o estandarte do Propheta. De variadas formas e 
cores eram os pendões e bandeiras dos emires e 
sultões. Almançor adoptara um pendão em forma 
de lingoa de fogo, com a seguinte inscripçao: 
«A força provém de Deus ; próxima está a victoría». 

Uns tinham a inscripçao que symbolisava a 
unidade religiosa e social do povo musulmano: 
«Só Deus é Deus e Mafoma o seu propheta». Ou- 
tros ostentavam inscripções, nomes, a representa- 
ção do sol, da lua, etc. 

No tempo do emir Timur a cavallaria usava 
uma bandeira quadrada (bederfechej, tendo pintado 
o sol e um carneiro. 

Uma das insígnias mais curiosas era formada 
por um pequeno pendão tendo suspensa a cauda 
de um cavallo (fig. 44). 

Entre os Abbácidas e Fatemitas cada general 
ou alcaide de fortaleza que ia tomar conta do seu 
posto recebia das mãos do Califa uma bandeira, e 
a gente que o acompanhava levava também ban- 
deiras e outras insígnias ; no numero d'estas estava 
indicado a importância ou o poderio do chefe. 

pendão negro, adoptado pelos Califas abbá- 
cidas, significava luto pelo martyrio dos seus pa- 

1 Ibn. Kaldum. Prologomhnea, 2.' parte. 



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174 

rentes, os descendentes de Haxéme, e ei-a um repto 
aos Omaiadas; d'aki o chamar-se aos abbacidas 
(COS negros» (Moçuedda); quando se deu a scísão 
entre os membros da família de Haxéme, os des- 
cendentes de Ali abandonaram o estandarte negi-o 
e adoptaram o branco, passando por isso os Alidas 
a serem conhecidos pelos «brancos». Almamun 
adoptou a côr verde nas suas insignias, para acabar 
com a côr negra e com outros emblemas da sua 
casa. 

No Magrebe até á chegada dos Almohadas, os 
Ziridas que substituíram em Africa os Fatemi- 
tas, não tinham nenhuma côr particular nas insi 
gnias. Os Almohadas e os Benilamer em Hespa- 
nha restringiram a sete o numero de bandeiras do 
soberano e reservaram para este unicamente o uso 
dos tambores. Os Almohadas costumavam reunir 
n'um corpo todos os porta-estandartes e tambores, 
que iam logo atrás do chefe, e por isso se cha- 
mavam a sa<^a^ ou gente da retaguarda*. 
praetioM reli- Eutrc OS arabcs primitivos era uso ir á frente 
^'*'*'' do cortejo do chefe um homem recitando e can- 
taçido versos que tinham por fim excitar os ânimos 
dos guerreiros; esse uso subsistiu entre os povos 
d'essa raça, como por exemplo, entre os Zanatas 
do norte da Africa ; a esse canto se chamava tazua- 
gaite ^. 

Como o culto austero da religião os não aban- 
donava nunca, havia nas diversas cidades soldados 
escolhidos encarregados de, a horas determinadas, 
lerem o Alcorão ás tropas, divididas em grupos; 
e trechos especiaes, alusivos á guerra santa, eram 
recitados antes de entrar em combate, para acen- 
drar o espirito guerreiro dos soldados. 



1 Ibn. Kaldnm. Prologam,, 2.* Parte. 

2 Idem. 



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175 

A saúde da alma, como a saúde do corpo, mere-serriço de 
ceu no exercito muitas attenções aos árabes. Um 
corpo de médicos, auxiliados por mulheres que fa- 
ziam de enfermeiras, cuidavam dos doentes e fe- 
ridos. 

As feridas eram tratadas mesmo sobre o campo 
de batalha com ligaduras, drogas, etc. Eram de- 
pois conduzidos a um logar retirado e seguro, onde 
as queimaduras da nafta e as feridas das armas 
brancas ou da bala eram devidamente tratadas, e 
ali feitas também as necessárias amputações. 

Ali-Alacen e Bem Sina (Avincera) deixaram im- 
portantes tratados sobre o tratamento das feridas 
em campanha. 

A disciplina era mantida por meio de penas se- Ditcipuna. 
veras e de largas recompensas, que consistiam em 
honorários, titulos, cintos de ouro e outras insi- 
gnias militares, e os soldados eram recompensados 
com augmento de vencimento, alem da partilha 
dos despojos da guerra. 

A obediência era tida em alto apreço, e no tra- 
tado árabe, estudado por Perez de Castro, e do 
qual tomamos grande numero de informações, vem 
prescripto o seguinte: «Obedecer é ceder á impulsão 
e marchar direito ao fim proposto, sem nada tirar 
nem pôr, sem mostra alguma de fraqueza ou pesar. 
Obedecer é marchar no primeiro logar, se no pri- 
meiro o coUocam, no ultimo se o põem no ultimo 
logar ; é deixar-se impellir para o trabalho se se é 
impellido, e parar depois do impulso; é marchar a 
pé, se a pé o mandarem marchar, e a cavallo se o 
mandam montar ; é absterem-se de todo o dito ou 
murmúrio se se manda callar; sa se é chamado á 
guerra santa é marchar para ella com ardor, fa- 
zendo o sacrifício da vida, e ferindo o inimigo com 
golpes seguros )í. 

Era antiquissimo entre os árabes o uso das ten* 



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176 



Tendai de oam- das de caiupanlia, desde a tenda primitiva Quiba, 
^"'**' de simples pele de camello, até ás tendas luxuosas 
dos califas almohadas. 

Bem Caldum, nos Prologomenosy diz que no 
tempo dos primeiros califas da dynastia omáiada 
os árabes usavam tendas de pelle de camello e te- 
cidos de lã, e assim continuaram emquanto nóma- 
das ; cada tribu acampava á parte, e distanciadas 
umas das outras. 

Com a vida sedentária e o amor do fausto, na- 
turalmente as tendas foram substituidas por palá- 
cios e casas, como por cavallos foram substituídos 
os camellos ; mas na guerra continuaram a adoplar 
as tendas nos acampamentos, e havia-as de uma 
grande diversidade de formas, redondas, quadra- 
das, compridas, e de toda a espécie de estofos e or- 
namentos. 

As tendas approximaram-se mais, umas das ou- 
tras; a vigilância do acampamento tornou-se mais 
efficaz, e menos para recear a surpresa. 



Tropai. 



Almogayares. 



Assim organisados, armados e preparados os 
musulmanos, como uma forte milicia nacional, ne- 
cessitavam do mandado ou auctorisaçâo do Imane 
ou general para fazerem a guerra, menos as tropas 
da fronteira que pegavam em armas sempre que o 
julgassem necessário, e estavam, se pôde dizer, em 
permanente rebate. 

Pertencia-lhes nâo só impedir e combater as 
incursões do inimigo, mas realisal-as em epochas 
próprias, principalmente no verão. 

•fropas especiaes, com a denominação de almo- 
gavaresy tomavam sobre si o encargo d'essa8 expe- 
dições, muitas vezes como meio de prover ás neces- 



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177 

sidades da vida. Era gente rude, tendo por officio 
principal a guerra, na terra e no mar, affeita aos 
rigores do tempo, valente, destemida, sanguinária 
e cruel, e que na península representava já a infan- 
teria, com uma certa effectividade e organisada 
n^uma epocha em que em toda a Europa a caval- 
laria era a única arma verdadeiramente orgânica. 
Muitas vezes se empregou a palavra almogavar 
para dizer peão, e sobre o que era almogavar vários 
pareceres aventado os que teem querido inquirir 
da sua etymologia; mas pode-se afiançar com 
segurança que o seu nome e funcção datava do 
terapo dos árabes na península. 'Estevanez Calde- 
ron apurou esse facto n'um interessante estudo que 
devia fazer parte da sua inédita Historia de la in- 
fanferia espaUola. 

Almogavar deriva do participio de um verbo 
árabe que significa entrar impetuosamente, talando 
e fazendo correrias, no paiz inimigo, e o arabista 
D. Julian Ribera Tarragó define almogovar: «vo- 
cábulo arábico com que se indica exercito ligeiro 
que faz incursões ou algaradas no paiz inimigo *». 

Ao almogavar, sob o commando dos almocadens, 
competia explorar e desbravar o terreno nas mar- 
chas. 

Muitas vezes as expedições tomavam um cara- Expediçisea. 
cter solemne, como o tiveram os nossos fossados; 
eram commandados pelo próprio Califa ou Emir 
que levava comsigo os meios necessários para fa- 
bricar sellas, lanças, espadas e outras armas, para 
construir machinas e engenhos de guerra; e ia 
acompanhado de tropas próprias para a explora- 
ção do terreno, e de gastadores e artífices para a 
abertura de estradas e construcçao de pontes ^. 



* Orig. dd Juaticia. 

* E. Calderon. MU, de los arab. 



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178 

Gftiá*. Era uma gazúa solemne, como foi a celebre ga- 

zúa de Santhiago, expedição commandada por Al- 
mançor até Santhiago de Galiza, tendo desembar- 
cado no Porto. 

De outras expedições de somenos importância 
adoptaram o nome os christSos, e de origem árabe 
eram por exemplo algara, que queria dizer uma 
incursão á mão armada, quasi sempre de tropas a 
cavallo, destinadas a dar saque ás povoações, rou- 
bar gado, viveres, fructas dos campos, assaltar 
os comboios dos inimigos, os povoados, os acampa- 
mentos, a combater, etc, e nao só significava a 
cavalgada propriamente, mas a própria acção de 
coiTcr e assaltar, È ainda hoje o processo de com- 
bater, entre os árabes, e de devastar as terras ini- 
migas, com o nome de razias *. 

De como eram realisadas essas algaras nos dá 
noticia D. Juan Manoel : 

Ducrípç&o dM « Seiior infante, la guerra de los moros no es como 
«igarw. j^ ^^ cristianos, tambien en la guerra guereada 
como cuando ceycan ó combateu, ó son cercados 6 
combatidos, como en las cabalgadas et correduras, 
como en el andar por el camino et el pasar de la 
otra; ca la guerra guerreada fácenla ellos muy 
maestramente, ca ellos andan mucho et pasan com 
muy poça vianda, et nunca Uevan consigo gente 
de pié nin acemilas, assi cada uno va con su ca- 
ballo, también los seflores como qualquier de las 
otras gentes, que non Uevan otra vianda sino muy 
poço pan de figos ó pasas ó alguna fructa, et non 
traen armadura ninguna sino adargas de cuerpo, 
e las sus armas son azagayas que lanzan, espadas 



1 Ha sobretudo ires espécies de razzias distinctas : a teha ataque 
Bubito, com trezentos ou quatrocentos cavalleiros, e também peões 
que vão na anca dos cavallos ; a crotefa ou rapina de camellos, e o 
terhique realisado por um pequeno grupo de cavalleiros, para roubar 
gado nos adaares. General Daumas. Ias chev. du Sakara, pag. 274 . 



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179 

con que fieren, et porque se tienen tan ligeramente 
pueden andar mucho. Et cuando en cabalgada 
andan caminau cuanto pueden de noche et de dia 
fasta que son lo mas dentro que pueden entrar de 
Ia tierra que quieren correr. Et a la entrada entran 
muy encobiertamente et muy apriesa; et dé que 
comienzan a correr, correu et roban tanta tierra 
et sabenlo tan bien facer, que es grant maravilla, 
que mas tierra correrán et mayor dailo farán y 
raayor cabalgada ayuntarán doscientos honies de 
caballo moros que seiscentos cristianos. £t facen 
otra cosa que cumple mucho para la guerra, que 
quanto tomasen, nunca home dellos tomará nin 
encubrirá cosa de que lo tomaren; mas todo lo 
traen é lo ayuntan para pro de la cabalgada, 
como un Cristiano si fuyese de su lid. Et dé que 
han hecho su cabalgada, facen como pueden, para 
salir aina de la tierra do sean en salvo, et guar- 
danse mucho de albergar de los cristianos puedan 
ferir en ellos de noche; y se por fuerza han de 
albergar, entran do no hay receio ó miedo. De al- 
gun tiempo acá han tomado una maestria, que 
nunca albergan todos ayutados, et dejan con la 
presa de noche muy poços, et de dia envian la 
presa con algunos adelante, et ellos van á com- 
paflas non ayutados, et desta guisa van fasta que 
son en salvo ^)>. 

Anudhoj era uma expedição destinada a con- Anadia, 
struir ou reparar fortalezas, passando a significar 
a obrigação de certas companhas destinadas a esse 
fim ; essa obrigação militar, como algumas outras, 
veiu a converter-se em imposto de guerra. 

N'estas expedições punham bem em evidencia 
os árabes esse génio de destruição e de ruina de 
que eram dotados, de que falia Bem Caldum, e 

^ D. Jaan Manuel. El Libro de loa Eõtadoê, 



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180 



Cara oter 
árabe. 



Unidades. 



FormaçSea. 



Tabia. 



do 



que fez d^elles um povo rude e feroz, mas com o 
volver dos tempos apurado nas exigências requin- 
tadas da civilísaçao. 

Descrevendo os árabes primitivos, diz aquelle 
escriptor: «A naturesa feroz dos árabes fez d'elle8 
uma raça de larápios e de bandidos; sempre que 
podiam levantar a presa sem correr perigo ou sem 
sustentar lucta não hesitavam em se apoderar 
d'ella, entrando o mais depressa possível na parte 
do deserto onde tinham a pastar os seus rebanhos. 
Nunca marchavam contra um inimigo para o 
combater abertamente, a não ser que o cuidado da 
própria defeza os obrigasse a isso. Se durante as 
suas expedições encontravam logares fortificados, 
ou localidades de difficil acesso, desviavam-se d'el- 
les para entrar nas regiões planas». Este cara- 
cter, embora muito attenuado, presistiu nos ára- 
bes através dos séculos, mesmo quando elles já 
haviam alcançado um alto grau de desenvolvi- 
mento e cultura. 

Nas expedições numerosas e em forma, ou quando 
o exercito tinha de sair em campanha, era U80 
desde os tempos mais antigos que, para distinguir 
a gente das diversas regiões ou estados, ella fosse 
repartida em querdusy ou corpos, cada um d'elles 
com um numero approximadamente igual de filas; 
tinha isto a vantagem de constituir unidades com 
gente do mesmo povo, que entre si se unia e se 
entendia na confusão do combate. Assim divididas 
estas tropas formavam em cinco grandes corpos 
que eram coUocados um em cada ponto cardinal 
e um no centro ; aqui estava o sultão ou o general. 

Tabía era o nome genérico d'esta ordem ou 
disposição, necessária nos grandes exércitos, prin- 
cipalmente ^ 



* Ibn Ealdum. Prologomhnes, tomo ii. 



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181 

Quer Guayangos que d'esta constituição emAicamu. 
cinco corpos viesse o chamar-se ao exercito aU 
camis^ de onde veiu o alcamir^ das chronicas 
antigas — : nJamis, j con el articulo aljamisj si- 
gnifica en arábigo el ejercito, por constar de cinco 
partes que son : la delantera ó vanguardia, el cen- 
tro, la zaga ou retaguardia^ y los dos cuernos ó 
alas, derecha é esquierda*». 

Bem Caldum dá-nos os nomes árabes d'esses Moeaddemma. 
corpos : o da frente com o seu general e respectiva 
bandeira chamava-se moeaddemma, vanguarda, o 
da direita do príncipe meimena ou ala direita, o daiieimena. 
esquerda m£icera ou ala esquerda; o da retaguarda Meieen. 
saca, a nossa saga dos tempos medievos; o corpo do s. 
centro onde estava o soberano com o seu estado 
maior, chamava-se calb, ou coração ^. caib. 

Assim se formavam os numerosos exércitos dos 
omáiadas de Hespanha. 

As vezes supprímia-se o corpo central e então 
no centro ia o chefe do exercito, os generaes, os 
estandartes, o thesouro, os serventuários, as baga- 
gens. 

Um official de cíitegoria superior exercia a func- 
ção do que hoje chamariamos chefe do estado 
maior, e estava a seu cargo o ordenar as marchas, 
escolher os caminhos, tomar precauções para a 
passagem dos desfiladeiros, rios, etc. 

O corpo da vanguarda tinha a seu cargo abrir 
passagem ao exercito, remover os obstáculos, es- 
colher os sitios para acampar, descansar ou comer. 
Ao corpo da retaguarda incumbia recolher os re- 
tardatários ou doentes, que ficavam no caminho 
e impedir que as tropas de um corpo se confundis- 

^ Não me piirece acceitavel a opinião de que deva alcamiz ser 
synonimo de ai ardo ou lista de tropas. 

2 Gayangos. Mem. histórico esp., tomo iz, pag. 355. 
' Ibn. Kaldum. Prologomhnes, tomo u. 



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182 

sem com as do outro. Aos corpos lateraes perten- 
cia evitar surpresas do inimigo ^ 

Consoante a força do exercito, assim podia esta 
disposição toda ser abrangida pela vista, ou esten- 
der-se tanto que ficassem a um ou dois dias de 
jornada um corpo do outro. 

Nesta disposição tomavam posições para acam- 
par ou combater ^. 
Travessia doi A travcssia dos rios era feita a pé ou a nado, 
para o que as tropas iam munidas de odres e ma- 
terial de pontes. Para estas se cortava a madeira 
das proximidades, e as traves se uniam, o melhor 
possivel, com cordas ou ligaduras vegetaes, e se 
coUocavam sobre cavaletes. Se era grande a cor- 
rente do rio, formava-se uma espécie de fachinas 
de lenha sêcca e cortiça, que se prendiam de uma 
margem á outra, deixando entre ellas uma dis- 
tancia sufficiente para a agua correr ; e sobre ellas, 
e fortemente atadas, se estendiam taboas que ter- 
minavam a ponte ^ 



rios. 



Acampuneato. Quando acampavam, os primitivos musulmanos 
abriam valas, levantavam trincheii*as em volta do 
arraial, para maior segurança e para evitar sur- 
presas. 

Seguindo o preceito do Propheta de que a guerra 
não era mais do que uma seríe de ardis, o árabe 
tomara-se eximio nos estratagemas da guerra, da 
pequena guerra sobretudo, e d'esses processos de 



* Perez de Castro, ob. cit., pag. 61. 

2 Ibn. Kaldam. Prolog, tomo ii. 

3 Perez de Castro, ob. cit. 



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183 

surprehender o inimigo e de o trazer em constante 
sobresalto se serviu constantemente, na implacável 
e tremenda lucta da Reconquista. 

D. Juan Manuel, recommendando a maior cau- ciudas. 
tella contra as ciladas dos mouros dizia: «Et po- 
nen las ciladas porque si los cristianos aguijaren 
sin recabdo que los de las celadas recudan, en 
gursa que los puedan desbaratar, et faceu desta 
nianera a tantas, et saben tanto destas maestrias e 
artérias, tambien en las celadas como en recudir 
a los pasos fuertes et a las estrechuras, et en tan- 
tas otras maneras, que non ha en el mundo home 
que vos pudiese decir quanto saben et cuanto facen 
et cuanto se aventuran cn meter los cristianos á 
peoria, porque pueden acabar ellos lo que los 
cumple*». 

Com a passagem da primitiva vida nómada para 
a sedentária desappareceu entre elles o costume 
de levarem comsigo uma grande quantidade de 
camellos e cavalgaduras, formando com elles os 
entrincheiramentos á retaguarda ; adoptaram-se as 
tendas de campanha. 

Para acampar escolhia-se sitio próprio, livre de DUposiçio do 
surpresas, com agua potável, viveres e lerragens 
ao alcance. Eram rectangulares ou circulares os 
acampamentos; no centro ficava a tenda do com- 
mandante em chefe com o seu quartel general, o 
conselho privado, o visir, o harém, os eunucos, o 
guarda-moveis, a cozinha, os fâmulos, os escravos. 
Em volta as tropas, os hospitaes, os depósitos de 
armas, os mercados. No fosso a contra-escarpa era 
defendida por estacas; á distancia cordões de es- 
culcas, sentinellas, atalaias, postos avançados, ex- 
ploradores *. 



^ D. Juan Manuel. Libro de los Estados, 
2 Perez de Castro, ob. cit. 



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184 

Segurança. Roíidas frequeiites, com uma espécie do systema 
actual do santo e da senha, vigiavam o serviço de 
segurança do acampamento. A um alto funcciona- 
rio, com 08 seus subordinados, competia a vigilân- 
cia do acampamento, tanto no que i-espeita ao ser- 
viço como á policia das tropas, mercados, etc. 
Parte das tropas dormiam vestidas e com armas 
ao pé, para acudirem ao primeiro alarme ^ 



Formas de com- Por duas fórmas combatiam os árabes: a carfi^a 



bater. 



a fundo, em linha, em ordem de combate, como 
todos os povos o praticavam, ou então por uma 
maneira que lhes era muito peculiar, atacando e 
retirando em seguida, para de novo voltar á carga. 
Era esta a forma do ataque da cai^allaria ^. 

Combate em iL A primeira maneira, diz Bem Caldum, é a mais 
efficaz, a mais temivel, a mais solida e a mais leal, 
e consiste em formar os homens em fileiras regu- 
lares, direitos como flechas, ou como as fileiras 
dos musulmanos quando fazem oração; consti- 
tue-se assim uma muralha viva, difficil de derru- 
bar. Era essa a formação preferível, mesmo em 
vista das palavras do Propheta: «Deus ama os que 
combatem em linha e são firmes como um solido 
edifício», o que quer dizer que uns sustentam os 
outros pela firmeza. 

Por cargas ere- O sjstcma dc ataquc por cargas e retiradas 

^' successivas exigia o estabelecimento, na retaguarda 

da linha de ataque, de uma espécie de barricada, 

formada por objectos inanimados, como pedras, 



1 Ibn. Kalduin. Prologam,, 2.* parte. 
' D. Juan Manuel. Libro de los Estados, 



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185 

bagagens, carros; ou por animaes, como camel- 
los, cavallos, etc, o que constituía uma trincheira 
atrás da qual os cavalleiros se iam reunir, em 
s^uida á carga, voltando a ella tantas vezes 
quantas necessário fosse, para abalar ou abater o 
inimigo. Mejbuda se chamava essa espécie de 
entrincheiramento. 

Conta Benalatir que tendo o Imane Bemomare 
interrogado em carta um seu general, o principe 
Nuradiu; sobre a rasão por que obrigava a sua ca- 
vallaria ao jogo da malha, respondeu: «Se deixás- 
semos os cavallos á mangedoura tornar-se-iam 
preguiçosos e incapazes de sustentar uma longa 
marcha. Não saberiam fazer rapidamente a meia 
volta sobre o campo de batalha quando executas- 
sem a manobra da carga e da retirada». 

Estas cargas faziam-se geralmente por escalões 
de columnas, avançando cada uma d'estas sobre a 
frente do ataque, despejando os cavalleiros os seus 
carcases, n'um diluvio de settas, enfiando em seguida 
no hombro o arco e carregando com a espada na 
mão. 

Informa Bem Caldum que nos primeiros tem- informitçsei de 
po8 do islamismo as tropas mussulmanas carrega- ^^ ca^^^"»* 
vam a fundo, comquanto os árabes executassem 
muito bem o ataque por carga e retirada, esco- 
lhendo previamente um ponto de reunião; e que 
desde que ha homens, duas maneiras de combater 
teem os exércitos, pela carga a fundo e pelo ataque 
e retirada, sendo a primeira empregada por todos 
os povos não musulmanos no decurso das gerações, 
e o segundo pelos árabes e pelas berberes. Foi 
Meruan U, ultimo rei da dynastia dos omáiadas, 
o primeiro a pôr em pratica a foimação em corpos, 
tahia^ contra Adahal da tribu de Cheibane ^ 

* Henri Delpech. La tacHque au xm sihde, tomo i, cap. iv. 



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186 

A forma de combater por 'carga e retirada, 
conservaram-na sempre os árabes, e o infante 
D. Juan Manuel diz d'elles: «Et sabet que non 
están nin tienen que les paresce mal el foir, por 
dos maneras, la una por meter los crístianos en 
peoria, porque vayan en pos dellos descabdella- 
mente; et la otra es por guarescer cuando veen 
que mas non pueden facer». 

Mas o ataque em ordem de batalha passou mais 
tarde a ser n'elles a forma fundamental, não só por 
terem de oppôr essa táctica á que era geralmente 
seguida pelos christãos, seus adversários, mas por- 
que nas guerras santas representava maior sacri- 
fício e coragem. Foi para se conseguir isso, in- 
forma Bem Caldum, que até succedeu que no 
Magrebe os musulmanos tomaram ao seu serviço 
tropas europêas (franges) a fim de constituir uma 
espécie de resei^va ou núcleo de gente acostumada 
a luctai* a pé firme, dando assim o exemplo aos 
outros. 
Preceito* par» Do seguinte trecho da arenga feita aos seus sol- 
dados, na expedição de Cimn (anno 37 da hé- 
gira e 657-658 da E. C), pelo califa Ali, re- 
saltam alguns preceitos curiosos sobre o modo de 
entrar em ataque: «Uni e alinhae bem as vossas 
fileiras, a fim de que sejam como um edificio soli- 
damente construído; collocae na primeira fileira os 
homens que vestem couraças, e atrás d'elles os que 
as não trazem; serrae os dentes, que é a melhor 
maneira de fazer resaltar a espada, quando vos 
derem com ella um golpe na cabeça; mettei-vos 
por entre as lanças do inimigo, que isso vos ga- 
rantirá melhor contra os golpes; baixae os olhos, 
que assim se fortalece a coragem e se tranquillisa 
o coração; permanecei silenciosos, que é essa a 
melhor prova de firmeza, e a mais grave; tomae 
sentido nas vossas bandeiras, não as abaixeis nem 



combater. 



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187 

inclineis, e só as confieis a mãos dos vossos mais 
bravos guerreiros ; e que uma coragem decidida e 
persistente vos anime, porque pela força da insis- 
tência se alcança a victoria!» 

Do mesmo modo e na mesma occasiao, falia aos 
Âzdites um general do mesmo califa, Maléque Be- 
nalarche: «Serrae os dentes malares, lançae-vos 
sobre o inimigo de cabeça baixa ; correi ao combate 
como quem tem buscado por muito tempo vingar 
o sangue de seus pães e de seus irmãos e á morte 
se offerece ousadamente, para não se deixar ultra- 
passar na sua vingança, nem deshonrar-se n'este 
mundo». 

Póde-se dizer que os árabes, embora obrigados 
a mudar de systema de combater conforme os povos 
com que luctavam, nunca abandonaram a sua ma- 
maneira peculiar e original das escaramuças, dos 
ataques vivos, nos quaes se succediam as rápidas 
retiradas, para de novo se voltar á carga. 

O infante D. Juan Manuel no Libro de los j&5to-Nap«ninsaia. 
dos confirma a permanência d'esse systema na 
peninsula quando diz: «Et si por ventura ven que 
de Ia primera espolonada no pueden los moros 
revolver nin los cristianos, despues partense a 
tropel, en guisa que si los cristianos quisiesen 
pueden facer espolonada con los unos que los fíe- 
ran por delante et los otros las espaldas et de tra- 
viesso». 

Chamava-se a esse processo de combate, em 
Hespanha, cargas ou espolonadas «a tornafuye». 
Contra elle recommendava D. Juan Manuel as 
maiores cautelas, como sendo a principal coisa a 
guardar : 

«Pêro sobre todas las cosas dei mundo deben 
guardar que non fagan aguijadas de j)ocas gentes, 
sino quando fueren todos en uno, ca una de las 
cosas dei mundo en que los cristianos son mas 



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188 

engaiiados, et qorque pueden ser desbaratados mas 
aÍDa, et se quieren andar ai juego de los mores ó 
faciendo espolonadas a tornatuye; ca bien creed 
que en aquel juego matarian et desbatarían cient 
caballeros moros a trescientos cristianos, e ya 
muchas veces gentes et huestes de cristianos fueron 
desbaratadss con estes engaflos et maestrias de los 
moros »• 
Ordem paraiieu. Nas suas luctas com OS bjsantinos, e influen- 
ciados pelos principies clássicos da guerra, sobre- 
tudo de Vegecio, haviam adoptado a ordem paral- 
lela, que na lucta entre os cruzados nem sempre 
lhes deu a victoria, tendo tido por vezes de recorrer 
aos seus antigos processos. Foram os eminentes 
chefes Nuradin Xircuh e Saladin os que resus- 
citaram o systema das escaramuças, combinando-o 
com os principios da grande guerra, para consti- 
tuir «um methodo de combate menos clássico, po- 
réai mais em harmonia com o génio asiático, alem 
de ser muito racional e originalissimo S). 

Essa fónna primitiva de combate consistia para a 
cavallaria em atacar em chusma a cavallaria adver- 
saria, evitar o embate, fazendo frente á retaguarda 
no momento propicio, dispersando-se no campo 
para obrigar o adversário a dispersar-se também, 
e em seguida atacar lhe em maior numero as frac- 
ções, com absoluta certeza de êxito \ 

Para isso iniciava-se o ataque e emprehendia-se 
a retirada tantas vezes quantas fossem necessárias, 
retirando-se os cavalleiros para a retaguarda da 
sua infanteria, ou mais primitivamente, como vimos, 
para traz das trincheiras formadas pelos carros e 
bagagens. 



1 Henri Delpech. Tactique ou xiii «tèc^, tomo i, cap. ly. 
^ Ainda hoje o arabe combate assim. Le general Daumas, Les 
chtv. du Sahara. 



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189 



O ataque da infantería era começado á distan- 
cia pelos archeiros como vemos praticado na 
batalha do Salado, segundo refere o Poema de 



Affònso XI: 



Lhegó contra el Salado- 
£1 rej moro de Granada, 
Su bacinete dorado 
En la mano su espada 

Al Salado fue llegando 
Adelante los arqueros 
Yuanlo acompannando 
Siete mill caaalleros 

Adelante los arqueros 
Lhegaron contra el vado, 
Cometieron los eaualleros 
Que pasaron el Salado. 



Nas batalhas em forma o combate começava á 
distancia iniciado pelo tiro parabólico dos arqueiros, 
cujas settas caiam sobre a hoste christã como uma 
chuva, embotando grande parte d*ellas nas rijas 
armaduras dos cavalleiros bardados, mas empre- 
gando-se outras efficazmente nos pontos vulneráveis 
doestes, e na cavallaria ligeira, que era em maior 
numero, e ha infanteria, também pouco protegida 
e que estava por isso sujeita a maiores estragos ; 
a besta christâ, comquanto mais rija e penetrante, 
tinha menos certeza e menor alcance e rapidez. 

Ao contrario doesta, que era visada ao objecto 
que se pretendia ferir, os dados dos arqueiros eram 
lançados ao ar, por forma a irem cair, descrevendo 
uma parábola, verticalmente e com todo o seu peso, 
sobre as fileiras do inimigo, ferindo-os nos hombros, 
no pescoço, nos braços, no rosto, em toda a parte 
onde o ferro podesse penetrar ; era necessário, por- 
tanto, uma grande destreza para se formar o tiro 
com precisão, em harmonia com a distancia a que 
se achava o inimigo. Os árabes eram n'isso eximios. 

12 



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190 

inflaeaciM do> ContrE esta táctica toda móbil, ligeira, offensiva, 
combatendo á distancia ou pôr surpresa, e em que 
o inimigo se tornava quasi que intangivel, tiveram 
os christãos de oppôr as formações compactas, em- 
pregando um systema puramente defensivo, em 
que as duas armas, a cavallaría e a infanteria, 
tornando-se absolutamente solidarias, oppozessem 
uma mole de ferro, de couraças e escudos, contra a 
qual se estrellassem os ataques parciaes dos mu- 
Bulmanos. 

Estes, pelo seu lado, forçados se viram também 
a procurar novos processos de combate, passando 
a sua tatica a ter por objectivo principal o separar 
a cavallaría christã da sua infanteria, para as bater 
parcialmente. 

progretioa ta- É fóra dc toda a duvida qiie os árabes, não só da 
liçao dos clássicos mas da pix)pna experiência, 
aprenderam os seus methodos de combate, e póde-se 
dizer que na sua táctica se encontram applicados 
aquelles principios verdadeiramente scientificos que 
desde o século x se accentuam na arte militar, 
isto é: — o duplo papel de cavallaría, como arma 
de tiro e de choque; o ataque d'esta em escalões 
de columnas ; a funcção da infanteria, ao lado e ao 
par da cavallaría ; a judiciosa combinação das ar- 
mas de arremesso com as de pulso; a solidaríe- 
dade das duas armas da epocha, a cavallaría e a 
infantería; o bom aproveitamento do terreno; a 
extrema mobilidade dos exércitos reunida á sua 
solidez, de maneira a poderem desenvolver-se e 
reformar- se rapidamente; o emprego das duas or- 
dens fundamentaes, a parallela, imitada dos roma- 
nos, e a perpendicular, com um caracter mais par- 
ticular, de origem barbara; sabias regras para 
marchar, estacionar, combater, que caracterisam 
já uma epocha notável na historia da táctica. 
Parece ter sido Amer Benalace o primeiío a dis- 



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191 

pôr massas pelos processos clássicos, tendo man- Princípios cim- 
dado traduzir os livros de escriptores da Pérsia, 
índia e Grécia, entre elles Polibio *. 

Pelas transformações por que obris^aram a passar Re naieimento 
OS exércitos feudaes europeus, os árabes prepara- 
ram o renascimento da arte da guerra, obrigan- 
do-os a aligeirar a cavallaria, a tirar a esta as 
prosapias de arma independente e única, a crear 
08 serviços da administração militar, a adoptar 
novas formações como a mó, a cerca ou curral e 
o caracol, a aperfeiçoar o armamento, a adoptar a 
pólvora, que sob o influxo do génio europeu se 
havia de converter no poderoso elemento transfor- 
mador dos exércitos. 

Dado o adiantamento da epocha, póde-se dizer Ama e mano. 
que os árabes tinham conseguido, no maior grau 
de perfeição, as duas condições principaes de toda 
a funcção militar: a excellencia dos instrumentos 
de guerra e a perfeição das combinações tácticas, — 
a arma e a manobra. 

Os christãos, para os combater vantajosamente, 
tiveram de adoptar idênticos systemas de arma- 
mento, de remonta, de formações e de processos 
de combate. 

NaHespanha, onde estiveram em constante lucta ^o**^«*ç»;» »« 
com os musulmanos durante sete séculos, e no 
Oriente, onde os foram buscar para os combater, 
os christãos passaram a adoptar a levis armatura de 
que faliam as chronicas, aligeirando a maior parte 
da sua cavallaria, conservando apenas uma parte 
pesada, como arma de reserva, para o final golpe 
decisivo; porque nem o clima, nem o systema de 
escaramuças dos árabes permittiam no Oriente 
continuar com a immobilidade e a falta absoluta 
de agilidade da cavallaria bardada. 

1 Mb. arab,f citado por Perez de Castro. 



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192 

Boberto da Normandia, a quem seu irmão, o rei 
de Inglaterra, havia usurpado o seu ducado em- 
quanto elle fazia parte da primeira cruzada no 
Oriente, deveu, diz o seu chronista, a victoria na 
batalha de Tinchebrey (1106) aos processos de 
combate que aprendera na Palestina *. 
Aiigeiramento Ligcira cra a cavallaiía com que Baduino de 
dacavaiuria-g^^g^^ rei dc Jcrusalcm bateu os musulmanos 
em Ascalon, adoptando-lhe os processos de com- 
bate. 

Em competência com Venesa, onde o fabrico 
das armas já representava uma influencia oriental, 
de Damasco passaram a vir as espadas damas- 
quinadasy os finos e ligeiros tecidos de malha, que 
substituiram as pesadas peças das armaduras eu- 
ropéas. Os perpuntos almofadados sobre a malha 
augmentavam o poder defensivo da cota sem lhe 
augmentar muito o peso. 

Na peninsula ibérica a maior parte da cavallaría 
christã é aligeirada para escaramuçar c esgrimir 
com a cavallaria mourisca e para lhes armar em- 
buscadas; adopta-se a cavallaria da gineta; só uma 
parte da cavallaria, os homens de armas, é pesada; 
tinham armadura de ferro apenas «os que espe- 
ravam o inimigo em descanso»; e como a caval- 
laria moura, quando travava lucta com os caval- 
leiros christaos, embaraçados nas suas pesadas 
armaduras, os cercava, e manobrava por forma 
a fatigal-os, antes de cair a fundo, «adoptavam- se 
os mesmos processos por elles seguidos, como o 
fez D. Jayme de Aragão em 1268, em Murcia, 
que de 600 cavalleiros só 100 conservou bardados, 
e os outros 500 os armou á ligeira, divididos em 
três esquadrões»; estes «sem armadura, deviam 
travai' a lucta e fazel-a durar até se esgotarem as 

^ AsBuetusque bdliê jeroaolymUanis, 



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193 

forças dos ginetes ; quanto á reserva, coberta de 
ferro, não interviria senão quando findasse o com- 
bate, para apanhar, n'uma carga decisiva, tudo 
que ainda ficasse sobre o terreno**. 

Do mesmo modo que o cavalleiro, foi também ali- o»t»iio «rabe. 
geirado o cavallo; e, ainda mais, de cavallos árabes, 
ou dos productos do cruzamento doestes com os 
de origem europêa, se fez a remonta da melhor ca- 
vallaria da idade media ; veiu a produzir-se assim 
um typo médio como succedera com a táctica, e 
n'esse typo se reuniram as qualidades de robustez 
e força do cavallo europeu com as da elegância, 
rapidez e ardor no combate do cavallo árabe. 

Com a armadura e com o cavallo, modifica- 
ram-se também as armas de combate. Deu- se um 
movimento no sentido inverso do que se havia de 
dar a partir dos fins do século xiii, a par e passo 
dos aperfeiçoamentos importantes da besta, e mais 
tarde da arma de fogo; foi tudo tornando-se mais 
pesado e menos Inovei: armas, armaduras e ca- 
vallos. 



Em todos os tempos, até mesmo nos da deca- ?»■•«•««>■ «» 
dencia, como nos últimos do dominio árabe na 
península, foram consideradas condições indis- 
pensáveis para a victoria: — melhores tropas, me- 
lhores armas, melhor disciplina e fii^meza no com- 
bate. 

Não só em tratados de guerra, mas até em poemas 
consagrados a feitos guerreiros, se encontram con- 
signadas máximas e regras sobre a arte militar. 

São dignas de serem memoradas as seguintes 
estrophes do poema, já mais de uma vez aqui 

1 Cit. de Delpech. 



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194 



citado, de Abu Becre Açaraíi, poeta hespanhol do 
século XII, consagrado ao príncipe Taxefin, derro- 
tado pelos almohadas: 

«Sobre a estratégia te offereço indicações a que, 
antes de ti, já os reis da Pérsia ligavam grande 
importância. . . 

«Enverga essas duplas cotas de malha que 
Tobba, o hábil artifice, legou aos vindouros, 

«Toma uma espada indiana de lamina delgada; 
é mais cortante, e penetra melhor nas couraças. 

«Tem á mão um corpo de guerreiros, montados 
em cavallos rápidos, que te sirvam de fortaleza 
inabalável. 

«Em cada alto entrincheira o teu campo, quer 
persigas o inimigo vencido, quer seja elle quem te 
persiga. 

«Acampa á beira dos rios ; não os transponhas 
para acampar; sirvam elles para separar o teu 
exercito do do inimigo. 

«Ataca-o de noite; apoiando-te na justiça, terás 
n'ella o teu melhor sustentáculo. 

«Quando os dois exércitos estiverem apertados 
no lugar do combate, que as pontas das tuas lan- 
ças alarguem o campo de batalha. 

«Ataca immediatamente sem te preoccupares com 
coisa alguma; mostrar hesitação é perderes-te. 

«Procura para esclarecer o terreno gente ousada 
e que se distinga pelo seu provado amor á verdade. 

«Não dês ouvidos aos mentirosos que te trou- 
xerem boatos alarmantes; um mentiroso convicto 
não merece consideração alguma». 



Eesumâmos agora os factos comprovativos dos 
principies que, como deixamos dito, representam 



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195 

acquisições feitas, no sentido de um verdadeiro Precumore. da 
progresso da arte na guerra, pelo gemo árabe, m- guerra moder. 
fluindo, por um lado, e, deixando-se por outro, 
influenciar pelo génio e feitio europeu, peninsular 
principalmente. 

Progressivo como era o povo árabe, pôde di- 
zer-se que, ao encontrar-se em contacto com a civi- 
lisação européa, tinha já adquirido, sob o ponto de 
vista militar, aquelle desenvolvimento que lhe dá 
o legitimo direito de poder ser considerado o ver- 
dadeiro precursor da moderna scieucia da guerra, 
ao passo que foi também a causa immediata dos 
progressos realisados pelos christãos nos diversos 
ramos dos conhecimentos militares. 

Encontra-se já n'essa epocha uma theoria a qucTheoria da 
obedecem as operações de guerra e o emprego *^*"*' 
das tropas e das armas. 

A cavallaria, comquanto nem sempre se subdivi- papei da earai. 
disse em duas espécies, tinha comtudo, como vi- 
mos, duas funcções distinctas: a do tiro e a do 
choque. De longe crivavam o inimigo de settas, 
que mesmo na retirada sabiam despedir com pres- 
teza e mestria, approximando-se das fileiras inimi- 
gas, e, em momento propicio, carregavam de lança 
em riste, ou com o sabre na mSo. O cavallo estava 
admiravelmente adestrado para estes dois fins. 

Consoante a phase do combate e a qualidade doTiroeearga. 
inimigo, assim se empregava ou o tiro ou a carga; 
do mesmo modo, o cavalleiro era em estremo destro 
no despedir a setta certeira a grande distancia e 
no manejar o cavallo. 

O systema das escaramuças que, segundo BemEtearamaçaa. 
Caldum, fora em parte abandonado para se ado- 
ptar o processo táctico dos christãos, em ordem 
unida e em cargas cerradas, breve foi resusci- 
tado, como vimos, principalmente por Nuradin no 
Oriente; e para nos dar uma idéa de como eram 



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196 

esses choques e retiradas successivos basta a se- 
guinte descripção de um episodio da batalha de 
Tiberiada (3 de julho de 1187), feita por Amale- 
que Alafedal ; 

Gargai anecesii- «Eu estava ao lado de meu pai n'esse combate . . . 

''*'' Quando o rei dos francos se achou sobre a collina 

com essa tropa de cavalleiros, deu uma carga 
admirável nos musulmanos que estavam em frente 
d'elle, e impelliu-os até onde estava meu pai. 
Olhei para este e vi que estava afflicto, que 
mudava de côr e com a barba na mão avançava 
gritando: O diabo se convença da mentira! Os 
musulmanos voltaram então á carga contra os 
francos, que bateram em retirada e tornaram a 
subir á collina. Quando vi que os francos retira- 
vam e os musulmanos os perseguiam, exclamei, 
cheio de contentamento: Pusemol-os em derrota! 
Mas os francos voltaram e deram uma nova carga 
como a primeira, de modo que repelliram de novo 
os musulmanos até ao sitio onde meu pai estava. 
Este procedeu como da primeira vez, e os musul- 
manos, voltando a carregar, os repelliram até á 
collina. Novamente exclamei: Pozemol-os em fuga! 
Porém meu pai, voltando-se para mim, disse-me: 
Calla-te*». 

Depois doestas cargas successivas, os pesados 
cavalleiros de Lusignan, exhaustos pelo calor e 
pela fadiga, acabaram por se apearem, sentando-se 
no chão. As cargas dos musulmanos haviam-os 
fustigado até os extenuar, como a ressaca do mar 
fustiga as fragas da riba! 

Outro ■ exem- Um outro cpisodio uos dá perfeita idéa do que 
era o systema das cargas em escalão de columnas, 
com o emprego alternado do tiro e do choque; foi 
na batalha de Mançura (1250). 

* Delpech, ob. cit., tomo i, liv. ii, cap. ii. 



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197 

A S. Luiz fora habilmente separada a sua infan- 
teria da sua cavallaria, por fintas e ataques de longe 
que trouxeram os christãos á perseguição desor- 
denada; então a cavallaria árabe cercou-os por 
toda a parte, fez avançar a cavallaria por esqua- 
drões ; o primeiro approximou-se, despojou os seus 
carcazes e retirou para a retaguarda; seguiram-se 
successivamente os outros esquadrões, procedendo 
pela mesma forma; quando já muitos dos homens 
e cavallos do inimigo estavam fora de combate, os 
árabes suspenderam no braço esquerdo os arcos, 
puxaram das massas e das espadas, e carregaram, 
em cargas successivas de esquadrões *. 

Nas cargas commandadas por Saladino na bata- 
lha de Arçufe (1 181) e em outros episódios da guerra 
dos cruzados encontramos a mesma manobra; e 
que na peninsula era usado o mesmo processo de 
guerra prova-o, por exemplo, a recommendação 
de D. Jayme de Aragão, quando cercou Murcia 
em 1268, para que houvesse cautela e se tomas- 
sem todas as precauções, pois, «segundo era cos- 
tume das gentes árabes, estas cercavam os caval- 
leiros christãos cobertos de armaduras de feiTO e 
lhes andavam de roda até cansal-os, antes de os 
carregarem a fundo: — «cansaven anan entorn 
daquels que tenien cavais armats^.» 

E o processo de combate que Delpech descreve Discripçio do 

, -. *■ combato. 

por esta forma: 

«A cavaliaria ai-abe, ao ver approximar-se uma 
carga de cavallaria dos christãos dispersava-se em 

^ «II Turz aceinterent les noz tout entor, et traistreDt si grani 
pi ente de saietes e de quarríaux, que pluie ne grelle ne feist une 
8Í grant oscurté, si que inonlt i ot ae navrez de nos genz et de lear 
chevaux. Quant les premieres routes de Turz orent vuidié touz leur 
carquoiz et tout trait, il se retraistrent arrierez, mes les secondes 
routes vindrent tantost traistrent encorez plus espessement assez 
que navotent fait li autre. Ms. de Rothelin H, Occi., cit. Delpech, 
tomo II, pag. 606. 

2 J. de Aragon, cit. de Delpech. 



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198 

todas as direcções. Para a alcançar, os cavalleiros 
christãos tinham também de se dividir em uma 
grande quantidade de pequenos pelotões. Estes, 
perseguindo á rédea solta objectivos divergentes, 
achavam-se em breve demasiadamente afastados 
uns dos outros para se poderem reunir. Então os 
árabes voltavam em numero infinitamente supe- 
rior, e envolvendo cada trosso isolado carrega- 
vam-no em columna e isto de uma maneira con- 
tinua. O trosso christSo, pouco numeroso para 
poder imitar este methodo de combate, lactava sem 
descanso, emquanto os adversários iam descan- 
sando alternadamente. N'este jogo não havia força 
physica que se não esgotasse.» 

O combater a cavallo fora sempre cargo honroso 
entre os árabes; antes do Propheta elles ser- 
viam -se na guerra de cavallos, camellos e onagros; 
estes dois últimos, porém, foram a pouco e pouco 
postos de parte. 

Foi Ámer quem primeiro organisou a cavallaría 
árabe, ao invadir o Egypto; formou poderosos cor- 
pos com 4:000 cavallos — adi se chamavam — , e 
unidades de 100 cavallos, correspondentes a um 
esquadrão *. 
peôM. Quando entrou em Hespanha o exercito mu- 

sulmano era compostos de gente de cavallo e 
gente a pé *, «infantes berberes educados por Ju- 
lião na táctica romana e endurecidos nas recentes 
guerras contra o bizarro Muça^», mas foi nas suas 
luctas com o peninsular na Europa, e com os 



* Ms.y cit., por Perez de Castro. 

2 D. Eduardo Saavedra, baseado nas informações de Benadari, 
de Dabi, e do Silense, qnalifíca de paramente phantastico quanto a 
penna*de elegantes escríptores se tem comprasido em bordar a 
respeito da vertiginosa carreira das nuvens de ginetes árabes. EtU 
sobre \a inv. de loa arah, en Esp., pag. 71. 

5 Idem. 



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199 

cruzados no Oriente, que a sua infantería se creou 
e se desenvolveu, na necessidade de se oppôr so- 
bretudo aos peões que em toda a Hespanha, e 
desde tempos immemoraveís, representavam um 
importante papel na guerra. 

Segundo o testemunho de D. Juan Manuel, o 
que os mouros mais temiam entre nós eram os 
besteiros e os peões: «et sefialadamente los balles- 
teros et los peones, que es cosa de que se recelan 
mucho los moros '.» 

Os próprios chefes mouros passaram a combater 
muitas vezes a pé, e a preoccupação de consolidar 
e instruir devidamente a infantería, para o fim de 
os habituar a combater a pé firme, e em massa 
compacta, levou-os ao ponto de alistar nas suas 
fileiras, como vimos, gente christâ que servisse de 
núcleo de resistência e elemento de disciplina no 
combate. 

Combatendo com o arco e flecha e com a lança, Formaçsei de 
e mais tarde também com a besta, na oflfensiva a **"* * ' 
infantería era muitas vezes encarregada de, com o 
tiro, iniciar o combate; a sua acção passou a ser 
quanto possivel de accordo com a cavallaría. Na 
defensiva adoptou dos christãos o principio da 
immobilidade, que, muitas vezes, tratando-se de 
escravos, tiveram de conseguir prendendo os peões 
uns aos outros, com cadeias, como na memorável 
batalha das Navas de Tolosa, onde três vezes, em 
cargas successivas, a cavallaria christã não logrou 
romper aquellas verdadeiras muralhas humanas, 
eriçadas de flechas e atrás das quaes Miramolin se 
aparapetara. 

«E los moros, diz Rodrígo de Toledo, ficieron 
en cima de un cabezo a manera de plaza de las 
astas de las saetas, e de dentro estaba una haz 

^ D. Juan Manuel. Libro de los Estados. 



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200 

buena de gente de pie. E en médio de esta plaza 
se assento el Miramolin . . . . E fuera de aquella 
plaza estaban otras haces de peones que hicieron 
gran cava e metieron en ella hasta los hinojos: e 
estaban dos a dos unos delante e otros detrás e 
tenian los nmsclos atados unos con otros: asi que 
estuviessen firmes en la lid, por quanto estavan 
atados e tapiados e no podian huir *.» 

Alem d'esta espécie de reducto derradeiro, a 
infanteria tinha ainda, n'esta batalha, as primeiras 
posições á frente da cavallaria, formando os bes- 
teiros á retaguarda dos piqueiros. 

cavaiiaru apea- Sc acrcditarmos na afirmação de Rodrigo de 
Toledo dá-se mesmo o facto notável de já então 
na peninsula os cavalleiros se apearem no com- 
bate, como séculos mais tarde fariam os portugue- 
zes em Atoleiros, a exemplo do que n'esta epocha 
era frequente, como em Crecy, Pochero, Cocherol, 
Auray, Navarette, Monteil, etc.^i 

E não era nada para estranhar que os mouros 
ahi praticassem o que vinte e um annos antes fora 
usado, por exemplo, pelos cavalleiros de Ricardo 
Coração de Leão n'uma sortida de forrageadores 
em Bombrac. 

Infantaria. Comquauto a infanteria árabe nunca viesse a 

ter a forte organisação e a disciplina da infanteria 
europea, por serem avessas ao seu espirito de raça 
e tradicional individualismo as normas austeras de 
um combate a pé firme, a verdade é que na penin- 
sula ella attingiu um alto grau de solidez, distin- 
guindo-se em innumeras batalhas, onde a vemos 
empregar regras e principies estabelecidos pela 
melhor táctica do seu tempo. 



* Mem, hist. de Alonso. 1.* parte Append., pag. 127. Cit. de Del- 
pech, tomo i, pag. 321. 

2 Bonaparte. Eludes sur Vartillerie, tomo i, pag. 22. 



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201 

A solidariedade absoluta entre a infanteria e a solidariedade 
cavallaria, que os christaos tinham estabelecido '**'*'™" 
como norma inflexível, por ler vantagens sobre o 
táctica movediça e. dispersadora dos árabes, leva- 
ram estes não só a manobrar por forma a separar 
nas fileiras inimigas esses dois elementos funda- 
mentaes, mas também a adoptar esse principio, 
não expondo cada uma d^essas armas sem o apoio 
indispensável da outra. 

Na batalha da Navas de Tolosa lá vemos a ca- 
vallaria mussulmana á retaguarda das fortes linhas 
da infanteria, arqueiros e piqueiros, repellindo duas 
vezes as cargas da cavallaria christã; depois doesta 
ter sido fortemente escarmentada pelo tiro dos 
peões, e não ter podido romper a dos piqueiros. 

Só depois de três successivos ataques, quando 
toda a cavallaria dos christaos coUigados, n'um 
supremo esforço de todas as reservas, conseguiu 
derrotar e desmantellar a infanteria, é que a ca- 
vallai*ia musulmana, sem o appoio da arma sua 
irmã, foi também, pela sua vez, derrotada. 

N'esta mesma batalha vemos os árabes formar corrai. 
o que na linguagem do tempo se chamava entre 
nós cerca ou corrcU, pois outra coisa não era a for- 
mação empregada para, no cabeço onde se conser- 
vava o Miramomelin, se estabelecer a muralha hu- 
mana, que pretendia protegel-a. 

Segundo a Lei das sete partidas «corral o cerca 
facien para guardar sus reyes que estudiesen en 
salvo : et esto facien de homes de pie que los pa- 
raban en três haces, unos en pos otros, et ataban- 
los a los pies por que non se pudiesen ir, e facien- 
les tener los cuentos de las lanzas fincadas en 
tierra, e las cuchiellas enderezadas contra los ene- 
migos; et possien ante ellos piedras o dardos, o 
ballestaS; o arcos, o armas con que pudiesen tirar 
e defenderse de luefle ; e esto facien por tener hon- 



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202 

rado su seiior que los enemigos non pudiessem 
Uegar a el nin facerly mal ; et que si los suyos 
venciecen que sol no semejase que el se moviera 
de un logar nin mostrara que los temia en nada: 
et si fuesen vencidos que fallasen cobro et esfuerzo 
alli do el estudiesse porque pudiesen ellos despues 
vencer**. 

Compare-se esta definição com a passagem, acima 
transcripta, de Rodrigo de Toledo, e ver-se-ha que 
se trata' da mesma formação defensiva de com- 
bate. É pai'a esta ordem de formações, como por 
Mó e moro. cxcmplo Q, mó 6 O murOy também definidos nas 
Sete Partidas^j que, segundo Bem Caldum, os so- 
beranos árabes do Magrebe recrutavam tropas da 
raça christa^ 

Na batalha do Salado vemos os mouros formar 
e dispor as suas tropas em harmonia com o que a 
táctica preceituava como o mais efficaz na guerra: 
as azes de cunha contra as azes de corral «entrando 
por entre os christãos e fendendo-os», as a^es de 
corral «para refrescar gentes na lide e para se re- 
colherem hi 08 mal chagados e pêra sairem todos 
a lidar iuntamente se cumprisse os que perdessem 
os cavallos pêra cobrarem hi outros», as azes lonffos 
e as azes dobradas, conforme as circumstancias; 
o emprego dos arqueires e da cavallaria, consoante 
as phases da lucta; a disposição das clássicas li- 
nhas de combate: a dianteira, as costaneiras e a 



* Partida ii. 

' «Et la muela facien otrosi porque si loa enemigos los cercasen 
en derredor que los fallasen todavia de cara contra ellos defendien- 
doee». «. . .£n el muro fecieron para quando veniesen los enemigos 
que pudieeen meter todo lo sujo en médio para tener en salvo, por- 
que non gelo pudiesen desbaratar ni furtar». Partida ii. 

' «Les souverains maghrebins eurent donc besoin d'un corps de 
troupes habituées à combattre de pied ferme, et ils les prirent che2 
les Européens. Pour former le cerde des troupes qui les entouridt 
pendant la bataille, ils prirent des soldats de cette race». Ibn Kal- 
dum. Frologomhnes, trad. Slane, tomo ii, pag. 82. 



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203 



caga, para ataques de frente e de flanco ; a funcção 
judiciosa das reservas, etc* 

A acreditar nas informações colhidas por Perez 
de Castro no já referido tratado, os árabes conta- 
vam diversas espécies de formações: a meia lua, 
com a parte concava para a frente da batalha; 
a meia lua, com as pontas abertas em forma de 
azas; o quadrilátero; a meia lua, com a frente 
convexa para o lado do inimigo; o losango ou 
rhombo, o triangulo, e o annel*. 

Seudo assim, a primeira e segunda seriam em- 
pregadas para envolver o inimigo ; a quarta contra 
um ataque envolvente ; o triangulo, correspondente 
á formação em cunha, para romper a formação 
inimiga; as outras formações para a defensiva, 
correspondendo o quadrilátero ao nosso murOy e 
o annel á cerca ou corral. 

Inuumeros exemplos poderíamos citar ainda 
para mostrar como outro principio de toda boa 
táctica, o aproveitamento do terreno, o conheciam 
também os árabes, e o applicavam muitas vezes 
vantajosamente, tirando partido das montanhas, 
dos valles, dos rios, dos bosques, de todas as de- 
fesas naturaes, emfim, e as souberam também 
aproveitar para a cónstrucção de obras de defeza, 
das quaes ainda hoje muitas mostram na peninsula 
a actividade guerreira e a sciencia militar d'aquelle 
povo. As fortes posições occupadas pelos mouros 
na batalha das Navas de Tolosa, na Serra Morena, 
seriam inexpugnáveis, se as hostes christãs não 
tivessem tido conhecimento por um pastor árabe 
dos caminhos que os levaram, depois da vã tenta- 
tiva de um ataque de frente, a torneal-as. Ainda 
assim a defeza ali foi formidável. 

1 Os livros de linhagens. Descripção da batalha do Solado. Por- 
tugaliae Monumenta. 

^ Perez de Castro. Ob. cit., pag. 61. 



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204 



Já na invasão da península, nota o Sr. Eduardo 
Saavedra, que a estudou minuciosamente, Taric 
«longe de ir buscar aventuras ás planicies gere- 
zanas, não quiz perder o apoio das montanhas 
nem a proximidade dos seus barcos, e esperou 
Rodrigo no porto de Facinas, cuja importância es- 
tratégica, para dominar a um tempo os caminhos 
de Vejer e Medina, foi posto em relevo pelo illustre 
general Arteche», e conhecidas as intenções do 
seu adversário, se adiantou até o avistar, «apoiando 
a sua esquerda no lago, e a sua direita nos últimos 
encostos da serra dos Tahones, com as suaves 
vertentes do arroio Cel.emim aos seus pés, e as 
charcas e lodaçaes do Barbate, mais longe, na 
frente*». 

Árabes e christãos iam aperfeiçoando e ao mes- 
mo tempo combinando, unificando os seus meios e 
processos de guerra, podendo dizer-se que, por fim, 
mais se differenciavam pelo traje do que por outro 
qualquer característico, e muitas vezes nem isso. 

Nobiliário attribuido ao conde D. Pedro, filho 
de El-Rei D. Diniz, fallando de um tal Tello 
Affonso «que lidou com os filhos de Escalliola a 
par de Argona sobre as páreas cento por cento», 
diz que esses filhos de Escalhola «forom os melho- 
res caualleiros que ouue antre os mouros em aquell 
tempo : e mataromsse o» cauallos todos de hmima 
parte e da outra e brítarom em ssí as lamças e as 
espadas e as maças e os cuitellos e punhaaes e nunca 
se vemcerom huuns nem outros ; e os mouros e os 
christaãos todos amdauam armados de perpontos e 
longas e de brafoneiras, e davomse com ellas atáa 
que cansarem huuns e os outros e non forom vem- 
eidos huma parte nem a outra*». 

1 £. Saavedra. Eat sobre la inv. de la arab. en Esp., pag. 67. 

* Livro de linhagens do conde D. Pedi*o, titulo xv. PortugaUat 
Monumenta. 



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205 



A esta igualdade de armamento correspondia a 
semelhança dos processos de combate, como na 
batalha do Salado, em que vimos que da parte dos 
mouros se empregaram os dispositivos e formações 
mais preconisadas na sciencia da guerra da epocha. 
Desde o seu refugio nas Astúrias, os neo-godos 
procuraram vivificar a alma goda pela resurreiçao 
das leis, das tradições, dos hábitos visigotliicos; 
mas o dominio árabe, durante sete séculos, havia 
transformado completamente a maneira de ser do 
antigo povo romano-godo que dominara na penin- 
sula. Destas duas causas, destas duas tendências, 
destas duas correntes, se gerou a sociedade, o povo 
que se encontrava em toda Hespanha, ao fundarse 
a monarchia portugueza, povo em parte romano, 
sobretudo no que respeita a leis, em parle teuto- 
nico, principalmente nas tradições, e em muito 
árabe, pela acção secular de um povo mais tran- 
sigente e mais culto. 

Não podia, portanto, deixar de confundir-se, 
mesclar-se, unificar-se também a arte da guerra, 
como se unificavam as demais artes e as industrias, 
a sciencia, os costumes e as raças ^ 

D'ahi o caracter especial dos primeiros tempos 
da nacionalidade portugueza, que vamos estudar. 

1 Alem dos exemplos que apresentei no capitulo anterior da fu- 
são do sangue árabe com o neo-gothico nas famílias de maior nobreza 
de Portugal, encontramos, por exemplo, no precioso Livro de Li- 
nhagens do conde D. Pedro inúmeros exemplos a citar : Na descen- 
dência do conde D. Henrique, cuja uma filha casara com o filho 
do conde Vermuin, lá temos D. Aldara Lopes, que é neta de uma 
moura de Salamanca; D. Soeiro Mendes tem de uma moura de San- 
tarém um filho D. Gonçalo Soares Mouro; um neto de Gonçalo 
Mendes da Maja, o Lidador, D. Mem Viega, casou com a filha de 
um mouro de Toledo, Fernão Afibnso, christào novo; e tantissimos 
outros, cheios de descendências aumerosas e i Ilustres. Portugaliae 
Monumenta. — Escriptores, pag. 173, 182, 289, ctc. 



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o CONDADO DE POETUGAL 



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o CONDADO DE PORTUGAL 

CAPITULO I 
Um episodio da Reconquista 

UNCA a bri- 
lhante epopeia 
da Reconquis- 
ta, que tivera ^ 
emCovadonga 
o seu prologo 
heróico, levara 
mais alto o seu 
esforço; estava 
no auge da sua 
gloria! AíFon- 
so VI de Cas- 
tella represen- 
ta essa culmi- 
nação luminosa, entre tantos reis esforçados e illus- 
tres, entre tantos heroes e martyres, que, com o 
seu sangue e o seu braço iam erguendo, dia a dia, 
o throno de oiro em que se havia de assentar Isabel 
a Catholica. 

A constituição do Condado Portucalense, cellula ^ii^^^^^''^ ^°^"- 
fundamental do reino portuguez, 6 um episodio da 



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210 

Reconquista. Nao quizera o conquistador de Toledo 
crear apenas uma situação a sua fillia Tareja, 
havida de uma das muitas mulheres que amara; 
tendo levado o seu dominio até Chantarin (Santa- 
rém), ao norte da provincia de Belatha, para as- 
segurar a base estratégica do Tejo, houvera ne- 
cessidade de crear nm condado fronteiriço que 
guardasse em respeito os moiros do Garb, e or- 
ganisasse algaradas de conquista n'esses apetecidos 
territórios onde Lixbona (Lisboa) e Shelb (Silves) 
eram empórios florescentes, e duas chaves de do- 
minio no extremo Andaluz. Lisboa, juntamente 
com Cintra, já mesmo tinham feito parte do impé- 
rio christao. 

Confiando a Henrique de Borgonha que, ao seu 
lado e em seu serviço, manifestara dotes de esfor- 
çado guerreiro nas rudes campanhas contra a in- 
vasão dos almoravidas africanos comandados por 
Inçufe, Affonso VI, rei de Leão, Castella e Galliza, 
cujo sonho era levar os seus fossados até as arribas 
do Mediterrâneo, expulsando da Peninsula os mu- 
sulmanos, dividira militarmente o seu território em 
condados, incumbidos de manter as conquistas 
realisadas, e de as adquirir novas, no encalço de 
um ideal commum ; e d'entre esses era, decerto, dos 
de maior responsabilidade o condado de Portugal, 
pelos importantes territórios musulmanos que de- 
frontava e alcateava. 

Teremos ainda de esboçar o quadro geral da 
Estudo da Ke. Reconquista, em cujos episódios tiveram os por- 
conquisu. tuguczcs um papcl importante, quer na integra- 
ção do nosso território, quer nas brilhantes cru- 
zadas das Navas de Tolosa e do Salado; é isso 
indispensável, para a harmonia e proporção doeste 
trabalho, e para a comprehensão dos factos que 
interessam á nossa historia, os quaes não podem 
ser estudados senão nas suas relações com a 



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211 



historia geral, não só da Hespanha, mas dos 
paizes de onde recebemos inspirações, influxos, 
modelos e auxílios. Por hoje tomaremos como ponto 
de partida a época em que se constituiu o condado 
de Portugal, analysando, em ligeiro escorço, a si- 
tuação da peninsula n'esse momento e a doesse con- 
dado dentro do grande estado christão, em cres- 
cente progresso. 



Fernando, filho segundo de Sancho o Maior de Pcmando, rei 

XT . -]• • N* do Castella e 

iSavarra, a quem seu pae por morte, e na divisão LeSo. 
dos vastos territórios que conquistara, deixou her- 
deiro do condado de Castella, que militarmente 
occupára e dos seus recentes domínios leoneses 
entre os rios Pisuerga e Cea, logrou por um acaso 
da fortuna reunir sob o seu poderio os reinos de 
Castella e de Leão. Por morte de Sancho o Maior, 
Bermudo III, rei de Leão, que por aquelle fora 
despojado da maior parte do seu reino, rehavia sem 
esforço os seus antigos domínios, voltava á capital 
do seu reino, cujas rédeas pretendia reassumir. 
A mão armada quiz reconquistar no anno seguinte 
os territórios entre o Pisuerga e Cea; mas sendo 
atacado junto do Carrion pelas forças combinadas 
de Fernando e de seu irmão Garcia, rei de Na- 
varra, succumbiu nas mãos doestes na batalha de 
Tamaron (1037), e passando a successão do seu 
reino a sua irmã D. Sancha, por falta de varonia, 
a Fernando de Navarra, seu marido, vinha a caber 
também a coroa de Leão. 

Monarcha disciplinador, buscou, por um lado, a 8u» ©br», 
apaziguar as dissensões que lavravam entre os seus 
vassallos e cimentar no espirito tradicional das 
leis e dos costumes gothicos o caracter fundamen- 



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212 



tal do seu reino, onde tantas influencias diversas 
lhe dav^am unia feição incaracteristica, própria dos 
períodos de transição, e, por outro, ampliar os seus 
dominios. O concilio de Coyanza (hoje Valência de 
Don Juan) de onde saíram, á maneira dos antigos 
concilios de Toledo, tantas leis vivificadoras das 
crenças e doutrinas de outr'ora, é um marco millia- 
rio na historia da evolução neogotliica na Penin- 
sula. A derrota inflingida em Atapuerca, perto de 
Burgos, a seu h-mão D. Garcia de Navarra, que lhe 
invadira o reino e que succumbiu n'uma embos- 
cada, derrota que lhe permittiu apoderar-se de 
Najera e dos povos da direita do Ebro; a tomada 
ao Vali de Uadajoz das praças de Ceia, Vizeu, 
Lamego, dos hoje extinctos Castros de S, Justo 
e Tarouca*, (1057); a vassallagem imposta ao rei 
mouro de Saragoça ; a posse de San Estevan de 
Gormaz e outras fortalezas; as incurções arma- 
das desde Medinacelli a Tarragona (1058); as ope- 
rações nos territórios d'alem do Guadarrama, pondo 
cerco apertado a Alcalá de Henares, e obrigando 
a tornar-se seu tributário a Almamum, rei de To- 
ledo (1060); a vassallagem de Almotadide, rei 

* Tudense. Hesp, Illtisfr. 93". — Referindo-se a esta conquista e 
á opinião do Tudense de ser difficii dizer onde estivessem situadas 
as fortalezas de S. Justo e Tarouca, escreve Fr. Manuel da Rocha: — 
»De dous castellos, a quo ainda hoje chamão Castros, contao os na- 
turaes, que forâo em outro tempo dos Mouros; hum sobre ciado 
esquerdo do rio Barósa, cujos vestipos se vem em hum alto monte, 
que se chamou Castro Rey, e em Escrituras do Real Mosteiro de 
S. João de Tarouca achey ser a Tarouca antiga: Ubi quondam fuit 
Tarouca; outro sobre o lado direito da corrente do mesmo rio, im- 
minente á Villa de Mondim. Em ambos se descobrem yestigios de 
Fortaleza; e no segundo dos dous se acharão n^estes annos próxi- 
mos vários instrumentos de guerra, como sâo, ferros de lanças, 
martcUos, e outros mais, entre os quaes se acharão também algumas 
moedas dos Imperadores Romanos, que conservo em meu poder, e 
entre ellas huma do Constantino Júnior. E ponderando eu o que 
Tudense relata, não deixo de formar juizo, de que estes sao os Cas- 
tellos mencionados, que destruio El Rey D. Fernando, os quaes pe- 
las moedas que nelles se acharão, me parecem ser ainda muito mais 
antigos e do tempo dos Romanos.» — Portugal Benatcido, pag. 168 



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213 

de Sevilha (1063); a rendição de Coimbra (1064); chega & coim- 
depois de um cerco de seis mezea, dando o Mon- 
dego por fronteira ao reino christão, e finalmente 
(1065) as correrias até o reino de Valência, em 
auxilio de Almamum, que ficara alliado e amigo do 
rei christaOí tudo isto representa um engrandeci- 
mento considerável nos domínios e prestigio do seu 
estado e a preparação de futuros importantes em- 
prehendimentos da Reconquista. Por isso Fernando 
foi justamente appellidado o Magno. 

Coramettera porem o seu amor de pae, e a idéaDwiBaodoroino 

Tl . . . « , 1 por saa morte. 

errada de que assim evitava futuras desavenças, o 
mesmo erro que já tantas perturbações trouxera á 
grandiosa herança territorial de Sancho, o Maior. 
Pelos seus três filhos repartiu, em resolução fir- 
mada em cortes, o seu nascente império, legando 
a D. Sancho o reino de Castella, desde o rio 
Pisuerga até ao Ebro, a D. AíFonso o reino de 
Leão com Astúrias e Transmiera, até o Deva, e a 
D. Garcia o da Galliza, com as cidades de Vizeu. 
Lamego, Coimbra e outras villas e logares em Por- 
tugal; ás suas filhas deixou: a D. Urraca a cidade 
de Zamora, e a D. Elvira a de Touro. 

Ficava assim retalhado o que tanto sangue, 
tanto esforço e tanta fortuna haviam logrado reunir 
nas mãos de um só homem, creando a esperança 
de ver consolidado um poder assaz forte para se 
impor aos múltiplos estados em que se dividia a 
Hespanha musulmana, e para conter as alterosas 
vagas humanas, que vindas de Africa, ameaçavam 
subverter e subplantar o poderio christão. 

Alem de que, essa partilha do reino ia contra protesto de d. 
08 tradicionaes principies da legislação visigothica, 
que mandava passar indivisa a quem a eleição in- 
dicasse, o que geralmente recaía no primogénito 
do rei, quando senão tornava indigno de sufrágio. 
D. Sancho, o primogénito, assim o fez sentir ao pae, 



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cias do erro. 



214 

mesmo em vida, apoiado no parecer de muitos pró- 
ceres do reino. 

As couseqaon- Estava lançado o gérmen funesto de futuras dis- 
senções e guerras profundas, Alexandre Herculano 
attribue esta divisão, nâo tanto ao amor do príncipe 
para com os seus filhos, como ás circumstancias 
que haviam acompanhado o crescimento da mo- 
narchia fundada por Pelagio, que tendia constante- 
mente a desmembrar-se em pequenos principados. 
€ Palpando esse espirito de desmembraçao, que 
nascia das cousas, depois que os estados christãos 
adquiriram pela conquista mais remotos limites, 
Fernando Magno procurou que as tendências de 
separação, em vez de aproveitarem a estranhos, re- 
vertessem em proveito dos membros da sua familia, 
e que assim se evitassem as luctas civis, cedendo 
a essas tendências, em vez de tentar, talvez inutil- 
mente, reprimil-as * » . Se isto assim fosse, mais forte 
rasao teria D. Fernando para não auxiliar, antes 
combater, esse espiríto separatista; tudo o aconse- 
lhava a reunir os elementos dispersos e nao a di- 
vidil-os. 

Pelo respeito que consagrava a Dona Sancha, sua 
mãe viuva, nâo rompeu desde logo D. Sancho II 
as hostilidades contra os irmãos, apezar do pro- 
testo que mesmo em vida do pae formulara. 

Biinciio_ contra Ambicioso 6 iusoffrido, porém, voltou as suas 
attenções para a Navarra; ha quem diga, todavia, 
que foi D. Sancho de Navarra quem aproveitou o 
ensejo de ver assim dividido o grande estado que se 
formara, á custa também dos despojos do seu reino, 
para rehaver Najera e todo o território até á ri- 
beira do Ebro que Fernando Magno lhe arrebatara. 
Fosse como fosse, é Sancho de Castella quena 
invade os teriitorios de Sancho de Navarra, o qual 

1 A. Ucrculano. UiaUnna de Portugal, — Introd. 



^'«va^^a. 



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215 

se allia com Sancho Ramirez, rei de Aragão, daii- Bataiha dos tros 
do-se a batalha que se passou a chamar dos três ®*"''^®'- 
SancJws, ou dos três Primos^ nos Campos da Ver- 
dade, nos plainos onde se fundou mais tarde a ci- 
dade de Vianna, perto de Logroíio. 

Derrotado, e fortemente escarmentado o caste- 
lhano, viu os seus domínios por sua vez invadidos 
por navarros e aragonezes, arrancando á coroa de 
Castella tudo que ella lhes havia tirado, na Rioja 
principalmente (1067), 

Figura pela primeira vez n^esta campanha, como Rodrigo Dia^ de 
alferes mór de D. Sancho II, Rodrigo Dias de Bi- ^^^^''' 
var, que com o cognome de Cid, tâo famoso se havia 
de tornar depois na historia da Reconquista, dei- 
xando bem accentuado o typo de um condotieri 
dessa epocha, com quanto desse origem também a 
muita lenda *. 

D. Sancho II, que anhelava por uma desforra Bauiha de Lian- 
para as suas armas desprestigiadas, mal sua mãe 
cerrou os olhos á luz ten-ena, levantou a campanha 
da reivindicação dos seus direitos á integral herança 
de seu pae, e invadiu Leão, vencendo na batalha 
de Llantada (hoje Plantadilla) seu irmão Affonso 
(1068); mas nao proseguindo na lucta por ter sido 
considerável o desfalque das suas forças. Três 
annos depois (1071) renovaram-se as hostilidades; 
em Golpejar, nas margens do rio Carrion, se en- Batalha do goi- 
trechocaram os dois exércitos, cabendo doesta vez ^*'^"" 
a victoria aos leonezes, a cujo lado combatiam 
também gallegos. 

Fora pactuado previamente que o vencido ce- 
deria o reino ao vencedor; na boa fé, D. Affonso de 
Castella não só não perseguiu o adversário, mas 
descansou e abandonou a vigilância dos seus 



1 É curioso o estudo feito por Dozy, sobre fontes árabes, da 
individualidade do Cid. — Becherches. T. ii. 



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n 



216 



Traiçío do D. uiTaiaes; n'essa madrugada, por conselho de Rodrigo 
Dias de Bivar, que não só de bravura, mas de ardis 
e traições formara o seu grande renome, D. Sancho 
surprehendia e atacava rudemente o irmão, fa- 
zia-o prisioneiro, e mandava-o sob custodia a Bur- 
gos, obrigando-o depois a entrar no mosteiro de 
Sahagum (S. Facundo). 

Evatio do D. D' aqui se evadiu D. AflFonso, e foi acolher-se á 

A onio. hospitalidade de Almamum, o alliado e amigo de 
seu pae, em Toledo, mal suppondo, n'aquelle negro 
transe da sua vida, a sorte brilhante que o aguar- 
dava! 

Chegara a vez da Galliza, onde iam grandes dis- 
senções entre os barões e senhores de Entre Douro 
e Minho e o rei D. Garcia, que os batia perto de 
Bi-aga. 

invaBâo da Gai- D. Sancho, aprovcitando o ensejo, e também 
nSo esquecendo os auxilies que D. Garcia dera 
contra elle a Affonso de Castella, invadiu os ter- 
ritórios que áquelle pertenciam do lado da Lusi- 
tânia, e derrotou-o perto de Santarém, ao que diz 

nntaihapcrtodoa tradiçâo, e portanto ainda além das fronteiras 
»aatarem j-^Q^g ^q gç^ dominio, quc dcvia terminar no Mon- 
dego, D. Sancho foi feito prisioneiro, encerrado no 
castello de Luna, mas breve restituido á liberdade; 
na situação de vassallo. 

prisso e liberta- Couta-sc quc n'esta batalha devera D. Sancho 
çaodcD.san-^ vída a D. Rodrigo Dias de Bivar, o futuro Cid; 
pois a sorte das armas estava primeiro do lado de 
D. Garcia, que, auxiliado pelo valoroso portuguez 
D. Rodrigo Froyaz e seus irmãos e parentes o fi- 
íera prisioneiro, no encontro de Santarém. Liber- 
tou-o Cid de oito cavalleiros que o traziam em 
custodia, matando dois e pondo os outros em fuga; 
depois, com os seus homens, rompeu pelo mais 
espesso dos esquadrões inimigos, e prendeu D. Gar- 
cia. 



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217 

Este episodio vem narrado no Nobiliário doNarrativadoNo- 
Conde de D. Pedro, a propósito dos feitos do nosso de d^ pedro'!''' 
conterrâneo D. Rodrigo Froyaz e seus esforçados 
companheiros, n'aquella pittoresca linguagem que 
o caracterisa; encontra-se porém n'elle a variante 
de Ruy Dias ter apparecido com a sua gente só 
depois de D. Sancho ter fugido aos que o guarda- 
vam, e que cnom posserom em elle guarda quall 
deuiam» ^ 

i «£ este dom Rodrigo Froiaz em seemdo muy moço foy muy 
gnerreiro contra os mouros em tempo delrrey dom Fernando o que 
partio 08 rreynos per seus filhos o iffamte dum Samcho e o iffamte 
dom Garcia e o iffante dom Affomsso. £ desta partíçom seguiosse 
ao despois gram dano, porque elldeu a dom Samcho o mayor Cas- 
tella e Nauarra e a Estremadura, e deu a dom Garcia Galliza e o 
que avia em Portugall, e deu a dom Affomsso o rreyno de Leom. 
É como este rrey dom Fernando morreo disse elrrey dom Samclio 
aue era moor a Ruuy Diaz çide que as partiçoues que seu padre 
nzera em seu deserdamento, e que os rreynos eram seus de de* 
reito, e que lhe comsselbaua de hi fazer : e Kuuy Diaz rrespondeo 
que bem sabia elle que elle jurara a seu padre que nom fosse contra 
as partições de seus irmaSlos e que guardasse a jura, ca melhor era 
verdade que os rreynos. E elrrey lhe disse que iura em deserda- 
mento nom deuia seer guardada : e en esto perçebeosse de fazer 
guerra a seus irmâaos. E dom Rodrigo Froiaz era vassallo delrrey 
dom Garcia de Portugal! : e veemdo el como este rrcy dom Garcia 
auia hunm priuado em que poinha toda sa fiuza^ e fallaua com ell 
todos seus feitos apartadamente, e lhe daua muy máaos comsselhos, 
estremadamente em perçebimento de guerra que avia d*auer com 
sen irmaâo, e que nom fallaua destes feitos nem com os rricos ho- 
meens seus nem com aquelles que em tall feito o aviam de consse- 
Ihar e seruir, chamou huum dia os rricos homeens e todos a huuma 
voz pidirom a elrrey por mercêe que lamçasso de sa casa aquelle 
priuado : e elrrey nom nos creeo, e o priuado acreçentou em seus 
máaos comsselhos cada dia mais. E veemdo dom Rodrigo Froiaz a 
sua maldade e como fazia perder a elrrey sua terra, huum dia em- 
trou pello paaço e matou hi o priuado. Ellrrey ouuesse desto por 
muy viltado, e dom Rodrigo Froiaz partiosse delrrey c^ím gramdes 
companhas. E hindosse a França a tirar seu comsselho vceo rrecado 
a elrrey dom Garcia que o comdc dom Garcia de Cabra, o o comde 
dom \íacom, e o conde dom Nuno de Lara lhe viinham correr^ 
terra com todo o poder delrrey dom Samcho. Em esto ouue comsse- 
lho com os boos da terra, e elles todos a huuma o comselharam que 
mandasse por dom Rodrigo Froiaz, ca esse era o que lhe pocria 
perçibimeuto em todos seus feitos. Elrrey dom Garcia mandoulhe 
sa messagem por dous seus caualleiros na quall lhe mandou dizer 
que elrrey dom Samcho lhe queria filhar o rreyno e que lhe rogaua 
que sse vccsse logo pêra ell, ca elle lhe perdoaua e perdia deli 
toda sanha. Esta messagem chegoulhe a Navarra: el veemdo que 



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218 

vo.r.ao do Ro- O facto d'este encontro d'arnias ter sido perto 
menos. ^^ Santarcm explica-se talvez pela versão de 
Rodrigo Ximenes, escriptor do século xm, ado- 
ptada por Herculano, que aliás a Santarém se nao 



cirrcy dom Garcia era boo e de boos feitos verdadeiros e que cm 
elle avia toda ucrdade vcosse logo pêra elle, e dobroulhe elrrey a 
coiniia. E os coindes dom Nuno de Lara, c o comde dom Garcia de 
Cabra, e o comde dom Monçom corriam-lhe já a terra. £ elrrey es- 
tamdo cm Agua de Majas apar de Coymbra chegou dom Rodrigo 
Froiaz e elrrey foi com cl muy ledo : e demamdou-lhe conssclko 
de como avia de fazer aos comdes que lhe corriam a terra^ o elle 
lhe respondtío «senhor, eu leixei a terra de Portugall por fazer 
aguisado e porque era vosso vassallo, e nom demandei comsselbo 
cm elrrey dom 8amcho porque era certo que era vosso inmiigo, e 
ora venho nor seruirvos e por deseruir elle : e uós senhor nom aue- 
des d'auer batalha com comdes, mais mamdade hi estes boos íidal- 
Igos de Portugall com que tenho gramdes diuidos e eu hirei hi 
com elles e ou elles vemçerom ou eu hi morrerey com elles.» £1 
rrey disse «entemdo que taaes sedes uós que bem posso ser escu- 
sado desta fazemda por vós, mais eu quero hi seer.» £ em cato 
pareçerom os pemdoues dos comdes, e elrrey disee que os ferissem : 
e a batalha foy muy crua amtre os portuguezes e os casteUaaos. 
E dom Kodrigo Froiaz entrou pelas aazes e seus irmaSos o comde 
dom Pedro Froias e o comde dom Vermun Froiaz : e alli foi a ba- 
talha muy grande assy que os castcllaaos a nom poderem sofrer 
oE morrerem hi castellãos quinhentos e quorenta, e morreo hi o 
conde dom Fafez Çerraçim que era rrichomem muito honrrado c 
muitos » dos seus caualleiros, e outra muita companha de Portu- 
gal qjc passarem de dosentos e vimte caualleiros. Este dom Ro- 
drigo Froiaz foy mal ferido cm pomto do morte. A elrrey dom Sam- 
cho forom estas nouas como os seus eram vemçudos e foy desto 
muy sanhudo, e jumtou todo seu poder e veo sobre elrrey dom Gar- 
cia hu estaua em Samtarcm. Elrrey dom Garcia ouue seu comsselho 
com os boos que com elle estauam : e huuns diziam que o poder 
delrrey era gramde e que defemdesse suas fortellezas, e os outros 
diziam que vinham muito agudos pêra a batalha pollos paremtes 
quo lhes matarem em a primeira fazemda, e por esto que era bem 
d^espaçar a lide, e quamdo sse quizesse tornar elrrey dom Samcho 
que emtom seriam mais poucos e cansados, e achariam a lide mais 
refeçe. Dom Rodrigo Froiaz rrespondeo «senhor, elrrey dom Sam- 
cho he de maior poder que uós e ha mayores rrendas e aa lomga 
pode soster melhor a guerra e hiruos-ha comqueremdo o rreyiio 
pouco e pouco, e uós aucdc íiuza em Deus e no juramento que fez 
elrrey dom Samcho a uosso padre quamdo uos deu este rreyno quo 
vos numca delle desapoderasse, e auede fiúza em estes boos fadallgos 
de Portugall que sempre guardarom verdade e lealldade e hide aa 
batalha : e mamdade ao conde dom Pêro Froiaz, e a dom Vermun 
Froiaz meus irmaãos, e ao comde dom Garcia, e ao comde Fernam 
Piriz meus sobrinhos que vaamos de suum, e destes muy boos fídal- 
Igos portugueses com que vaamos, c leixade a nós a escolheita deU 
les quaaes lii yram e dadenola diAmtoira.» E elrrey c todollos í\- 



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219 



refere. Segundo essa versão haviam recrudescido 
contra D. Garcia as animosidades dos gallegos e 
portugalenses, com o redobrar das suas offensas e 
tyrannias, pelo que fora fácil a D. Sancho expul- 



dallgoa foroin em este comsselho e postaroin suas aazes naquell 
campo em que estam ora as vinhas. E dom Rodrigo Froiaz acaude- 
lou aquelles que hi estauam, e oolhou hu estaua elrrcy dom Sancho 
c rrompeo per todallas aazes. E a lide foy muy gramde e muy crua : 
c dom Rodrigo Froiaz esforçaua muito aqueiles que o acompanha - 
uam e faziam grandes feitos pello corpo. Al li foy a jierfia gramde 
amtre elles de liuns e doutros assy que os castcllaâos nam no pode- 
rom sofrer. E chegou alli hu estaua clrrey dom Samcho e prenideo, 
e alli forom os castellãos vençudos. E dom Rodrigo Froiaz mamdou 
dizer a elrrey dom Garcia que clrrey dom Samcho era preso e que 
chegasse hi e emtre^arlhohia : e os mcsscgeiros forom estes, dom 
Egas Echigíc que hi ioy muy boo fidalgo, e este foy o primeiro qne 
pôs a lamça em elrrey dom Sancho, e de quaes deçemdem achaloe- 
des no tituUo XXII dos Sousaílos parrafo II.° : c o outro fuy dom 
Moniho Ermigic, este fez em esta lide muito bem pcllo corpo, e na 
primeira lide de Coymbra derribou do cauallo o comde dom Garcia 
de Cabra e outros muitos caualleiros, ca elle era de gram força o 
de gram coraçom, e os que deste vcem mostrasse no titullo XXXVI 
de dom Moniho Veegas o Gasto pan*afo II.** : este foy na lide que 
oune o comde dom Froyaz Vermuiz com elrrey de Leom o quall se 
mostra no titullo VIL" do comde dom Momdo parrafo 1I.° c foy na 
cratrada d'Àstorga quamdo a emtrou o comde dom Froyaz Vermuiz 
como sse mostra no titullo suso dito do comde doin Momdo. E a 
dom Rodrigo Froyaz abriromsclhe as chagas que gaanhara na pri- 
meira lide porque aimda nom era bem guarido, e disse aos mcssc- 
geiros que fossem aginha com esta mcssagem a clrrey ante que lhe 
a alma saisse do corpo : e os raessegeyroh forom a elrrey e dissc- 
romlhe a messagem. Elrrey foy muy ledo da prisom de seu irmaão 
e foi muy triste porque sse temeo de perder dom Rodrigo Froiaz, 
c chegou logo hi. E o conde dom Pêro Froiaz irmaao deste dom 
Rodrigo Froiaz donde vêem os rreys de Portugal disse, «senhor, 
boo presente vos tem aqui meu irmaao mais pcrdeo o corpo :» disse 
clrrey com gramdes sospiros e lagremas «se el perdeo o corpo gaa- 
nhou gram prez e homrra aos de seu linhagem.» Disse emtom dom 
Rodrigo Froyaz «senhor, sodes emtregue de vosso irmaão queuos 
queria deserdar do rreyno .» disso elrrey «ssy ssom : «dom Rodrigo 
Froiaz lhe disse «gradeçedeo a Deus e a estes boos fidallgos de 
Portugall que sempre forom booa aos senhores e amarom verdade.» 
Beyjoulhe emtom a maão e emcomendou a alma a Deus e morreo 
ante que elrrey di partisse. E elrrey emtregou logo elrrey dom 
Sancho a caualleiros que lho guardassem, e elle foisse pello cm- 
calço dos castellaãos. Aquelles caualleiros a que o el emtregou nom 
posserom em elle guarda quall deuiam, e fogio e foisse pêra huuma 
serra hu achou gram parte doa seus. E estamdo alli pareçco huum 
pendam e huuns trezemtos de cauallo, e disserem a elrrey dom 
Samcho «senhor, voemos viir huum pcmdam verde e parece de Ruy 
Diaz çide : » e ell oolhou por elle c conheçeo e desto foy muy ledo 



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220 

sal-0 do reino, quasi sem resistência. EUe, porém, 
fora pedir o auxilio dos sarracenos, naturalmente da 
Estremadura, e com o reforço doestes voltara a as- 
senhorar-se de alguns castellos nas terras de Por- 
tugal *; d'alií, proventura, a necessidade de D. San- 
cho o vir buscar para áquem da sua fronteira do 
Mondego, n'aquella zona de dominio fluctuante e 
instável, onde comam como rajadas de ventos con- 
trários, as algaradas de fronteiras, ora dos nazare- 
nos ora dos mahometanos. 

As poucas sympathias que este rei conquistara, 
haviam feito com que, nao só bem frouxa fosse a 
resistência contra a invasão castelhana, mas rece- 
bida com agrado a destituição do chefe (1071). 
Grande era o peso dos tributos, profundas as dis- 
sidências que minavam o estado. 

D. Sancho II, que assim ia adquirindo o co- 
gnome de FortCy tirava partido da situação para 
Tomada de Toa- afastar rcccios d'esse lado. Na sua obra de reivin- 
dicação dos domínios, que entendia deverem per- 
tencer-lhe, atacou Touro, senhorio de sua irmS 
D. Elvira, que se rendeu sem resistência, e Zamora, 
senhorio de D. Urraca, que resistiu tenazmente. 

e disse aos fidalgos «alegradcaos e esforçade os coracooes caDeas 
quer que eu cobre meu rreyno que me tem forçado meu irmaio dom 
Uarçia, pois say da prisom, e vi a morte do boo de dom Rodrigo 
Froiaz que me premdeo, e me chega o bem avemturado Ruuy Diaz.» 
£ clrrei dom Garcia torDamdosse muy ledo de seu emcalço teemdo 
que tiinba preso elrrey dom Sancho seu irmaSo, e desto se viloba 
muito louuando aos íidallgos pcro que se malldizia da perda que 
fezera do boo fiduUgo de dom Kodrigo Froiaz. £ departimdo em 
esto virom viir elrrey dom Samcbo e conheçeo o pemdom de Ruuy 
Diaz : e alli foi rrey doin Garcia ferir em elles, e a lide foy mny 
grande e perfíosa porque os deirrei dom Garcia eram cansaaos da 
primeira lide : e polia vertude de Ruuy Diaz foy preso elrrey dom 
Garcia e mortos muytos e muy boons de huuma parte e da outra. 
£ alli morreo o comde dom Pêro Froiaz, e dom Yermun Froiaz ir- 
manes de dom Rodrigo Froyaz, e dous comdes filhos deste dom 
Pêro Froyaz». 

Livro* dt Unhagtm do Conde D. Podro: Portugália Monumenta Hiêlorica, JStcri- 
ptortâj pag. 283. 

* A. Herculano. Historia de Forlvgal. — Introd. 



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221 

Assaltos sobre assaltos se succederam com grandes AtMdio de za. 
perdas dos assaltantes e sem nenhum resultado'. "*^'** 
Árias Gonçalo dirigia a defeza com denodo e arte; 
só restava um recurso : esperar que a fome conse- 
guisse o que não logravam as armas. N'isto um ca- 
valleiro de Zamora, Bellido Dolfos (ou Bellido Ar- 
nulfes), saindo disfarçado da praça, abeirou-se do 
D. Sancho 11 e o assassinou á lançada. Ainda Ro-MortedeD.san- 
drigo de Bivar correu em perseguição do crimi- 
noso, mas não o alcançou. U ferro de um malfeitor 
\ânha subitamente mudar toda a face da Hes- 
panha. 

Os castelhanos levaram para Onha o cadáver do 
rei. A hoste, composta de homens de todas as pro- 
cedências, leonezes, castelhanos, gallegos, portu- 
guezes, navarros, dispersou-se como por encanto, 
apenas desfeito o laço do commando que os con- 
gregava. 

Como filho segundo de D. Fernando, era por Advento d© aí- 
sua irmã avisado dos acontecimentos, e convidado (hí^Do/* 
a colher a herança paterna, hoje de novo reunida 
n'um só sceptro, D. Affonso, homisiado na corte de 
Almamum. 

Lealmente declarou Affonso ao rei de Toledo a 
sua situação: com elle firmou o pacto solemne de 
o nào hostilisar, nem a seu filho mais velho, quando 
lhe succedesse no throno, antes lhe daria soccor- 
ros em caso de necessidade. E apresentou-se em 
Zamora a receber a investidura. 

Leão acolhe com affectuoso alvoroço o seu an- 
tigo rei ; GraUiza com sympathia o seu novo mo- 
narcha; Castella não vê com bons olhos a supre- 
macia que vae pertencer a Leão, pensa em eleger 
outro príncipe para seu rei, o que nào consegue 
por falta de herdeiro legitimo, e acaba por se sub- 
metter, exigindo comtudo ao monarcha o juramento juramento exi. 
de como nada tivera com a morte do irmão. É Ro- ^^''' 

14 



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222 

drigo de Bivar, talhado para as grandes audácias, 
quem três vezes lh'o exige. 

Em Santa Gadea de Burgos, 
Do juran los fijos dalgo 
Alli le toma la jura 
£1 Cid, ai rej castellano. 
Las juras eram tan tuertes, 
Que a todos ponen espanto ; 
Sobre un cerrojo de hierro 
Y una ballestra de paio. ^ 

D. AfFonso morde os lábios em reprimida re- 
volta, faz três vezes a jura, que representa da parte 
de quem Ih' a exige uma desconfiança e imia aflronta, 
e não mais pôde esquecer nem perdoar a quem por 
essa forma lh'a inflingia. Era a segunda vez que 
encontrava no seu caminho o traidor de Golpejar. 
suuaçio de Ro. Não foi ao scu lado, nem á sua sombra que Ro- 
drigo continuou a afirmar a pujança dos seus dotes 
guerreiros. Nem era para pautados e palacianos 
regramentos esse typo ideal do maior almogavar 
do seu tempo, livre como as auras do Guadarrama. 
indómito como o génio da Peninsula! 



drlgo de Bivar. 



Miss&odeAiTon- A Affouso VI prcparava o destino um papel 
culminante na historia da Hespanha, e a elle se ia 
dever o primeiro passo para a formação de um novo 
estado peninsular que, emquanto todos os demais 
da Peninsula se fundiam n\im só, creava e manti- 
nha, atravez dos séculos, uma individualidade pró- 
pria, resistente a todos os esforços que teimavam 
em a destruir. Taes foram a força orgânica e o po- 
der individualista do organismo portuguez. 

1 Romancero dei Cid. 52. 



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223 

Melhor compenetrado do que seu pae, da ne- Garcia continua 
cessidade de manter integral o império nascente, ^°™^**^®- 
Affonso VI recusou a supplica que de Sevilha, onde 
andava homisiado, lhe veiu fazer seu irmão D. Gar- 
cia, para se lhe entregar o reino de Galliza. Contava 
o desthronado rei com a commiseração do irmão, 
que, como elle, andara também degredado em terra 
de mouros, sem throno, sem liberdade, sem pátria, 
sem familia. Mas a rasão de Estado? Não ha rasão 
mais poderosa no animo de um rei, quando sobretudo 
ella se baseia nos fundamentos do seu próprio inte- 
resse individual. Ceder a Garcia todo o vasto ter- 
ritório que ia desde os Pyrineus gallaicos até o Mon- 
dego, era desmembrar um império que já compre- 
hendia três partes da Hespanhà, e diminuir a sua 
própria influencia e poderio, que a grandes em- 
prehendimentos se destinavam. Por causa das du- 
vidas, pôl-o a ferros no castello de Luna, d'onde 
elle próprio outr'ora se evadira. N 'esses tempos 
ásperos, se, para vencer, os pulsos tinham de ser 
de ferro, os corações necessitavam ser de bronze. 
Filhos contra pães, irmãos contra irmãos, peito 
contra peito, era a posição dos combatentes, nos 
rudes combates de todo o momento. 

Affonso VI era um homem do seu tempo: mixto caracter de Af- 
de luz e de sombra, de generosidade e de crueza. *^"** 
Quem deshumano se mostrara com seu irmão, apre- 
sentava-se leal, generoso, cavalheiresco para com 
um mouro seu alliado, Almamum, que o acolhera 
na desgraça. 

Tendo estabelecido a ordem e a disciplina no conflnnaçio da 

. • 1 . . . i alUança com 

seu remo, extermmando os crunmosos e impondo Aiiemamum. 
castigos severos aos nobres rebelões, foi com um 
poderoso exercito acampar a Olias, a duas léguas 
de Toledo, com grande assombro e indignação dos 
mouros seus alliados; estes, porém, breve serenaram 
e alegraram os espirites, ao ver entrar sósinho em 



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224 

Toledo o rei christão, a renovar o pacto de amizade 
e alliança já firmado, e offerecendo-se para o au- 
xiliar nas suas guerras com Almotamide Bema- 
bade, rei de Córdova e Sevilha, que lhe havia inva- 

invasio do «ml. dido OS dominios. Entrando pelas terras d'este, os 
l^^ísevHhí*** exércitos alliados talarani-lhe os campos, des- 
truiram-lhe as sementeiras, capturaram-lhe gente 
e gado, incendiaram-lhe as povoações, apodera- 
ram-se de Córdova e Sevilha, e, carregados de opi- 
mos despojos, regressaram aos seus reinos (1075). 
Nao representava o êxito d*esta expedição aug- 
mento de território para os christãos, mas de pres- 

posiedeRiojaetigio das Ruas armas e também de riqueza. Ko 
anno seguinte, porém (1076), os antigos doniiuius 
de Fernando Magno eram accrescidos com a Kioja 
e uma parte de Alava, por morte de Sancho Gar- 
cia de Navarra. Fel-o sem resistência, porque os 
navarros preferiram o jugo do castelhano, que se 
apresentava como legitimo herdeiro, por ser neto 
de D. Sancho Maior, ao do seu infante e preten- 
dente á coroa, D. Baymundo, que por ter assassi- 
nado seu irmão, e pelas suas prepotências, era 

Tomada de Co- geralmente detestado. Pouco depois (1077) D. Af- 

fonso VI tomava Coria ao rei mouro de Badajoz. 

Retirado o exercito auxiliar christão, Almota- 

Recuperaçio do mide poz rapido cerco a Sevilha e Córdova, de 
víLa^' * *" que Almamum se apossara ; n'este ultimo cerco 
perdia a vida o rei toledano; a sorte das armas favo- 
recia os sevilhanos, que rehaviam as duas cidades. 
Ordenou Affonso VI ao Cid, com quem manti- 
tinha apparentes relações de cordialidade, que 

Kxiseneia de fossc cxiffir dos rcis mouros de Sevilha e de Gra- 
nada, n'esse tempo em guerra um com o outro, 
os tributos que a Castella se tinham obrigado a 
pagar desde Fernando Magno. 

Quiz Rodrigo Dias de Bivar conter Abdalá no 
seu propósito de invadir o território do rei de Se- 



tribatos. 



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225 

vilha, e nao foi attendido; os granadinos refor- 
çados por tropas christas, á frente das quaes figu- 
rava Garcia Ordoílez, de nobre estirpe regia, e 
antigo alferes-mór de Fernando de Castella, con- 
tinuaram em tom de guerra, trouxeram as suas 
armas até Cabra, onde os esperou Rodrigo de o grande cid. 
Bivar derrotando-os, conquistando nas façanhas 
d' esta empreza o cognome de Cid, com que se 
perpetuou na historia a sua fama, em parte verda- 
deira, em parte mythica. Com os despojos d'esta 
campanha e os tributos recebidos em Sevilha, re- 
gressou Cid á corte onde fez entrega dos haveres. 

Contra a honestidade e honradez d'este acto se 
ergueram porém vozes e accusaçoes, a começar por 
Garcia Ordoftez, que acusava o Campeador de se 
haver locupletado com o que lhe não pertencia. 

Ha quem faça partir d'aqui novas prevenções 
de Aflfonso VI contra Rodrigo; mas se ellas exis- 
tiam, só se manifestaram quando, contra as suas 
ordens, e faltando ao pacto que o ligava, este se 
atreveu a levar a razzia e a destruição até perto de 
Toledo, a pretexto dos mouros terem entrado nas 
terras de Castella. O Cid foi desterrado, e por sua 
conta continuou as suas proesas de armas, ora ao 
lado dos mouros, ora contra elles, n'uma sede de 
guerras, de depradações e de conquistas, como 
symbolo genial que elle era do guerrilheiro penin- 
sular, digno representante de índigo, de Mandonio, 
ou de Viriato. 

A alliança com o rei de Toledo impedia Affonsopuno» do aí- 
VI de levar para esse lado o poder das suas armas; 
mas, ao mesmo tempo, vendo o incremento que iam 
ali tomando as conquistas do rei de Sevilha, con- 
trariava-o a coacção moral em que se encontrava. 

Mesmo por morte de Almamum subsistia a al- 
liança, porque fora firmado por duas vidas. Mas o 
destino guiava-o no caminho dos seus desejos; 



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226 

Hixeme, que succedera a seu pae no throno tole- 
dano, morria pouco depois, victima de uma sedição 
que pedia a cabeça do que era accusado de amigo 
e connivente com os christãos. 

Affonso VI respirou. Chegava o momento de 

Favo roce. o a tomar Tolcdo ! Mas essa empreza não era das que 
se levam de assalto ; indispensável se tomava ir a 
pouco e pouco preparando o golpe. N'este capitulo 
da sua historia se mostra o rei leonez, mais do que 
nunca, um hábil diplomata e um militar sabedor e 
consummado. 

AiiiançacomAi- Por um lado, cnfreando as ambições de Almo- 
tamide, que tinha vistas persistentes sobre Toledo, 
mas que receava principalmente o poder de 
' Affonso VI, acceitou a sua alliança e amizade. 
Entre os dois príncipes musulmanos e rivaes se 
manteve o christão habilmente ; de Almotamide re- 
cebeu mesmo por concubina ou por mulher (tudo 
era possível n'esse tempo ao rei e aos papas) sua 

Casamento com filha Zaida, com O scnhorio de Cuenca, Ocanha, 
Huete e outros territórios por elle conquistados ao 
rei de Toledo. 

Plano de ataque Como um tigrc quc ora agachado, de mansinho, 
contra <> «<*<>• Qj.g^ gjjj curtos saltos, vac ganhando terreno, até 
poder formar pulo seguro sobre a presa, assim 
Affonso VI, durante quatro annos, foi, serena e 
pautadamente, preparando as condições favoráveis 
ao ataque; foram quatro annos gastos em correrias 
que não pareciam ter em vista a capital do antigo 
império godo, na occupação de objectivos secun- 
dários, que lhe iam dando força para o ataque ao 
objectivo principal, e na juncção de dinheiro, ver- 
dadeiro nervo da guerra em todos os tempos. 

Aproveitando a inacçSo e imprudência de lahia 
Alcadir *, que reinava em Toledo, entre moles pra- 

^ Uns querem que fosse irmão, outros tio de Hixeme. 



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227 

zeres e complicações de governo, começou por 
tomar Madrid, guarda e sentinella de Toledo, e ou- Tomada de u^^ 
trás praças, realisando ao mesmo tempo as pri- 
meiras algaradas devastadoras (1081). A pretexto 
das ligações dos toledanos com os de Bajadoz, no 
anno seguinte as correrias arrasavam os territórios 
entre esta cidade e Toledo, para impedir a remessa 
de tropas; iam os christãos até Ávila; povoavnm e 
fortificavam Escalona, que ficava sendo a atalaia ontrM pr«ça« 
da fronteira por esse lado ; Talavera, rendida e 
fortemente guarnecida, passava a ser a guarda da 
passagem do Tejo. 

Ao mesmo tempo, mais para o occidente se fazia 
sentir o poder das armas nazarenas. Almotamide contra Aimou- 
desrespeitava a auctoridade de soberano, de quem 
era tributário; refusava o pagamento do tributo, 
mandando crucificar o íunccionario hebraico, Bem 
Ohalibe, que o fora recolher (1082)*. Era necessário 
um castigo severo ! Sevilha foi assediada, arrasados 
08 territórios circumvizinhos e os da provincia de 
Sidónia; e chegando á praia de Tarifa, AíFonso VI 
mettia o seu cavallo á agua, exclamando, com 
afrontosa prosápia: «Pisei a terra que é o limite 
da Hespanha!)) Um grito de indignação, entre pa- 
voroso e ameaçador, echoou em toda a Andaluzia, e 
repercutiu em todos os emirados de Hespanha, que 
parece terem visto pela primeira vez todo o perigo 
que os ameaçava. D'ahi o imprudente appello aos 
correligionários do Magrebe, os terríveis almorá- Appeiio aos ai. 

. j morávidaa. 

vidas. 

Em 1083 eram occupadas as posições militares 
entre Talavera e Madrid ; os caminhos do Tejo e 
as vertentes do Guadarrama e da Somosierra pas-oecupações no- 
savam ao poder dos christãos ; para assegurar a 
communicação das duas Castellas pela Somosierra, 

' Dozy. Hist. deê Mueul. en Esp., tomo 4.® — zii. 



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228 

era fortificado Biiitrago; Salamanca, Uceda, Hita 
e Guadalajara eram occupadas, cemo base de ope- 
rações para a posse da parte septentiional do reino 
de Toledo *. 

Em 1084 com grossas sommas logrou Toledo 
evitar um golpe decisivo ; este, porém, nâo se fez 
esperar muito tempo. 
Ataque e toma- Ltogo uo auuo scg^uinte aoucUa cidade se viu 

da de Toledo. 5 •* • 

cercada por um numeroso exercito, quasi cosmopo- 
lita, pois alem de leonezes, gallegos e castelhanos, 
era composto de francezes, italianos e allemães. 
A forte posição da cidade e as suas muralhas, já 
famosas no tempo dos godos, prestaram-se a uma 
defeza em forma, com o auxilio de excellentes ma- 
chinas e engenhos de guerra. Longo e persistente 
foi o assedio, e mais do que os virotões e as cata- 
pultas dos sitiantes, ia disseminando os defensores 
a falta de viveres. Os mosarabes que faziam parte 
da guarnição, porque preferissem o jugo christào 
ao musulmano, os judeus, porque receassem, pela 
tomada da fortaleza, o saque aos seus haveres, 
conclamavam pedindo a capitulação; alguns mu- 
sulmanos mais aguerridos se oppunham a isso 
tenazmente. Mas as circumstancias foram aper- 
tando, apertando; o bloqueio era cada vez mais 
cerrado; as sortidas da cavallaria da praça, ao 
principio frequentes e impetuosas, foram amorte- 
cendo ; os soccorros que vinham de Merida foram 
repellidos; a situação tornou-se insustentável, e aca- 
bou por vencer a opinião dos que optavam pela 
entrega. Assim se resolveu, e tratou-se das condi- 
ções. 
coadiç5e-deen. AíFouso VI aprcseutou como condição principal, 
sine qua noriy a entrega da cidade. Obtida esta, 
mostrou-se generoso, concedendo que os que saís- 

^ Sanchcz y Casado. Blem, dt la Hist de Esp. 



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229 

sem o podessem fazer a são e salvo, levando 
comsigo 08 seus bens, e aos que (içassem fossem 
concedidas todas as garantias e liberdades, po- 
dendo guardar suas leis e culto religioso, com os 
seus magistrados e a mesquita maior que lhes foi 
conservada. lahia iria para Valença protegido 
por um corpo de tropas. 

A entrada solemne do rei christao em Toledo, imporuoeu d» 

T •. 1 T • • j J tomíd» de To- 

antiga e veneranda capital do impeno godo e da ledo. 
christandade da Peninsula, foi um acontecimento 
de decisiva importância nos destinos da reconquista 
e da causa christã. Foi a 25 de maio de 1085 * que 
Âffonso VI para lá transladou de Leão a capital 
do reino, e reunindo ali um concilio de bispos e no- 
bres do reino deu foros e privilégios a mosarabes 
e cbristãos para que a viessem povoar, estabeleceu 
ali a sé metropolitana da Hespanha, escolheu para 
arcebispo a D. Bernardo, abbade de Sahagun, 
monje de Cluny, francez de origem, dotando a 
igreja com terras, castellos, aldeias, moinhos e 
hortas *. 

Voltava Toledo ao seu antigo esplendor e grt^n- 
deza, politica e religiosa, depois de ter estado 374 
annos sob o dominio do Islam ; a base de opera- 
ções contra o resto dos dominios mouros passava 
a ser, e de vez, o Tejo, com a posse da praça mais 
importante no coração da Peninsula, e de posições 
importantíssimas nas cordilheiras carpetana e ibé- 
rica, que é a espinha dorsal da Peninsula ; a he- 
gemonia militar e politica entre os diversos estados 
christãos e mouros pertencia agora de direito ao 
rei de Leão, Castella, Gralliza e também de Por- 
tugal, que já podia ir contando como uma das 
gemmas da sua coroa de Imperador, como acabava 

* Dozy. HisL dea Musul. en Eap., tomo 4.o — xii 
2 D. Manuel Colmeiro. Beyes Cristianos desde Alonso VI hasta 
Âlfmiêo XI ^ cap. i. 



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230 

de ser proclamado. Todos os príncipes reinantes na 
Hespanha prestaram homenagem a D. Affonso VI 
e se declararam seus tributários. 

Mas, mesmo por isso, o temor era grande entre 
os musulmanos; e, na realidade, o caso nao era 
para menos. 

Grave 8ituRção Era gravc a situação d'elles, por todos os lados 
do« musauiniR. g^jj^g^çados OU coagidos. A titulo de valer a lahia 
Alcadir, expulso de Toledo, acompanhara-o a Va- 
lência, como vimos, um corpo de tropas caste- 
lhanas, que era mais um corpo de occupação do 
que outra cousa; commandava-o Álvaro Fafiez, 
que nos apparece como logar-tenente e primo do 
Cid*. Saragoça estava fortemente sitiada pelo im- 
perador; em nome d'este, Garcia Ximenes apos- 
sara-se da praça de Aledo, e d'ahi assolava, com 
rijas algaradas, o reino de Almeiria ; até em Gra- 
nada, coma vimos, fora AflFònso, a titulo de auxilio 
não pedido, fazer alarde da sua força e de haver 
attingido os lindes da Hespanha. 

N'estas afiBictivas condições que fazer? Emigrar, 
diziam alguns, emigrar em massa, o que era dif- 
ficiP. 

Para se verem livres de um grande mal appel- 
laram então para outro mal ainda maior! Quid 
Jupiter vult perdere prius dementdt. 

Convite ft inçu- Rcunldos cui couciliabulo, em Sevilha, os prín- 
cipes mahometanos resolveram, não sem protestos 
de alguns, principalmente do vali de Málaga, mas 
animados principalmente pelos sacerdotes, mandar 
solicitar o auxilio de luçufe bem Texufim, o cele- 



1 De Alvar Faíiez, vueso primo, 
Recebi vueso presente, 
No en feudo vueso, Rodrigo, 
Sinoii como de pariente. 

Cancionero dd Cid, 68. 

2 Dozy. Hist. des mtw. en Esp., tom. 4* — xi. 



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231 

bre Miramolim das chronicas, rei dos almorá- 
vidas de África, mahometanos de recente data, oa aimoràvidu. 
gente rude, originaria do Sahará, semi-barbara, 
inimiga dos árabes por instincto e por tradição, 
espantalho dos chrístaos, e que estendiam os seus 
dominios desde o Senegal até Argel. A embaixada 
foi composta dos cadis representantes dos princi- 
pados musulmanos de Sevilha, Badajoz, Granada 
e Córdova*. 

Ancioso por entrar em Hespanha estava luçufe; Ambiçse« de 
era a Hespanha o paiz tradicional das riquezas, ^"^"^''' 
tao appetecidas por todos os povos conquistadores 
que chegavam á Mauritânia. Alem de que, a missão 
de salvador do islamismo periclitante, n'um pais 
onde elle lançara durante quatro séculos raizes tão 
fundas, lisonjeava-o e sorria-Ihe. Por mais de uma 
vez, mouros e christãos, nas suas dissensões, lhe 
haviam accenado com a partilha da Península. A 
fama do seu poderio fazia-o apresentar como um 
auxiliar valioso; nunca porém se lhe offerecera, 
como agora, o ensejo de realisar a entrada appete- 
cida na Peninsula, sem nenhum perigo, antes com 
o applauso e emboras de todos os musulmanos. 
Era uma espécie de cruzada santa que se eflfectuava 
contra o poder crescente do christianismo. 

Pelo seu lado Affonso VI tratou de reunir asAfroniovi pre- 
forças de que dispunha, mandou recolher de Va- ^*'* * '*®^^"' 
lencia Álvaro Faiíez com as suas tropas, e appellou 
para os paizes christãos d'aquem e d'alem Pyri- 
néus, tendo-lhe chegado de França, onde, por sua 
mulher D. Constança, mantinha muitas relações, 
cavalleiros esforçados que na aventura da guerra 
buscavam renome e fortuna. 

Entre elles veiu Henrique de Borgonha, filho cbegRHenriqne 

j j j T» 1 j de Borgonha. 

do duque de Borgonha, do mesmo nome, que no 

1 Dozy. Hist. des mustd. en Eap., tomo 4.*» — xi. 



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232 

condado de Portugal conseguiu lançar os funda- 
mentos de uma monarchia independente, guardada 
para altos destinos. 
A inv«.io doh Foi, portanto, a invasão dos almorávidas na Pe- 
o condado por. umsula a causa mdirecta da creaçao de um estado 
que, baseando-se nas differenciações que existiam 
desde séculos e nas suas tendências constantes de 
independência, n'uma região tão caracter istica de 
Hespanha, creava para si uma situação de mem- 
bro de uma grande e forte familia, que conquis- 
tando a sua autonomia a defendia e mantinha pelas 
ai-mas e pela sua acção perseverante, no sentido de 
nunca perder o que tanto esforço, tanto sangue, 
tanta sòmma de intelligencia e de trabalho tem 
custado aos seus filhos, em todos os períodos da 
sua vida. 



iiivuModeiuçu. De Fez saiu luçufe com um poderoso exercito, 
atravessou o Estreito, e dirigiu-se pomposamente 
de Ceuta a Algeciras, de que se apossou. Como 
hábil militar e diplomata quiz elle, não só assegu- 
rar a sua retirada, mas firmar pé, definitivamente, 
na Península, e para isso impozera como condição 
ser-lhe dada a posse da praça de Algeciras, e se- 
rem-lhe fornecidos todos os meios para o seu fácil 
regresso; assim se fez; e Almotamide, julgando 
salvar o reino das mãos do leonez, o foi voluntaria- 
mente desmembrar, perdendo um ponto estratégico 
importa,nte sobre o Mediterrâneo, a chave do Es- 
treito. 

Recebido com dadivas e honrarias o almorávida 

cnnceniraçaoem Scvílha, juntaram-sc-lhc os exércitos de Al- 
em Badaloz. • -wg- •■ /^ i • * j 

meria, Málaga e UranadH, e seguiram todos para- 
Badajoz, onde Motavaquil o esperava com a sua 



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233 

hoste, e d'ahi, em soberbo alarde, se moveram todos, 
caminho de Toledo. 

Affonso VI estava sustentando o cerco de Sara-Affon»o vi rc- 
goça quando lhe chegou a noticia do desembarque ""** ^"'^*'** 
dos africanos; renunciando a elle, marchou para 
Toledo, onde tratou de reunir o seu exercito. 

A colligação da mourisma quiz oppor a alliança 
dos príncipes christãos ; de D. Sancho Ramirez, de 
Aragão, e de D. Berenguer Raymundo, de Barce- 
lona recebeu reforços importantes; de França se 
apresentaram com as suas gentes, alem de Henri- 
que de Borgonha, futuro conde de Portugal, o seu 
primo Raymundo, que foi conde da Galliza, o conde 
de Tolosa, Raymundo seu primo, e muitos outros 
homens illustres. Como na sua corte, que era meio 
christã meio musulmana, estranho era o aspecto 
da sua hoste, onde ao par dos morriôes dos chris- 
tãos se moviam os turbantes mouriscos e os gorros 
amarellos e negros dos judeus*. 

Não menos luzente que a musulmana, porém a ho>te ohriíu. 
muito menos numerosa, era^ a acreditar os chro- 
nistas christãos, a hoste nazarena, que, segundo as 
boas regras da guerra, não esperou o ataque ; foi ao 
encontro do inimigo e em Zalaca (Sacralias para 
os christãos) se travou uma renhida batalha, sendo 
batidos os christãos, e mortos innumeros d'elles na 
retirada, e ferido o próprio rei (23 de outubro 
de 1086)'. 

Na véspera, 22, uma quinta feira, avistando-se 

1 Fundado em Bemalcatibe, Fernandez y Gonzalez, no seu es- 
tado sobre os mudejares em Castella, diz : «Cfontabanse en su hueste, 
segun un autor arábigo, ochenta mil cabal los, mitad cobertos de 
hierro j armados de pies á cabeza, j la otra mitad ec su mayor 
parte ginetes muslimes armados á la ligera, que combatian á sus 
ordenes, en numero de hasta treinta mil. Tambien yenian con el 
cuarenta mil judios, que se destinguiam entre los demás soldados por 
su traje tradicional j sus turbantes amarillos 7 negros.» 

2 Dozy fixou esta data á yista dos diversos textos árabes: 12 
Redjebc Íl\f. — HisL des tnusul. en Eap., tomo 4.° Nota E. 



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234 

ocarteideiuçu-os dois exercitos, luçufe mandou um altivo cartel 
*"' a D. Affonso intimando-o, mal pousara as suas ten- 

das, a abraçar o islamismo ou a pagar um tributo, 
ameaçando-o com a guerra se não fosse obedecido. 
Calcula-se a indignação do imperador, que a si 
próprio se appellidava « o soberano dos homens das 
duas religiões», ao receber tão insolente quanto au- 
daciosa proposta, e feita a elle que tinha por tri- 
butários os príncipes mahometanos da Península! 
Por um dos mouros ao seu serviço mandou res- 
ponder que dispunha de um forte exercito e sa- 
beria castigar tamanha ousadia. O almorávida re- 
torquiu na mesma carta, com esta phrase concisa: 
«Vaes ver o que te succedeli 
o ardil. Propoz Affouso VI que a batalha se ferisse, não 

no dia seguinte, que era de festa para os musul- 
manos, porém no outro, sabbado; o domingo ti- 
nham de o guardar os christãos. Foi acceite. Era 
um ardil de guerra em que os mouros não se dei- 
xaram cair ; estava a historia cheia d'elles, e nem 
ai mor ávidas nem andaluzes eram estranhos ás li- 
ções da historia. Tomaram as suas precauções. 
Mediam-se, antes de accommetter, as duas feras! 
Almotamide, com os de Andaluz, constituíam a 
dianteira, e o que então se chamava a principal 
batalha; luçufe, que tinha o seu plano estratégico 
formado, conservara-se em reserva, ao abrigo das 
montanhas. Apesar do pacto, o sevilhano não des- 
cansou toda a noite; estabeleceu o seu serviço de 
segurança com os seus ginetes, e logo aos pri- 
meiros alvores da madrugada teve noticia de que 
a hoste inimiga se deslocava, caminho das suas 
posições. Era a cilada! Ordenando immediatamente 
o seu dispositivo de combate, mandou aviso a luçufe 
para que lhe enviasse reforços, pois o seu corpo 
não era suficientemente forte para receber sósinho 
o embate do inimigo; ao que o almorávida, que 



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235 

para si guardava a gloria do golpe decisivo, consta 
respondera: «Que me importa a mim que sejam 
massacrados! Inimigos são todos elles!» 

Como duas grandes nuvens que se entrechocam, Bauiiu* do z». 
assim se deu o encontro das duas hostes ; os anda- ***"* 
luzes vergaram ao peso do numero e ao impeto dos 
christãos; em seguida recuaram, e por fim bate- 
ram em retirada. Apenas combateram a pé fiime 
os de Sevilha, tendo á frente o seu bravo príncipe, 
que, ferido no rosto e na mão direita, os estimu- 
lava pelo exemplo; á frente dos que lidavam con- 
tra os sarracenos do andaluz vinha D. Sancho de 
Aragão, e Albar Hanax, como lhe chamavam os 
mouros, ou Álvaro Failez, como se encontra na 
tradição hespanhola, e que Herculano suppôe ser 
porventura Álvaro Eannes; com outra az, acau- 
dilhando-a pessoalmente, Afifonso VI atacara as 
posições dos almorá vidas. Andaluzes e africanos 
eram batidos, os christãos levavam a melhor em toda 
a linha. Chegara, porém, a vez de luçufe que, tra- 
vado o ataque de frente, e dando uma apparencia 
de victoria aos christãos, mandara o grosso da sua 
cavallaria e peões proceder a uma marcha de flanco, 
atacar de surpreza o acampamento dos christãos, 
estabelecer ali o pânico e a desordem com o mor- 
ticinio e o incêndio, e em seguida, atacar de revez 
os christãos. Assim se fez, e collocados entre dois 
fogos, as hostes nazarenas, desmoralisadas, medi- 
ram bem todo o perigo em que se encontravam, e 
estacaram, ao verem-se envolvidos por toda a parte 
pelas levadas de cavalleiros, que voz em grita os 
assaltavam, de alfange erguido. Porque não só o 
inesperado ataque de revez os obrigava a liictar 
em condições de inferioridade, mas animados pela 
nova phase da lucta, os andaluzes, refeitos e re- 
unidos de novo, voltavam á carga por toda a parte. 
A lucta foi terrível, e luçufe, que tinha emboscada 



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236 

a 8ua guarda negra, caiu com ella n'um ataque de 
flanco, sobre o inimigo, tornando-lhe impossível 
toda a resistência! Um africano conseguira mesmo 
ferir o rei Affonso com uma punhalada na coxa. 

luçufe apparecia em toda a parte, gritando: «Co- 
ragem musulmanos ! tendes diante de vós os ini- 

D«>rrotR doimigos dc Dcus ! O paraiso aguarda aquelles que 
d'entre vós succumbirem • . Pelo seu lado Affonso VI 
batia-se como um leão, procurando reunir as suas 
hostes esfarrapadas; a carnificina era enorme! 
sangue de mouros e christãos corria em ondas pelo 
chão ; fugiam muitos, mais ainda caíam aos golpes 
das lanças e das espadas ; não havia tréguas para 
ninguém; durante todo o dia se combateu encar- 
niçadamente ! Pela noite a victoria pendeu para o 
lado dos musulmanos ! Aflfonso VI, perdida toda 
a esperança, logrou, acompanhado de quinhentos 
cavalleiros, escapar, fugindo, levando nas feridas 
que sangravam o attestado de bravura e pertinácia 
com que resistira até final. 

Não só o numero, mas a perícia militar, haviam 
dado ás armas musulmanas um dos triumphos 
maiores e mais sangrentos de que resam as suas 
chronicas, confirmadas pelos chronistas christãos, 
coniquanto menos pormenorosos na narrativa, e 
esta batalha era a confirmação do adiantamento em 
que a táctica já se encontrava n^essa epocha. 

Perda.. Os arabcs avaliaram, decerto exageradamente, 

em 24:000 homens as perdas dos christãos; qual- 
quer que seja porém o augmento da cifra, a verdade 
é que as baixas foram numerosissimas, e que na 
phrase do grande historiador portuguez a batalha 
foi «uma das mais terríveis que se pelejaram em 
Hespanha»*. 

1 Dozy sobre as chronicas árabes e Herculano sobre as ebristas 
conseguiram compor o quadro doesta batalha memorável. 



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237 

O resultado ^'esta batalha pareceu duvidoso conaequenciM. 
para os musulmanos : a luçufe augmentara a sua 
fama de guerreiro ; era realmente, sob o ponto de 
vista militar, um triumpho para as armas mouris* 
cas; mas politicamente pouco adiantou, pois nem 
08 vencedores poderam levar mais longe, em posse 
de terreno ou conquista de praças, o eíFeito da sua 
victoria, nem o desastre quebrantou a energia 
guen'eira de Affonso VI ou modificou os seus pro- 
pósitos de continuar na conquista de toda a Penín- 
sula, o que constituia o seu sonho dourado. Amor- 
tecia-lhe o impulso, é certo, e atrazava a solução ; 
mas nSo era homem para esmorecer, e muito me- 
nos para desistir. Tivera de abandonar o cerco de 
Saragoça e evacuar Valência, onde já levara as 
suas armas; alem d'isso os mouros, que eram seus 
tributários, de certo se recusariam agora ao paga- 
mento do tributo. Era necessário portanto não per- 
der tempo; porque emquanto o sevilhano Bena- 
bade começava com correrias nos territórios de 
Toledo, as gasivas do almorávida Abu Becre e do 
emir de Badajoz assolavam as fronteiras da Gal- 
liza. Já algumas povoações ohristãs se haviam 
rendido. 

luçufe, colhidos os loiros e os fructos immediatos 
da victoria, teve de regressar á Africa, onde lhe 
morrera um filho muito amado. A Providencia, quci^ç^^ retira « 
parecia ter abandonado os christãos, como que para p»** a'"«^*- 
lhes incutir melhor o espirito da própria responsa- 
bilidade, vinha protegel-os por outra forma. 

Comquanto retirasse com o grosso do seu exer- 
cito, luçufe deixara quem na Peninsula bastava para 
vigiar e manter, entre as dissidias dos mouros, a 
influencia que lhe convinha, para os seus planos 
de dominio futuro ; ficara-o substituindo Seir ben 
Abu Becre, capitão valente e ladino. Os mouros não 
estavam tão obcecados que o não viessem a perceber. 

15 



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238 

DMforrMdaAf- AfiFoRSo VI não quiz demorar o golpe; reuniu 
"**** * novo exercito e caiu sobre a Andaluzia, cujas terras 
assolou ; Badajoz foi sitiada, do mesmo que Sevi- 
lha. Ao mesmo tempo, ao oriente, no coração do 
território musulmano, a praça de Aledo (Alid para 
08 mouros), entre Murcia e Lorca, onde cabiam doze 
a treze mil homens de guarnição, era um baluarte 
terrível que, tendo arvorado o pavilhão da Cruz, 
golfava expedições, e atormentava com sortidas 
continuas os territórios vizinhos, chegando a pôr 
cerco a Almería, Murcia, Lorca e Granada: Her- 
culano refere-se á opinião de ser aquelle um dos 
fojos do Cid, que teria sido alcaide d'aquella forta- 
leza * ; o mais certo, porém, é que esse guerreiro 
andava por esse tempo fazendo guerra por sua 
conta, a favor de Almostaim de Valença, e ali se 
conta que tendo AíFonso VI ordenado a sua junc- 
çao ao exercito com que marchava em soccoito de 
Aledo, não fora obedecido, ou pelo menos não fora 
recebida a sua ordem, o que inimisara de novo o 
rei, de quem sempre se declarara vassallo sendo 
privado das mercês que lhe fizera, e até dos bens 
que em Castella lhe pertenciam ^. 

AhnotMnideeon. Rcsolvido a tapar aquelle boqueirão guerreiro 
do Aledo, saiu Almotamide de Sevilha com três 
mil ginetes, entre elles os almorávidas; no caminho, 
porém, foi recebido por um forte troço de caval- 
laria christã,, que o desbaratou perto de Lorca. 
Afeminados e moUes, os soldados andaluzes tinham 
perdido a sua antiga virilidade e bravura. 

voiu laçnfe á Alcdo rcdobrou de audácia, e as suas algaradas 
tornaram-se ainda mais devastadoras. O desespero 
leva Almotamide a recorrer a luçufe; pessoalmente 
se dirige a Fez ; o Mauritano volta á Peninsula, 



* A. Herculano. Historia de Portugal. — Introd. 
2 D. Manael Colmeiro. Beyes Criêtianos, cap. x. 



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239 

desembarca em Álgeciras, reúne como da vez pas- 
sada, ao seu exercito as forças andaluzas, com- 
quanto em muito menor numero, e vae pôr cerco 
a Aledo (1088). As excellentes condições de defeza 
doesta praça, ninho de águias sobre um escarpado 
rochedo, e as abundantes victualhas de que dispu- 
nha permittem-lhe uma resistência tenaz. Quatro 
mezes consomem os musulmanos sem nenhum êxito, 
quatro mezes que o principe christao aproveita para Aiedo inexpu- 
reunir um exercito que se chegou a avaliar, talvez *°*^*'' 
com exagero, em dezoito mil homens, e propôe-se 
marchar em soccorro de Aledo. Quatro mezes de 
inacção tinham desmoralisado as tropas mahometa* 
nas; ao constar-lhe o grande poder com que o 
principe christao ia cair sobre essa gente descon- 
juncta, não se quiz sujeitar a um revez que lhe 
destruisse a fama e os louros colhidos em Zalaca. 

Abandonou o cerco; veiu para Lorca, e sobiaçufe«bandona 
qualquer pretexto retirou para Ceuta. Não confiava pi^VAmíl!**^* 
nos andaluzes, que receava lhe desertassem; 
por isso desistira da idéa de ir ao encontro de 
Affonso VI e de lhe ofiferecer batalha na serra gra- 
nadina de Tiriza. Teve todo o caracter de uma reti- 
rada esta insólita saída. Em vista d'isto Affonso VI 
resolveu desmantellar a praça de Aledo, cujas mu- 
ralhas muito haviam sofifrido com o assedio, e cuja 
guarnição ficara reduzidissima. 

Era uma pequena desforra de Zalaca; mas nao 
se podia ficar por ali. 

luçufe creara prosélitos na Peninsula; se nascriam proi^iy- 
classes mais cultas esse príncipe, pouco illustrado e vidM. 
rude^ não tinha muitas sympathias, dispunha, em 
compensação, de muitas e profundas nas classes 
populares, entre a gente de trabalho, que detestava 
a ociosidade da corte, e tinha culto por quem lhes 
salvara a pátria e a religião das mãos dos infiéis, 
dos terríveis inimigos do Propheta. Essa corrente 



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fe, 



240 

de sympathia, apoiada pela classe sacerdotal, avi- 
gorava no africano o propósito de nâo largar pé 
d'aqui, até poder fazer a conquista da Península. 
Planos de luçu- Esta idéa foi tomando vulto no seu cérebro, e 
directamente, ou por intermédio dos seus homens 
mais intelHgentes e válidos, tratou de a ir pondo 
em execução. As dissensões e irredutíveis inimisa- 
des entre os príncipes reinantes auxiliavam-n'o ex- 
cellentemente. 

lahia Alcadír, vendo-se sem as tropas que sob o 
Commando de Álvaro Faftez lho dera por auxilio o 
rei leonez, ligara- se ao almorávida para pôr dique 
ás ambições dos príncipes vizinhos, com os quaes 
ora se ligava, ora se inimisava, instnimento e ludi- 
brio de uns e outros ; por morte violenta do rei, o 
reino de Valência, convertido em republica gover- 
nada por uma junta de notáveis, continuou sob a 
protecção do luçufe, que deixara em Hespanba 
como seu logar tenente o hábil e valente general 
Seir. Este general invadira os territórios do rei de 
Badajoz (1093), e passara a dominar em grande 
parte do nosso Alemtejo, tendo a posse de Évora 
e de Silves ; com a morte do Cid, que acaudilhara 
a colligação dos príncipes andaluzes contra a 
absorção dos afrícanos, estes tornar-se-íam senho- 
res de todo o Andaluz ; as Baleares também cai- 
riam nas suas niaos. 
luçufe pela ler- Pcla tcrccira VOZ tiuha luçufe voltado á Penin- 
penrnsuu. °* sula cm 1090; mas já d'esta vez as suas vistas 
eram mais contra os mouros do que contra os 
christâos, comquanto tivesse feito demonstrações 
militares em volta de Toledo, chegando mesmo a 
atacal-a. 
Afibnío VI toma Emquauto o Cid trazia em cheque os almorá- 
bJaêcintra.' vidas, AflFonso VI aproveitava as circumstancias 
para uma expedição até ao Tejo Occidental e tomava 
aos mouros as cidades de Santarém, Lisboa e 



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241 

Cintra, e outras povoações de menos importância 
(1093), o que tudo em breve nos era tomado pelos 
almorávidas, como veremos, sendo batido o conde 
D. Raymundo, perto de Lisboa, quando buscou 
reconquistal-as, pois faziam parte do condado da 
Galliza. 

Temos de fixar n'esta epocha (1096-1097) a 
posse dada ao fidalgo borgonhez, Henrique do con- 
dado de Portugal, com os lindes marcados entre o condado por. 
o Minho e a indecisa fronteira ao sul, para áquem *°^"* 
do Mondego, com uma individualidade indepen- 
dente do senhorio da Galliza, confiado a outro fi- 
dalgo borgonhez, D. Raj^ mundo, que até então go« 
vernara até ao Tejo. 

A creação do condado de Portugal é portanto 
consequência da dilatação para o sul dos antigos 
domínios christãos na Lusitânia, e da vinda de no- 
bres aventureiros francezes á corte de Affonso na 
cruzada provocada pela invasão dos almorávidas, 
6 também da morte desastrosa, na batalha de Ucles, 
do infante I). Sancho, filho da princeza abbácida 
Zaida e de Affonso VI, que n'aquelle seu filho único 
ia preparando a successão. 

Dos diversos núcleos de formação orgânica, que 
sob o laço politico guardavam na Península as an- 
tigas differenciaçSes características, o núcleo por- 
tuguez formou-se e integrou-se, atravez dos tem- 
pos e favorecido pelas circumstancias, por forma 
a constituir um organismo social que nada tem 
podido destruir. 

Nada mais interessante do que o estudo da for- sa« organuaçio 
mação e desenvolvimento d'esse organismo, desde memo?"'''* 
as suas origens; a elle vamos proceder, preparado 
como foi já, nos volumes anteriores, o estudo dos 
diversos elementos que entraram na sua composi- 
ção, com as suas características próprias, resisten- 
tes á acção dos tempos. 



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242 



Romanos, godos, árabes, todos, enxertando-se 
no tronco primitivo das incultas raças peninsulares, 
deram uma feição particular, inconfundível, ás na- 
cionalidades da peninsula, e entre ellas Portugal 
logrou guaràar sempre um logar á parte, bem seu. 

Fazer a historia das sucus instituições militares, 
instrumento e efFeito do desenvolvimento e pro- 
gresso de todas as outras suas instituições, o mesmo 
é que fazer toda a sua historia! 

Esta comprehensão, que a alguns parecerá exa- 
gerada, mas que assenta em bases que a sciencia 
da historia consagrou como indispensáveis, nos 
tem levado a dar largo desenvolvimento ao qua- 
dro de onde tem de resaltar os factos militares, 
cujo caracter e alcance se não pôde comprehender 
sem que se comprehenda o cai^acter geral da civi- 
lisação que os produziu. 



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CAPITULO II 
O condado de Portugal 

Estudando, sob VAntogem do es- 
o ponto de vista so- ^. *** *'*' 
ciai e militar, os 
diversos povos que 
estacionaram ou 
dominaram na pe- 
nínsula hispânica, 
e mais particular- 
mente na região 
que hoje repre- 
senta o reino de 
Portugal, não tive- 
mos em vista esta- 
belecer filiações 
que já não existem, 
porque foram des- 
truídas pelas repe- 
tidas soluções de continuidade produzidas por in- 
vasões novas; mas unicamente apurar o que ficou 
subsistindo, n'este ou n'aquelle ramo da actividade, 
sobretudo militar, em productos d^essas varia- 
das influencias; porquanto, se em grande parte, 
se obliteraram ou se modificaram os elementos da 

N.B. 'A figura que abre este capitulo é reproduzida do impor- 
tante códice manuscnpto do século xii Apocalipse de Lorvão, que se 
conserva na Torre do Tombo. 



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244 

elaboração antiga, creando novas individualidades 
e typos novos, muitos outros persistiram, principal- 
mente dos quatro grandes povos que lograram 
o dominio da Hespanha: o púnico, o romano, o 
godo e o árabe. # 

Estes povos fizeram successi vãmente tábua raza 
de quanto representava a feição e o caracter 
das antigas tribus que desde Strabão, no rocicler 
da historia, nos apparecem habitando a região que 
dos phenicios, seus primitivos colonisadores, rece- 
beu o nome de Span; mas como a herva dos cam- 
pos, que parecendo ressequida e morta, rebenta e 
reflorece ás primeiras chuvas, assim as qualidades 
primitivas d'aquellas raças repontam na historia 
com os seus caracteristicos fundamentaes, que as 
distinguem dos outros povos estabelecidos n'outras 
regiões e que guardam também, através do tempo 
e do espaço, a sua feição peculiar. 

Sem nos preoccuparmos, pois, com essas filia- 
ções remotas que, a partir dos nossos eruditos es- 
criptores da renascença, nos levaram ingenuamente 
a reputarmo-nos descendentes e representantes di- 
rectos dos antigos lusitanos estacionados ao norte 
do Tejo e do Guadiana, em intimas relações de pa- 
rentesco com outro povo, o gallaico, que havia fi- 
xado os seus arraiaes para alem do Douro, compi'e- 
Do!fcfactoBc»r»-hendendo o seu Aa6^7a/ o nosso Entre Douro e Minho 
e a Galliza, dois factos apenas deixaremos aponta- 
dos aqui, como explicação dos acontecimentos his' 
toricos que temos de desenvolver, e são: o accen- 
tuado caracter da nossa Beira, a legitima Lusitânia, 
com um papel militar tão importante na historia, 
desde os tempos mais remotos; e a similhança pro- 
funda, que ainda hoje se conserva entre o caracter, 
a Índole, os costumes, as tradições da nossa região 
de além-Douro e a Galliza. A Galliza ia até ao 
Douro no tempo dos romanos, Plinio e Strabão as- 



cteristicoa. 



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246 

sim o deixaram indicado. Os escriptores gallegos 
reivindicam para o seu antigo reino a fronteira do 
Douro *. 

Mas dentro doestes característicos geraes de fami- p«rtiço)»ri«mot. 
lia, individualisando ao occidente da peninsula um 
povo que se apresentou sempre com uma indole e 
feição differentes do resto da Hespanha, ha diflPeren- 
ciações, ha núcleos particulares e distinctos, que, 
auxiliados pelas condições geographicas do territó- 
rio que habitam, se integram no sentido de apre- 
sentar uma individualidade inconfundível com as 
outras ; é o que se encontra na historia da região 
que hoje conhecemos pelo nome da Beira, e, para 
além-Douro, nas terras da Maia, entre o Douro e OTems d«M«ia. 
Lima *. 

N'es8as differenciações se fundavam geralmente 
as antigas divisórias territoriaes, para cujo governo 
e administração se escolhia um prócere illustre 
d'e8sa região ou um membro da familia reinante. 

Englobado primeiramente no território que até o condado por- 
Aftonso VI se considerava um remo, comprehen- 
dendo os territórios dos três conventos jurídicos 
de Braga, Lugo e Astorga, e que no tempo d'esse 
soberano se instituiu em condado, isto é, a Gal- 
liza, — o território que veiu a constituir o núcleo 

^ «Importa poço para ol caso que Braga este en poder de Por- 
taguesefi. No por eso deja de ser Galicía. Expresamente Io dice Pto- 
loraep, temenao los Gallegos Lucenscs e los Gallegos Bracarenses. 
No fiay Portugal ó Lusitânia hasta pasado el Duero, como lo dice 
Plínio. A durio Lusitânia incipit. Aun llaman los Portugueses en- 
tre Duero y Miflo de su dependência Galegaos; y á los dei reyno 
de Espana Galegos. Asi es mui vieible necedad la de los que dicen 
que Portugal se estendia hasta Ia Torre de Loveira, ai Norte de 
Pontevedra. Antes bien Galicia se estendia hasta el rio Duero». 
P. Martin Sanniento. Hial. y Geog. de Galicia. Vide Est.rada9 Mili- 
tares de Braga a Aèiorga,— Memoria da Acad, fíeal das Sciencias de 
Lisboa, 1901. 

2 «Estes todos se cbamarom da Maya porque se ganhou por os 
seus avóos e Ruiam na por sua : e a Maya chamauasse naquel tempo 
dês Doyro atáa Lima*. Liv. de Linh. do Conde D. Pedro.— Pohtdo. 
MoKUM. EscRip., pag. 277. 



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246 



da monarchia portugueza passou, já accrescido por 
novas conquistas, á categoria de condado, — o 
condado portucalense. 
Reuçsos com a Era uuia partc minlma do que no tempo dos ro- 
nu. manos se conhecia por Lusitânia, que a pamr de 

Tibério, ou, pelo menos, dos fins do império de Au- 
gusto (pois é Strabão o primeiro a indical-a como 
provincia romana), comprehendia «toda a parte mais 
Occidental da peninsula, a começar das bocas do 
AnaSy caminhando para cima em direcção do norte 
até Noega, perto de Gijon, nas Astúrias ; a sua fron- 
teira oriental seguia o curso do Ana^ desde Merida 
até perto de Lacimurgis, em direcção de leste a 
oeste, e cruzava o Tejo perto de Caesarobriga, hoje 
Talavera de la Reina, e o Douro perto de Zamora, 
mas sem comprehender Leão nem Astorga». As- 
sim delimita Emilio Httbner * a área da nova pro- 
vincia, nascida da divisão da grande provincia ro- 
mana do tempo da republica, a Ulterior, em Lusitânia 
e Betica. N'esta ultima estava comprehendida a 
parte do actual reino portuguez ao sul do Tejo, en- 
tre o Guadiana e o Atlântico. 
proTineiuroma. A partir dc Constautino Magno, pelo menos, a 
""' peninsula apparece repartida em cinco províncias, 

divididas cada uma d'ellas em conventos jurídicos, 
das quaes três continham, cada qual, uma parte do 
actual território portuguez : a Betica comprehendia 
o que fica ao sul do Tejo; a Lusitânia o território 
entre o Douro, o Tejo e o Guadiana, com Santa- 
rém e Beja como centros de .dois dos três conven- 
tos jurídicos de que a provincia se compunha*; e a 
Gallecia ficava para cima do Douro, com Braga por 
sede de um dos seus três conventos jurídicos'. A 
Lusitânia é apenas uma parte d'aquelle território 

^ £ Wiibner. La Arqueologia de Empana, pag. 1G5. 

2 Merida, Beja, Santarém. 

3 Astorga, Lugo, Braga. 



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247 

habitado pelos celtas do occidente da península, e 
que Strabão apresenta como estando delimitado 
ao poente e norte pelo mar, e ao sul pelo Tejo, 
deixando indeterminados os seus lindes ao nas- 
cente. 

Referindo-se aos vários limites attribuidos aoqueALu>itanu. 
outr'ora se conheceu por Lusitânia, diz Herculano: 
«O que, porém, se deduz evidentemente de todos os 
geographos antigos, tanto d'aquelles que fallaram 
da Lusitânia antes da conquista romana, como dos 
que só tomaram por fundamento as divisões esta- 
belecidas por esta, é que os territórios a que se deu 
tal nome se estendiam pelas provincias hespanho- 
las muito além das modernas fronteiras orientaes 
de Portugal, ao passo que na primeira epocha não 
passavam, pelo sul, além do Tejo, e na segunda 
findavam ao norte no Douro. Assim, nos tempos 
da independência céltica e do dominio romano, 
o território da Lusitânia, abrangendo de leste 
a oeste uma extensão mais que duplicada da lar- 
gura actual do nosso paiz, dilatava*se a principio, 
talvez, até á extremidade septentrional da Gralliza, 
emquanto que ficava fora d'ella metade do Alem- 
tejo e do Algarve, e, depois de abranger estas pro- 
vincias, menos a porção do nosso solo além do 
Guadiana, o qual ficou sempre pertencendo á Be- 
tica, perdia tudo o que jaz alén> do Douro até o 
cabo de Finisterra,- isto é, metade da sua superfí- 
cie, suppondo com Strabão que lhe pertenciam os 
territórios além doeste ultimo rio». . 

Sobre estas antigas divisões territoriaes romanas inTasOea. 
passaram as rasouras das invasões dos vândalos e 
suevos, dos alanos, dos selingos, dos visigodos, dos 
árabes, e destruiram e modificaram tudo ; mas na 
tradição e nos interesses locaes permaneceu o querDiff^renciafSeg 
que fosse que representava as formações primeiras, p*"^***"*®'- 
Ainda hoje, reparae bem e vereis que o Entre- 



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Nacionalidade 
portngueza. 



Douro e Minho diífere da Beira nos seus caracte- 
rísticos geraes, e a Beira é diíFerente do Alemtejo 
e do Algarve, 

Na nacionalidade portngueza fundiram-se ele- 
mentos de diversa origem e com características dÍ8- 
tinctas ; do trabalho commum veiu a commum von- 
tade, que teve^ como meio de se manifestar e de se 
ipapor, a unidade do governo, confiada a braços vi- 
gorosos e enérgicos nas crises máximas da existen^ 
cia nacional. 

O núcleo de formação d'esta individualidade que 
tem sabido, através do tempo, manter ou salvar a 
sua integridade, foi o condado portugalense, con- 
stituído em unidade á parte por Affonso VI de 
Leão e Castella, bem longe da idéa de que seria 
não só uma força excêntrica e rebelde, como eram 
tantas outras, dentro do systema da unidade pe- 
ninsular que elle ia preparando, com mao férrea, 
mas o núcleo resistente de uma nacionalidade dis- 
tincta. 

Qual o território comprehendido por esse con- 
dado ? É o que vamos estudar, procurando definir- 
lhe, quanto possivel, os limites. 



Limites. 



Era, na realidade, uma porção da Lusitânia, se- 
gundo a primeira divisão territorial romana, e uma 
parte da Lusitânia e outra da Gallecia, na segunda 
divisão, o que constituía o condado portuguea; mas 
a antiga unidade d'estas provincias deixara de ha 
muito de existir, dividindo os neo-godos os territó- 
rios, que iam successivamente arrebatando aos mou- 
ros, consoante as necessidades da conquista e da 
administração, embora não deixassem n'Í8So de at*- 



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BitamiMtlII 



d 




AnaasB Bbois 

D» Bilnlatiira do Livro ãoê TMmmmIm oa PrMli|^#, qae 
•e eoBMrra n* ealhedral de Oriedo, n* attaup* qno 
r«pr«Miita Aflbnao o Otito, de CMtalU, «eomiMnlMdo 



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249 

tender um pouco ás differenciações locaes e tradi- 
cionaes. 

Doa alcantis das Astúrias, onde os dois primeiros a Reoonquiiu. 
reis da restricta monarchia christã de Oviedo e Leão, 
Pelagio e Favila, representavam os restos para ali 
relegados do antigo poderio godo, e iniciavam as 
luctas da reconquista, em algaradas, mais ou menos 
violentas, nos territórios musulmanos que os insu- 
lavam, Affonso I leva os seus rijos fossados por 
Castella Velha dentro e pela Galliza até ao Douro, chega m «o 
semeando a devastação e a ruina; Fruela, seu filho, ^"''' 
continua a acção de seu pae, mantém o dominio 
da Galliza, onde doma rebelliões nascentes, subju- 
ga a Vasconia, ao norte; e quando morria, assas- 
sinado pelos seus, deixava fundada Oviedo, para 
onde, pela dilatação dos dominios ao occidente, se 
deslocou a capital da monarchia, que até então fora 
Cangas. 

Nos pacificos reinados de Aurélio, Silo e Ber- 
mudo não se dilatou o reino christão ; mas Affon- 
so 11^ filho de Bermudo, já nos apparece repellindo 
as gasivas dos sarracenos nos seus territórios, e 
desbaratando-os, e mesmo levando, como repre- 
sália, até junto do Tejo as suas armas bellicosas, 
sitiando Lisboa, colhendo opimos despojos, comsiuodeLuboa. 
que sancciona a alliança que celebra com Carlos 
Magno. O seu reinado foi, por um lado, de lucta 
armada contra os musulmanos, por outro, de re- 
vigoração do espirito godo, por meio da adaptação 
das suas antigas leis, usos e costumes. E d'esta 
epocha o guerreiro, amiiger regis, que damos na 
estampa III. 

Assim abrira o século ix ; e por morte de Affon- Runovatio go- 
80 II (842) pode dizer-se que a alma antiga co- ^^^^' 
meçava apenas a palpitar no novo organismo so- 
cial, ao qual estava confiada uma alta obra de 
reivindicação e de resurreição; o papel de Affonso 11 



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250 

foi um tentamen, perturbado constantemente pelas 
agitações e revoltas que caracterisavam o estado 
evolucionário da nova sociedade, onde laboravam 
tão desencontrados elementos. A acção da recon- 
quista padecia das perturbações internas produzi- 
das pela elevação de Ramiro ao throno, succedendo 
ao tio, por livre escolha da opinião, segundo os 
principies da legislação visigoda, persistentemente 
guardada pelos seus novos representantes ; mas o 

imporunte p*- rciuado dc Ordonho I, seu filho, livre d'essas dissi- 
pei de Ordo> ■%• . a j j •• • 

nho 1. dias sangrentas, porque a vontade da nação coin- 

cidiu com a sua herança do throno paterno, pôde 
assegurar os dominios na parte onde elle estava 
decisivamente fixado, isto é, para alem do Douro, 
reedificando, povoando, dando largo incremento ás 
construcções e trabalhos de paz em Leão, em Cas- 
tella e na Galliza; reconquistando aos mouros 
Orense, de que estes haviam logrado reassenho- 
rear-se ; tomando ao mosarabe Muça o castello que 
conseguira edificar em Albaida (Rioja), n'uma in- 
cursão pelas terras christãs, e Coria e Salamanca 
ao Oriente; dominando as rebelliões dos vasconios, 
e repellindo os normandos nas costas da Galliza. 
Por morte de Ordonho (866) dá-se um facto que 
intimamente se liga com a nossa historia: é a pri- 

GaiiiRacomoin-meira manifcstação da constituição de uma indivi- 
°* ****** dualidade social: a Galliza. Fruela, governador 
doesta provincia, encontra nos ricos homens e pri- 
mazes doeste vasto districto apoio para se procla- 
mar rei, não acceitando que a successão de Ordo- 
nho recaisse no seu filho menor AflFonso. 

Esta coUigáção dos ricos homens e barões gal- 

Tendenciu re- Icgos prova já a cxistcncia n*esse tempo de ten- 
*"* dencias regionalistas na Galliza, que se accentua- 
ram depois e até hoje se conservam. Essas tendên- 
cias provinham geralmente ou das ambições de um 
ou mais senhores, que se apoiavam nos sentimen- 



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251 

tos locaes, ou (i'e8se8 sentimentos que buscavam a 
iniciativa de um ou mais senhores para se mani- 
festarem. Esses senhores eram, n'esta epocha, os 
Sancho Inigo em Aragão, os Sancho Garcez em 
Castella, os Fruela e Menendo Gonsalves na Gal- 
liza, os Nuno Mendes em Portugal. 

Os processos empregados pelo conde Fruela 
para subir ao throno foram adoptados contra elle 
para o arrancar d'ali ; pouco tempo depois era as- 
sassinado, passando a reinar o filho de Ordonho. 
Affonsp m representa um periodo agitado e vio- 
lento da monarchia çhristã, n^essa phase de instabi- 
lidade e desequilibrio das forças em conflicto : — os 
vasconios, novamente rebellados e subjugados pelas 
armas ; recuperação de Coria e Salamanca que re- 
cairá em poder dos islamitas ; fossados victoriosos 
até á base estratégica do Tejo, que era de ha muito 
o objectivo dos christãos ; tomada de Lamego, Vi- Tomada de La- 
zeu e Coimbra, que povoou com gente da Gallisa, coimira **Sor 
e algaradas devastadoras até Idanha e Merida*; 
depois da batalha de Polvoraria, junto ao rio 
Orbiego, onde os mouros foram desbaratados, uma 
fugaz trégua de três annos, para recomeçarem 
as hostilidades com maior impulso; finalmente, a 
invasão das armas christãs até á Serra Morena, 
onde alcançam nova victoria. 

As represálias do emir de Córdova, em Castella 
Yelha, em Leão, em Navarra, até finaes pazes de- 
terminadas pela instabilidade dos resultados da 
guerra, que só produziam, de parte a parte, devas- 
tações e ruinas, levaram Affonso III a assentar no 
Douro os limites septentrionaes e orientaes dos seus 

* Conihriam, ah inimicis posaessam, cremavit, et Galloecis poêtea 
populavit... 61 — Urbes quoque Bracharensiê, Portucalensie, Aueensis, 
Eminenêiê, Vesensis, atqne LamecenHs à ChrUtianis populantur. Is- 
tiu8 Victoria Cauriensis, Egitanierutis et ceteraa Ltmtamae limites^ 
gladio et fame conêumptaey usque Emeritam atque freta maris, cre- 
mavU et dextruxit, Chbokicon Albeldense. 62. 



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262 

domiiiios, em relação ao senhorio árabe para áquem 
doeste rio ; assim buscou consagrar os últimos an- 
nos do seu reinado em restaurar as povoações e 
remediar os destroços da guerra, fortificando na 
fronteira as povoações de Zamora, Simancas, Do- 
nas e Touro. 

N'este8 propósitos de paz nâo logrou demorar-se 
muito, porque o pacto com o rei de Córdova nâo 
impediu que Alchaman (Ahmede Benalquiti) senho- 
reando Toledo e Tala vera, em nome de Ornar Bem 
Hafsun, emulo d'aquelle emir, e juntando um forte 
exercito, cora reforços vindos de Africa, invadisse 
o reino christão e, talando os campos, viesse pôr 
cerco a Zamora; aqui o foi buscar Affonso III; 
depois de rija peleja Ahmede foi derrotado e morto, 
e com elle o vali de Tortosa, seu irmão, Abderra- 
Toiedu ameaça- mão. No cucalço dos vcncidos os christãos marcha- 
ram sobre Toledo, preferindo, porém, uma forte 
indemnisação ás diíficuldades e incertesa do asse- 
dio a uma praça que, desde os visigodos, conser- 
vava os foros de uma das mais fortes e bem mon- 
tadas fortalesas da Peninsula. 

Uma rebellião armada de seu filho Gai-cia, au- 
xiliada pelos barões da Galliza e das Astúrias, que 
continuavam mantendo entre si a unidade regio- 
nalista, mais e mais accentuada com o tempo, 
usurpou o sceptro a AflFònso III, que larga e pode- 
rosamente concorrera para a integração do nas- 
cente império christão, mas que nflo pudera evitar 
a primeira grande consequência do movimento de 
desaggregação realisado pelas aspirações de inde- 
pendência local, convertendo Navarra ein reino 
aparte, na pessoa de Sancho Inigo, conde de Bi- 
gorre, denominado o Forte. Assim, os sempre in- 
submissos vasconios realisavam o seu sonho de 
autonomia, mais cedo que nenhuma outra região. 

Mas Galliza e Astúrias alguma cousa conse- 



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253 

guiam também n^esse sentido, porque Sancho, suc- 
cedendo a seu pae AíFonso III, reconhecialhes a 
força própria com que cada um doesse» cantões o 
]iaviam auxiliado a usurpar a coroa paterna, por- 
quanto, estabelecendo a sua corte em Leão, ,e pas- 
sando a chamar-se rei de Leão, dava a seu irmão 
Fruela o governo das Astúrias, e a seu irmão Or- 
donho o da Galliza, «senão como reinos sepaia- 
dos, diz Herculano, ao menos cora certo grau de in- 
dependência» ; era isto um symptoma d'essas 
«tentativas de independência, que por toda a parte 
tendiam a desmembrar a já vasta monarchia das 
Astúrias», de que mais adiante fala o mesmo es- 
criptor, explicando as causas doeste phenomeno *. 

No principio do século x, portanto, com a ele-Fonnaçio do> 
vação de Garcia ao throno de Leão, temos Na- dlr'**'* **^ 
varra independente, e quasi independentes Gal- 
liza e Astúrias. Convém ir notando estes factos 
para se encontrar explicada a formação dos di- 
versos estados que se crearam na Peninsula, mui- 
tos dos quaes viveram algum tempo vida própria, 
sendo os últimos unificados pelo sábio e poderoso 



^ «Cada conde ou goveruador de districto, tendo nece8sarÍHmen- 
te, em virtude do estado da guerra continua, juntos em suas mSos 
todo4 os poderes militares, judiciaes, administrativos, era quasi um 
verdadeiro rei, e nada mais fácil do que esquecer-se de que lá ao 
longe, para o lado das montanhas das Astúrias, havia um homem 
superior a elle. Sem existir o feudalismo, causas análogas ás que o 
tinham gerado no norte da £uropa actuavam na Hespanha, e a es- 
tas causas mais fortes nos districtos da fronteira árabe, onde a ener* 
gia dos respectivos condes devia ser maior e o seu poder mais illi- 
mitado, faziam com que ahi as rebelliões fossem mais frequentes e 
algumas coroadas de bom successo, como succedeu, primeiro com a 
Navarra ao oriente, depois com Castella no centro, e por ultimo 
com Portugal ao occidente. Palpando, por assim dizer, este espirito 
de desmembraçâo, que nascia da força das cousas depois que os es- 
tados christâos adquiriram pela conquista mais remotos limites, 
Fernando Magno procurou que as tendências de separação, em vez 
de aproveitarem a estranhos, revertessem em proveito dos membros 
da sua familia, e que assim se evitassem as Inctas civis, cedendo a 
essas tendências em vez de tentar, talvez inutilmente, repremil-as». 
A. Herculano. Hist. de Portugal, introd., iii. 

16 



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254 

Força resist^ite influxo dc Izabel R CathoHca. A essa absorpçao 
de Portugal. J.ggJgJJ^ Poitugal pclas suas especiaes condições 
de vitalidade que iremos successivamente estu- 
dando. 

D. Garcia, nos três annos que reinou, limitou-se 
a levar para os lados de Toledo as represá- 
lias, e a prover á defesa dos seus castellos frontei- 
ros ; mas o seu successor e irmão, Ordonho, gover- 
nador da Galliza, herdou com o throno a missão 
Ordonho na Lu- guerreira de seu pae, e levou o rigor das suas ar- 
mas pela Lusitânia dentro, ainda alem do Tejo, 
até o Guadiana, recebendo de Merida importantes 
resgates para não ser assaltada, dando-se, porém, 
mais tarde um sangrento encontro perto de S, Ea- 
tevam de Gormaz, em que não levaram a melhor 
as armas christas. 

Ordonho II ainda se associou, com sorte igual- 
mente adversa, ao rei de Navarra na resistência 
d'este ás invasões sarracenas; mas como os mou- 
ros, animados pelas victorias, transpunham os Py- 
reneus e ameaçavam Tolosa, o rei leonez aprovei- 
tava o ensejo e devastava a Andaluzia, sem que 
isso representasse accrescimo do dominio territo- 
rial. 

No rápido reinado de Fruela II e do pacifico 
AflFonso IV continua a mesma situação; com o 
bellicoso e insoíFrido Ramiro II é que a obra da 
Tomada de Ma- rccouquista rccomcça intensa; Ramiro toma e des- 
mantela Madrid, sentinella e guarda de Toledo; e, 
como os sarracenos entrassem em Castella, che- 
gando até á Galliza, vae em soccorro do conde 
Fernão Gonsalves que governava aquella provin- 
cia, e perto de Osma, junto ao Douro, fere-se a 
grande batalha que ficou memorável nos annaes 
dos dois povos adversos. 

Depois de três annos de paz em que, de parte a 
parte, se refizeram as forças, recomeçam as hosti- 



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255 

lidades, que d'esta vez permittiam ao rei christSo, 
com o auxilio e quasi submissão do alcaide de San- 
tarém, passear as suas armas triumphantes na 
Lusitânia, por Badajoz, Merida e Lisboa; o emir 
de Córdova, contra quem, por vingança do alcaide 
de Santarém Abii lahia, se formara esta colliga- 
ção, respondia invadindo os territórios cliristãos, 
pondo cerco a Zamora e dando batalha, com um 
forte exercito, perto de Simancas, nas margens do 
Pisuerga. Indecisa esta batalha, Zamora cae no 
poder dos musulmanos, mas é pouco depois recu- 
perada, 

Por morte de Ramiro (950) succede-lhe seu filho 
Ordonho III, que, debelladas as tentativas de re- 
belliao dos bâroes e senhores de Castella e de Gal- 
Hza, transpõe o Douro, entra pelas actuaes provin- 
cias das nossas Beira e Extremadura, e p5e Lisboa 
a saque. 

Deve datar d'aqui, meados do século x, a trans- TraMUçio d« 
lação das fronteiras da Galliza, do Douro para o ©'Sí^dígo^*" 
Mondego; era uma crescença a mais ao que se 
passaria a chamar o condado portucalense, a partir 
do rio Minho para o sul. 

O reinado de Sancho I, intercalado pela usurpa- 
ção fugaz de. Ordonho, o Mau, não representa ne- 
nhum progresso ; os de Ramiro II e Bermudo II 
(967 a 999), agitados pelas correrias, devastações 
e conquistas do terrível Almançor pelos territórios 
christãos, até os alcantis das Astúrias, cobrindo-os 
de sangue e de ruinas, eram um retrocesso aos tem- 
pos calamitosos para a christandade, ameaçada de 
ficar reduzida aos reductos alpestres em que se ti- 
nha refugiado nas primeiras invasões dos africanos. 
Já não era o Mondego, já mesmo não era o Douro inyu&o de ai- 
a meta, embora fluctuante, do dominio christão, "*°*"* 
que lembrava um vasto campo, coberto de ruinas, 
por onde passava, a cada instante, o fluxo e refluxo 



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256 



de uma cheia medonha, subvertendo e desbahsando 
tudo! 

Teremos ainda occasião de ver o que foi essa in- 
vasão de Almançor, realisada por terra e mar. 

N'este estado de cousas subiu a um thronOjjá 
por muitos reputado fallido, uma creança, que se 
passava a chamar na historia Affonso V. 

O espirito vigilante de sua mãe Geloira, com o 
auxilio de Sancho Garcez, conde de Castella, e Me- 
nendo Gonsalves, conde de Galliza, conseguiu man- 
ter a flux a avariada nau do estado, ameaçada de 
completo naufrágio. Uma espécie de cruzada christâ 
reuniu nos campos de Lorca navarros, francezes, 
leonezes, castelhanos e gallegos; o embate coma 
onda musulmana que avançava temerosa, sem con- 
tar com um tão poderoso dique, deu-se, segundo os 
chronistas christaos, em Calatalnosor ; batalhou-se 
fera e valorosamente ; a victoria ficou indecisa ; mas 
durante a noite Almançor eífectuou a relirada, 
transpondo o Douro, que passou a ser novamente 
a fronteira christã, embora incerta ainda. 
A leuda do Ca- Parccc provado ser invenção das chronicas eccle- 
siasticas christãs todo este capitulo da campanha 
coroada pela victoria de Calatalnosor, com que se 
quiz buscar uma desforra á profanação de San- 
thiago de Compostella; Gayangos no ^Z??? ara W in- 
troduziu por sua conta este episodio tirado da 
versão christã; mas Dozy restituiu á verdade os 
factos *. 

Pouco depois o caudilho mouro succumbia. Era 
a Providencia! teriam pensado os christaos que 
assim se viam libertos d'aquelle flagello. Abdal- 
Maleque, que succede a seu pae, quer renovar os 
seus feitos guerreiros, mas não tem nem o arca- 
boiço, nem a estrella que a este guiara; os primei- 

^ Dozy. Hecherches, tomo i. 



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257 

ros sete annos do século xi foram ainda assim 
agitados, turbulentos, cheios de perigos para os 
christãos. 

Dentro de Castella, que na pessoa de Sancho 
Grarcez quer fazer vingar os seus foros de indepen- 
dência, levantam-se rebelliôes que Affonso V tem 
de debellar, até que a morte d^aquelle discolo am- 
bicioso deixa livre o braço real, o qual, consolidada 
no interior a sua auctoridâde, cuida immediata- 
mente em rehaver o terreno perdido. Busca firmar 
o pé n'aquelle território, que já fora nosso, onde 
imperavam ora o crescente, ora a cruz, e que viria 
a constituir o núcleo fundamental da monarchia 
portugueza. 

Em 1027 Affonso V, transpondo o Douro, in- Tentativ» da to- 
vade a antiga Lusitânia, e põe cerco a Vizeu, que poV^AffonwT 
não logra tomar, pois o virotão de um besteiro, 
lançado dos adarves, o prosta em terra e o mata. 
Ficaram famosos n'este lance, como depois no 
cerco posto por D. Fernando Magno, os besteiros 
árabes de Vizeu. 

Cerca de trinta annos se passam nas luctas e 
guerras que caracterisaram o predominio do rei 
de Navarra, D. Sancho, que por vingar seu cu- 
nhado, o infantil conde castelhano D. Garcia, as- 
sassinado pelos Vigilas ou Velas em caminho de 
Leão, se assenhoreou de Castella, entrando tam- 
bém em conflicto Leão com o reino unido de Na- 
varra e Castella. 

O casamento de Fernando, filho segundo do rei 
de Navarra, com a primogénita do rei de Leão, 
D. Sancha, reuniu n'aquelle príncipe em, 1037, 
por morte de seu sogro, as coroas de Castella e 
Leão. Depois de una annos de paz, seguiram-se as 
luctas com Navarra; dá-se a batalha perto de Bur- 
gos, onde o navarro D. Garcia perdeu a vida 
(1054). Um anno depois Fernando, que justamente 



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258 

havia de conquistar o cognome de Magno^ conse- 
guia realisar na Lusitânia o que Affonso V mal 

Fernando Magno poderá tcutar. Apoderava-se da Beira, vindo por 
° '^*' Salamanca e Almeida, começando por tomar Ceia 
em 1055, e successivamente Vizeu, n^esse mesmo 
anno *, e Lamego, Tarouca e outras praças no 
outomno de 1057. Depois de uma pequena trégua, 
ia em 1064 pôr cerco a Coimbra, que se rendia no 
fim de seis mezes. 

Tomada de coim- Esta couquista foi fcita por conselho e instan- 
cias de Sizenando, filho de David, opulento mosa- 
rabe, possuidor de Tentúgal e outras terras im- 
portantes em Coimbra, e que tendo sido alvazir 
ou ministro na corte de Alniotamides e um dos 
seus melhores guerreiros, passara, não se sabe 
porque motivos, ao serviço de Fernando Magno. 
Esta mudança de opiniões e de partidos, tanto da 
parte dos musulmanos como dos christãos, é um 
facto frequentissimo n'essa epocha; e a personifi- 
cação d'esse estado de crenças e consciências foi o 
famoso Cid. 

o moMrabo Se- Os cousclhos, bous scrviços c auxilios prcstados 
por Sizenando foram recompensados por Fernando 
Magno, dando-lhe o governo do condado de Coim- 
bra, que creou, distincto do de Portucale, compre- 
hendendo o território portuguez ao sul do Douro. 
Sizenando foi um leal servidor dos monarchas chris- 
tãos e da causa christã, oppondo-se efficazmente ás 
invasões árabes, acompanhando AíFonso VI na ba- 
talha de Zalaca, e dotando o districto de Coinabra 
de edificações consagradas á sua nova fé. Na parte 
exterior, da Sé Velha, d'aquella cidade, se vê hoje 
o seu modesto sarcophago. 

* Vizeu era defendido por um corpo de besteiros tão dextros e 
fortes que os christãos tiveram de ren)rçar as suas armaduras. Na 
tomada da praça ficou captivo o arqueiro que trinta annos antes 
matara Affonso V, quando poz cerco áquella cidade, e foi ordenado 
que se lhe cortassem as mãos. 



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259 

Assim ficava constituído, do Douro ao Mondego, Nucieo do cou« 
o núcleo do que foi, primeiro o condado, e depois o ien«ê. p**'*"^** 
reino de Portugal *. 

Mas esse núcleo nao creára ainda individuali- 
dade própria, estava englobado na unidade, já re- 
conhecida e característica, que se chamava Galliza, 
e que, não menos que Gastella, trabalhava por ac- 
centuar a sua independência. No dizer criterioso 
de Herculano, foi fundado n^esse espirito de des- 
membração que se manifestava na peninsula, nas- 
cido da força das cousas, que, por sua morte, 
Fernando I fez entre os seus filhos a partilha do 
reino, dividindo-o em três reinos distinctos e in- 
dependentes. A seu filho Garcia, como sabemos, 
deixou a Galliza, comprehendendo também o 
«território já denominado Portugal, que abran- 
gia não só toda a porção d^aquella provincia ao 
sul do Minho e ao norte do Douro, mas também 
o districto que, ao sul d'este ultimo rio até o Mon- 
dego, tinha sido conquistado aos sarracenos^». De- 
dit dcnnino Garseano totam GaUceciam una cun ioto 
Portugale ^. 

Já n'esse tempo se dá um facto que mostra queprodromoidoin. 
já então começavam em Portugal a manifestar-se ^^p*'"'**"*'**- 
aquelles symptomas caracteristicos das tentativas 
de independentisação e de um viver sobre si : é a 
rebellião dos barões e senhores de Entre o Douro e 
Minho, que, reunidos ^fín volta do pendão de Nuno 
Menendez, — vir illustris et magnae potentiae in Mo 
Portugale — se quizeram impor a Garcia; este in- 
flingiu-lhes uma rude derrota em Pertalani *, entre 

* Expulsa itaqne de PovtucdU Maurontm ralie^ omnes ultra flu- 
vium Mondego^ qui ulramque a Gallecia separai provinciam, Fer- 
nandus rex ire eogit. Chronicon Silensis 90 

2 A. Herculano. HisL de Porlvgal^ tomo i. Introd. iii. 
5 Pelayo Ovetense. 8. 

* •Ohtinuit atitem rex de illis victoriam in loco que dicilur Per- 
talani, inter BracJiaram et fluvium Cavado», Rod. de Toled., De 
Reb. Hisp. L. V. 17. 



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260 

Braga e o Cavado. Essa nascente individualidade, 
antes de se poder impor como tal, continuou absor- 
vida no reino da Galliza, cuja autonomia poude 
Garcia affirmar nos soccorros que, como alliado, 
levou a seu irmão Sancho de Castella nas suas 
guerras de ambição contra seu outro irinao, Af- 
Ibnso de Leão. Quando este reino é absorvido por 
Castella, Garcia continua á frente da Galliza, 
acrescida com as novas conquistas e acquisições 
em Portugal. 
A nova Gauiza. Estc rciuo uão é precisameutc a antiga forma- 
ção orgânica, de origem sueva, que comprehendia, 
reunidas, a Galliza asturica, a Galliza lucence e a 
Galliza bracarense, porque d'elle não fazia já parte 
a região asturica (Astorga e Leão); mas vinha em 
compensação accrescida com a região portugueza, 
luzitana, adquirida por D. Fernando, desde o 
Douro até ao Mondego. 

Este facto levou um escriptor regionalista da 
Galliza a escrever o seguinte: — «Respiremos! 
Quando reputávamos perdida completamente a 
nossa autonomia e a nossa independência nacio- 
nal, pela absorpção da coroa de Castella, esta co- 
roa fica desligada da Galliza, formando um reino 
independente sob o sceptro de Sancho, filho de 
Fernando I. Respiremos ! A Galliza Incense e bra- 
carense, com todo o território ao sul do Douro que 
então se denominava Portucalia, vae constituir um 
reino independente sob o sceptro de Garcia, filho 
de Fernando I. Respiremos! Vae finalmente renas- 
cer a antiga monarchia sueva, a antiga GaUiza, 
recuperando para o sul ao árabe quanto perde para 
o norte da Peninsula S). 

Pouco tempo, porém, respiraram os gallegos, 
porque em breve se desvanecia a sua esperança de 

* D. Benito Viceto. Hist, de la GcUicia, tomo iv. 



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261 

independência. D. Garcia nao tinha cabeça nem 
pulso para tal empreza; todavia nao deixou de ma- 
nifestar o seu pensamento da integração de todo o 
território quando, restaurando Braga, ali quiz col- 
locar a sua corte, no evidente propósito de dilatar 
para o sul os seus dominios. Só a uma parte doesse 
território, constituido em reino, pertenceria no fu- 
turo a gloria de se constituir em núcleo de um 
reino novo, que bem poderia ter dilatado até aos 
Pyrineus gallaicos os seus dominios, se as anibi- 
ções do conde D. Henrique ou de AíFonso Henri- 
ques tivessem encontrado decidido apoio no resto 
da Galliza. 

Do que se passou depois da morte de Fernando 
o Magno, até á integração do condado portuguez 
na pessoa de Tareja, filha de Affonso VI, casada 
com D. Henrique de Borgonha, dêmos já uma rá- 
pida resenha no capitulo antecedente. 

Resta-nos tratar aqui propriamente da génese 
doesse condado. 



Vimos já como o reino que Fernando I entre- Aubua© vi. 
gara retalhado aos seus três filhos voltara a re- 
unir-se nas mãos de um d'elles, AíFonso, que tivera 
por partilha o reino de Leão e das Astúrias ; como 
doeste fora AíFonso expulso por Sancho de Cas- 
tella, depois do ardil de Golpejar (Vulpecularia), 
inspirado pelo Cid, e como finalmente, depois da 
morte desastrosa de Sancho de Leão, no cerco de 
Zamora, voltara a occupar o seu perdido throno, 
reunido ao de Castella. 

Não contente com isto, sem custo se assenho- 
reava AíFonso da Galliza e de Portugal, que seu pae 
dilatara definitivamente até ao Mondego, bastan- 



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262 



do-lhe, para esse fim, . attrahir á sua corte seu ir- 
mão Garcia, que reinava n'aquella província, e 
prendel-o, sem que nem Galliza nem Portugal se 
revoltassem, nem contra o novo soberano, nem con- 
tra a forma por que havia adquirido mais uma co- 
roa. 

Vimos também como Affonso, VI d'este nome, 
se servira d'e8ta consolidação do reino de seu pae 
nas suas mãos para accrescentar poderosamente o 
seu império, obtendo cidades importantes, como 
Cuenca, Huete e Ocanha, tomando Toledo, que 
tornou capital d'esse império, e com ella o vasto 
território contido n'aquelle emirado, e fazendo 
«dominar de novo em mais de metade do território 
hespanhol a cruz triumphante», porquanto «as 
fronteiras ou extremaduras do reino leonez-caste- 
Ihano se dilatavam agora por uma linha que cor- 
ria de poente a nascente desde a foz do Mondego, 
pela Beira Baixa^ direito a Coria, Talavera, To- 
ledo, Huete e Cuenca, até ás serras de Albarra- 
cim *j). 

Para áquem d'esta linha manda AíFonso restau- 
rar das perdas e ruinas o seu florescente reino; 
para além vigia os movimentos dos musulmanos 
que já se arreceiam de um tão crescente império e 
até appellam para os almorá vidas africanos; contra 
a invasão doestes, colligados com os emires de Hes- 
panha, levanta uma cruzada christã, reúne um po- 
deroso exercito em Toledo, vae-lhes ao encontro 
perto de Badajoz, e se é realmente elle o vencido 
(1086), pelo menos os africanos não proseguem na 
invasão e abandonam o propósito de se assenho- 
rearem de Toledo. 

Dois annos depois (1088) é mais feliz, pois re- 
pulsa uma nova invasão de luçufe e lhe illaqueia 

1 A. Herculano. Hist. de Portugal, iiiti*od., ui. 



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263 

os movimentos. De parte a parle, entre christaos e 
sarracenos, se multiplicam as hostilidades; os al- 
morávidas já procedem por conta própria, cônscios 
os musulmanos hespanhoes do novo e grave pe- 
rigo que haviam attrahido á pátria ; a breve trecho 
eram pelo invasor espoliados dos seus melhores do- 
minios. 
AfFonso VI aproveita o estarem os árabes deTomad*dosaii- 

TT 1 1 f ' r tarem, Lisboa 

Hespanha a braços com os africanos para fazer ecintra. 
avançar até ao Tejo a sua fronteira, tomando San- 
tarém, Lisboa e Cintra (1093). Mas essa fronteira 
era ainda muito instável, porque tendo aquellas 
praças, Lisboa e Cintra mezes depois, e mais tarde 
Santarém, recaido nas mãos dos musulmanos, foi 
necessário que annos mais tarde Affonso Henri- 
ques as reconquistasse para Portugal, e levasse 
para aquelle rio a sua definitiva base de operações 
contra o Garbe. 

Com effeito, nos fins d'esse mesmo anno de 1093 invasão aimora- 
o famoso general almoravida, Seir, logar-tenente de 
luçufe, invadiu o emirado de Badajoz, e assenho- 
reou-se do que hoje chamamos o Alemtejo portu- 
guez, tomando-lhes, alem de outras praças, as im- 
portantes cidades fortificadas de Évora e Silves. 
No impulso das conquistas, entra a nova fronteira 
christã e apodera-se de Lisboa e Cintra. Santa- 
rém, que é dada também por couquistada nessa 
epocha, continua na posse dos christaos, porquanto 
data de 1095, dois annos depois, o foral que lhe 
foi dado por Affonso VI. 

Como as novas possessões que os christaos aca-Derrou do conde 

■I 1 -| T^ , 1 Rayniundo de 

bavam de perder na nossa Lxtremadura eram uma Borgonha. 
parte do condado da Ualliza, o conde D. Ray- 
mundo de Borgonha, de que adiante fallaremos, 
primo do nosso conde D. Henrique, e casado com 
D. Urraca, filha de D. Affonso VI, entendeu do 
seu brio e dever recuperai- as ; e como Seir, reali- 



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264 

sadas as conquistas e expulsa d'ali a dyiDiiastia 
dos Benalaftas, fora' acudir a Valência, a braços 
com o terrível Cid, veiu estabelecer a sua corte 
em Coimbra (1094), aqui reuniu um exercito, re- 
solvido não só a rehaver o perdido, mas a estabele- 
cer-se n'aquelles territórios, e marchou sobre Lis- 
boa, junto da qual assentou arraiaes. Os sarracenos, 
congregando um forte exercito, tomaram a oflfen- 
siva, romperam-lhe o campo, desbarataram-lhe a 
hoste, e obrigaram-no a retirar, seriamente escar- 
mentado (1095). 
^drdTindep^n- D^cstc dcsastroso acontecimento, resultado ou 
dente da Gaiii- ^g^ impcricia OU do infortúnio do conde D. Ray- 
mundo, conjectura Alexandre Herculano que pro- 
viesse o ser desmembrado da Galliza todo o terri- 
tório desde a margem esquerda do Minho até San- 
tarém; este novo districto foi confiado ao conde 
D. Henrique, com a condição de que servisse o seu 
rei, «fosse ás suas cortes e chamados, e sendo caso 
que fosse doente ou tivesse legitimo impedimento 
a nom poder lá hir, lhe mandasse hum dos mais 
principaes da sua terra ha seu serviço com trezen- 
tos de cavalo, nom avendo naquelle tempo mais 
naquella terra de Portugal; e ainda lhe assinou 
mais terra da ^ hos Mouros possoyam, que ha 
conquistasse, e tomandoa, acrescentasse em seu 
Condado, ho que elle e seus successores com muito 
esforço e valentia por muito arriscados perigos e 
trabalhos depois fizerão, e que nom querendo ho 
conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que 
fosse Rey de Castella pudesse tomar ha terra aho 
dito conde e mais toda outra que ho dito conde e 
seus successores guanhassem, e fazer delia ho que 
lhe aprouvesse, como de cousa sua própria*». 



^ Duarte Galvão. Coronica dtlrty D. Âffonso Anrique^^ cap. i. 



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265 






D'aqiii dataria a primeira organisação, com um^"""*'^*''*^*'^^*- 
relativo caracter de independência, do condado de 
Portugal, constituído em província ou districto á 
parte. 

Mas as origens do districto portiicalensey com 
um certo caracter próprio, são, pelo menos, de dois 
séculos mais antigas. 

Vimos já como na instabilidade das guerras, que ^J^;*fj"* *""' 
ora favoreciam os christãos ora os sarracenos, 
a fronteira da província da Galliza umas vezes 
se deslocava até ao Mondego e ao Tejo, outras 
se retraía até ao Douro. Com Affonso III, que 
conquistara, e com Fernando Magno, que recon- 
quistara aos mouros Ceia, Lamego, Vizeu e Coim- 
bra, a Galliza dilatou-se até ao Mondego ; com Af- 
fonso VI, embora n'um fugaz momento de espe- 
rança, cresceu até Lisboa e Cintra; em breve, po- 
rem, teve de recuar até Santarém, e mais tarde 
até Coimbra. 

O vasto território comprehendido no antigo con- 1>»^*'»^<' t*»"''"- 
dado ou reino da Galliza era dividido em diversos 
dístríctos, não só para recompensa de serviços 
prestados por aquelles a quem esses districtos 
eram confiados, mas para a boa administração e 
melhor defensa do território, principalmente na 
fronteira, onde era necessária uma grande unidade 
e energia no governo. Um conde governava um só 
districto ou uma reunião d'elles; ou uma porção 
d'elles juntos, dentro de uma grande província, 
estava sujeita A auctoridade de um príncipe ou de 
um conde superior. 

Era a reproducção do que se passava, como 
tivemos occasião de ver, no regimen dos visi- 
godos. 



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266 

O condado portucalense era um d^esses districtos, 
primeiramente constituído por uma parte da nossa 
actual província do Minho e uma parte dos nossos 
Traz os Montes até ao Douro, e mais tarde, no sé- 
culo XI, comprehendía o território entre o rio 
Vouga e o Minho, querendo alguns que fosse até 
Lobeira, perto de Pontevedra *. 

Terr» poriuca- A ttvra povtucalense tirava o seu nome do antigo 
castro e povoação romana Cale^ indicado na quinta 
estrada militar do chamado Itinerário de Antonino, 
estrada que ia de Lisboa a Braga, passando por 
Santarém, Coimbra, Condeixa a Velha e Gaya 
(Calle)^ 

Cale. Calle, na margem esquerda do Douro, guardava 

com o seu castro a entrada doeste rio, e ao mesmo 
tempo defendia e atalaiava a passagem do cami- 
nho que, por sobre o Douro, ia da Lusitânia á 
Gallecia, ligando directamente a segunda cidade 
d'aquella província, e importante imporío commer- 
cial, com um dos mais afamados conventos jurídi- 
cos d'esta. Castmm a/itiquiim se passou a chamar 
quando fronteiro a elle se ergueu outro, na mar- 
gem direita, protegendo uma povoação nascente 
de pescadores, marítimos e commerciantes ^, que 
foi o núcleo da futura grande cidade do Porto. 

* « . . . outra chamada Dona Tareja deu por molher ha D. Anri- 
que sobrinho do conde de Tolosa, dando-Ihe com ella em casamento 
Coimbra, com toda ha terra atée ho Castello de Lobeyra, que he 
huã leguoa além de ponte Vedra,em Gualisa, ecom toda a terra de 
Vizeu e Lamego, que seu pay líl Rey D, Fernando, e elle guanha- 
rào nas comarcas da Beyra». Duarte Galvão. Coronica ddrty D. Af- 
fonso Anriques^ cap. i. 

2 Vide Hist. Org. e Pol. do Exerc. Port., tomo ii. 

' «... e ha causa porque ha terra se chamou Portugal, foy que 
antigamente sobre ho Douro foy povoado ho Castello de Guaya, e 
por aportarS é ahl mercadores, e navios, e avssi pescadores pelo Rio 
dentro ancorarem, e estenderem suas redes de outra parte para ieso 
maia conveniente, se povoou outro luguar, que se chamou ho Porto, 
que ora hee Cidade muy principal, donde ajuntando estes deus no- 
mes, foy chamado Portugal». Duarte Galvão. Coronica ddrty D. Âf- 
fonso Anriques^ cap. ii. 



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267 

Portucale castrum Tiovum ficou-se chamando esta 
nova povoação afortalezada, em contraposição ao 
Portucale castrum anticum, aquelle que é já citado 
no tempo dos visigodos. 

Do morro onde hoje assenta a sé do Porto, a 
nova fortaleza, erguida certamente pelos christãos 
quando, com Affonso I, avançaram até ao Douro, 
vigiava e ameaçava o castro fronteiro onde cam- 
peava ainda o crescente mourisco, e ambos elles 
foram testemunhas de muitos episódios, de guer- 
ras e de amores, como os que o Nobiliário do 
conde D. Pedro nos legou na sua pittoresca lin- 
guagem, e que é uma pagina curiosissima para a 
historia, não só dos costumes da epocha, mas do 
consorcio das duas raças e das duas civilisações 
na peninsula *. 

 Affonso III devemos attribuir a constituição ori^om do coa- 
do primeiro condado portucalense, quando pela 
primeira vez as armas christãs recuperaram a re- 
gião para áquem do Douro, tomando Portitcalem e 
vindo até Coimbra; evidentemente esse rei quepo- 
voou de christãos, como diz o Albeldense, aquella 
cidade, como também Braga, Eminio, Vizeu e 
Lamego, devia ter posto ali um conde, como en- 
tão se usava. «Esa sola frase dei Albeldense, 
dan Alonso III reconquisto á Portucalensis, diz um 
escriptor hespanhol, es la bola de nieve que ro- 
dando hácia el sur de nuestros ventisqueros galai- 
co-bracarenses, será mas adelante un inmenso alud 
6 reino, entre el Miiio y el Mediterrâneo»^; e pre- 
tende que o seu conde pode ser um de tantos que 
em 899 assignaram a dotação da igreja de Com- 
postella. Isto é mais do que uma conjectura, por- 
que realmente entre os diversos governos da Gal- 



* Vide Documento A no fim do volume. 

2 D. Benito Viceto. HUloria de Galliciaf tomo iv. 



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268 

liza apparece desde o meado do século ix o 
districto ou condsiào portucalense^. 
Um conde de No anno de 877 reúne AíFonso III um concilio 
fuiolf* *''^*^"em Oviedo, e n'elle, segundo Sampiro, tomam 
parte e assign.im, entre outros, os seguintes condes: 
Hermenegildo, conde de Tuy e Portucale, Árias, 
seu fiUio, conde do Eminio (Coimbra), Pelayo, 
conde de Bragança, e Ero conde de Lugo *. Alem 
d'estes condados vê-se que existiam n'essa data 
mais 08 seguintes em que o reino se dividia: Luna, 
Leão, Astorga eVierzo, Toral, Deza, Castella e 
Oca, e Prusios. 
o°»'«? Almacari falia de um conde Luderique Bem 

Belasque ou Rodrigo Velasques, um dos mais po- 
derosos chefes, com territórios ao occidente da 
Galliza, cuja màe foi em 953 (354 H) á corte de 
Alaquem II pedir para ser mantida a paz com o 
seu filho, e porventura auxilio para se realisar a 
idéa da independência que animava os condes 
gallegos. 

Este conde Rodrigo Velasques seria porventui-a 
das terras de Portugal. Esta é a conjectura de Vi- 
ceto^ que se baseia da traducçao do Almacari do 
Murpliy, que aliás differe da de Gayangos, por- 
quanto este traduz: «Roderigo era um poderoso 
chefe, cujos estados confinavam com a Galliza»* e 

1 A. Herculano. Hiet. de Portugal, liv. i. 

2 «Visais itaque Rex Epistolis, magno gáudio gavisus est. Tnnc 
conetitnit dicm consecrationis jam dictae Ecclesise, sive et concilium 
celebrandum apud Ovetum cum omnibus Episcopis, qui in illius 
erant Regno . . . Igitur, auziliante Domino, venit Rez ad statutum 
diem cum uxore sua et íiliis et cum proedictis Episcopis, et cum 
uni vereis Potcstatibus, eive et cum subscriptis comitibus suis per- 
nominatis: Aluarus Luncnsis Comos, Verenumdus Legionensis 
Comes, Sarracinus Astorico et Berizo Comes, Veremundus Torrensis 
Comes, Betotus in Dcza Comes, Erracnegildus Tude et Portngalle 
Comes, Árias filius ejus Eminio Comes, Pelagius Bregâcie Comes, 
Oídarius Castellae et Aus Comes, Sylus Prucii Comes, Erua in 
Lugo Comes etc.» Chronicon de Saupiro, 9. 

^ Vice to. Iliét. de la Galliza, tomo iv. 
^ Almacari. Analectes I, pag. 249. 



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269 

Murphy traduz «poderoso chefe dos territórios ao 
occidente da Galliza», o que está em harmonia 
com a traducção do nosso amigo sr. David Lopes, 
obsequiosamente feita a nosso pedido*. 

No tempo de D. Garcia encontramos Nuno o conde Nano 
Mendes governando o condado portugalense e 
rebellando-se contra o rei; emquanto Sizenando 
governava em Coimbra no tempo de D. Fernando, 
governa o Porto Munio Hermiges*. 

Se não fossem tao escassos de noticias os docu- 
mentos conhecidos, seria curioso fazer uma relação 
dos condes que estiveram, antes de D. Henrique, 
á frente do condado portugalense. O primeiro rei, d. oarcu i rei 
com este titulo, da região portugueza, podemos "^"^ ^'■*"8*- 
dizer que é Garcia, II da Galliza e I de Portugal, 
filho de Fernando Magno; pelo menos é assim 
tratado no seu epitaphio ^. 

O condado portucalense apparece-nos histori- primeiroa nmi- 
camente no tempo de D. Fernando e de D. Af- áL ** *'*'° *" 
fonso VI. A principio, o condado seria talhado por 
uma forma diversa da que geralmente determinava 



* «The mother of Count Luderik Ibn Belask (Rodrigo Velas- 
gnez) went also to court of Al-hakem. This Luderic was a power- 
fui chief(ain, whose states bordered upon Galicia. Having íiri>t 
dispatched the great oflScers of bis court to meet the christian 
princesa, the Khalif rocievcd her in state, grantcd the pcace she 
reqnested on bebalf of her son, and gave her a large sum of money 
to be distributéd among her attendanfs, besides a rich presont for 
beraelf». Gayangos, Almacari, liv. vi, cap. vi. 

* Vid. doe. nas Dissert. Chron., tomo iii, pag. 42. 

3 H. /?. Domintu Garcia 

JRex PortvgáUae et Galhedae. 

Filias Regia Magni Ferdinandi 

Hic ingenio captus 

A fratre suo 

In vincnliõ ohiit 

Era MCXXVni 

XI Kal Aprilia, 

Traduzido diz : Aqui repousa D. Garcia, rei de Portugal e da 

GaHisa, filho de grande rei D. Fernando, o qual foi preso com arte 

ou cautela por seu irmão : morreu na prisão no anno de 1090, a 22 

de março. 

17 



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270 

os limites das circumscripções administrativas, que 
ainda hoje buscam os seus lindes nas indica- 
ções naturaes dos rios, serras, etc. Comprehendia 
parte de Entre Douro e Minho, e aquella porção 
de território, de dominio incerto durante muito 
tempo, que as aimas chrístãs conquistaram para 
áquem-Douro ; de maneira que era cortado por este 

Condado! de rio, cm más condições de unidade. Mas quando 
cíííSi * ^* Fernando Magno, auxiliado por Sizenando, o mo- 
sarabe, conseguiu arrancar a Beira a Benabade, 
assentando a sua auctoridade no território para 
além do Alva e do Mondego, muito naturalmente 
nasceu a divisão administrativa e militar em dois 
districtos : o de Portugal, que ia do Douro ao Mi- 
nho, menos a Feira (terra de Santa Maria), com 
parte dos Traz os Montes, cujo governo, ao que 
parece, foi dado a Nuno Mendes, e o de Coim- 
bra, que abrangendo o território desde o Douro até 
ao Mondego, limitado pela serra da Estrella ao 
sueste, e pela linha de Ceia, Vizeu, Lamego, ao 
oriente, ficou ao cargo de Sezinando, feito conde 
ou alvasil * christão. 

Nuno Mendel em Quc no districto portugucz govcmava Nuno Men- 
des, se pôde concluir do facto de ser elle quem ca- 
pitaneava a rebellião dos portugalenses contra 
D. Garcia, filho de Fernando Magno, a quem seu 
pae legara por morte, como vimos, o reino de Gal- 
liza, e que, em combate travado com os insurgentes 
entre Braga e o Cavado, lhes matái*a o chefe e os 
derrotara. 

No condado de Coimbra Sizenando mantém in- 
tegra a auctoridade da coroa leoneza. Comquanto 
não intentasse incursões pelo território dos musul- 
manos, não os deixava todavia medrar nas proximi- 

* nRegnanie Adfotievs Princeps in GaUicia, in Bracaro Petrus 
Episcopusy in CoUmhria Sunandus Alvazirv, Doação no Cartório do 
Mosteiro de Arouca. Êra 1108. Diesert, Chron, tomo uí, pag. 9. 



Portugal. 



Snsfnando em 
Coimbra. 



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271 

dades das suas fronteiras ; auxilia Affonso VI nas 
suas emprezas militares, como auxiliara seu pae, 
e suppõe-se até que esteve com elle na desastrosa 
batalha de Zalaca (1086), conservando-se sempre 
fiel á causa que abraçara depois de abandonado o 
partido dos musulmanos. 

Por sua morte (1091), o condado passa para Martim Monis. 
Martim Moniz, casado com a filha de Sizenando, 
D. Elvira, o qual em 1093 é transferido para o dis- 
tricto de Arouca, para ser dado ao conde D. Ray- d. Raymundo. 
mundo de Borgonha o governo directo do distri- 
cto de Coimbra, conjunctamente com a auctori- 
dade superior em todo o condado da GaUiza, que 
até Coimbra se dilatava. 

Dá-se n'este anno de 1093 a invasão de Affonso 
VI na Extremadura e a tomada das praças de San- 
tarém, Lisboa e Cintra; com estes territórios agora Dutricto de san- 
adquiridos constitue-se um novo districto, do Mon- "*"* 
dego á foz do Tejo, de existência ephemera, com a 
sede em Santarém e cujo governo foi confiado ã 
Sueiro Mendes, irmão do que, com o cognome de 
Lidador, tão notável se havia de tornar pela sua 
bravura e esforço. 

Todos estes districtos pôz Affonso VI debaixo da Tudo .ob a «. 

• .1 • 1 • 1 j j ctoridadedeD. 

supermtendencia e auctoridade do seu genro, o Raymundo. 
conde D. Raymundo de S. Gil, filho do conde de 
Bolonha Guilherme, a quem dera em casamento 
sua filha D. Urraca. 

«A Galliza, diz Herculano, incluindo debaixo 
doesta denominação a extensa provincia portuga- 
lense a que naturalmente se devia considerar como 
incorporado o território novamente adquirido no 
Gharb musulmano, constituia já um vasto estado 
remoto do centro da monarchia leoneza. Os condes 
que dominavam os districtos em que esse largo tra- 
cto de terra se dividia ficavam assas afastados da 
acção immediata do rei e eram assas poderosos para 



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272 

facilmente se possuírem das idéas de independên- 
cia e rebelHâo communs n'aquelle tempo, tanto en- 
tre os sarracenos, como entre os cliristãos. Affonso 
VI poude evitar esse risco convertendo toda a Gal- 
Hza, na mais extensa significação d'esta palavra, 
em um grande senhorio, cujo governo entregou a 
um membro da sua familia, ao qual dera o governo 
de Coimbra e Santarém logo depois da conquista 
doesta, removendo para o districto de Arouca Mar- 
tim Moniz e sujeitando ao novo conde o governador 
de Santarém, Sueiro Mendes*.» 

Consequências E u^csta situação, como vimos, que se dá a inva- 
dainvMod© ^g^ ^^ almorávida Seir na região da antiga Lu- 
sitânia, tomando aos christãos Cintra e Lisboa, que 
pouco antes haviam conquistado, seguindo-se a 
vinda de D. Raymundo para Lisboa, a sua mallo- 
grada expedição á Extremadura, sendo derrotado 
perto d'aquella cidade, e o desmembramento do seu 
vasto condado, que foi dividido em dois, ficando- 
Ihe apenas a região para cima do rio Minho, e con- 
stituindo- se com o território desde o IVfinho até San- 
tarém um condado independente, denominado por 
ampliação o condado portucalense; este ficou sob a 

ocondcD.iien.auctoridade do (*onde D. Henrique de Borgonha, 
'**^"**' que desde fins de 1094, ou princípios de 1095, já 

governava no território portuguez, e com certeza 
no districto de Braga nos primeiros mezes de 1095, 
sob a auctoridade e dependência do conde da Gal- 
liza, seu primo, o qual, porém, em 1097 perdera 
toda a auctoridade desde o Minho ao Tejo, em- 
bora se continuasse a chamar senhor de toda a 
Galliza*. 

Póde-se dizer que começa propriamente aqui a 
historia do condado portuguez. 



* A. Herculano. Hist, de Por/ugcd, tomo i, liv. i. 

2 A. Herculano. HUt. de Portugal, tomo i, liv. i e nota it. 



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273 



Liniiles da Oal- 
II /.a e d 
tauia. 



Dos limites dos dois condados, Galliza e Por- 1í"a e'da*LÚ*i 
tugaJ, trata Viceto na sua Historia da Galliza: 

«A divisória entre os dois condados ou as duas 
Gallizas, isto é, a Incense e a bracarense, não obe- 
deceu então á idéa de conservar a mesma que os 
romanos demarcaram nos dois conventos juridicos, 
o lucense e o bracarense. Na epocha dos romanos, 
o rio Umia, ou das Caldas *, era o limite divisório, 
pela costa do oeste, entre as duas Gallizas, esten- 
dendo-se esta linha até ao leste horisontalmente ; 
de modo que os povos hoje de Vigo, Tuy, Ponte- 
vedra, Rivadavia, AUariz e outros do Lima per- 
tenciam, não á Galliza de hoje, á lucense, mas á 
Galliza bracarense. A divisória então, no anno de 
1097, foi desde a desembocadura do Minho até 
onde a linha de aguas d'este rio deixa de figurar 
geographicamente, de oeste a leste, para subir ao 
norte, mais abaixo de Rivadavia, em frente do cas- 
tello portuguez de Melgaço. Desde Melgaço, a fron- 
teira do condado portugalense, fazendo um angulo, 
descia do noroeste ao sudoeste, na direcção actual, 
pela ribeira de Barjas, costeando as serras de Pe- 
nagache e Laboreiro, até buscar o pequeno rio de 
Castro Lindoso e a sua confluência com o Lima. 
D'ahi, voltando n'uma nova linha para o leste, se- 
guia a margem do Lima até Lobios, e na mesma 
direcção, costeando a serra do Gerez, ia procurar 
a nascente do rio Bubal. Descendo em seguida 
para o Castello de Monforte do rio Libre, e se- 
guindo de oeste para leste até Mauzalvos, formava 



^ à CUeneê eonventua Bracarum. Plínio, lib. 4, cap. 20. 



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274 

entre este ponto e Castrelhor o vértice de um an- 
gulo, pois que d'ahi, torneando Bragança, descia 
perpendicularmente para o sul até ao Douro. 

«Esta era, pois, quasi como hoje, a divisória que 
então se estabeleceu entre os dois condados, o da 
Galliza e o de Portugal ; de modo que uma grande 
porção territorial da Galliza bracarense se veiu re- 
unir á Galliza Incense. 

AoBui. «Com respeito aos limites ao sul do novo con- 

dado portugalense, para alem do Douro (pois 
abrangia os districtos de Lamego e Coimbra) estes 
limites eram indeterminados pela incessante lucta 
contra os mouros; porque forçoso se tornava que 
os povos da Peninsula, quer da raça arabe-mauri- 
tana, quer da raça romano-germana, se tivessem 
habituado a considerar como incerto, e conseguin- 
temente sem valor real, o domínio de qualquer ter- 
ritório aberto ás invasões do inimigo, no qual não 
existisse uma povoação forte, um castello, uma 
torre ao menos, aonde, ao passarem essas conti- 
nuas hordas de desolação e morte, podessem salvar 
as vidas e os seus pobres haveres. 

E»tado da a^i- «Da força das cousas, da prolongação d'aquella 
*"" '''** cruel lucta, á qual não era então fácil calcular o 
termo, nasceu um facto necessário no systema da 
povoação: a agricultura tinha de ser exclusiva- 
mente annual, transitória e, podemos dizel-o, nó- 
mada; e ainda assim, apesar d'isso, os resultados 
do trabalho agrícola tinham de ser muitas vezes 
nullos. Os documentos d'aquella epocha, princi- 
palmente os dos concelhos das fronteiras, nos 
dizem que o ir roubar ou destruir as proprieda- 
des, e sobretudo as colheitas dos inimigos, era uma 
empreza que se renovava quasi annualmente. Re- 
sultava d'ahí que os terrenos amparados por al- 
gum logar forte, onde o agricultor podesse rapida- 
mente pôr-se a salvo, ^e com elle os ^roductos da 



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276 

industria, se tinham tornado forçosamente culti- 
váveis: os trabalhos agrícolas, portanto, cingiam 
apenas as povoações fortificadas; o mais era um 
deserto. 

«Por isso, marcar os limites da fronteira da 6al- DiAcuidadespa. 

-■• /• •« i'raa demarca- 

liza com os mouros é impossível ; e quando, com çio exacta, 
os foraes do século xu xiii, se vão seguindo aquel- 
las extensas demarcações dos limites dos concelhos 
para esse lado, as quaes se dilatam por muitas lé- 
guas em faixas enredadas e tortuosas ; quando ve- 
mos frequentes vezes indicar-se ah, como balisas, 
apenas a vertente dentada que orla a lomba das 
serras, o carvalho que nasceu isolado, a velha ata- 
laya mourisca, a pedra que sobresae entre as ou- 
tras pela sua côr, a torrente que se despenha pelas 
ladeiras, o rio que passa por entre as brenhas, o 
vUlar antigo de que já se nao sabe o nome, porque 
não ha ali quem o diga, e nunca a casaria, a choça, 
a habitação humana, emfim, quasi que sentimos 
aquelle zumbido que o excesso do silencio parece 
produzir, e opprime-nos o espirito um sentimento 
indefinido de solidão. 

«Tal era o paiz com respeito ás fronteiras mu- 
sulmanas^» 

Realmente, se ao norte e oriente se podem deter- 
minar approximadamente os limites do condado 
portuguez n'essa epocha, para o sul a fronteira 
é indicisiva, oscillando no tempo do conde D. Hen 
rique entre o Mondego e o Tejo, servindo junto 
d'este ultimo rio de forte atalaia o castello de 
Santarém, até que este mesmo se perde, sendo 
reconquistado, com Lisboa, Cintra e Palmella 
por AflFonso Henriques, que definitivamente con- 
verte o Tejo em fronteira militar do seu reino. 



D.' Benito Viceto. Historia de Qalieia, liv 11, xxii 



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270 



iie.umo. Temos, portanto, em resumo, que o castro an- 

tigo de Cale data, pelo menos, do tempo dos roma- 
nos; que o porto, que com o nome Portucale appa- 
rece no século v, deu o nome á terra portucalefiue, 
desde o tempo dos godos; que este nome abran- 
gia territórios para áquem e para além do Douro; 
que o districto de Portugal, apparecendo desde os 
meiados do século ix, comprebendia^ no período 
instável da reconquista, parte de nossas provincias 
de Entre Douro e. Minho e de Traz os Montes, na 
margem direita do Douro, e na esquerda um tra- 
cto de terreno até ao Vouga ; que, com a conquista 
de Coimbra, no tempo de Fernando Magno, se 
creou novo districto com o nome d'esta cidade, sua 
capital, ficando o districto de Portugal a ser con- 
stituido pelo território entre o Douro e o Minlio e 
parte de Traz os Montes ; que o fidalgo borgonhez 
D. Henrique já em fins de 1094, talvez, e com 
certeza nos primeiros mezes de 1095, governa esse 
território portuguez, ou, pelo menos, o districto de 
Braga, embora o conde D. Raymundo governe em 
toda a Galliza, que vae dos Pyrineus Gallaicos a 
Santarém ; que, finalmente, depois das derrotas de 
D. Raymundo, perto de Lisboa, na sua mallo- 
grada expedição contra os almorávidas (1095), do 
grande principado da Galliza se separa o condado 
portugalense, que fica comprehendido entre o Mi- 
nho e o Mondego, pelo menos, ou até Santai*em, 
cidade que ainda continuou em poder dos christâos 
depois da queda de Cintra e Lisboa (1093), por- 
quanto em 1095 Afl^onso VI lhe dá foral; e que, 
finalmente, em 1096, talvez, mas com certeza em 
1097, já nenhuma auctoridade tem o conde D. Ray- 



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277 

mundo sobre o condado portuguez, que fica defini- 
tivamente sob a auctoridade do conde D. Henrique. 

Do Minho ao Tejo, portanto, e emquadrado pe-D^minioii^dcD. 
los contrafortes transmontanos e pela serra da Es- 
trella, se estendia o território que o conde D. Hen- 
rique recebera do sogro para governar em seu 
nome, em recompensa talvez dos seus serviços, 
mas de certo pela justa esperança que o rei 
fundava nos seus dotes de guerreiro e no desejo 
de honrar na sua pessoa o marido de uma sua fi- 
lha, embora bastarda. 

Que esse favor provinha, em. grande parte, da suai qualidade. 
confiança que inspirava a seu sogro e rei, legitimo 
é suppôr, porquanto não era natural que, depois 
dos desastres do conde Ray mundo, que mais ac- 
centuavam e faziam valer as vantagens e progressos 
das armas musulmanas nos territórios por ellas 
rehavido, fosse AíFonso VI nomear para o governo 
de um districto da fronteira, tão importante como 
este era, um homem que lhe não desse garantias, 
ou pelo menos esperanças, de que saberia desem- 
penhar-se bem da difficil missão que lhe era con- 
fiada. 

E D. Henrique provou ser digno d^essa con- 
fiança, em todo o sentido, não só porque soube 
conter em respeito os mussulmanos, mas porque as 
tendências de desmembramento não se accentua- 
ram na sua administração, embora o movimento 
n'es8e sentido não podesse deixar de tomar um 
certo incremento e força pela unidade de acção ad*- 
ministrativa e politica, dada agora ao nascente or- 
ganismo. 

Em Herculano, que não podia deixar de nos^ índwidaaiu. 

'A r mo portagnes. 

guiar n este trabalho, encontramos bem estudadas 
e explicadas as causas que, desde o principio, con- 
correram para determinar e definir a individuali- 
dade da região que constituía o núcleo do condado 



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278 

• portuguez. Nas tendências regionalistas se apoia- 
vam os barões e senhores, para se crearem como que 
uma relativa independência no meio do grande or- 
ganismo, que naturalmente os pretendia integrar 
n'um único corpo social. Fracos eram os meios de 
que a acção de um só homem podia então dispor, 
para impor a sua vontade n'um território vasto e 
perennemente agitado ; a organisação social, mol- 
dada ainda nas instituições barbaras, pondo nas 
mãos dos senhores a auctoridade completa, e Kgan- 
do-os ao soberano apenas pelo dever de lealdade e 
fidelidade, dever que tinha, n'esse tempo de paixões 
violentas e insofiridas, uma significação duvidosa, 
facilitava o desmembramento, que a maior parte 
das vezes só era impedida pela força das armas. 
A força local. N^cssa individualisação, n'esse movimento de in- 
dependência regionalista, os barões e senhores da 
região portugueza mantinham uma orientação po- 
litica própria, determinada pelos seus interesses 
communs e communs sentimentos. Essa mutua in- 
telligencia e accordo creou uma força local de que 
mais tarde a condessa, já denominada rainha, 
D. Theresa, e seu filho D. AíFonso se serviram 
para fundar um novo reino independente. Referin- 
do-se ás dissençÕes que não só rebentavam entre 
um e outro estado ou entre uma e outra provincia, 
mas nasciam de districto para districto e de cas- 
tello para castello, e quasi de individuo para indi- 
viduo, diz Herculano que os barões ou nobres 
principaes, conhecidos vulgarmente pelos nomes 
de condes e de ricos-homens, inimigos muitas ve- 
zes uns dos outros, tomavam cada qual sua ban- 
deira e satisfaziam ódios particulares a pretexto 
de seguirem esta ou aquella parcialidade. «Os cál- 
culos dos ambiciosos, as mudanças de opinião, as 
vinganças de familia, as modificações dos partidos, 
diz o grande historiador, davam frequentemente 



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279 

áquellas discórdias um caracter pessoal. A Galliza, 
cuja historia relativa áquelle período chegou até 
nós mais particularisada que a das restantes pro- 
víncias, não nos oíFerece outro quadro. Leão, 
ainda nos últimos annos d'esta sanguinolenta lu- 
cta apresenta quasi o mesmo espectáculo, a 
ponto que na capital do reino vinham ás mãos 
os burguezes com os cavalleiros que guarneciam 
as fortificações da cidade, aquelles em nome de 
AflFonso Raymundes, estes em nome do conde cas- 
telhano Pedro de Lara. Portugal, porém, no meio 
de taes divisões, conservou sempre um notável as- 
pecto de unidade moral. Fosse qual fosse o partido 
a que elle se associasse, todos os barões portugue- 
ses se mostravam conformes, ao menos passiva- 
mente, com o systema da que, debaixo d'es8e as- 
pecto, podemos chamar politica externa do paiz*». 

O conde D. Henrique não podia, portanto, ser Deimembràçio 
estranho a esse «pensamento de desmembraçao e da. 
independência», que veiu a realisar-se no tempo 
de AflFonso Henriques, «porque era um pensamento 
commum ao chefe do estado e aos membros d'elles, 
sendo talvez os actos dos príncipes ainda mais o 
resultado da influencia do espirito publico do que 
a manifestação expontânea da própria ambição». 
Mas a verdade é que os actos do illustre borgonhezpapeideD.Hm- 
mais nol-o mostram auxiliando seu rei e sogro, '***"*' 
sendo em tudo seu leal vassallo, do que mordido 
pela ambição da coroa, que só depois da morte 
d'aquelle o obseca. 

Seria porque não encontrara ainda azado mo- 
mento para erguer o pendão da liberdade? Tal- 
vez ! e talvez também por hombridade e gratidão. 

Bastante foi, porém, que elle procurasse accen- 
tuar a individualização orgânica e moral do dis- 

* A. Herculano. Hint de Porttigal, tomo i, liv. i. 



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280 



tricto que lhe fora confiado^ buscando nâo «I 
dar-lhe unidade mas augmento, tanto pelo la^o 
dos territórios musulmanos como no próprio do- 
mínio christão, para o seu nome ser benemérito aos 
portuguezes. 

D'es8e accrescimo de força viria naturalmente, 
como resultado, a independência, como de uma 
cellula mãe se formam duas, por 8CÍ8si[ 
apenas o seu desenvolvimento o permitte. 



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CAPITULO III 
O Conde D. Henrique— Seu governo 

STA ainda por ave-D. HeDriqa«<m 

riguar a data pre- 
cisa da vinda a 
Hespanha do nobre 
caudilho a quem o 
destino reservara a 
gloria de haver lan- 
çado 08 primeiros 
■ fundamentos da na- 

, cionalidade portu- 

gueza; nao deixa, 
* porém, de ser inte- 

ressante saber o que 
' sobre esta matéria 

informam os docu- 
I mentos antigos. 

Herculano não lo- 
grou apurar este 
ponto, que é real- 
mente difficil de des- 
trinçar; tudo siiu indicações vagas. 

Uns dão-n'o vindo a Hespanha por occasião do 
casamento de D. AffonsoVi de Leão e Castella 
com D. Constança, uma franceza, que de homens, 
gostos e hábitos francezes enchera a corte de seu 



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282 

marido, corte que, entre goda, árabe e franca, ha- 
via de apresentar um caracter singular; outros 
fazem-n'o attrahido pelas perigrinações famosas a 
S. Thiago de Compostella, onde accorria a christan- 
dade em romarias piedosas*; outros querem que 
tivesse vindo entre os esforçados cavalleiros que 
sob o commando do rei leonez procuraram pôr 
um dique á primeira invasão dos almorávidas, 
e com elle partilharam os desastres de Zalaca 
(1086)^; outros ainda, finalmente, pretendem que 
elle só viesse mais tarde, em 1089 ^. 
AcruzadanaPe- A avcutura, O cspírito rcligioso, a ambição da 
gloría e da riqueza, eram as moUas que impelliam 
n'esse tempo os cavalleiros christãos, de toda a 
parte, aos paizes onde mais frequente e intensa era 
a lucta. Nem só para o Oriente, o Ultramar, como 
então se dizia, se organisavam as cruzadas; aHes- 
panha, sob o dominio dos árabes, era um perma- 
nente theatro de guerra, onde duas religiões, 
duas raças, duas civilisações se encarniçavam no 
mais acerbo combate, saindo d'elle victoriosos ora 
o crescente ora a cruz. 

De França, onde já chegara a ameaça das ai'- 
mas musulmanas, e que, por mais próxima da 
Hespanha, maior interesse tomava no duello de 
morte travado entre os dois {grandes povos que 

1 «Conta a estoria em este logar que a linhagem dos Reys de Por- 
tugal vêem por esta guisa. ElRey dom atfonso tomou toUedo aos 
mouros e casou huma sua filha, que auia nome dona tareija, com 
huum conde que hauia nome dom anrique. Este casamento fez el- 
Rey por duas cousas, a primeira por que este conde era muy fidalgo 
e de grande sangue e era primo con irmâao do conde dom Regmon 
de tollosa, E ueeram com elle de sua terra pello homrar em seu 
casamento por fazer romaria a santiago, e a outra por que era o 
milhor homem darmas per seu corpo que se podia saber». Chr. breve 
e mem» avulsas de S. Cruz de Coimbra», iii Portugaliae Monumen- 
ta-Escrijytores. pag. 26. 

2 »tn loco, qvi dicitur Sagalias, uhi vnanimitfr convenerunl cum 
Rege nostro christiani à partiíus Alpes, multique Francorum in adju* 
torium d afflueruvti), Chr. Goth. ou Lusit. 

' Mondejar. Orig. y asceiíd. dei princ, D. Ramon, 



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283 

dominavam áquem dos Pyrineus, enorme era o 
contingente de homens de armas que engrossavam 
as hostes nazarenas; e agora que uma infanta 
franceza se sentava no throno de Pelayo, engran- 
decido pela sua indómita raça, augmentára consi- 
deravelmente essa contribuição de guerreiros, mais 
ou menos embebidos nos ideaes da Cavallaria, que 
tinha por sua principal missão a defeza da cruz. 

De três doestes cavalleiros, homens de nobilis-cavaiieiro*fran. 
sima estirpe, ficou nome na historia da Hespanha, 
pelas suas ligações com a familia reinante, e pelos 
seus destinos nos altos feitos da Reconquista. 

Um d'elles passou despercebido nos aconteci-Raymundodes. 
mentos da Peninsula, estando-lhe, porém, reser- 
vado papel eminente no auxilio dado a Gregó- 
rio Vil para combater os noi-mandos e na pri- 
meira cruzada. Foi Ray mundo IV, Ray mundo de 
S. Gil, conde de Tolosa e marquez de Provença, 
com quem D. AflFonsso VI casou sua filha bastarda 
D. Elvira. 

Outro chamava-se também Ray mundo, era ORaymumo de 
quarto filho de Guilherme, II do nome, conde de ®*''*'*"''*'' 
Borgonha, de Vienna e Mascou, senhor de Salins, 
por alcunha o Teste Hardie *, e parente portanto 
da rainha castelhana D. Constança, segunda mu- 



* «Goiilaume II dii nom, eurnonamé Teste Hardie, comte de 
BourgODgne, de Viennc et de Mascon, sire de Salins. Guiliaume II 
de nom succeda a son pere en la compté de Bourgongne . . . Tant y a 
qae le comte Gruillaume eut d'elle plusieurs fila et filies, sçauoir 
est, 

Benaud II . , , 

Eêtienne ... 

Hugues de Bourgongne . . . 

Raimond de Bourgongne chercha sa fortune en Espagne, ou il 
epoUsa Tune des filies de Hildefonse Roy de Gallice et de Afanes 
de Guienoe. £t de ce mariagc nasquit entr'autres Pierre Hilde- 
phonse Roi de Gallice, surnommé le Petit Roy, comme escrit Or- 
dric Moyne de S. Euroul en Normandie, au XIII. Liure de son 
Histoire Ecclesiastíque». Hist, des Roy», Ducs et Comts de Bourgon- 
gne et d'Arlea, por André du Chesne Tovrangeav, liv. iv, pag. 523. 



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284 



Iher de Affonso VI *, que era filha de Roberto, 
duque de Borgonha e viuva do conde de Chalons, 
Hugo II. Seria esta a rasão por que Raymundo 
encontraria na corte hespanhola todas as facilida- 
des para o seu casamento com D. Urraca, única 
filha legitima de Affonso VI e de D. Constança, 
casamento de pura conveniência ou interesse de 
família, porque treze a quatorze annos apenas te- 
ria a noiva, que ficara sob a tutela de um mestre 
ou aio, o presby tero Pedro ^. Este é o nobre fran- 
cez que encontramos governando a Galliza em se- 
guida á conquista de Santarém pelos christãos, 
realisada em 1093, coincidindo naturalmente a 



^ Affonso Vr, segundo se pode descortinar no dédalo onde se 
embrenha quem sobre o assumpto pretenda alguma luz, foi casado 
com as seguintes mulheres legitimas, não fallando nas innnmeras 
concubinas que se lhe attribuem : 

1.* Ignez, filha de Guido Guilherme, duque daÁqaitana e conde 
de Poitou; casou em 1074, e durou o consorcio até 1078; nlo teve 
successão. 

2.* Constança, filha de Koberto, duque de Borgonha ; mãe de 
D. Urraca, casada com o conde de Gallisa D. Raymundo; mãe de 
Affonso VII. De 1078 a 1093. 

3.* Bertha, repudiada por Henrique IV, rei da Germânia, em 
1093, casou em 1093 ; era fallecida em 1095, sem successSo. 

4.* Maria Isabel, nome com que se baptison Zaida, filha do emir 
de Sevilha Bemabide ; mãe do príncipe D. Sancho, a quem perten- 
cia o throno, e que morreu na batalha de Uclés. 

5.* D. Isabel filha de Luiz rei de França. 

6.* Beatriz, francesa como D. Constância e D. Ignez, casou em 
1108. Sobreviveu a seu marido. 

D. Pelayo bispo de Oviedo não colloca Zaida no rol das mulhe- 
res de Affonso VI, mas no das concubinas, dando-lhe como 4.* mu- 
lher uma outra Isabel, mãe de D. Sancho, mulher do Conde Rodrigo, 
e de Elvira. mHw kabuit Vuxorea ligitimaSf primam Agnetem, stcun- 
dam Constantiam Regínamy ex qtia gtnuit Urracam Regínam Conjun- 
gem Camitis Baimundt, de qua ipse gennit Saneiam et Adefofi6fim 
fíegem : fertiam Bertam, Tuscia ortumdam : quartam ElisaMhf ex 
qua genuit Saneiam conjugem Comitis Boderiei, et Geloiramq^iam 
dnxit Rogerius Dux Sieiliae : qiiintam Beatrtcem, miae mortiio to re- 
pedavit in patriam 9uam. Habiiit etiam dttcLs conciibiruis, tamen nobi- 
lissimas^ priorem Xemenam Munionisy ex qua genuit Geloiram, uxo- 
rem Comtis Raimundi Tolosani, Pátria ex ea Urracae, Geloirae et 
Adefoftsi, posteriorem nomine Zaydam, filiam Abenaheth Regia Eis- 
palensis, quae baptisata Elisabeth fiiit vocata, ex hac genuit ò'ancttffn, 
qtn obtit in lite de Udes.n Clir, do Ovetensb. 

* A Herculano, Hiêt» de PortugcU, liv. i. 



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285 

data da investidura no condado com a do casa- 
mento (1094). 

O terceiro, finalmente, era Henrique, IV do Henrique do 
nome, filho do duque de Borgonha Henrique, e ®**'*^°*^- 
neto do duque Roberto I. O duque Henrique tivera 
de sua mulher Sybilla quatro filhos: Hugo I, que 
herdou o ducado ; Eudo, primeiro do nome, que foi 
também duque por morte de seu irmão Hugo; 
Roberto, bispo de Langres, e Henrique, conde de 
Portugal *i 

Estes três cavalleiros francezes eram todos, 
como a rainha D. Constança, descendentes de Ro- 
berto, irmão de Henrique II, rei de França, a quem 
elle quiz disputar a coroa, apoiado por sua mae, 
sendo vencido, e recebendo então o ducado de Bor- 
gonha. (Ramo Capeto directo) *. 

Acompanharam este príncipe, e estabeleceram-se companheiros 
com elle em terras de Portugal alguns francezes riqne.* 
illustres, que deixaram de si entre nós nome hon- 
rado, e fundaram casas de prole e nobreza. Entre 

^ «Henry FUs de Robert I, Dac de Bourgongne. Tous les Âu- 
theara conuienuent qae cet Henry continua la lij?née des Duos de 
Bourgogne. £t pense, ponr mon regard, (me ce rut luy qui assista 
au sacre de Philippes I . . . Tant y a que Henry trespassa sembla- 
blement devant son père et laissa de sa femme, dont ou ne sçHit le 
nom. 

Huques T, du nom, Duc de Bourgongne, duquel será traité an 
Chapitre suiuant. 

Èudes aussi I dn nom et Duc de Bourgongue, apres son frère, 
qui continua Ia ligneé, comme il será remarque cy aprés. 

Robert Euesque de Langres, suiuant les tesmoignages d'Orde- 
ric, des Chroniques de TAbbaye de Beze et de plusieurs Chartes ou 
il est quali6é frère d'£udes Duc de Bourgongne. 

Henry qui espousa Thtreae^ filie naturelle d*AIphonse Roy de 
CastiUe et de Leon, et fut institué par luy Comte de Portugal Tan 
MXG. comme enseigne un viel fragment d'Histoire pris de TÂb- 
baye de Fleurv. De ce mariage vindrent Alphonse Roy de Portu- 
gal Pan MCXaXIX et de luy les autres Roys de Portugal subse- 
quents. Ce qui a première ment este descouuert et examine par 
Theodore Godofroy Aduocat en Parlement». 

HisL des Roys, Duch et Comies de Bourgongne d d* Aries par An- 
dré da Chesne Tovrangeav, tomo i, liv. iii, pag. 273. 

2 Hago Capeto foi o primeiro rei da 3.* dynastia, a dos Capetos ; 
saccedeu-Ihe Roberto II, sen filho, e a este o seu filho Henrique I. 

18 



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286 
Goterre, cavai- ellcs, Goten^e, € cavalleiro boo e velho e de grande 

leiro francês. ij» a l. :!•>• il_ 

entendimento», homem de sao conselno, que era 
sempre ouvido pelo conde nas occasiões difficeis, 
viuvo, que trouxe comsigo um filho, Payo Goterrez, 
também «grande cavalleiro e mancebo louy de 
prol», Fez-lhe D. Henrique mercê de terras em 
Guimarães e Braga, e deu-lhe o porto de Varzim; 
foi o fundador em Portugal da nobilissima casa 
dos condes da Cunha * ; o filho edificou os mostei- 
ros de S. Simão, de Souto e de Villela (Santo Es- 
tevam), 

D.AuyâodeEt- Eutrc outros cavalleiros, não de origem fran- 
ceza, mas também muito illustres, que vieram com o 
conde D. Henrique a Portugal, contam-se D. Anyão 
de Estrada, natural das Astúrias, homem de va- 
lor, a quem Afibnso Henrique deu o senhorio de 

D.PafeiLut. Gocs com vastos terrenos baldios^, e D. Fafes 
Lus, filho do conde D. Fafes Saracim de Lanhoso, 
morto no encontro de Aguas de Maias, entre as 
tropas de D, Garcia de Portugal e D. Sancho de 
Castella; rico homem e honrado, exerceu D. Fafes 
Lus o cargo de alferes do conde D. Henrique. 

GaaanieiitodeD. Affouso VI dc Lcão c Castclla não escolhera 
para gem^o da sua filha Theresa o fidalgo borgo- 
nhez unicamente pela sua nobre linhagem, mas 



^ «Este dom Gaterre veo com o conde Henrique a Portugall 
eeendo caualleiro boo e velho e de grande emtenaimento, e fiaua 
de]le e chamavao aos seus cornselhos, e deulhe o conde muitas her- 
dades e possiasões em terra de Guimarães e de Bragaa e deulhe o 
porto de Varazim. E com este dom Goterre uinha huum sen filho 
caualleiro mancebo muy de proll e avia nome dom Pay Goterrez, 
e el nom avia molher ca lhe morrera em sa t irra». lAv, de Linha- 
gem do Conde D. Pedro. Pobtuo. Monumknta. — Escriptores, pag. 356. 

2 «Este dom Anyam foy dos d* Estrada da terra das Esturas apar 
de Lhanas de Sam Vicente da Barqueira, e veosse a Portugall com 
o conde dom Amrrique senhor de Portugal elrey dom Aflfbmsso seu 
filho e da rraynha dona Tareya deu a este dom Anyam o senhorio 
de Gooes com todos seus termos que era emtom montanha despo- 
brada». Liv, de Linhagem do Conde D. Pedro. Pobt. Mon. — Ebcri- 
PTOBES, pag. 367. 



Henriqae. 



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287 

porque realmente, no dizer de chronista de Santa seasmereeimen' 
Cruz de Coimbra, era «o melhor homem darmas ^'' 
per seu corpo que se podia saber •; encontramos 
isso confirmado no desenvolvimento da sua histo- 
ria, desde que ella passou a ser inscripta nos 
annaes da peninsula, por quanto antes d'isso não 
se encontra registo dos seus feitos e mereci- 
mentos. 

Ha apenas um testemunho do tempo, exarado 
na chronica 1.* de Sahagun *, que diz que to conde 
D. Henrique emquanto elrey I). Affonso VI vivia, 
nobremente domou os mouros, guerreando contra 
elles, pelo que o dito rei lhe deu, com sua filha 
em casamento, Coimbra e at provincia de Portugal, 
que são fronteiras de mouros, nas quaes com ba- 
talhador exercicio nobremente engrandeceu sua 
cavallariai. 

Segundo informa Duarte Galvão, elle trazia em 
seu escudo de armas campo branco, sem outro 
signal, quando veiu a Hespanha, tendo-se assigna- 
lado depois pelos seus feitos ^. 

Que na corte do rei castelhano, tanto Henrique suaimportâncu 
como Raymundo occupavam logar preeminente, 
não o dizem apenas os factos trasmittidos pelos 
chronistas, dil-o também a tradição, que os en- 
globa no quadro brilhante dos acontecimentos da 
epocha. 

No Poema dei Od^ o mais antigo dos poemasopoemadocid. 
heróicos da Peninsula, encontramos Raymundo 
e Henrique ao lado de Affonsso VI, na primeira 



1 Vem publicado em Appendice I da Hist dd Monaaterio de Sa- 
hagun, de Escalona. Esta 1.* chronica foi escripta por um monge que 
foi companheiro do Abbade D. Domingos I, e contem a historia do 
mosteiro até aos últimos annos da abbadia do dito D. Domingos, e 
vae até o cap. 68 ; foi continuada pelo segundo anonymo, compa- 
nheiro do Abade D. Nicolau I que vae até 12Õ5. 

- Duarte Galvão. Coronica ddrey O, Affonso Anriques, cap. i 



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288 

plana, nas cortes reunidas em Toledo, onde se 
apresenta Cid, depois da tomada de Valência: 

Logaua el plazo, quierem yr a la cort. 
£n los primeros va el buen rey don Alfonsso 
£1 conde dou Anrrich e el conde don Remond. 
AqucBte fue padre dei buen emperador K 

Arbitro. naseòr. Ainda mais. Do que n'esta8 cortes^ se passa 
o e o. gj^^j.^ o rei e o Cid, e sobre o conflicto entre este 
e os condes de Carrion, que ali se derimiu e jul- 
gou, foram os dois condes, D. Raymundo e D. Hen- 
rique, escolhidos para árbitros ou juizes, e elles 
determinaram que os condes de Carrion restituis- 
sem ao Cid as duas espadas e os bens que este 
lhes dera quando os casara com suas filhas D. El- 
vira e D. Sol : 

«Alcaides eean desto el conde Anrrich e el conde don Remenda. 

Abaixo do rei nenhum havia mais alto e de 
maior gerarchia. El-rei nao tinha filhos; a sua fugaz 
esperança, um filho único que tivera de Zaida, 
filha do rei mouro de Sevilha, Almotadide, fora 
morto na batalha de Uclés. Aos maridos das suas 
filhas cabiam pois os primeiros logares junto ao seu 
throno, que elles ajudavam a consolidar e a enno- 
brecer. • 
Qualidade, de Eutrc 08 dois cra D. Henrique o mais esforçado, 
ou pelo menos o toais feliz nos destinos da guerra; 
foi essa, ao que parece, a opinião do próprio rei. 

1 AfFonao VII aasignava-se imperador ; já seu pae Afibnso VI 
paeeara a aBsignar-ae asaim depois da conquista de Toledo e maior 
engrandecimento do aeu reino. 

^ Quer a lenda ^ue nestas côrtea trataase D. Affonso VI do ce- 
lebre caao dos dois infantes de Carrion os quaes, quando Cid tomoa 
Valência, solicitaram por esposas as duas nlhas do guerreiro, D. El- 
vira e D. Sol, mas depois de casados se malquistaram com o sogro, 
procedendo muito brutal e cobardemente com aa suas filhas, qae o 
campeador teve depois de vingar. 



D. Henrique. 



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5«59 



porque a elle confiou, como vimos, o difficil go- 
verno do condado portuguez, desmembrando-o 
e tornando-o independente do governo da Galliza, 
quando foi dos desastres do conde D. Raymundo, 
perto de Lisboa, onde viera recuperar o que pelos 
almorávidas lhe havia sido arrebatado, das recentes 
acquisições feitas pelas armas christâs. 

Natural é também que, mesmo que D. Henrique 
nao viesse a Portugal propriamente para tomar 
parte na campanha, de que Zalaca foi o terrível 
episodio final, elle assistisse a essa memorável ba- 
talha, visto achar-se.em Hespanha, e que estando 
já á frente do condado portugalense, embora en- 
corporado no de Galliza, quando foram os victo- 
riosos fossados das armas de AflFonso VI para áquem 
do Mondego, elle tivesse também o seu pendão 
arvorado entre as lanças christâs. Larga folha de 
serviços, e demonstrações de verdadeiro valor 
teriam feito jus á confiança que n'elle depositava 
o pae que lhe confiara uma filha, e o rei que 
punha debaixo da sua guarda um districto da fron- 
teira que estava sob a constante ameaça de inva- 
sões e insultos da parte do inimigo. 

Do que consta dos seus actos e caracter vê-se 
que ao par de um homem ambicioso c rude, era 
um cavalleiro valoroso, mas prudente, dotado 
d'aquellas virtudes que a nobre instituição da 
Cavallaria preconisava como sendo o verdadeiro 
esmalte de um coração e de um caracter: temente 
a Deus, esforçando-se por dar maior lustre á sua 
religião, arrostando para isso os trabalhos e os 
perigos dos que se aventuravam em longinquas 
cruzadas; bom administrador, equitativo e justi- 
ceiro para os que tinha debaixo da sua jurisdicção, 
que era n'esses tempos absoluta; respeitador dos 
direitos de cada classe, orgulhando-se das forças 
tradicionaes do estado, que estavam principalmente 



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290 

na aristocracia, mas afagando os nascentes pode- 
res, que se esboçavam já na vontade dos povos or- 
ganisados em concelhos; amigo da verdade, bom 
pae e bom vassallo. Taes são as qualidades 
que o caracterisaram, e deram relevo á sua 
physionomia moral por uma forma indelével. E o 
que se pôde deduzir, não só da lição dos factos, 
mas da tradição ou da lenda què conservou a sua 
memoria : 
Atradiçio. «E autc quc morresse chamou seu filho don 

affonso anrrique e disse lhe: filho toda esta terra 
que te eu leixo de estorga ataa alem de coimbrã 
non percas ende huum palmo, qua eu a gaanhey. 
E filho, toma do meu coraçam alguum tanto que 
sejas esforçado e soy companheiro a filhos d'algo. 
E da lhes todos seus direitos. E aos concelhos 
faze lhes honra. E aguisa como ajam direitos asi 
os grandes como os pequenos. E por rogo nem 
por cobyça nom Iheixes a fazer justiça, cá se huum 
dia leixares de fazer justiça huum palmo, logo em 
houtro dia se arredara de ti huuma braça de teu 
coraçom. E porem meu filho tem sempre justiça 
em teu coraçom, E aueras deus e as jentes. E nom 
consentas em nenhuuma guissa que teus homeens 
sejam soberuos nem atreuudos em mal, nem façam 
pessar a nenhuum, nem digam torto, ca tu perde- 
rias per taas coussas ho teu boo preço se o nom 
uedasses*». 

Estas palavras que a lenda põe na bocca de 
D. Henrique, á hora da morte, como recommen- 
dações ao filho, que sendo aliás de dois a três an- 
nos de idade * as não podia recolher no espirito, 
representam a herança dos altos sentimentos de 

1 Chron. Breves e Mem. ÂviiU, de S. Cruz de Coimbra. Portc- 

OALIAB MONUMBNTA EsGRlPTORBS, pag. 29. 

2. . . mortuo paire, . . cum adhuc ipse puer eseet duorum vel trúm 
annorum. Chron. Goth. ou Lusit. 



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291 

brio, de dignidade, de justiça, de bondade legada 
aos reis de Portugal por aquelle que lançara a 
primeira pedra nos fundamentos da monarchia 
portugueza, herança, portanto, que podemos cha- 
mar nacional. Por isso, perto de quatro séculos de- Quatro lecnioB 
pois, em 1434, eram essas palavras recordadas '''*''"' 
por um príncipe da Igreja, o bispo do Porto, a 
um rei, ponderado e justiceiro, porém pouco ven- 
turoso, el-rei D. Duarte, recommendando-lhe que 
seguisse aquelles nobres concelhos, os quaes, dando- 
os a seu filho e primeiro rei de Portugal, ipso facto 
o conde os legava também aos seus descendentes *. 



1 «£ nembrevos Sfir que o Conde Dom ÀDnrique vosso oitavo 
Âvo Jazendo doente em Ástorga sua cid.* de dor da qual morreo 
chamou seu filho Dom AíFonso anrriques vosso 7.<* Avo o prim** Rey 
de Portugal e antre as cousas que lhe especialm.*" encommendou 
foj que fosse companheiro aos Fidalgos, elhes desse todos seus Di- 
reitos, e aos Concelhos que fizesse sempre m.** honra de guisa que 
ouvessem todos seus Dir.^** assi grandes, como pequenos, e que por 
rogo, nem por cobiça nunca sua justiça perecesse, qua se hum dia 
deixando de a faser, a afastasse de si hum palmo, em outro dia se 
afastaria de si e de seu coração huma braçada, e que porem tivesse 
sempre justiça e amasse em seu coração, que o amaria Deos, e as 
gentes e que nom consentisse em nenhua guisa que seus homes 
fossem sobervos nem atrevidos em mal, que se o nom vedasse, per- 
deria o seu bom preço. 

•E porem Sfir, por a S." justiça ser tSo alta virtude, e tanto aos 
Reys necessareo, e ser tao aficadam**^ encomendada por vosso 8.<^ 
Avo a seu filho, e p. conseguit. aquelles que delle descenderom 
como vos descendeis vos aves de soceder por benção e herança assi 
como soccedos parte daquella terra, e senhorio que seus foro, e 
amala, e abraçala comvosco assi estreitam.*** que nunca se parta de 
vosso coração, e que vos por mingoa delia nom percaes o vosso bom 
preço, de guisa que todo o vosso povo possa dizer de vos o que o 
£sp.° S.^*^ disse a David : Porque tu amaste a Justiça e aborreceste 
maldade, por esso te ungio Deos em Rey antre todos os de tua Li- 
nhagem, e justo he ElRey N. Snr, pois amou justiça e igoaldança 
esgardarom os seus olhos, e onde o assi fizerdes, o que esperamos 
que fareis, reinareis sobro as cousas, que a vossa alma desfja se- 
gundo que he escritto 3.® Reg. c. II. E em esto Snr, honrrareis as 
Igrejas Ps." e ministros delias, e lhes gardareis suas liberdades e 
franquezas, e os Fidalgos acharão em vos mercês, gasalhado, e 
acrecentam*" e os povos favores, defensem e criamento». 

Livro da Cartuxa d'Evoba, pag. 86. Conselho do Bispo do Porto a 
Et Rei D, Duarte, carta escripta em Santarém aos 5 dias de Dezem- 
bro era de 1433. Bibliot N.*' Ms. Z//tf/45. 



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292 



Apreciação er- 
rada. 



Ju»tlficaçSo 



Os escriptores hespanhoes, que encaram a indi- 
vidualidade de D. Henrique collocando-se no ponto 
de vista da unidade da Hespanha, accusam-no de 
ambicioso, intrigante, desleal, tendo por única mira 
o seu engrandecimento, e chega-se ao ponto de 
dizer que «morreu de uma morte tão obscura que 
nenhuma historia ou documento logrou esclarecer* » . 

E uma grave injustiça. D. Henrique foi leal 
com seu sogro, a quem sempre auxiliou e seguiu, 
em cuja corte o encontramos frequentes vezes, e 
em cujo nome dá foraes ás terras; e se no meio 
das turbulências e ambições insoffridas da epocha 
procurou engradecer o condado de que era chefe, 
engrandecendo-se elle próprio, nunca o fez pelos 
processos que a tantos príncipes e a tantos chefes 
tingiu de sangue, por vezes parricida e fratri- 
cida, as mãos sofiregas, mais aptas para se servirem 
do punhal homicida do que da espada libertadora; 
serviu-se apenas dos seus talentos, da sua habili- 
dade, do seu valor; e o nome illustre.que legou, 
longe de ser obscuro, representa uma justa com- 
pensação do esforço, coragem e persistência com 
que elle emprehendeu uma obra de emancipação, 
que dura ha oito séculos. 

Era ambicioso, de certo, como todo o senhor de 
terras do seu tempo, em que o poder real não es- 
tava ainda bastante consolidado para subjugar as 
veleidades de mando e de accrescimo de domínio 
que animava todo o homem de categoria, investido 
n'uma parcella que fosse de poder. 

Era um guerreiro, mas era tambemi um politico, 
e buscou tirar partido das circumstancias que o 
favoreceram, pelos processos que então se usavam ; 
mas soube também enfrear a sua ambição em- 
quanto viveu o sogro, a quem não consta que ti- 



1 Lafuente y Valera. Historia de Espana, Tom. i, liv. u, cap. vi. 



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293 



vesse creado diflSculdades, antes serviu lealmente; 
é nos seus últimos quatro ou seis annos, quando 
a disputa era contra uma sua cunhada, D. Úiraca, 
feita rainha, ou contra o mando d'esta, 4). Affonso 
de Aragão, que elle entende poder legitimamente 
adquirir, nao só maior quinhão para o seu domí- 
nio, — como já o desejara quando simples vassallo, 
durante a vida do sogro, n'aquella instabilidade 
de divisões territoriaes que cai-acterisava esse pe- 
ríodo de guerra nacional, — mas o império todo. 

Affonso VI nao deixara filho varão que lhe suc- 
cedesse no throno; a successão n'uma filha não 
tinha a mesma força, nem representava o mesmo 
direito. 

Filha por filha, também sua mulher, a infanta 
D. Thereza, o era; e exeniplos de filhos bastardos 
terem consquitado a primasia pela força ou pelo 
ardil, abundavam na historia de todos os tempos. 

Sabe-se.que D. Henrique quando viu seu sogro 
próximo da morte, o fora procurar, e não saíra 
satisfeito da conferencia; evidentemente, tentara 
influir no animo do rei para que legitimamente, e por 
vontade do soberano e sua iniciativa, fosse feita 
justiça a D. Thereza na partilha do reino, ou na- 
quella porção de território com que entendia dever 
ser accrescentado o condado de Portugal. 

Dava assim ama prova da submissão, que até 
final guardara, e do desejo que o animava de evitar 
futuras complicações. 

Era este o insubmisso? 

Com a morte do sogro, á qual não quiz assistir, 
apesar de estarem ali presentes quasi todos os no- 
bres e condes do reino *, as circumstancias muda- 
vam. O direito de D. Urraca ao throno não podia 
ter para elle a mesma força. 

1 Anonymos de Sahagun, cap. ziv. 



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294 



Põe então abertamente a questão, sem contem- 
plações, nem rodeios. 






Oi doii borgo. O conde L). Henrique, de Portugal, que t vénia 
° ''^' de sangre real de Francia», era primo co-irmão 
do conde L). Raymundo, da Galliza «que vénia 
de la ^eracion real de los franceses *» ; Sybilla, 
mãe de D. Henrique, era filha do conde de Bor- 
gonha Reinaldo, e irmã do pae de D. Raymundo, 
o conde de Borgonha Guilherme I. 

Sua» mulheres. D. Thcrcza, mulhcr de D. Henrique, era irmã 
de D. Urraca, mulher de D. Raymundo, ambas 
filhas de D. Affonso VI: esta havida da sua ter- 
ceira mulher D. Constança, aquella provinda de 
uma sua manceba, «pêro bien noble», no dizer do 
chronista do Sahagun, D. Ximena NuÔez ou Mu- 
fioz (Muniones)^, asturiana; porque o conquistador 
de Toledo foi tão rico de mulheres como de faça- 
nhas. 

A m&e de D. 1). Ximcua Nuflcz OU Muniones (porque seu pae 
ora é chamado Nuilo ora Munio nos documentos 
antigos), é tida por alguns escriptores como mu- 
lher de D. Affonso VI ^ desde 1078 até 1080, e 
querem alguns que por Gregório VII tivesse sido 
separada d'elle, por ser parenta próxima de sua pri- 
meira mulher; Lafuente não a dá nem como con- 



^ Anon, de Sahagun, cap. xvii e xxi. 

2 No tempo de Ramiro II, encontramos no Chronican de Sani' 
piro nomeado Nunius Muniones, Nuno Munoz, conde de CastellH, 
mas de origem fi^allega, como tendo povoado Roa com os seus ho- 
mens ; foi depois um dos que se rebellaram contra D. Ramiio, por 
quererem ser não condes leudatarios, mas condes soberanos. Chr. 
de Sampiro, 23. 

3 Sustentou entre nós esta opinião, contraria a antigos e nume- 
rosos testemunhos, D. Francisco de S. Luiz. 



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295 

cubina, nem como mulher legitima, mas sim como 
mulher illegitima, por aquelle facto * ; mas a argu- 
mentação de Herculano, que se baseia em docu- 
mentos irrefragaveis, é dicisiva, e mostra que a 
bulia de Gregório VII se referia a D. Constança ^. 

De 1074 a 1078 tivera D. Affonso VI por es- 
posa D. Ignez, filha de Guido Guilherme, duque 
de Aquitania e conde de Poitou, por morte ou 
separação d'esta, e reinando já no seu coração 
a. asturiana Ximena, recebeu por mulher a infanta 
franceza D. Constança, que era, como vimos, filha 
do duque de Borgonha Roberto è viuva de Hugo II, 
conde de Chalons. 

Esta predilecção de Affonso VI pelas princezasprinoo«»i do 
de França tem em grande parte explicação nas ""'** 
alliahças necessárias com as monarchias christãs 
de além Pyrineus, e na grande influencia que a 
França ia já exercendo na Hespanha, principal- 
mente pelo elemento sacerdotal. Sua primeira mu- 
lher, D. Ignez, era franceza; e, alem de D. Cons- 
tança, francezas eram também as duas ultimas 
suas consortes, D. Bertha ^ e D. Beatriz, que lhe 
sobreviveu. 

Estas circumstancias explicam a situação espe- 
cial desde logo creada pelos fidalgos francezes, que 
foram a pedra angular de duas fortes dynastias 
da Peninsula. 

Desde principies do anno de 1095, pro vavelmen- d. Henrique em 
te, e com certeza no anno de 1097, está o conde ^'*'*'*^**' 
D. Henrique governando, com uma relativa in- 



^ Lafuente 7. Velera. Historia de Espaha, tomo i, liy. 11, cap. iii 

2 A. Herculano. Hist. de Port, tomo i, nota iii. 

3 Qae era francesa dil-o uma carta de yenda do Mosteiro de 
loyba, bispado de Mondoâedo, citada por Prudencio Sandoval, cai'ta 
na qaal Uero Rodrigues e outros vendem herdades em Trasancos : 
« Era 1134. 15 k. Novemb, regnante Hex Adefansus in Toleto cum con- 
iuge 8ua Bertha, de genere IVancorum, in orbe Gcdletiae regnante 
comité Raymundo cum coniuge sua filia Adefansi Bex». 



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296 



dependência e soberania, como cônsul ou conde, 
o território que desde o Minho até ao Tejo havia 
sido erigido era districto autónomo, e indepen- 
dente do condado da Galliza*; esse território é 
o que propriamente paEsou, como vimos, a cha- 
mar-se o Condado de Portugal. Esse território, ce- 
dido a D. Thereza e a seu marido o conde D. Hen- 
rique, como bens hereditários (jure hereditário), 
isto é, para ser transmittido aos descendentes, não 
constituiam, porém, o dote da infanta, porque era 
isso contrario á lei visigoda; o dote levado pela 
mulher ao marido, e não dado pelo noivo á noiva, 
era disposição legal romana^. 

De posse do condado de Portugal, D. Henrique 



1 É interessante o capitulo que, no tomo 4.<* das Desêcrtafif* 
Chronologicaê e Criticcu, consagra JoSo Pedro Ribeiro ao estndo 
das origens de condado portuguez, á vista dos documentos do sé- 
culo zi e XII. D'elle se chega ás mesmas conclusões que deixámos ex- 
pressas no capitulo anterior, de como pela pidavra Portugal se co- 
meçou por entender, não um território separado da Gallisa, mas am 
districto da cidade do Porto, em contraposição de Coimbra, tendo 
diversos governadores. Affonso YI deu ao seu genro D. Ray- 
mnndo o governo da Gallisa unido ao do Porto e Coimbra, por isso 
elle se denominava ora — totu8 GàUciat princeps, ora dominantt 
Colimbria et Portugal ; quando se conquistou Santarém aos Moaroa 
elle paspou a appelidar-se «conde de Gaiisa e Santarém» ; as suas 
memorias como governador d'e8tas provindas duram até agosto de 
1095 (era 1133). 

£m dezembro d'esse anno apparece o conde D. Henriaue gover- 
nando Coimbra, com o titulo de Conde PortugaJlenaU, dominando 
«a flumine Mineo usqtte in Taguin», restringi ndo-se portanto o go- 
verno de Ray mundo a Gallisa, até ao rio Minho. 

£ inegável que já no tempo de D. Fernando o Magno o Porto 
tinha um governador particular *, e que conquistada Coimbra, esta 
passou a ter um governador próprio, o cdvazil ou cônsul Sisenando, 
(até 1092), sendo os limites d esse districto : ao sul os dominios 
mouriscos, ao norte o Douro, ao poente o oceano, ao nascente La- 
mego. No governo de Coimbra, como vimos, scgue-se a Sisenando o 
seu genro Martim Muniz (1092) atè ir governar Arouca; a estese- 
gue-se o conde D. Raymundo (1094), e a este o conde O. Henrigne 
(1095). No governo do Porto encontramos em tempos antigos £r- 
menegildo, conde de Tuv e de Portugal, depois Nuno Mendes no 
tempo de D. Garcia, Momo Herroiges em 1074, e o conde D. Henri- 
que, sob a superintendência do conde D. Raymundo, até assumir 
em 1095 o governo independente. 

2 Alexandre Herculano. Historia de Portugal, tomo i, nota vi. 



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297 

teria, como era natural, começado por cuidar daorganuaç&o do 
sua organisação, tratando de o prover dos meios ~°**^'*- 
necessários para se defender das agressões dos 
almorá vidas, senhores do território ao sul do Tejo, 
e de se preparar para a empresa de dilatar os 
seus dominios, quer para o lado dos mouros, quer 
mesmo para o das outras fronteiras, se as guerras 
civis, tão frequentes, lhe permitissem tirar partido 
das circumstancias. Era o regimen em que viviam 
os diversos senhores, não só em relação aos domi- 
nios uns dos outros, mas do próprio soberano, de 
quem, nas divisões territoríaes procuravam obter, 
de bom grado ou por imposição, um quinhão maior. 

Seir, o logar-tenente de luçufe, depois de se as-iavaiaodeseir. 
senhoriar de Badajoz e outras praças da antiga 
Lusitânia, como vimos, fora, com uma forte arma- 
da, sujeitar ao dominio dos almoravidas as ilhas 
Baleares ; essa diversão das aimas do novo e ter- 
rível invasor da Peninsula, permitira a Affonso VI 
a empresa de preparar o alargamento dos seus 
dominios, entrando pelos territórios muslimicos. 
Assim, em 1097 tomou Consuerga, que os sarra- 
cenos, também pelo seu lado, em correrias pelas 
terras dos christãos, rehouveram em seguida; e, 
nesse mesmo anno, segundo todas as probabilida- 
des*, encarregou o conde D. Henrique de repulsar 
a invasão que contra Castella vinha commandando 
Ali Benalaje, a quem se reunira, com o seu corpo, 
Bem Sacun, tendo o conde portuguez de transpor d. Henrique do 

-ma- 1 rn li. • • • comb&te de M&« 

os Montes de 1 oledo e travar com o mmugo san- ugon. 
grenta peleja em Malagon, perto de Ciudad Real ; 
mas vendo-se por fim forçado a retirar. O com- 
mando d'esta expedição, confiado a D. Henrique, 
viria confirmar a confiança que n'este seu genro 
depositava, como guerreiro, o rei de Leão. 

1 Alexandre Herculano. Historia de Portugal, tomo i; lív. i. 



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298 

Romaria « Com- De fins dô 1097 a principios de 1098 acha-se 
posteiia . j^ Henrique em Compostella, em romaria ao ce- 
lebre templo consagrado a S. Thiago, o santo pro- 
tector da guerra contra os mouros, em toda a 
Hespanha, emquanto S. Jorge não tomou para si 
a protecção especial dos portuguezes. Nem por 
isso deixou S. Thiago de ser favorável ás nossas 
ai-mas, como a fé dos nossos guerreiros teve por 
cousa irrefragavel, por exemplo, na segunda to- 
mada de Gôa, ao vel-o batalhar ao seu lado, cingido 
na sua branca túnica; os próprios mouros o haviam 
visto; e Aflfonso de Albuquerque, não só em sua 
vida, mas em seu testamento, provou, em valiosas 
offerendas, o seu reconhecimento por tão grande 
favor *. 

Ao raiar o século xii, em 1100, e ainda em 1101, 
encontramos D. Henrique na corte do seu sobe- 
rano e sogro. 

Vê-se que pelo lado do sul a moirama, entre- 
tida com as tentativas do lado de Castella, e soli- 
citada também pelas turbulências que se davam 
em Africa, deixava em paz o districto portuguez. 

4P * 



viagem de D. Estas trcffuas, que também pelo seu lado D. 

Henrique á Pa- TT • ° ^ ^ ,. . ^ ^ 

leitina. llenrique se nao sentn-ia com lorças para romper, 
preferindo a consolidação interna ás aventuras de 
conquista, cujos resultados não lhe eram garantidos 
pelos recursos de que dispunha, animaram-no a 
ausentar-se, temporariamente, dos seus doniinios. 
Nos primeiros mezes do anno de 1103 partiu para 
a Palestina, para onde um verdadeiro êxodo de 
christSos se estabelecera, sobre tudo depois da to- 

1 Testamento de Âffonso de Albuquerque, Memoria da Academia 
Heal das Seiencias. 1899. 



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299 

mada de Jerusalém. Da derrota de Zalaca proviera 
também a irritação dos christãos da Europa con- 
tra os musulmanos. 

O século XI representa um periodo orgânico em a idade media. 
que as diversas classes da sociedade accentuam 
os seus caracteres e desenvolvem aa suas forças 
próprias. As classes trabalhadoras começavam a 
adquirir os seus foros e liberdades ; a nobreza do 
sangue e a nobreza do dinheiro constituíam a forte 
e bem ordenada milicia dos homens de armas e 
cavalleiros, ávidos de façanhas e proesas; o po- 
der sacerdotal, concentrado nas mãos do papa, 
representava a força suprema, dirigente, decisiva, 
que se interpunha a todos os poderes e os dominava. 
Gregório VII é a expressão máxima d'essa força; 
Urbano II acha-se em condições favoráveis para a 
pôr em acção. D'ahi a primeira cruzada (1095- 
1097). 

Em todo o Oriente, onde a soberania fora parti- o« ^«bes. 
Ihada durante muito tempo entre os nazarenos e 
os musulmanos, estes tinham absorvido todos os 
estados christãos ; em toda a Ásia ficava apenas, á 
sombra da cruz, o estado da Arménia, sobre os 
alcantis do Taurus ; em tudo o mais campeava o 
crescente. 

Em Jerusalém, onde os imperadores romanos o^^^^^^^io de 
haviam erguido um tumulo a Christo, ao favor dos 
agarenos e á sua tolerância deviam os christãos 
o poder ainda continuar as suas perigrinações. 
Para a christandade era aquelle o logar por ex- 
cellencia das romarias piedosas, manancial de in- 
dulgências, fonte de agua lustral para os remor- 
sos da alma, objecto de culto e devoção, acrisolada 
agora pelo infortúnio de ver um tão sagrado obje- 
cto nas mãos dos infiéis. 

Já Grefforio VII pensava em se pôr á frente o °»ovimeoto das 

. ^ . ^ , ^ cruzadas. 

de um exercito onde reunisse todos os que se sen- 



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300 

tiam attrahidas por esse grande foco de luz que, 
melhor que nenhum, illuminava as consciências. 
Em 1064 o arcebispo de Maguncia conduzira ali , 
7:000 homens; desde os fiords da Scandinavia, i 
até os extremos archipelagos da Itália, companhas, 
mais ou menos numerosas, iam em peregrinação 
através da Ásia Menor, até ao Santo Sepulchro, i 
buscar reliquias, trazer palmas de Jerichó, edifi- 1 
car-se na contemplação dos logares sagrados, ba- 
nhar-se no Jordão. ' 

Era necessário canaHsar, ordenar, dirigir essas 
correntes humanas, até então dispersas ou desor- 
denadas, que muitas vezes se entrechocavam e se 
combatiam, é convertel-as em levadas que des- 
truissem as muralhas erguidas entre os christâos 
e o tumulo do fundador da sua fé, 
sea carácter. . Foi cssc O papcl dc Urbauo II, quc realisou o 
pensamento de Gregório VII, não commandando 
uma expedição de armas, porém, melhor ainda, pre- 
gando a guerra, acendendo no coração dos crentes 
a febre da conquista do Santo Sepulchro. A essas 
correntes puras da fé, viriam juntar-se as enxur- 
radas de homens levados pela curiosidade, pela 
aventura, pela ambição, pela necessidade de um 
empregO; de um meio de vida, e até com o fim de 
expurgar peccados e lavar a consciência das macu- ' 
las da culpa. I 

Ao crente, puramente comtemplativo e mystico, 
seguiu-se o cavalleiro peregrino, o aventureiro da 
fé e da conquista, que teve em mira estabelecer-se 
na Terra Santa, adquirir ali poderio e riqueza, e 
foi d' esse a obra da reivindicação e da reconquista. 
Ainda assim a Europa na idade media não estava 
em condições de poder attender ás necessidades 
de uma forte eniigração que creasse raizes firmes 
no Oriente; não podia isso ser resultado de sim- 
ples conquista, mas de colonisação. 



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301 

Quando D. Henrique de Portugal foi á Pales- a primeir* cru- 
tina já se tinha realisado a primeira grande cruzada, 
que, em Jerusalém, escolheu para chefe Grodofredo 
de Bulhão; promovôra-a Urbano II, incitára-a o 
concilio de Clermont; com Adhenar de Monteuil, 
bispo de Puy, milhares de indivíduos tinham ob- 
tido a sagraçao, e o direito de usarem a cruz sobre 
o hombro esquerdo; cruzados se chamaram por 
isso. Por toda a parte os monges e os padres, des- 
tacando-se entre elles Pedro o Ermita, pregavam 
as vantagens e a necessidade da guerra santa; vinda 
do norte da França, das margens do Rheno na AUe- 
manha, da Provença, da Itália, de toda a parte se 
reuniu em Constantinopla uma multidão enorme. 
Não se lhe podia dar a nome de exercito, comquanto 
se apresentassem armados, em bandos, sob o pen- 
dão dos seus chefes e senhores. Transpozeram o 
Bosphoro, atravessaram a Ásia Menor; no cami- 
nho muitos dos mais poderosos iam dando pasto 
á ambição do mando e da riqueza, tomando posse 
de cidades e territórios; internas e profundas dis- 
senções lavravam entre os cruzados; mas estava 
por attingir o objectivo principal; Jerusalém, for- 
temente assediada e combatida, rendeu-se no se- 
gundo dia. Foi a 15 de julho de 1099. 

Conquistar tinha sido relativamente fácil ; man- 
ter os dominios christãos, com as pequenas forças 
de confiança de que se dispunha era o mais dií&cil; 
o grosso das gentes havia regi'essado á Europa, 
grande parte ficara nos caminhos^ por esses cli- 
mas inhospitos, ou nos campos de batalha. 

Mas a predica e a propaganda a favor das ex- 
pedições ao Oriente continuavam. Paschoal II pro- 
seguia com enthusiasmo a obra de Urbano 11. 

A fama das aventuras passadas e dos lucros e cretce o movi. 
vantagens por muitos colhidas eram também inci- 
tamentos fortes. Recrudesceu o movimento em 

19 



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302 



1100. Organisou-se uma nova cruzada. Em 1101 
entrava no Oriente essa poderosa expedição, com- 
posta de 50:000 italianos, sob as ordens do arce- 
bispo de Milão, de 50:000 homens sob o commando 
do duque de Aquitania, e entre os capitães de 
troços mais ou menos numerosos, o arcebispo 
de Saltzburgo, os bispos de Laon, de Soissons, 
de Paris, o margrave da Áustria, o duque de 
Baviera, os condes de Bolonha, de Blois, de 
Nevers. 

Em três grandes exércitos se dividiu esta turba- 
multa. O primeiro, composto de aquitanos e alie- 
mães, seguiu pela Ásia Menor, e foi disseminado 
pelo caminho, batido e destruido perto de Heraclêa, 
por um exercito musulmano que fora ao seu en- 
contro. O segundo, commandado pelo conde de Ne- 
vers, que tendo partido depois do exercito dos lom- 
bardos e francezes, esperava fazer com elle juncção, 
indo pela Syria, foi assolado e disperso pelas arre- 
metidas dos musulmanos e pelas inclemências do 
clima. O terceiro, finalmente, o que safra primeiro, 
de 260 mil homens, na maior parte francezes do 
centro da França e lombardos, ia sob o commando 
de Raymundo de S. Gil, IV conde de Tolosa. 
muito nosso conhecido, pois é o mesmo que casou 
com D. Elvira, innã da condessa de Portugal, e 
filha de ÁíFonso VI e de D. Ximena Mufloz, a as- 
turiana. Este exercito não teve melhor sorte, por- 
que tendo embarcado em Constantinopla, em ju- 
nho de 1101, entrou na Ásia Menor, com o fim 
de ir contra Bagdad, depois de ter liberto Boa- 
monde, príncipe normando, o qual, senhor da An- 
tiochia, se aventurara a ir em auxilio de um prin- 
cipe arménio na Ásia Menor, e fora ali batido e 
feito prisioneiro pelos turcos. Depois de tomar An- 
cyra, e tendo seguido pelo curso do Halys, sem 
subsistências, em paiz devastado pelos musulma- 



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303 

nos, foi Raymundo de Tolosa atacado por estes e 
desfeito o seu exercito. 

Rajmundo de S. Gil tornára-se notável, auxi-iuymundodos. 
liando Gregório VII a combater os normandos. Já 
na primeira cruzada entregara os seus dominios 
a seu filho Bei*trando e partira para a conquista 
do Santo Sepulchro. Fora mesmo elle, depois de 
Boamonde, e até á tomada de Antiochia, quem ti- 
vera o commando superior das forças, tendo este 
sido confiado só depois da rendição da cidade a 
Godofredo de Bulhão, que aliás tem passado erra- 
damente por ser considerado o chefe permanente 
e o impulsor d'essa cruzada. 

A escolha de Godofredo foi por indicação de Ray- 
mundo, que recusou a coroa de rei de Jerusalém. 

N'esta segunda cruzada, em que Ray mundo se 
fizera acompanhar de sua mulher D. Elvira, foi 
infeliz. Desfeito o seu exercito, refugiou-se em An- 
tiochia, onde governava Tancredo, sobrinho de 
Boamonde, e ali se lhe foram juntar os restos 
dispersos da grande expedição que assim se desfi- 
zera, com um sopro da sorte adversa, por falta 
de cohesão e de plano". 

Tancredo aprisionou Raymundo, naturalmente 
receiando que o viesse incommodar mais tarde e per- 
turbal-o nas suas ambições; e só lhe deu liberdade 
sob palavra de que se não assenhoraria de nenhuma 
praça entre Antiochia e S. João de Acre. Assim 
o compriu o conde de Tolosa; com o auxilio de uma 
esquadra genoveza, atacou e tomou Tortosa, onde 
fundou um principado, e em seguida estabeleceu-se 
defronte de Tripoli, levantando uma fortaleza. 
D'ahi em diante continuou nas suas conquistas, e 
morreu em 1105, succedendo-lhe seu fiilho Ber- 
trand, que, tomando Tripoli, se fez proclamar seu 
conde, sob a obediência do imperador de Constan- 
tinopla. 



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304 

Naicimento do Em 1108 cstava Raymundo de S, Gil na Syria, 
Affonio ''**' ^.Qj^tjnuando as suas conquistas, e n'esse anuo ti- 
nha ali sua mulher um filho que ficou chaman- 
do-se Afibnso Jordão *, Aífonso como seu avô ma- 
terno, Aflbnso VI de Hespanha, e Jordão por ter 
sido banhado nas aguas do rio santo, como era 
da devoção dos cruzados. 
Teria D. Henri- Tcría a viagcm do conde 1). Henrique de Por- 
TcuIiíadoV''" tugal ao Oriente alguma relação com estes factos 
em que figura o seu primo e cunhado, o conde de 
Tolosa Baymundo de S. Gil? 

Iria levar-lhe o seu auxilio, ou pessoal ou de 
tropas, nas diflficuldades e emprehendimentos em 
que andava, agora que os desastres da cruzada 
haviam trazido o desanimo á Europa, vendo-se esta 
na necessidade de pensar a serio na desforra? 
interrogaçõ€«. Iria apcuas uo dcscjo de visitar os Logares San- 
tos, em romaria, ou no propósito de tirar da sua 
consciência o peso de algum escrúpulo de alma, 
segundo era uso devoto n'aquelle tempo, aprovei- 
tando o ensejo para ver seu primo, sua cunhada 
e o sobrinho recemnascido, visto a época do nasci- 
mento de Affonso Jordão coincidir com a da ida 
de D. Henrique á Syria (1103)? 

Foi para tomar parte nas operações militares, 
mesmo independentemente da situação em que se 
encontrava Kaymundo de S. Gil, a exemplo de 
tantos senhores, e a despeito da prohibição imposta 
aos de Hespanha pelo papa Paschoal II, a fim de 
evitar que faltassem braços e cabos de guerra 
para a não menos importante empresa de expulsar 
do solo europeu o crescente agareno? 

Outras tantas perguntas são estas a que os do- 
cumentos não dão resposta. 



1 Fr. Prudencio de Sandoval Hist. de los Reys de CastiUa y Leon, 
tomo I, pag. 84. 



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305 

A prohibiçao de Roma nao era um impedimento 
tao absoluto que o próprio arcebispo de Toledo, 
Bernardo, não tivesse ido a Jerusalém na prima- 
vera de 1104, e que nflo tivesse também, seguido 
para a Syria o bispo de Coimbra, Maurício, que 
suppõe-se até ter acompanhado o conde D. Henri- 
que. O elemento sacerdotal era o primeiro a ani- 
mar, a dar o exemplo, n'essa verdadeira febre que 
se apossara dos christaos da Europa, tendo por 
objectivo a manutenção dos reinos nazarenos no 
Oriente, e o alargamento d'elles. Era um movi- 
mento religioso e guerreiro, mas que se tornara 
também aventureiro e mercantil. 

Conjectura-se que o conde D. Henrique tivesse 
seguido na armada genoveza que em 1104 foi 
auxiliar Balduino na conquista de Ptolomaida 
(S. João de Acre), 

O conde D. Henrique regressou a Portugal em Re^resno de d. 
1105; pouco tempo se demorou, portanto, no "*"'**'"*• 
Oriente. 

Estes acontecimentos, comquanto pouco es- innuencu indu 
clarecidos pelos documentos, mostram que não MaMÍmp™'. 
deixou de ter influencia, embora indirecta, no *"^*'' 
nascente estado portuguez esse poderoso elemento 
que tanta acção teve nos destinos do mundo, as 
cruzadas. 

O chrístianismo, os árabes, as cruzadas foram 
as três fortes causas das transformações sociaes 
n'aquella8 épocas, os três grandes agentes da civili- 
sação, percursores do renascimento. Das duas pri- 
meiras cruzadas recebemos directo influxo ; á ter- 
ceira não concorremos com expedições e reforços 
militares, porque missão .parecida nos prendia no 
campo de acção limitado entre os Piryneus e os 
mares, mas tivemos ali representação na pessoa 
do chefe do nascente estado, e porventura nos in- 
dividuo» que ali o acompanharam' 



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306 



Cruzada permanente era a que se batalhava oa 
Península, onde a cada instante se media a espada 
christã com a cimitarra mourisca. 



Em 1106 está D. Henrique na corte do sogro; 
e é, ora aqui, ora em Coimbra, ora em Guimarães, 
que o encontrámos. Na administração do condado, 
no povoamento dos seus logares, em algaradas 
nos territórios musulmanos do sul estaria então 
empregando a sua actividade. 

Morte d«Affon. Em junho dc 1109 morreu Affonso VI; os sar- 
racenos julgaram o momento asado para levan- 
tar a grimpa. Os territórios para o sul de Santarém, 
limite do dominio christao, que tinham como nú- 
cleos principaes Cintra e Lisboa, hastearam o pen- 

KebMiísci mu dão dc gucrra, ou da rebellião, se é que, segundo 
conjectura Herculano, esses povos, que se tmham 
libertado do poder dos almorávidas, depois das con- 
quistas de Seir em 1095, se encontravam colloca- 
dos sob a protecção do rei de Leão, como seus 

D. Henrique re- tributarios. O condc D. Hcnriquc invadia-os em 
junho de 1109 e Cintra caia em seu poder*. — O 
conde estava em 29 de julho, em Vizeu, já de re- 
gresso da expedição. 

inva.ao de Ali. No fim d'esse anno de 1109 dava-se uma nova 
invasão almorávida no Garbe. Ali, successor de 
Yuçufe nos dominios ao norte de Africa ou em 
Hespanha, viera á Península logo no anno se- 
guinte a tomar conta do poder (1107) e dispozera 

* Era 1147. Mense Júlio Uerum capta fuit Sintria à comité 
D. Henrico género D. Alfonsi Regii marito filiae suae Rtginat 
D, Tarasiae. Audientes enim Sarraceni mortcm Begis D. Alfmfi 
coeperunt rebdlare, Caa. Gota. oc Lubit. 



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^V!!, ^W^' ^^v.\P'lliIí?l-- 



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307 

tudo para a forte expedição que no anno irame- 
diáto dirigiu pessoalmente (1108), É o anno ter- 
rível da derrota de Uclés, ganha por Temin, ir- 
mão de Ali, e onde perdeu a vida o único filho 
varão de Affonso VI, havido de sua mulher a 
moura Zaída. Realisa-se a referida expedição almo- 
rávida nos fms de 1109, e tem por fim rehaver os 
territórios das nossas actuaes provincias do Alem- 
tejo e Extremadura, que dez annos antes haviam 
sido trazidas ao seu jugo e que teriam retomado, 
por meio da revolução, a sua antiga bandeira. 

No anno de 1110 dao-se conquistas dos almo- 
rá vidas no centro da Hespanha, tomando Ali pes- 
soalmente Talavera, Madrid, Guadalajara; o emir 
de Saragoça vae levantar o cerco que os leonezes 
haviam posto a Tudela ; e o terrível Seir invade 
o antigo emirado de Badajoz, que já soffrera em seir toma cin. 
1095 o jugo dos almorávidas, e toma aos sarrace- *'** »n**«í«»- 
nos, alem d aquella praça, as de Évora, Lisboa, 
e aos christãos a de Cintra, pois que o conde D. 
Henrique a sugeitara em 1 109. Na primavera de 
1111 Seir põe cerco a Santarém, que de maio a 
junho d'esse anno cae em seu poder. É o anno em 
que nasce Affonso Henriques, a quem caberia a 
gloria de trazer definitivamente aquella praça ao 
dominio dos portuguezes *. 

Durante os dois annos que vão desde a tomada 
de Cintra até á perda, nao só d'esta praça, mas 
de Santarém, que fora durante cinco annos pelo 
menos o posto de observação e a base de defeza na 
fronteira do sul, graves preocupações agitam o es- 
pirito do conde D. Henrique e o obrigam a jor- 
nadas e peregrinações longas, sendo essa decerto 

* O Còronkon Luníano ou Goth. dá o infante nascido na era de 
1115 (anno 1103); mas n'outroB pontos contradiz-se, opor duas ve- 
zes dá informações que fíxam em 1111 a data doesse nascimento. 
Yid. nota zi da Hitit de Port. de Herculano, tomo i. 



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308 

uma das causas de nao terem encontrado os almo- 
rávidas, da nossa parte, a resistência que era de 
esperar e que estávamos em condições de lhes 
oppor. Mas é que a morte de AflFonso VI sem suc- 
cessão varonil trazia a Hespanha christã em grave 
crise e sobresalto, e, por esse motivo, animados 
e cheios de ousio os musulmanos. 
Ainwçce. de D. Nas complicaçôcs da corte tinha o conde D. Hen- 

Henrique. • 1*1^ 'iii 

rique um papel importante ; espicaçado pelo aculeo 
da ambição, as circumstancias pareciam favore- 
cel-o. 

Tendo sido leal ao seu sogro e rei, não havendo 
levado a sua ambição alem do desejo de engran- 
decer os domínios do seu condado, mas sob a au- 
ctoridade do seu soberano, D. Henrique concebera 
o sonho de, por morte d'este, poder ser soberano 
Pacto com D. cUc proprío n'uma porção maior ou menor da 
Rftymundo. jj^Qn^j-ci^ij^ leoucza. Para isso se tinha encontrado 
a sua ambição com a do seu primo e cunhado D. 
Raymundo da GalHza, e ambos haviam firmado 
um pacto pnra a partilha d'esse reino por morte 
do legitimo rei*. 

É necessário estar dentro do espirito da época, 
é necessário considerar toda a ordem de rasões 
ou de sophismas que teriam actuado nos espíritos 
d'estes dois homens, ambos casados com filhas do 
rei, e portanto no direito de partilharem por qual- 
quer forma da herança do sogro, para se compre- 
hender bem a situação e a aquilatar. 
Qual a ma data? Um pouto importautc a averiguar, e que os do- 
cumentos não esclai-ecem, é qual a data d'esse pa- 
cto. Nasceria das intenções de D. AffonsoVI de dar 
a successão do throno a seu filho D. Sancho, havido 
da moura Zaida? Tendo- se patenteado em 1106 
essas intenções, dataria d'essa occasião o accordo 

* Vide no fira do volume, doe. u. 



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309 

dos dois condes*? N'es8e caso, D. Urraca, como 
filha mais velha e legitima, teria encontrado no 
marido o paladino dos seus direitos ; D. Thereza, 
embora bastarda, desejaria partilha na situação, 
porquanto D. Henrique, seu marido, poderia servir 
de forte appoio á causa da sua irmã, e ter uma 
justa recompensa d' isso em territórios. D'ahi o 
pacto, onde é evidente a superioridade da situação 
do conde D. Raymundo, reconhecida por D. Hen- 
rique. 

Este pacto nao teria sido tão secreto que não 
constasse d'elle alguma cousa, ou d'elle teriam 
resultado quaesquer demonstrações que determi- 
nassem reservas e malquerenças. Mas se de D. Ray- 
mundo se pôde dizer que esteve um tempo mal- 
quistado com o sogro, o mesmo se não pôde affirmar 
de D. Henrique, que até final o seguiu e acompa- 
nhou lealmente. 

Em 1107 morria o conde D. Raymundo, e comMortedeD.R^y- 
elle o pacto dos dois primos e cunhados. 

Segundo o anonymo de Sahagun, pouco antes Entrevista de d. 
de D. AflFonso VI fallecer, foi ter com elle a Toledo o tíero?* *^'*™ 
D. Henrique e d'ali saiu irado «no sé porque safta 
ó discórdia». Tudo leva a suppor que se tratou 
ali da successão do reino ; D. Henrique advogaria 
a partilha com I), Thereza, sua mulher; D. Af- 
fonso 'VI defenderia a entrega integral do reino 
a D. Urraca ; d*ahi o desaccordo, que faria com que 
o genro abandonasse agastado a casa do sogro, tão 
pouco condescendente e generoso, e que não esti- 
vesse presente «quando el-rey queria morir e dis- 
ponia de la succession dei reino»*. 

A babdha de Uclés foi em 1108. D. Affonso VI, Mort« de aítoii. 
a quem este golpe terrível vinha acabar de cortar 

* Sobre a provável data do pacto vide as conjecturas de Jouo 
Pedro Ribeiro. Díps. Chron, tomo iii, pag. 45, nota 6. 
2 Anotiymos tlt Sahagun, cap. xxi. 



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310 

os fios já ténues da existência, deixava o mundo em 
junho de 1109 ; n'esse intervallo teria D. Henrique 
empregado esforços para convencer o sogro; essa 
entrevista «dias antes que el-rey ficiesse fiu de vi- 
vi r» representaria o derradeiro esforço. 

Já os almorávidas assolavam o Garbe; já as suas 
cimitarras reteniam próximo da fronteira christã. 
Era certo que entrando por Badajoz o almorávida 
trataria de rehaver o perdido, castigando aquel- 
les que se haviam libertado do dominio não ha 
muitos annos estabelecido; estavam portanto amea- 
çadas até as próprias praças, como Cinti-a, que 
D. Henrique acabava de incorporar nos seus domi- 
níos, e 08 que constituiam dominio antigo; Santa- 
rém estava em imminente perigo. 
Ida de D. Henri- A uada d'isto pôde attender ou remediar D. Hen- 
.iue a rança, j.-jq^^^ obsccado pcla paixão de ver assim por ter- 
ra os seus planos e esperanças. Em agosto de 
1110, approximadamente, teria o conde portuguez 
deixado o seu dominio, assim ameaçado, para ir a 
França e a Aragão ; n'um e n'outro ponto buscava 
apoio e elementos para uma desforra, e para a 
realisação do seu ideal, que se nao limitava já a 
pouco: — pretendia uma parte ou quiçá todo o 
reino de Leão e Castella! Pelo menos é essa a opi- 
nião do auctor da 1.* chronica anonyma de Saha- 
gun que diz: — «por lo qual, por zelo dei Reyno 
movido, traspasó los Montes Perineos por haber 
ayuda de los franceses, con los quales guarnido e 
esforzado, por fuerza tuviese el R^yno de Es- 
pafia*». 

D. Urraca não estava em condições de ter niao 
no barco da governação do estado, batido de en- 



* Por ser muito interessante, e apenas conhecida do vulgo pel»"^ 
citações de Herculano, damos no fira do volume o cap. xxi d'e8tH 
chronica anonyma. Vide doe. iii. 



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311 

centrados ventos e ameaçado por surdas e fortes 
correntes. Viuva, ficara com um filho, Aflfonso 
Raymundes, que seria o successor do avô no throno, 
mas que apenas tinha três annos quando aquelle 
morreu. 

Previdente, D. Afibnso VI anticipara-se aos 
acontecimentos, e determinara que no caso de sua 
filha contrahir segundas núpcias, como seria por- 
ventura necessário, até mesmo para o bom governo 
do estado, pelo menos ficasse ao neto o governo 
independente da Galliza. N'este estado, governado 
por seu pae, ficou Affonso Raymundes, sob a tutela 
e guarda do conde 1). Pedro Froylaz de Trava. 

Pensou-se no casamento da rainha viuva; não casamento de 
lhe faltariam concorrentes, entre elles o conde ^•^''™''*- 
Gomes Gonçalves, prócere illustre, que pertendera 
a mao de D. Urraca quando' ainda solteira, e com 
quem se lhe attribuiram depois relações de natu- 
reza mais intima; mas rasões politicas de maior 
alcance, ou porventura mesmo o animo versátil 
da rainha, deram preferencia a Affonso I, de Ara- 
gão. 

Nem em todo o reino teve igual acolhimento 
este consorcio, no qual alguns fundavam a espe- 
rança da unificação e prestigio do dominio christão, 
mas que foi verdadeiramente uma nova origem de 
dissidias e de rebelliões. 

A Galliza, sempre ciosa do seu individualismo, Dfuençse. em 
tinha o seu rei, mas queria para elle a herança total oSíT/"* 
de seu pae, quando chegasse á maioridade ; o pre- 
dominio do aragonez não lhe podia ser agradável. 

Alem de que, D. Affonso 1 de Aragão era pa- 
rente próximo de D. Urraca; o clero, que n'esse 
tempo morria por desfazer casamentos, sobretudo 
quando lobrigava, para justificar o divorcio, uma 
rasão de ordem politica, poz-se em campo; o papa 
decretou a sepai'ação, o arcebispo de Toledo pro- 



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312 

niulgou íi bulia ; mas D. Affonso nao esteve pelos 
ajustes; era o período em que entre o poder tem- 
poral dos reis e o poder espiritual dos papas se 
travavam terríveis luctas. 

O clero foi directamente atacado. Foram ex- 
pulsos das suas sés o arcebispo de Toledo e os bis- 
pos de Burgos e de LeSo, e postos a ferros os de 
Orense, Osma e Palencia. 

Ao mesmo tempo, e para pôr peias ás manifes- 
tações hostis dos maioraes de Galliza e de Castella, 
foram estes substituídos por aragonezes, nos pos- 
tos de confiança. Mas na Galliza os partidários do 
príncipe Affonso Raymundes, capitaneados pelo 
conde de Trava, D. Pedro Froylaz, não só via 
ameaçados os direitos do seu real pupillo, mas as 
regalias e foros d aquella provinda, erigida em 
reino independente. Este poz-se em armas ; o ara- 
gonez invadiu-o com um forte exercito em 1110; 
tomou Monteroso, onde um nobre cavalleiro, Pe- 
dro, do conhecimento da rainha, se lançou aos pés 
d'esta supplicando que o não matasse ; ali mesmo, 
ha presença de sua mulher, que intercedia pelo 
desgraçado, e surdo ás supplicas d'ella, D. AíFonso 
Diicordu entre o varou coui uui vcuabulo. A este acto de crueza 
Sindo"*"* ***" inútil se attribue o recrudescimento das antipa- 
thias e repulsões creadas pelo rei, e a resolução 
da rainha de se divorciar; tinha a seu favor a opi- 
nião de todas as classes. Assim o seu tempera- 
mento de mulher volúvel nao tergiversasse! 

D. Urraca foi para Leão, que se rebellou também 
contra D. Affonso; este, fortemente escarmentado 
em Galliza, foi sobre Astorga, onde um exercito 
leonez lhe veiu ao encontro, o intimou a não inten- 
tar contra nenhum castello do reino, e o forçou 
a recolher se a Aragão. 
D. Henrique bn«. D'e8ta sítuaçSo quiz tirar partido o conde I). 
tusinuç?*?.****' Henrique, que acima de tudo era politico. Podia 



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'óVò 



bem ser o tertius gaudet na contenda entre Affonso 
de Aragão e sua mulher, entrando com o poder 
das suas armas na resolução do problema que se 
apresentava complicado; porque, se Galliza e Leão 
eram contrários ao domínio aragonez, cada um 
d'e88es reinos pugnava por obter a hegemonia ou o 
predomínio. Galliza tinha o deposito sagrado do 
neto e successor de Affonso VI, a quem entendia 
pertencer, não só o governo d este reino, mas o de 
todo o dominio de seu avô; Leão era pela rainha,, 
cujas tendências e interesses não se conforma- 
vam absolutamente com os do filho. Havia alem 
d'ís80 a contar com o genío versátil d'esta senhora. 
Era um conjuncto de circumstancías, que, conforme 
se determinassem, podiam auxiliar as pre tenções 
de D. Henrique, que era homem para não hesitar 
diante de nenhum obstáculo. 

Durante os primeiros mezes de 1110, conser- 
vando-se estranho ao que se passava para alem 
das suas fronteiras ao norte e ao oriente, levou a 
sua attenção para o sul, onde se dava a invasão 
de Seir ; receando um ataque a Santarém enviou- 
llie reforço de tropas sob o commando de Soario 
Fromariges ; mal acauteladas porém n'um estacio- 
naniento, em caminho de Santarém, foram atacadas 
subitamente em Vatalandi, sendo morto Soeiro 
Fromariges e outro capitão illustre, Mído Ores- 
cones ^ 

Seir deveria ter tomado n^essa occasião Batalíoz 



• Factum est magnum infortuninm supra Chrlstianos, qui ibant ad 
Sancíareni, in loco qui dicitur Vatalandi, Lhim enim vellent ihi 
Christiani figere tenioria, et requtescere, cum súbito ex improviso mvl- 
tUudo Sarreeenorum et Moabitorum et Arabum audito numero eorum 
venerunt super ens repente, et imparatos eos invenientes, interfecerunt 
«J5 tis plurimosj ibi que morluus fuit Suarius Fromarigis pafer Donni 
Nuno Stuiriz, qui erat Dux super eos, et Mido Cresconis pater Do- 
mini Joannis Midiz. Chron. Lusit. 



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ciar tropa*. 



314 

(Badajoz) e leborah (Évora) e estaria em caminho 
de Cintra e Lisboa. 

vaeaFranvaaii. Pois foi n'esta altiira, lá por .agosto d'esse anuo, 
que 1). Henrique passou a França a aliciar tropas, 
ou a buscar talvez o auxilio dos seus parentes, na 
realisação do que reputava um direito. D. Thereza 
ficou governando o condado, e viu-se que nem o 
seu braço nem a sua iniciativa eram bastante for- 
tes para constituir barreira contra invasões dos 
. almorávidas ; foi assim que Cintra, por D. Hen- 
rique tomada aos musulmanos, como vimos, em 
junho do anno anterior, caiu em poder de Seir; 
por essa mesma occasião ter-se-ia rendido Lisboa, 
D. Henrique demora-se em França mais do que 
deseja, porque lhe succede ser ali preso por qual- 
quer motivo, naturalmente de desconfiança dos 
seus propósitos, conseguindo porém evadir-se. Só 
isso pôde justificar o ter-se conservado ausente do 
condado em occasião tão critica, 

voiu por Ara- No regrcsso passa por Aragão e- ali lavra um 
"* pacto com Affonso I; dois propósitos de vingança 
se reúnem, resolvendo emprehender o dominio e a 
partilha do reino de Leão e Castella, e muito pro- 
vavelmente o de Galliza, que nem D. Affonso, 
d' ali escorraçado recentemente, nem D. Henrique, 
que sempre se oppozera á successão, tinham moti- 
vos para poupar. Entre si dividiriam os dois o que 
fosse conquistado á rainha: «el en uno con el con 
todas sus fuerzas contra la Reyna, guerrearia con 
esta condicion, que todo aquello que dei fieyno de 
la Reyna ganasse, fuese partido por la metad en- 
tre ambos*». 

Factos grave. Até cutão factos gravcs se passam no con- 
01 uffa . ^^^^ . — 2í\ein da tomada de Cintra pelos almorá- 



^ Ânonymos de Sahagun, cap. xzi. 



gão; pacto com ^ 
D. Afibnao. 



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315 
vidas, dá-se em Coimbra uma sublevação de cara- suwevaçâo 

, !• j j • • Coimbra. 

cter melmdroso e de consequências serias. 

«Sesnando, diz Herculano, attrahindo para 
Coimbra a população christã não organisara o mu- 
nicipio, contentando-se os novos habitadores com 
lhes ser assegurada por um titulo geral a posse here- 
ditária das propriedades rústicas ou urbanas que se 
lhes distribuiam. Depois, por quasi um meio século, 
Coimbra fora a capital de um districto, e ainda no 
tempo de Henrique se podia considerar como a 
principal cidade do condado ou província de Portu- 
gal ; mas uma tradição, que os documentos contem- 
porâneos parece confirmarem, nos assegura que o 
genro de Affonso VI estabelecera em Guimarães a 
sua corte, se tal pôde- se dizer de uma residência 
incerta e quasi annualmente interrompida. Coim- 
bra, posto que, como vimos, fosse frequentada do 
conde, o qual por vezes fez ahi larga assistência, 
tinha, como todos os logares principaes, governa- 
dores próprios sugeitos a elle, segundo o systema 
hierarchico da monarchia leoneza. Estes governa- 
dores com os seus oflSciaes provavelmente vexa- 
vam os habitantes, que não posôuiam ainda os largos 
privilégios municipaes attribuidos já n'essa época 
a povoações menos importantes. Segundo parece 
poder concluir-se das allusões obscuras do diploma 
a que nos referimos, os moradores de Coimbra, 
opprimidosporuns certos Munio Barroso e Ebraldo 
ou Ebrardo, talvez exactores de fazenda, amotina- 
ram-se, expulsando-os da cidade. Devia succeder 
isto durante a ausência do conde. Voltando, elle 
se dirigiu a Coimbra; mas os habitantes resisti- 
ram-lhe e Henrique teve de pactuar com elles. 
O resultado d'estes successos foi obter a povoa- 
ção uma carta de foral com amplos privilégios, 
e especificando-se as contribuições e declarando- se 
expressamente que nem Munio Barroso, nem 



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316 

Ebraldo tornariam a ser admittidos dentro dos 
seus muros, e que o Conde, satisfeito de o haverem 
emíim recebido, poria em esquecimento tudo o que 
contra elle tinham até áquelle dia praticado». 

Estes factos são interessantes para o estudo da 
evolução orgânica da sociedade n'aquella época, 
em que já o elemento popular começava a impor-se 
pela sua força própria, e para a apreciação das re- 
lações entre os diversos elementos d'essa sociedade. 

Estas perturbações internas teriam impedido 
a acção do conde D. Henrique contra os almorá- 
vidas, que estavam ás portas de Santarém. A no- 
ticia da perda de Cintra e da approximação dos 
almorávidas das verdadeiras fronteiras christãs, 
teriam apressado a sua retirada de Aragão, cou- 
cluido o pacto com o rei. 

Quando Santarém lhe foi tomada em maio ou 
junho de 1111, já elle estava em Coimbra, onde 
na mesma data assignava o foral d'essa cidade 
pelo qual se firmava o accordo entre essa cidade 
e o conde. 
scir regressa a O quc valcu foi quc Scir teve de sustar, talvez 
Heviíha. p^^ motivo de doença, o curso das suas conquistas, 
regressando a Sevilha, onde pouco tempo depois 
fallecia. 

O não ter que pensar nos almorávidas, que se 
limitavam a occupar e fortificar as praças conquis- 
tadas, sem renovar as correrias, deu azo a D. Hen- 
rique poder concentrar as suas attençÕes no pro- 
blema da partilha da regia herança do sogro, que 
o preoccupou sempre mais do que os árabes, jul- 
gando, talvez, que a todo o tempo os podia escor- 
raçar, desde o momento que tivesse na mão o 
poder de que necessitava. Convinha-lhe não per- 
der o ensejo que se lhe oflerecia de tirar partido 
das circumstancias para levar a bom recado a sua 
idéa. 



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317 



Mas porque é que, tendo-se realisado em prin-Porqne « nio 
cipios de 1111o pacto de alliança entre D. Affonso ctodeD.Hen- 
de Aragão e D. Henrique, a nao pozeram os dois aSS»?" 
em execução? 

Depois da sua campanha na GalKza e Leão no 
anno de 1110 fora D. AflFonso, como vimos, obri- 
gado a retirar-se para os seus dominios, diante da 
attitude xlos dois reinos. 

Sua mulher, D. Urraca, separara-se d'elle na 
Gralliza, depois das cruezas de Monteroso, e reco- 
Ihera-se a Leão ; mas naturalmente tomaram a reu- 
nir-se, porquanto os clironistas faliam em serias 
discórdias entre os dois, e em sevicias por parte 
de D. Affonso, que até prendeu em Castellar a mu- 
lher. 

Ambos pensaram em divorcio; não faltavam 
para isso fundamentos, como vimos. Vieram as 
ponderações; o divorcio não evitava a lucta; con- 
tando D. Affonso com as forças aragonezas e tendo 
ainda as praças de Castella pelo seu lado, a guerra 
poderia ter consequências. D'ahi conselhos, instan- 
cias no sentido da approximação, e quem sabe se 
o natural pendor de D. Urraca para essas aven- 
turas agitadas do amor e do casamento? A philo- 
sophia profunda d'aquelle dito da mulher de Es- 
ganerello, quando lhe acudiram por o marido a 
desancar :ye veux qu^U me hatte! é de todos os 
tempos. 

Mas se D. Urraca era um temperamento com- 
plexo, era também um caracter complicado. 

Durante as desavenças com o marido, o seu 
coração regressara aos enlevos da maternidade; 
era toda ella desvelos pelos direitos e regalias do 

90 



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318 

filho, que visto ella ter passado a segundas nú- 
pcias, devia herdar o throno do avô. Na prisão 
de Castellar todo o seu coração ardia em chammas 
de dedicação por Affonso Raymuiides, e emissários 
por ella expressamente enviados á Galliza trata- 
ram de levantar os maioraes d'este reino contra 
as pretenções do aragonez e a favor do neto de 
AíFonso VI, cuja vontade e testamento queria que 
D. Urraca e o fosscm rcalisados ua integra. Ingénuos, os barões 
"uam^er*^**"" da Galliza, encaminhavam-se para Leão a fim de 
pôr em pratica esse justo ideal da mãe e da rainha, 
quando lhes chegou a noticia de que os dois es- 
posos estavam outra vez muito a bem um com o 
outro! Tinham-se congraçadol 
Fauia o plano Tudo SC baralhava, todos os cálculos falhavam 
aSe. ' *° ' com a alteração dos dados do problema. Os barões 
gallegos, perdendo o auxilio da rainha, viam perdida 
a causa do seu rei ; os barões leonezes, um pouco 
por dedicação á rainha e muito pelo receio de com- 
plicações, sugeitavam-se ; o conde de Portugal, 
roto o seu pacto com D. Aflbnso de Aragão, nâo 
sabia onde buscar um novo ponto de apoio. 

Os acontecimentos lh'o diriam. Era necessário 
contar sempre com o espirito leviano de D. Uiraca. 
Alem de que, havia muito a esperar do desconten- 
tamento que lavrava na Galliza; não era mesmo 
esta a peior situação para elle, porque o accordo 
da Galliza com a rainha representava uma aggre- 
gação de forças n'um corpo, com cuja desmembra- 
ção é que D. Henrique tinha a lucrar, ligando-se 
a qualquer das parcialidades em litigio; do des- 
accordo poderia elle agora tirar algum partido. 

D. Urraca, nos períodos das suas dissenções 
matrimoniaes, ao mesmo passo que acalentava e 
animava nas suas idéas os barões da Galliza, afa- 
gava em Leão os sonhos dourados de Gomes Gon- 
çalves que, desde menina e solteira, a requestara, 



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319 

que teria porventura merecido as suas particulares 
graças, e que agora, no meio das tempestades ma- 
trímoniaes, esperava lucrar com o divorcio. Ter- 
Ihe-ia até sorrido o sceptro de Leão e Castella, 
quem sabe? Este, portanto, e com elle os seus par- 
tidários, não se rejubilaram também com a re- 
concialiação de D. Urraca com o marido. Eram 
estes para D. Henrique outros tantos elementos a 
explorar. 

Se o conde portuguez, vendo por terra o seu Liga-so d. Hen- 
primeiro plano, volvera os olhos para a Galliza, os h^ãê ^^T*"^ 
barões gallegos, pelo seu lado, pensaram também *^'' 
n'elle, desde logo. Ao conselho que lhe pediam, 
respondeu D. Henrique incitando-os á rebellião e 
á lucta; era natural que lhes offerecesse também 
auxilio para occasião opportuna. Até então iria 
preparando os seus elementos a fim de entrar van- 
tajosamente na contenda. Conjectura Herculano 
que D. Henrique estaria em Aragão quando o fo- 
ram procurar os da Galliza, pelo facto d'estes te- 
rem voltado por Burgos, mas é natural que não se 
demorasse ali ^ O conde Froylaz de Trav^, se bem 
o aconselharam melhor o fez. Regressando de Ara- 
gão por Burgos veiu pelo caminho co*ncitando gen- 
tes, praticando actos de hostilidade contra os par- 
tidários do aragonez, e prendendo em Castro 
Xeriz alguns d'elles. Agitava-se de novo o facho 
da discórdia civil; partidários do rei levantavam 
a luva que lhes era lançada, e no caminho das 
represálias prendiam a condessa de Trava em 
Santa Maria de Castrello, e o bispo de Com- 
postella, Gelmires, finalmente decidido a tomar o 
partido do principe. 

Esperava o conde D. Henrique em Portugal o 
resultado d'estas primeiras hostilidades, resolvido 

^ Hiõt de Portugal, liv. i. 



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320 



Novo rompimen- decerto a lutcrvir no momento opportuno; mas 

to de D. Urraca j • j. . i -^ «*• j 

com o marido. cLe um lustante para o outro a situação mudava 
com um novo rompimento, entre D. Urraca e o 
marido. Que fazer n'estas circumstancias ? Voltar 
á sua antiga alliança com o aragonez. 

A situação d'este não era favorável nem em 
Leão e Castella, nem na Galliza, onde a rainha 
congregava em volta de si todos os elementos con- 
trários ás pertenções do rei de Aragão, que apenas 
conservava á sua voz alguns castellos, tendo por 
alcaides patrícios seus. 

Leonezes e castelhanos, e á frente d'elles Pedro 
Ansures, o aio da rainha, e os poderosos condes 
Pedro de Lara e Gomes Gonsalves, exultavam 
de ver sosinha em acção a sua rainha, a quem 
sempre haviam sido fieis; Galliza, quasi que una- 
nimemente, via na pessoa da soberana os direitos 
do seu filho, e á acção dos velhos e fieis partidá- 
rios do príncipe Affonso Raymundes viera juutar- 
se a do bispo de Compostella, que se constituirá 
em centro de propaganda e de adhesão ao legitimo 
herdeiro, não só do throno da Galliza, mas de 
toda a herança de Affonso VI. 
Nova liffaçio de Affouso dc Aragão, novamente ligado com o 
?om T^^^- conde de Portugal, não desistiu das suas pretençoes, 
e passou a um estado de lucta permanente com 
sua mulher, lucta em que os portuguezes tomaram 
parte também, hostilisando D. Urraca e os seus 
partidários. 

Em novembro de 1111 trava-se a primeira ba- 
talha entre D. Affonso de Aragão e o conde D. 
Bauiha de cam. Henrique de um lado, que tentam invadir os ter- 
podeEipina. j.j^Qj.jQg jnimigos, c OS coudcs Gomes Gonsalves 
e Pedro de Lara do outro, os quaes, vindo ao en- 
contro dos invasores, se entrechocaram em Campo 
de Espina, perto de Sej^ulveda. O conde Pedro de 
Lara fraquejava diante da perspectiva da batalha 



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321 

e voltava costas ao inimigo ; só em campo, o conde 
Gomes Gonçalves, com o seu pequeno troço de 
gente, succumbia á superioridade numérica do 
adversário, perdendo a vida; as hostes alliadas de 
aragonezes e portuguezes transpunham o Douro e 
entravam nos dominios de Leào, tendo occupado 
Sepúlveda*. 

N'esta altura dá-se no animo do conde !)• Hen- 
rique um d'esses movimentos de pusillanimidade 
e de contradicção, próprios dos que c«aminham ao 
sabor das impressões de momento e do impulso 
da ambiçiio, sem saberem bem o terreno que pi- 
sam e sem terem a certeza do fim a que aspiram. 
A sua alliança com D. Affonso de Aragão não po- 
dia ser sincera, nem grande a sua confiança n'ella, 
depois do que se passara quando a Aragão fora 
propor e ali obtivera o primeiro accordo, que im- 
mediatamente se destruiu. 

Depois da victoria das armas alliadas em Campo d. Henriqne .«. 
de Espina alguma cousa se deveria ter passado Affonw. * 
entre D. Affonso e D. Henrique, para este romper 
o pacto, e se apartar do aragonez. Foi só o resul- 
tado dos tramas e meneios occultos dos castelha- 
nos para os dividir, como pretende Herculano? 
Mas é singular que esses meneios vingassem pre- 
cisamente quando, derrotados os castelhanos, a in- 
vasão do aragonez se apresentava com todos os 
visos de um exceli ente êxito, do qual caberia par- 
tilha a D. Henrique, se este o auxiliasse efficaz- 
mente. Mais provável é que, depois de Campo de 
Espina, e tratando-se do quinhão que ao conde 

^ «E asi allcgada gran Imeste, ibanse para Scpalvcrla ; lo qual 
como oyese el noble Conde Gomez, que en aquella sazon moraba 
eri Burgos con Ia Reyna, con poços en el campo de Espana fué con- 
tra ellos. E por quanto sin consejo con poços acometió, grande e 
difícil cosa, fuertemente peleando murió en Ia batalla, qual vitoria 
acabada vinieronse para Sepúlveda». Anonymoa de Sahagun, 
eap. zzi. 



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telhanoi. 



822 

portuguez havia de pertencer nas novas conqnis- 
tas, se declarasse a divergência, e D. Henrique, 
que não estava para trabalhar por conta alheia e 
sem proveito próprio, ouvidos em conselho os seus, 
fingisse regressar a Portugal, sem alarde de rompi- 
mento, «casi como quien va a ver sus herdades», 
na phrase do Anonymo de Sahagun, sendo, po- 
rém, o seu propósito ligar-se com D. Urraca. 
Meneios dMo&a- Isto uão qucr dizcr que não coincidissem com 
este facto os meneios dos castelhanos para fazer 
ver a D. Henrique o seu erro em auxiliar as am- 
bições do aragonez sobre o antigo reino de Af- 
fonso VI, e, naturalmente também as promessas 
de futuras compensações territoriaes, se, entregue 
ás suas próprias forças, D. AfiFonso abandonasse 
a sua empresa diante da acção combinada de gal- 
legos e castelhanos, e até de portuguezes, se D. 
Henrique se resolvesse, como parecia mais natural, 
a auxilial-os. É o que está incurso nas seguintes pa- 
lavras de Herculano, que bebeu as suas informa- 
ções nas chronicas e documentos antigos, escre- 
vendo, pela primeira vez em toda a Hespanha, 
a historia completa d'este período: — «Mandaram 
(os fidalgos castelhanos) afeiar a Henrique o ha- 
ver-se unido ao inimigo commum da monarchia 
contra os outros barões de Leão e Castella. Pe- 
diam-lhe que se apartasse do aragonez e que viesse 
ajuntar as suas forças ás d'elles, promettendo 
fazerem-no seu chefe n'estas guerras e induzirem 
a rainha a repartir fraternalmente com elle uma 
parte dos estados de Affonso VI. Alguns fidalgos, 
aos quaes o prendiam laços de antiga amizade, 
invocavam, até, recordações do passado para mais 
o moverem*». 

Na nossa opinião, resta accrescentar a isto a des- 

* A. Herculano. Historia de Porf, tomo i, liv. i. 



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I 



828 

illusSo que teria tido D. Henrique com respeito 
ás suas esperanças na partilha da alliança com D. 
Affonso de Aragão, não menos ambicioso, e muito 
mais insoffrido do que elle, ou talvez a promessa 
formal da rainha de lhe ceder, desde logo, alem 
do commando superior das hostes reunidas ^ uma 
parte da monarchia, como parece ter sido assente 
entre os dois no pacto que em seguida firmaram. 

Pretestando voltar para os seus dominios, D. D.Henriqaejan. 
Henrique foi ter com D. Urraca ao castello de í?íí2ca!'*" ^' 
Monzon, ou Orsillon*, em Castella a Velha; era o 
systema: abandonada uma alliança, buscal-a na 
parte adversa. NSo era uma questão de principies, 
mas de interesses. É o que se passa hoje ainda na 
politica dos partidos e das nações, ás vezes com 
a mesma falta de pudor. 

No emtanto, Affonso de Aragão avançava pelas 
terras de Leão a dentro, e constando-lhe que Bel- 
mires, o bispo de Compostella, reunidas as suas 
tropas ás dos maioraes da Galliza, se encaminha- 
va para Leão, a fim de ali proclamar rei o neto 
de Affonso VI, Affonso Raymundes, foi-lhe ao 
encontro, surprehendendo-os, atacando-os, e der-B4uih» devia- 
rotando-os em Viadangos (Fonte de Angos) entre "***' 
Astorga e Leão (novembro ou dezembro de 1111). 
Affonso Raymundes foi posto a coberto de qualquer 
attentado, sendo levado para o castello de Orsillon, 
onde estava sua mãe ; o bispo de Compostella, com 
os restos da sua hoste, retirava para Astorga, e d'ahi, 
volvidos três dias, para Compostella, furtando-se 
ao encontro com o inimigo, por invios caminhos. 

^ . . . «é quel seria capitan dellos (nobles de Castilla) e Príncipe 
dei Exercito». Anonymos de Sahagun, cap. zxx. 

2 Monzon lhe chama a Chron, de Sàhagun: «vinose á nn Cas- 
tillo llamado Monzon, onde Ia Rejna entonces estaba». Cap. zxi. A 
Hist Compostelana chama-lhc Orsillon : «et genitrici suae Reginae 
Duae Urracae sanum et in columen in forti Castello Orzilione (quod 
castram est in Castella) restituit. Cap. 68. 



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324 

Pacto entre D. Realisado O pacto entre D. Urraca e D. Henrique, 
H^que! ^' que mais uma vez havia de ser ludibriado e con- 
trariado nas suas ambições, combinaram os dois 
o plano a seguir; a D. Henrique, prometteria a 
cunhada, ou faria mesmo doação de uma parte 
do reino; Herculano, contradictando a interpre- 
tação de Berganza, deduz de um documento do 
mosteiro de Arlanza *, que seria esse o premio do 
auxilio das suas armas, e a realisaçao do seu so- 
nho, mais modesto *. Ter-lhe-ia sido dada também 
a supremacia do commando, não só porque isso 
lhe pertencia quasi de direito, dado o seu paren- 
tesco com a rainha e a sua hierarchia real, mas 
fora essa uma das promessas feitas pelos barões de 
Castella e Galliza, para o attrahir. 

Manteria elle, no fundo, a ambição de aproveitar 
a primeira opportunidade para se tomar senhor 
da situação, e pôr de parte D. Urraca? Tudo era 
possível ; entre os dois fazia-se um jogo arteiro, a 
ver quem conseguia illudir o outro, depois de lhe 
haver tirado todo o proveito de momento. 

Mas no ponto da narrativa em que chegámos, 
vemos cada qual trabalhando na obra commum. 

^ •Eegnante Urraca in regno fotris sui et eomiU, • . dric una pa- 
riler eum ea». Btrganza. Asteqobd, torno ii, pag. 11. 

2 «As palavras «cí. . . comité dric unapariler eum ea» do primeiro 
documento attrabiram a attençSo de Berganza, que completa a stI- 
laba dric, imaginando que ali se alludia a algum dos dois condes 
Rodrigo Munhoz ou Rodrigo de Lara; mas é absolutamente insó- 
lito ou antes impossivel que se dissesse que reinava D. Urraca jun- 
tamente com um d*aquelles dois condes subalternos, que não consta 
tivessem jamais pretensões de soberania, accrescendo que nos di- 
plomas d^aquelle tempo o nome de Rodrigo se escreve sempre Bo- 
dericus ou Hvderic. Nós nao podemos ver no documento senão um 
engano na leitura da primeira letra d*esse fragmento de palavra, e 
que se afigurou a Berganza um d por n, devendo ler-se . . ,nric 
(Enric, Henric). £m tal presupposto, alludir-se-ia ahi k ceesSo de 
uma parte da monarchia feita ao conde de Portugal para o separar 
do rei de Aragão, promessa revalidada por D. Urraca em Mouzon. 
D*e88e modo o documento de Arlanza confirmaria a narração do 
anonymo de Sahagun». A. Herculano. HièU de Portugal^ tomo i, 
nota vn. 



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325 

D. Affonso de Aragão, vencidos os gallegos em 
Viadangos, resolvera pôr cerco a Astorga, para 
onde D. Urraca passara, deixando o filho em Orsil- 
]on ; lima e outro tinham reforçado as suas hostes : 
D. Urraca, no intuito de obstar ás consequências 
da invasão estrangeira, e expulsal-a do paíz, D. 
Affonso na idéa de decidir definitivamente pelas ar- 
mas o seu pleito com a mulher. Os castelhanos 
tomaram a peito impedir a concentração das forças 
inimigas, que vinham de toda a parte, e principal- 
mente de Aragão ; as vantagens por elles adquiridas 
tornaram impossivel ao aragonez manter o cerco ; 
levantando-o, foi intei-nar-se no forte castello deD.Henriqaeeér- 
Penafiel, perto de Valhadolid, que o conde D. Hen- Si ^nílS?*'* 
rique se encarregou de cercar com o grosso do seu 
exercito, e composto de gente de pé e a cavallo, 
convenientemente reforçado ; ia com elle a rainha. 
Devia isto passar-se no verão de 1112. 

Prolongou-se o cerco porque o castello «la na-che(« d. The- 
tura lo fortifico». Aos arraiaes dos sitiadores che- '^"' 
gou D. Thereza, que dos seus dominios de Por- 
tugal fora ter com o marido, impaciente por com- 
partilhar das commoções e tirar partido da situação . 
creada pela alliança de D. Henrique com D. Urraca. 
Génio ambicioso, insoffrido e intrigante, não podia 
ser de bom agouro esta defrontação com sua irmã, 
n'aquelle foco de ambições e competência, onde 
cada um dos alliados buscava lograr o outro, ou 
tirar das circumstancias o melhor proveito. 

Ou porque começasse já a lavrar a desconfiança mtrigM e dii- 
no animo de D. Henrique, com respeito ás inten- ""* "' 
coes da cunhada, ou porque realmente as intrigas 
de D. Thereza, com aquelle «saber astuto e enge- 
nhoso», de que falia o anonymo de Sahagun, que 
a conheceu de perto, calassem no animo do ma- 
rido, convencendo-o de que devia exigir desde logo 
a partilha do reino, sendo de ingénuo o estar 



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326 

trabalhando, sem proveito, para os outros, as dis- 
senções começaram ; é pelo seu lado, D. Urraca, a 
quem se attribue emulações e ciúmes por ouvir 
aos portuguezes appellidar de rainha a irmã — «Io 
qual oyendo lareynamal le sabia» — , manisfestar- 
se-ia mais claramente no sentido dos seus reserva- 
dos propósitos. O caracter de D. Urraca, educada 
igualmente pelos processos da época, não sobrele- 
vava em excellencias o de D. Thereza. 
Levanu-Mocêr- Fiogiu ccdcr ; mas entabolou secretas nego- 
ciações com o marido. Levantando, o cerco de Pe- 
nafiel, encaminharam- se para Falência. Em Fa- 
lência se reuniram os árbitros que haviam de 
decidir da fallaz partilha do reino entre D. Henri- 
que e D. Urraca, que não queria antecipar o rom- 
pimento emquanto não renovasse com segurança 
o accordo com o marido. Isto dar-se-ia durante o 
outono de 1112. 
Partilha do rei- Seguudo O foral dc Auka, passado por Diogo 
?aca°?^D.Heí-Vermudez, em nome do conde D. Henrique e de 
rique. j^ Thcrcza, aquella partilha ter-se-ia tomado 

mesmo um facto *. O castello de Ceia foi entregue 
ao conde portuguez ; e segundo todas as probabili- 



^ «En esta Academia (Real Academia de la Historia de Madrid) 
existe una copia simples, escrita en pergamino, letra dei siglo xni, 
de los fueros dados á la ciudad de Auka por el conde D. Enrique 
de Portugal 7 Dona Teresa, sn muger. Este documento, que do 
tiene fecha, j cuja autenticidad no debemos examinar ahora, em- 
pieza con una reseâa dei estado laBtimoso de los reinos de Ca8til)a 
7 de Leon en tiempos de la reina Dona Urraca, con motivo de las 
desavenencias que tuvo con el rey D. Alfonso el Batallador, sn ma- 
rido. La reina consulto á sus condes qué deberia hacer en aquellas 
circunstancias, y la dijeron que se uniese con el conde D. Enrique, 
su cunado, y dividiese con el su reino : «Bene videmus nos ut de 
mandetis et iuntetis uos comité Henrico uro. cognato et defendatis 
cum illo urm. regnum et diuidatis cum illo per médium. Et ita fa- 
ctum fait et diviserunt. Et seeidit is ta patriam (Auka) ad comes 
Henricus in sua parti cipatione. Et dedit comes Uenricus ista terra 
a Didago Uermudez, qui fuit nepos de sénior Didago Alvares, qui 
deuenit suo uasallo» LiOS habitantes de esta tierra se presentaron 
á Diego Vermudez y á su muger Sancha Gomez, «qui se debant in 



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827 

dades, que recebem alguma luz no pacto realisado 
depois entre D. Urraca e D. Thereza, os domínios 
adstrictos a D. Henrique seriam os que compre- 
hendiam Valladolid, Zamora, Toro e Salamanca. 

D. Urraca, porém, tinha armado o seu plano puno traiçoeiro 
para se sair da difficuldade em que a collocava o 
cumprimento do seu pacto, obrigada pelas circum- 
stancias; ao passo que fingia cumprir essa obriga- 
ção moral, urdia o trama que havia de impedir a 
posse do que fingira ceder. Foi assim que reco- 
lhendo com sua irmã para Leão, e depois para 
Sahagun, aqui deixou no convento D. Thereza, 
preparando-lhe uma cilada; auctorisou D. Henri- 
que a tomar Zamora e a sonhorear-se d'ella, ao 
mesmo tempo que ás tropas da sua confiança, que 
lhe dera a pretexto de o auxiliarem na empresa, 
ordenava que lh'a não entregassem ; o castello de 
Palencia punha-o á disposição de Affonso de Ara- 
gão, do mesmo modo que Sahagun, onde fora fa- 
zer propaganda a favor do marido com vistas na 
prisão de D. Thereza! O aragonez entrou n'esta 
cidade, subitamente ; a condessa de Portugal con- pog« d. There- 
seguiu lugir do convento, onde a traição da imia 
a deixara a fim de cair nas mãos de Affonso, que 
lhe não reservaria sorte invejável. Vendo que a 
presa se lhe escapava, o aragonez mandou tropas 
no seu encalço, mas em vão ; a condessa de Portu- 

Castello alba. £t petierunt ad illos mercedem atque consilium, ut 
qui facerent de ae populatione ciuitate Okensis unde rememorati 
sunt : at illi responderunt : uoluntas nra est, ut populetis eam cuin 
Dei adiutorio et misericórdia Saluatoris et ad saluatione et impe- 
riam comes Henricus, eenior noster, cum fueros suos antiquos, sicut 
legimas sup. que antecessores nostros coníirmauerunt atque sobo- 
raueruDt per términos suos. Ego enim Henricus et uxor mea Tara- 
sia facimus nobis bane kartam cum consilio de Didago Uermudez 
et nxor sua Saneia cum Dei adiutorio ut populetis ea cum istos 
fueros». Biguen á continuacion y conduyen sin poner la fecha, con 
las maldiciones de costumbre ai que violare 6 infringiere esta 
carta». Coleccion de Fueros y Cartas Pueblas de Espaha par la Real 
Academia de la Historia de Madrid, Catalogo. 1852. 



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328 

gal conseguira pôr-se a salvo, sem perigo, indo 
naturalmente ter com o marido. 
Ligam s* de no- D. Urraca e Affonso de Aragão, reconciliados 
o mvidíf**'* ** novamente, d'esta vez pelo receio do incremento 
que iam tomando as pretenções do conde de Por- 
tugal, reuniram-se em Leão, e d'aqui recollieram-se 
em Carriôn. Nem todos os partidários da rainha, 
porém, approvaram o seu procedimento; duas 
facções se formaram entre elles: uns continua- 
ram sendo fieis á sua antiga, comquanto dúplice 
e leviana, senhora; outros declaram-se-lhe contrá- 
rios, e naturalmente se ligaram com o conde D. 
Henrique; este, com os seus, e condjuvado pelos 
D. Henrique p5e novos adcptos dc occasião, foi pôr cerco a Carrion 
ífoT * ^*''para se vingar dos ludíbrios e das aíírontas a que 
a doblez da cunhada o sujeitara ^ Os laços que o 
uniam, porém, aos seus auxiliares adventicios, leo- 
nezes e castelhanos, não podiam ser duradouros; 
cada uma das parcialidades representava interes- 
ses diversos que o conde de Portugal nao lograva 
conciliar. Alem de que, para que servia aos cas- 
telhanos e leonezes combater a união da rainha 
com o marido, que podia ser filha de um novo ca- 
pricho, e que naturalmente se romperia amanha, 
como as intermittentes uniões anteriores*? e com- 
bater a rainha, auxiliando as ambições do conde 
D. Henrique, não era faltar a todos os interesses 
tradicionaes, visto que a filha de AíFonso VI, unida 
ou não com o marido, representava a politica da 
integridade do império? 



* «En aquel tiempo el conde Enrique, é todos Nobles cercaron 
ai Rey é a la Reyna dentro de Carrion, habiendo gran ira por el 
juramento aue la Reyna con el dicho Conde habia hccho, é des- 
pues de queorantado». Anonymos de JSahagun, cnp. xxiii. 

2 «Mas considerando la giRu improvidad dei Rey, que le parecia 
tener por certo, que antes dc mucbos dias se arrepentiria la Keyna 
dei segundo matrimonio, mayormente que la teniam asi como á na- 
tural Keyna, por tanto la descercaron». Ibid. 



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329 

A âlliança de elementos tao heterogéneos desfez- 
se; o cerco não se manteve. Porque forma teria 
concorrido para isso a astúcia e a diplomacia de 
D. Urraca? E natural que tivessem contribuído 
em muito. 

D. Henrique teria recolhido aos seus dominios; Recolhe a Porta- 
e se 08 documentos não fossem tão omissos com *^*^' 
relação aos factos do ultimo anno da sua vida, 
vel-o-iamos. decerto continuar no seu systema de 
pender ora para um lado ora para outro, nas luctas 
politicas que continuavam dividindo o reino de 
Leão e Castella, não abandonando nunca o seu 
sonho de engrandecimento dos seus dominios. Ao 
sul eram deixados em paz, no entretanto, os sar^ 
racenos. Ainda assim, das poucas informações que 
se respigam n'esta ou n'aquella fonte, se sabe que, 
ao dar-se novo rompimento entre D. Urraca e seu 
marido, situação que duraria de janeiro a agosto 
de 1113, o conde de Portugal se ligava de novo 
com a cunhada; e que, ao voltarem a congraçar- 
se os dois esposos, por imposição dos povos e da 
nobreza das diversas terras de Leão e Castella, 
cujos representantes se reuniram para esse finí em Morro em A>t<rr- 
Sahagun, n'um dos primeiros mezes de 1114*, D. ^** 
Henrique se conservou ligado á rainha, e em As- 
torga moiTeu, estando ali na companhia dos dois 
esposos, sujeito, ao que parece, ao novo estado de 
cousas, pela impossibilidade de luctar vantajosa- 
mente, ou á espera de uma opportunidade que a 
morte não deixou aproveitar. Foi a 1 de maio 
d'aquelle anno este fúnebre acontecimento ^ ; tinha 
o conde cincoenta e sete annos de idade ^. 

Por morte do marido foi lá ter D. Thereza, que 



1 AnonymoH de Sahagun^ cap. xzix. 

2 ^ra ÍÍSI, CaUnd. Maii ohiit Comes D. Henricus, Chbon. Lusit. 
^ Hercalaoo. Nota vii da Hist, de Portugal, tomo i. 



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330 

«con Ia reyna su hermana, é con el-rei gran com- 
petência armaba»*, Vê-se que estava resolvida a 
continuar a lucta que o mando sustentara com 
tanta energia, mas com tao pouco êxito, bobre 
o cadáver doeste, ainda quente, começaram as re- 
fregas, por emquanto de palavras. De outras armas 
lançaria mão a ambiciosa e astuta princeza, que 
já se assignava rainha de Portugal, — e até das 
armas dos seus vassallos e alliados — , para obter 
partilha no legado realengo de seu pae. 

Veremos como ella se houve em tão difficil con- 
junctura, abandonada agora aos seus próprios re- 
cursos, sem o auxilio de uma cabeça viril e de um 
pulso forte, que podesse aguentar os embates da 
guerra, e tendo nos braços um filho de dois a três 
annos ^, herdeiro dos seus doudnios, alem de duas 
filhas mais velhas, D. Urraca e D. Elvira ^. 
HiMfto de D. Morria D. Henrique sem haver realisado o seu 
sonho de ouro do engrandecimento do seu con- 
dado com a partilha do reino; mas em com- 
pensação deixava consolidada e perfeitamente 
accentuada a individualidade de Portugal, que 
debaixo do seu governo foi sempre contado como 
elemento preponderante e entidade á parte, e com 
existência e forças próprias. Não alargara para o 
sul os seus domínios, pouca importância tendo, 
por esse facto, o seu papel no movimento da re- 
conquista, porque de todo o absorvia a idéa de 
liquidar primeiro a questão da herança do reino, 
para em seguida se occupar de novas conquistas; 

* Anonymos de Sáhagunj cap. xxix. 

^Mv2. 1166 (anno 1118).. . Siquidem mortuo patre 8Q0 Comité 
Domino Henrico, cum ad huc ipse pner esset daornm aat triam 
annorom. . , Chron. Lusit. 

3 nHahuit ttiam (AdephoDSUs vi) duas concubinas, tamen nobiUs- 
slmas, priorem Xemenam Munionis, ex qua gtnuit Goloiramj uxortm 
Comitis Raimundi Tolosani, Patris ex ta Adcfonsi Jordani», d Ta- 
rasiam vxorem Henrici Comitis, Patris ex ca Urracae Gdoirae et 
Adefonsia. Pxilato. Obbtbhbe. 14. 



llenriqne. 



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331 

mas também, depois da perda da base de opera* 
ções do Tejo perante o poder dos almorávidas, 
soubera fazer respeitar o seu território, mantendo 
como fronteira o Mondego. Deu provas de sua 
grande ambição, e para a realisar mudou de par- 
tido tantas vezes quantas se lhe offereceu en- 
sejo. Mas era isso considerado de boa politica; 
fazia o mesmo que os outros em iguaes circums- 
tancias e o que a politica ainda hoje aconselha 
que se faça, arvorando como lemma o principio 
de que todos os meios são bons para se alcançar 
um fim útil a que se aspira. Vira a necessidade 
de, assente a individualidade portugueza, crear o 
novo estado em condições de existência prospera 
e segura; antes d'esse estado se dilatar para o sul, 
o que natural e forçosamente viria a acontecer, 
entendia dever avançar mais para o coração da 
Feninsula, para que não ficasse reduzido a uma 
faixa costeira, sem elementos de acção no interior ; 
e para isso nos seus pactos reclamava a parte de 
Oastella que comprehendia as terras de Campos 
e Estremadura, onde três séculos depois Affonso V 
de Portugal buscava também os seus primeiros 
objectivos para a conquista da Hespanha. Os seus 
processos seriam tortuosos ; o seu plano era bem 
estudado, e com bases na geographia e na historia, 
que nos dão Braga como um centro intellectual- e 
politico de toda a região onde Salamanca. Toro, Za- 
mora e Valladolid erguiam no espaço os vultos 
graves dos seus castellos. 

Morreu D. Henrique sem poder cumprir a mis -Direito á grati- 

i« • • • dfto dos porta- 

sao que a si próprio se impozera; mas nem por gaeses. 
isso lhe devem ser menos gratos os portuguezes, 
cujos sentimentos de independência e autonomia, 
e cujas aspirações fidalgas elle comprehendeu, 
deixando-as superiormente affirmadas na historia 
da Hespanha. 



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CAPITULO IV 
O governo de D. Thereza 



ABiDO é, e a historia o comprova, 
que lia mulheres que na lucta e no inerg 
esforço pelo vencimento de uma 
causa a que do coração se dedi- 
cam valem por muitos homens; 
apparecem em todos os tempos; 
mas na historia da idade media 
em Hespanha, desde Ingunda, cuja 
tenacidade de crença tanto con- 
tribuiu para a christiani sacão da 
Peninsula, até Izabel a Catholica, 
cuja energia no governo unificou 
o império hespanhol, ha exemplos 
de sobra a confirmar esta verdade. 
D. Thereza de Portugal era 
d'essa raça. Tanto ella como a 
irmã D. Urraca tinham no cara- 
cter a tempera do pae. Eneroria e 
ambição eram os traços mais pronunciados da sua 
individualidade. A escola politica da época tinha- 
Ihe ensinado os processos de vencer: quando fal- 
tasse a força, empregava-se a astúcia. Nenhuma 
arma era vedada; todos os processos se tornavam 
bons, comtanto que se alcançasse o fim. 

21 



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334 

D. Thereza con- Esse fim para a condessa de Portugal, que já en- 
LwidS.*^**'^*'**' tre os seus tinha o tratamento de rainha, era realisar 
a obra que seu marido pertinazmente trabalhava, 
embora sem grande êxito, por tornar viável, tendo 
deixado estabelecido o programma e indicado o 
caminho. 

O fim era consolidar a unidade politica que se 
iniciara com a creação do condado portucalense, 
augmentar-lhe os dominios, e convertel-o de facto 
n'um reino independente e autónomo. 

O conde D. Henrique, decerto solidário n'esta 
ordem de idéas com a condessa sua mulher, dei- 
xaria mesmo indicados os limites doesse riovo es- 
tado: ás terras que constituiam o condado, e que 
se poderia dilatar para o sul pela conquista em 
terras musulmanas, seriam accrescentadas, para 
o oriente, as actuaes provindas de Zamora, Toro, 
Valhadolid e Salamanca (Campos e Extremaduras); 
essas seriam as clausulas sobre as quaes assenta- 
riam os tratados estabelecidos ora com o rei de 
Aragão, ora com D, Urraca, consoante de um ou 
outro lado estavam as esperanças da partilha. 

D. Henrique morrera na própria sede dos reis, 
onde habitava, não como competidor, mas como 
vassallo obediente, embora n'uma categoria e si- 
tuação especiaes. 
Enrcdoí e intri- D. Urraca c o marido estavam n'um dos seus 
parentheses de reconciliação. D. Thereza apparecia 
ali, em seguida á morte do marido, e o seu «saber 
astuto e engenhoso» conseguia Ioga enredar os es- 
piritos e desmanchar a ficticia architectura daquel- 
las pazes conjugaes*. 

* «Muerto el conde Enrique, Doiia Teresa alia se fué, é con la 
Reyna su hermana é con el Rey gran competência armaba : consi- 
derando que para se rebelar la fortuna no ie abastava, con un sa- 
ber astuto e ingenioso envio ai Rey un mensagero confeccionado 
para que se guardasse de la Reyna su hermana, porque se dispo- 
nia a querelo matar con yerbas». Anonymos de Sáhagun, cap. xxix. 



g*». 



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335 

Começara por ter questões com a irmã, natural- 
mente por causa das partilhas, e nada tendo con- 
seguido por esse meio, lançara mão da intriga e 
denunciara D. Urraca ao marido como tendo que- 
rido dar-lhe a morte por meio da peçonha, re- 
velando assim um facto tido na opinião como 
certo, pois é referido por um escriptor contempo- 
râneo, ou inventando essa calumnia. D. Thereza 
conseguia o seu fim e estabelecia a discórdia, 
promovendo a separação violenta entre D. AfFonso 
de Aragão e D. Urraca : aquelle accusava publica- 
mente a mulher de criminosa traição, e esta, pro- 
testando, affirmava a sua innocencia e appellava 
para o juizo de Deus na prova do combate. 

Vimos já como esta maneira de justificação, ouojmsodoDeM. 
de se dei'imir um pleito era da tradição visigothica, bati!*''* 
adoptada provavelmente dos francos ; essas pro- 
vas consistiam na da agua a ferver, na do ferro 
em braza, na prova do combate, quando alguém 
era accusado por outro de um facto grave, tal 
como o homicidio, a traição, etc, ou quando dois 
partidos queriam resolver uma contenda. Em al- 
guns foraes antigos apparecem especificados os 
casos que, na respectiva localidade, podiam ser su- 
jeitos á prova do combate para se reconhecer a jus- 
tiça ou injustiça da accusacão ou da querela. 

Dos visigodos passaram para os seus descen- 
dentes peninsulares, e em Portugal duraram até 
el-rei D. Diniz, que a prohibiu em 1318 sob pena 
de morte, que no logar onde o rei estivesse, ou 
duas léguas em redor, qualquer fidalgo desafiasse 
ou mandasse desafiar outro. Nas Ordoiações Affbnsi' 
nas (tit. 64 do liv. i) é prohibida a prova do duelo, 
a não ser em caso de traição contra a pessoa real. 

N'esses tempos semi-barbaros a intervenção de 
Deus, nos pleitos em que a verdade se não podia 
apurai' por outra forma, era tida como um tes- 



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336 

teinunho absoluto a favor da innocencia e da ver- 
dade ; negar fosse a quem fosse essa maneira de 
se justificar, collocando-se sob a protecção divina, 
representava uma das maiores violências á cons- 
ciência e á fé. Essa violência commetteu-a Affonso 
de Aragão recusando á rainha a prova do combate 
a que appellara. A isso se attribue a declarada op- 
posição que encontrou, até entre os aragonezes que 
tinham voz por elle nas fortalezas de Castella e 
Leão, e o haverem-se passado para a rainha aquel- 
les que até então o haviam acompanhado.. 

Animadversôes Essa mauifestaçSo de hostilidade tomou o cara- 
fonso de Ar», ctcr út uma verdadeira imposição da parte das 
**^' diversas cidades e dos cavalleiros que se lhes reu- 

niram em Sahagun, os quaes exigiram do arago- 
nez o respeito aos seus antigos compromisisos e o 
levaram a pedir tréguas e a voltar descoraçoado 
para as suas terras. Burgos abandonara o partido 
de D. Affonso. Leão, guardada por aragonezes, 
recebia dentro dos seus muros a rainha ultrajada, 
e «por D. Urraca ! » era o grito que se ouvia agora 
em toda a parte. 

E que o homem, mixto de sentimentos egoistas 
e generosos, de defeitos e de virtudes, foi sempre o 
mesmo em todos os tempos ; tem mudado apenas de 
forma exterior, como tem mudado de traje. 

congraçam-seat D. Tlicrcza de Portugal, que se inimizara com a 

duas irmãs. • -vj • ^i• • ^ . i« j» 

n*ma, de cujas ultimas violentas discórdias cora o 
marido fora a causadora, e que abraçara o partido 
do aragonez, via-se agora n'uma situação difficil e 
melindrosa. Astuta e sagaz, tomou o alvitre de se 
congraçar com D. Urraca, affectando sujeitar-sc á 
sua situação de vassalla. 
inflaencfas ec- Hcrculauo faz iutcrvir n'este ponto a figura de 
dois prelados, o bispo de Compostella Gelmires, e 
o metropolitano bracharense Maurício Bordino, e 
no labyrinto das informações da época descor- 



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337 



tina um tenuo fio que o leva ao que elle suppõe po- 
der ser a causa da approxlmaçao das duas irmãs e 
da paz que sobre esses fundamentos se assentou, 
não só no que respeita á politica do estado, mas á 
politica da Igreja *. 

O arcebispo Maurício, metropolitano da Galliza, 
no desejo de prover a diocese do Porto, que desde 
08 tempos do conde D. Henrique, e antes ainda, 
desde Fernando Magno, permanecia vaga, e na idéa 
de resolver a questão ecclesiastica de Portugal, 
onde quasi todas as dioceses estavam sem bispo, e 
onde lavravam dissenções, fora procurar para o ^ 
provimento da diocese do Porto um tal Hugo, fran- 
cez, arcediago de Compostella, creatura e amigo 
intimo de Gelmires ; e acompanhou esse propósito 
com todas as demonstrações do seu interesse e so- 
licitude. Era Maurício um prelado hábil, dotado de 
grandes faculdades de intelligencia e de energia, 
que o levaram ao throno pontifício, embora em con- 
dições extraordinárias e singulares, que breve pro- 
moveram a sua queda. 

Hugo era sagrado bispo nas proximidades da 
morte de D. Henríque; nesta época sô relacionara 

^ D. Maurício Bordino foi arcebispo de Braga pelos annos de 
1110 a 1119; era franccz de nação e monge de Cluui ; de arcediago 
de Toledo foi feito bispo de Coimbra e d'aqui passou para a sede 
provincial de Braga, em 1110. Das boas relações e influencia que 
tinha no arcebispo de Compostella dâo prova o haver conseguido 
que este desse á igreja de Braga em feudo as possessões que ali 
tinha a igreja de Compostella, e o haver livrado o seu arcebispado 
de vários tributos que pagava ao de Compostella. De D. Thereza 
obteve uma doaçilo a Santa Maria da Sé e confirmação da que já 
lhe tinha feito seu bisavô, D. AlFonso V de Leão. Também conse- 
guiu que os bispos de Coimbra reconhecessem por seus metropoli- 
tanos aos arcebispos de Braga. 

Foi muito ambicioso ; pretendeu a sede de Toledo, e mais tarde 
consentiu ser acclamado papa, com o nome de Gregório VIII, me- 
diante as boas graças de Henrique V, exercendo três annos o pon- 
tificado. Callixto V, reconhecido como verdadeiro pontifice, man- 
dou-o prender e desterrou-o para França, onde falleceu encerrado 
n'um mosteiro. —Vide Mofi. Lusit, parte iii e Memorias de Braga, 
por B. J. de Senna Freitas, tomo iv. 



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338 

Gelmires com D. Thereza, com quem mantinha 
«relações estreitas e ás vezes mysteriosas*)). 

bispo de Compostella era o centro da acção 
em volta do qual se reuniam os elementos políti- 
cos que tinham por divisa a legitimidade dos direi- 
tos do neto de Affonso VI ao tlirono independente 
da Galliza ; como tal não podia deixar de ter grande 
influencia no animo de 1). Urraca, agora de novo 
voltada á causa do filho, visto ter-se novamente 
malquistado com o marido. 

Dadas as hostilidades com Portugal, as difficul- 
dades de ordem ecclesiastica cresciam e Gelmires 
viria n'ellas envolvida a situação do seu intimo 
amigo o bispo do Porto. 

Tratou portanto de reconciliar 1). Thereza com 
* a irmã, que n aquellas alturas nào aspiraria a 
outra cousa. Não podia haver melhor intermediário. 
Habilmente a infanta de Portugal teria aproveitado 
esse auxilio e esse ensejo para se approxiniar da ir- 
mã ; esta ter-se-ia sujeitado, não só pela influencia 
do bispo, mas porque a lucta com Portugal, que em 
Gelmires podia encontrar auxilio, complicaria a 
situação do reino. Cada qual fazia o seu jogo, e 
neste a condessa de Portugal tinha de ter o melhor 
quinhão ; a sua hábil politica ia preparando o gran- 
de facto da emancipação portugueza. 
siibmisi&o de As demonstrações de submissão á irmã não po- 
diam ter melhores apparencias de sinceridade: um 
anno depois da morte do marido, ella, que de ha 
muito o seu povo tratava pelo titulo de rainha, e 
que por morte do marido adoptara esse titulo offi- 
cialmente^, apresentava -se na qualidade de vassalla 
de I). Urraca, n'uma espécie de cortes ou concilio 

1 A. Ilercuiano. Hisi. de Port, liv. i. 

2 Doe. do Cartnlario de Refoios de Lima, em que depois da data 
vem : Imperante Portugalis Begine Taresie, Kopke. Apont. Archeol; 
cit. por Herculano. 



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339 

reunido em Oviedo, capital das Astúrias, assignan- 
do-se infanta^ em seguida a sua irmã D. Elvira *, 
conjunctamente com o seu filho e filhas, e decla- 
rando-se sujeitos á rainha^. Ao mesmo tempo, a 
essas cortes ou concilio não assistiam, como suc- 
cedia com as outras províncias, os prelados e no- 
bres portuguezes, nem D. Thereza. se assignava, 
como sua irmã D. Elvira, em nome dos seus súb- 
ditos, mas apenas no dos filhos, o que leva Her- 
culano a perguntar se não será mais uma prova 
«de que o espirito publico, ainda mais, se é possí- 
vel, do que os desejos dos príncipes, tendia ener- 
gicamente em Portugal á independência? » 

Igual diplomacia á da infanta portugueza não a Attuade do ws- 
teve o bispo de Compostella; sob a apparencia de ^ 
amizade e accordo com D. Urraca, surdos tramas 
ia urdindo no sentido de crear um forte partido e 
proclamar a independência do reino da Galliza na 
pessoa do infante AfFonso Raymundes. 

seu poder crescia dia a dia ; uma expedição 
maritima, que organisara para devastar as costas 
do Garbe como represália das depradações dos 
mouros nas costas da Galliza, concorrera para lhe 
augmentar o prestigio, comquanto não gosasse de 
grandes sympathias no povo. 

Por duas vezes já D. Urraca se dirigira á Gal- con«piraç«e«. 
liza com idéa de deitar a mão áquelle perigoso ini- 
migo; uma vez, em 1115, a energia de Gelmires, 
por um lado, e a intervenção dos nobres gallegos, 
por outro, conjuraram a porcella; mezes depois, 
tendo-se ligado Gelmires com o conde de Trava, 
Pedro Froylaz, continuando na propaganda surda 
a favor da independência da Galliza, houve novas 

1 Filha de D, Affonso VI e da rainha Izabcl, filha de Luiz, rei 
de França?. . . 

2 Doe. publicado por Sandoval, Cinco Beis, Aguirre. CoU. Max, 
ConciL, etc., cit. de Herculano. Hist. de PorL, liv. i. 



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340 

tentativas de prisão da parte de D. Urraca e resis- 
tência á mão armada dã parte dos coUigados, de- 
sistindo a rainha dos seus intentos. 
Lucta aberta en- Até que nos piimeiros mezes de 1116 á colliga- 
D^uíraJâr *çao agora abertamente manifestada oppõe U. Ur- 
raca o poder das suas armas, entrando em Galliza, 
obrigando Gelraires a render-se e o hesitante con- 
de de Trava a fugir, ficando apenas em campo 
Gomes Nunes, barão poderoso, a cuja voz muitos 
castellos continuaram resistindo, tendo arvorado o 
pendão de AfFonso Raimundes, e contra os quaes as 
tropas da* rainha se mostraram impotentes nos cer- 
cos que lhe pozeram, e que os obrigaram a divi- 
dir-se. 
D. Thcreza de- N^csta altura apparece-nos de novo em scena a 

clara'ie contra , «ii-rk 

airn*. mfauta OU antes a rainha de Portugal, porque de 
1116 é o primeiro documento em que Portugal fi- 
gura com o titulo de reino *. Tendo no anno ante- 
rior figurado em Oviedo como vassalla da irmã, 
vemol-a agora auxiliando pessoalmente com as 
suas tropas o partido de D. Pedro Froylaz, e 
aproveitar a dissiminação das forças reaes para as 
atacar e obrigar a levantar o cerco dos castellos 
que se conservavam fieis á causa de Affonso Ray 
mundes. 

D. Thereza aproveitava o descanso que do lado 
do sul lhe davam os sarracenos entretidos ora 
com dissenções intimas, ora com as diversões nas 
costas da Galliza, onde levavam o desforço dos 
ataques e devastações dos gallegos nas suas costas, 
para se metter nas aventuras das guerras civis de 
alem-Minho. 

D. Urraca viu-se envolvida pelas tropas colUga- 
das de gallegos e portuguezes. 



1 Carta de Couto de Osseloa feita a Gonsaio Eriz em 1116. Dis. 
ChronoLj tom© i, pag. 2á5 



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341 

Dadas as suas ligações com o bispo de Compos- 
tella, que apesar de derrotado não desanimava, 
continuando a ser a alma do movimento revolucio- 
nário, não era para estranhar que a infanta portu- 
gueza tirasse a mascara e fizesse pesar no prato da 
balança a sua ambição e o seu interesse. 

Estava D. Urraca no assedio do castello de Su- Assedio do ca». 

1 j . jivjI 1 tello de Sabe- 

beroso quando se viu cercada pelas hostes luzo-gal- roso porponu- 
legas. Do encontro que d'ahi naturalmente resultou Sio*!' * *^* ' 
não ficou noticia, ignorando-se se a rainha teria 
batido os adversários ou se unicamente teria con- 
seguido illudir o cerco e retirar-se a salvo para 
Compostella. Herculano opta pela derrota de 
D. Thereza e do conde de Trava, pelo facto de 
D. Urraca ter abandonado a Galliza, onde fora no 
propósito de castigar os inimigos. Mas, notando em 
que, apesar do partido que a favor da rainha e con- 
tra o bispo se formara entre os burguezes de Com- 
postella, a rainha deixara Gelmires em paz, e em 
que I). Thereza recebeu dos seus alliados da Gal-D. Thereza ad- 

T j • 1 • qulre Tuy e 

liza a recompensa dos seus serviços vendo accresci- orense. 
dos os seus dominios para o norte com os distric- 
ctos de Tuy e de Orense, o que não nos parece que 
acontecesse se houvessem sido mal succedidos, 
damos mais pela opinião de ter sido batida a rai- 
nha, ou pelo menos obrigada a fugir, o que tem a 
auctorisar a informação da llisfoina Compostelíana 
que diz; — sed regina ascito cxercitu suo evasit, et 
reversa est Cotnpostellaiu^. Alem de que, D. Urraca 
não se poderia reputar muito segura desde o mo- 
mento que o conde de Trava, com os seus filhos, 
e os qve o auxiliavam, evidentemente portuguezes, 
avançara sobre Compostella entre saques e morti- 
cínios. 



Hist. Compostel., liv. i, cap. cxi. 



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34^ 

Amores com D. Mas neiTi só iim accrescimo do seu estado trazia 
Trava" " **D. -Thereza do regresso da sua expedição da Gal- 
Hza; d'ahi traria também no peito a sua paixão, 
que se tornou tào violenta e tão funesta, por Fer- 
nando de Trava, um dos filhos do conde Pedro Froy- 
laz, escudeiro-mór do reino da Galliza * e compa- 
nheiro da condessa nos arraiaes bellicosos. 

Recoiicihaçôca. O bispo dc Compostclhi, que via no conde de 
Trava um rival capaz de lhe fazer sombra, e que 
sentia em volta de si a hostilidade da opinião, 
tratou de se reconciliar com a rainha ; d'essa recon- 
ciliação participaria 1). Thereza, que a ii-mã deixa 
em paz nos seus dominios, agora augmenta. 

Ao mesmo tempo surgiram novas preoccupações; 
para I). Urraca as correrias dos aragonezes nas 
terras de Leão e Castella, ás quaes o marido não 
renunciava de modo nenhum ; para D. Thereza as 
avançadas dos musulmanos que do Oriente vinham 
trazendo as suas gazivas até ás terras da Lusi- 
tânia. 

D. Affonao con- D. AíFouso dc Aragão, obrigado a deixar oster- 

tra o8 ransul* •. • i ^^ t, . 

manos no Ara- ritorios dc sua mullicr, voltara para os seus esta- 
dos, e ali o seu animo guerreiro levara-o a com- 
bater novamente os árabes, apoderarando-se desde 
logo de Tudella e pondo cerco a Saragoça, que o 
vali de Granada Abu Mohamede Abdalá conseguiu 
levantar no anno seguinte (1116). 



* A 25 de dezembro de 1110 o bispo Gelmiros para commemorar 
o eoiigraçameuto dos dois partidos, numa das muitas vezes em que 
a rainlia, ao ver-se em turras com o marido, se approximára do 
fiUio, deu era Compostclla um baiKiuete no sou paço episcopal, as- 
sistindo a cUe o joven rei, todos os ricos homens da Galliza; «'csti- 
banquete o conde D. Pedro de Trava serviu ao rei de dapifero (trin- 
chante ou veador) e o seu filho D. Fernando de alferes : Deinde 
missa €x more solemniter celebrala, regem novum dcduccU adpalatiuni 
suum, episcopits omnes Galaetiae próceres invitarit coinvium, in qun 
darissimus Comes Petrus, regnis dapifer extetit, ejusque fívdtricvs 
cli/peum et frameam regalís offertorius . . . Hisx. Couposiel.) liv. i, 
cap. cxvi. 



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343 

N^esse mesmo anno o vali de Ce 
Texufin, aproveitando o desfalqu 
das praças portuguezas pela exp 
paiz pela linha do Mondego, toma^ 
grande mortandade o castello de 
Doessa\ assenhora va-se do forti 
Santa Eulália, perto de Montem ói 
de Soure para evitar o assalto, 
legar, fugindo para Coimbra", e 
cidade desprovida das suas guai 
fronteira ^ 

Teria D. Thereza regressado r 
Galliza'*, ou já estaria em Pori 
d'esta investida? 

Texufin fora preparar o terre 
rada era como que a guarda av 
cito que no anno seguinte havia 
mais decisivo. Esse golpe vinh; 
mente. Ali, filho e successor de 
haviam chegado as noticias da 
quiridas pelas armas aragoneza 
musulmanos ao oriente da Peni 
mente nos districtos de Lerida 
noticia também, certamente, daí 
agitavam o antigo império de A" 
vidido agora, buscou aproveitar 
forte acção das suas armas. Atac 



1 Era MCLiv. Castellum de Miranda a Sa 
magna cedes, et captivitas in christianis f 
Lttsit. 

2 Era MCLiv. Nonis julii eaptum fiiit Cast 
raceuis, qnod est situm sub Monte inaiore, 
cus coguomento Gallina, et magna captivi 
translata eat etiam ultra maré. Chronicon Li 

3 Afon. LtisiLy parte in, liv. ix, cap. vii. 
Santa Cruz de Coimbra. 

4 «Permaneció dona Teresa en Galicia 
con que los sarracenos amenazaban las fron 
obJigaron a regressar a Portugal para aci 
fuente. Hist. de Esp., tomo i, liv. ii, cap. iv. 



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344 

multaneamente Portugal, cujas veleidades de au- 
tonomia provariam a dureza das suas represálias. 
Emquanto seu irmão Tei^ain, auxiliado pelos valis 
de Córdova e de Valência, atacava Aragão, elle 
entrava na Lusitânia com um numeroso exercito, 
que a Chronica Lusitana no seu exaggero diz ser 
tão sem conto como as arei^-s do mar, — sicut arena 
maris. 

Awedio da ci- Coimbra, desapoiada dos castellos que a cingiam 
dade de coim- ^^^^ quc n'um avançado cinto protector, recebtíu 
de frente o choque, tendo dentro dos seus muros 
D. Thereza, que nelles se acolhera em junho de 
1117 ; o assedio terrivel durou vinte dias; a praça 
oppoz uma heróica resistência ás violentas investi- 
das dos mouros, que acabaram por desistir. Legoas 
em derredor ficou reinando por muitos annos a de- 
solação e a ruina *. 

Com este pouco se contentou, ou algum motivo 
de força maior o obrigou a regressar á Africa, 
sem procurar sequer soccorrer Temin e os seus al- 
liados, batidos pelo aragonez, nem tentar ataque a 
qualquer praça do occidente, aproveitando do ter- 
ror que teria produzido a devastação do districto 
de Coimbra. 

D. Urraca na Valcuse d'estas circumstancias D. Urraca, para 
A?ígao.* ^ acabar com as tentativas dos aragonezes contra os 
seus estados; agora que os absorviam as luctas 
com os almorávidas, resolveu marchar para a fron- 
teira de Aragão com uma hoste numerosa composta 

* nuSiJra 1155, Rex san-acenorum Hali Iheitjueeph vetiiens de vkra 
inare eum multo exercitUy qui erat circa maré, quomm numertt8 trai 
innumerabilis sicut arena maris j soli Deo íanium cognitus erat. Ohsedit 
aulem Colimbriam viginti diebus quotidie fortiier in totó extraiu 
oppugnans eam^ sed per vóluntatem Dei non potuit nocere^ et Civitas 
illaesa remansit et inliahitantes in ea». Cubon. Lusit. ou Goth.— «boc 
in anoo multis hominum milHbus amissis, subúrbio etiã Colimbriae 
cremato intra muros civitatis Regiuam vix yiiam servasse. . .» Carta 
do cardeal Bernardo, Legado Apostólico, ao Papa Pascoal II. Lir. 
da Sé de Coimbra. Mon. Lusit,, parte iii, liv. ix, cap. tu. 



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345 

de castellianos, leonezes, asturos e gallegos ; portu- 
guezés não figuravam n'ella, pois tinham em casa 
luctase preoccupaçôes qtie os prendiam. 

Mas se D. Thereza não* podia tomar parte n'esta 
contenda, estimava decerto que ella arredasse de 
sobre os seus dominios o perigo de quaesquer hos- 
tilidades. Sua irmã não poderia ter esquecido o 
auxilio que ella prestara aos seus adversários e 
muito menos o accrescimo do seu estado sem sua 
auctorisação, o que correspondia a desmentir a si- 
tuação de vassalla que publicamente fora affirmada 
nas cortes ou concilio de Oviedo. 

Foram realmente uns annos de socego que du- portugai dea- 
raram de 1117 a 1120. O aragonez chamava por ''*°^*' 
um lado a attenção de D. Urraca, que não desistia 
das hostilidades, e por outra a attenção dos mu- 
sulmanos de áquem e d'alem Estreito; porque estes 
viam sem resultado as fortes expedições que envia- 
vam á Peninsula, aquelles iam successivamente 
perdendo territórios e praças importantes, como 
Saragoça (1 118) e Catalayud (1 120). 

D. Affonso I de Aragão, que nas suas pretenções Prôcsa» de d. 
em Leão, Castella e Galliza não tinha grandes fei- gso?'** * 
tos a contar, nem grandes proveitos a fruir, illus- 
trava-se pelo contrario em Aragão por uma forma 
perdurável, em proezas que justamente lhe conquis- 
taram o titulo de Batalhado7\ Sobretudo depois 
que teve de abandonar as terras de sua mulher, 
sendo escorraçado de Burgos, é que elle via luzir 
mais brilhante a sua estrella nas campanhas da re- 
conquista. Em 1116 veiu em seu auxilio, com uma 
comitiva lustrosa e valente, Beltran de Tolosa, fi- 
lho de D. Elvira, irmã de D. Thereza, e do conde 
Rayniundo de S. Gil, primo do conde D. Henrique; 
era elle um cavalleiro esforçado que creara nome e 
fama na Terra Santa. A tomada de Saragoça aos 
musiilmanos foi o sonho dourado do rei aragonez, 



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346 

que n'esse anno de 1116, como vimos, lhe pozera 
cerco, sendo forçado a abandonal-o deante dos 
soccorros commandados por Abú Mohamede; mas 
o emir de Saragoça, temendo mais o almorávida 
do que o aragonez, ligou-se com este, e successivas 
victorias dos christaos sobre os africanos deram a 
I). Affonso ousío para, rompendo o pacto, exi- 
gir do seu antigo alliado a entrega da cidade. 
Diante da recusa formal, D. Affonso reunia seu 
forte exercito, em que figuraram numerosos fran- 
cezes, e depois de tomar Almodovar, Sariôena, 
Gurrea e outros povos, transpoz o Ebro e o Gál- 
lego, e foi por apertado cerco a Saragoça, que.se 
rendeu pela fome ; havia quatro séculos que nunca 
deixara de tremular sobre os seus adarves o cres- 
cente mourisco. Animado por esta importante con- 
quista, D. Affonso avançou com um forte exercito 
até ao Moncayo, occupou as margens do Ebro, to- 
mou Tarazona, Borja, Alagon, Mallen, Magallon, 
Epila e outros povos, e assenhoreou-se de Cata- 
layud, de um alto valor estratégico, por ser fron- 
teira de Castella; com este lhe vieram á mâo ou- 
tros pontos importantes (1120). O almorávida 
Terain buscara tomar-lhe o passo com um forte 
exercito; Affonso infligia-lhe uma formidável der- 
rota em Cutanda, perto de Daroca, e esta victoria 
era tao decisiva para o prestigio e gloria das ar- 
mas aragonezas, que se atrevia a fazel-as passear 
triumphantes alem dos Pyrinéus, pela Gasconha, 
e pelos emirados de Valência e da Andaluzia *. 
Ali nao veiu a Refcrc-sc Herculano a uma versão árabe, que 
n°íio" oSpiniõ^S dá em 1120 os almora vidas ás portas do condado 
líoiai.* ^ *portuguez, tomando Ali a cidade de Lisboa. Mas a 
verdade é que nem os monumentos christaos, nem os 
árabes se referem a tal facto. Cartaz (Assaleh) dá 

^ Lafuente. Hist. de Esparia, tomo i, Uv. n, cap. iy. 



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347 

Ali em Hespauha em 1120, e Holal, que o nosso 
amigo o Sr. David Lopes tenciona publicar tradu- 
zido, coUoca essa vinda em 1121, mas para apazi- 
guar uma revolta ; depois do que, tendo noticia do 
Mahdi se ter levantado em Marrocos passou im- 
mediatamente o Estreito. Segundo Cartaz, que 
Conde traduz n'este ponto, de Córdova foi Ali con- 
tra uma cidade que vem escripta difficilmente nos 
exemplares manuscriptos : — Moura leu Lisboa, 
"Conde e Tarnberg (tradução latina) leram Sana- 
bria e Sambria; mas Cartaz não diz onde ficava 
tal cidade, e foi Conde quem accrescentou por sua 
conta «no Algharh>^j o que mostra não ter funda- 
mento a supposição de Herculano de haverem sido 
inventados esses successos para attenuar a má im- 
pressão dos desastres nos districtos orientaes; a 
responsabilidade é toda de Conde *. E certo, por- 
tanto, que Ali não veiu a Portugal, porque não se 
sabe que terra era aquella, e a narrativa de Holal 
é mais plausivel e explicável. 

Estavam portanto livres de ameaça da parte dos 
musulmanos os estados christãos do occidente, o 
que punha em acção os elementos discordes, que 
só o perigo do estrangeiro continha ás vezes. 

Em 1121 rebentam as dissenções entre D. Ur- inva.no de Por- 
raca e D. Thereza a propósito da posse do distri- *"** " 
cto de Tuy. O bispo de Compostella Gelmires 
apparece-nos acompanhando com a sua gente 
arniada a expedição a Portugal. Como se explica 
isto, em quem tão aíFeiçoado se mostrava sempre a 
D. Thereza, ao ponto de se attribuir caracter amo- 
roso a essas ligações? 

Gelmires congrassara-se com D. Urraca, que o bi»po G«imi- 
em 1117 até compartilhara com elle das fúrias da 
populaça n'uma sedicção em Compostella, onde os 

* Devemos estas informações á amabilidade do sr. David Lopes. 



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348 

dois tinham tido que se acolher á cathedral. Ape- 
sar d'isso o bispo continuava a conspirar; affir- 
mando a sua adhesão á causa de AflFonso Rajonan- 
des, contra o qual se declarara antes, obtivera do 
Papa Calixto II, tio do príncipe *, que a sua dio- 
cese fosse elevada á categoria de metropolitana, 
passando ,5a cadeira episcopal de Braga para Com- 
postella ; isto não podia ser indiíferente a D. Urraca, 
Pois apesar de tudo, a rainha vae novamente a 
Galliza a pretesto de organisar a expedição que 
havia de desapossar a irmã do districto de Tuy, 
e provavelmente também para affirmar a sua au- 
ctoridade e contraminar as conspirações que se 
tramavam n^aquella provincia para a enthronisa- 
ção do infante, e é Gelmires, que havia pouco ainda 
obtivera o auxilio de D. Thereza e a auxiliara 
pelo seu lado a augmentar os seus dominios, quem 
apparece agora a tomar parte na empresa militar 
que d'esses novos dominios a ia desalojar, e mais 
ainda conseguia que o acompanhassem na hoste os 
cavalleiros-villões de Compostella que não eram 
pelo seu foro obrigados a ir alem do seu districto. 

Levaria um segundo sentido, e seriam prova 
d'isso os factos subsequentes, ou era apenas obrigado 
á sinmlação para se equilibrar entre o juramento 
de fidelidade ao principe e a necessidade de não 
se mostrar adverso á rainha? 

D. Urraca invadiu Portugal com um forte exer- 
cito, como castigo e revindicta da invasão de 
1). Thereza no districto de Tuy de que se apos- 
sara. Occupou a rainha este districto e avançou 
Combate no rio coui a sua luzcntc tropa ; no -rio Minho, cuja mar- 
gem esquerda os portuguezes occupavam, travou-se 
combate. «Mais próximo ao lado de Portugal, o rio 



* Era irmão do conde D. Raymundo da GaUiza, e muito affectn 
á causa do sobrinho. 



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340 

fazia naquelle sitio uma insua. A posse d^ella faci- 
litava a passagem, mas defendiam-na as barcas 
portuguezas que vogavam pelo Minho. Os destros * 
marinheiros de Padron e alguns compostellanos 
com vários cavalleiros escolhidos embarcaram da 
parte opposta, e vieram accommettel-as. Vencedo- 
res, em breve se apossaram da insua. »Este suç- 
cesso levou o terror pânico aos arraiaes de 1). The- 
reza, que foram abandonados, e, quasi sem com- 
bate, 1). Urraca entrou no território inimigo*». 
Seguiram-se depradações, destroços, incêndios, vio- DcpradavSes e 
lencias de toda a espécie; diante da dispersão do '"*°*"' 
exercito portuguez a marcha invasora foi como 
uma cheia rompendo o único, mas fraco, dique que 
se lhe quizera oppor. A força moral desapparecera. 
As armas da rainha chegaram ao Douro; 1). The- 
reza retirou-se para o districto ao oeste de Braga 
e acabou por se refugiar no cíistello de Lanhoso ; 
tomado este, e feita prisioneira D. Thereza, a causa d. Thercta pri- 
de Portugal estava perdida e perdida também a LÍShoso. 
conspiração na Galliza. Mas é precisamente quando 
mais perigosa se mostrava a situação, que por 
uma forma estranha se muda a face dos aconteci- 
mentos, e o condado portuguez nos apparece mais 
consolidado e accrescido. Quando D. Urraca tem 
subjugado com as suas armas a melhor porção 
(los dominios de sua irmã, é quando a vemos la- 
vrar com ella um tratado de paz, como ven- 
cida e não vencedora, em que a troco de fidelidade 
jurada, moeda de nenhum preço n*essa epocha, são 
dadas a D. Thereza terras comprehendendo Zamo-p«ze« 8ubitK6 
ra, Touro, Salamanca, Ávila, Valhadolid e Toledo, gmenSdo. **"' 
n'uina área de território que devia corresponder á 
que, já pelo pacto que se assentara entre 1). Urraca 
e o conde 1). Henrique a este ficariam pertencendo. 

* A. Herculano. Historia de Port., tomo i, liv. i. 



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350 

Taes os limites do condado no anceio peripaiiente 
dos que primeiro o goveniaram, e que passou tam- 
bém mais tarde, com o nosso 1). Affonso V, a ser o 
minimo das aspirações para o accrescimo do reino 
de Portugal ao oriente. 

luxôcs da revi. A primeira vista, tanta generosidade da parte de 
1). Urraca parece incomprehensivel ; é necessário 
ir buscar nas circumstancias que se davam em 
volta das pretenções da rainha a explicação piau- 
sivel. 

Ao lado de 1). Thereza, engrandecido e cheio de 

o valido de D. valimento, estava em Portugal I). Fernando Peres, 
feito já conde ou cônsul de Portugal e de Coimbra ^ 
tendo o império ou principado de todo o paiz •; 
Fernando pertencia na Gallíza ao partido favorá- 
vel ao infante, e adverso portanto a I). Urraca; 
esse partido, longe de diminuir, augmentava na 
Galliza, á proporção que Affonso Raymundes ia 

Tramas do Gel- cutraudo uíí pubcrdadc; antes da sua politica dú- 
plice ter levado Gelmires, o Mephistopheles clerical, 
como lhe chama um escriptor gallego, a mostrar, 
apparentemente, que quebrara as suas ligações 
com os adversários de Affonso Raymundes, D. Fer- 
nando Peres, seu antigo alferes-mór i-ecebera d*elle, 
terras e alcaidias, como por exemplo o de Kameta, 
mais tarde mandado destniir^. Dada a influencia 



' SSo dos annos de 1121 a 1126 os documentos citados por Joio 
Pedro Ribeiro, no tomo iii das DitttrL Chron., referentes ao go- 
verno de Fernando Peres de Trava em Portugal. 

Na doação ao mosteiro de Lorvfto, da era de 11Õ9 (anno 1121 1, 
publicada na Monarch. Lunt, parte iii) liv. ix, cap. ii, lê-se: «Gvfi- 
discdvo Episcopo regente Colimbriensem sedem, ConmU autem Dom 
Fernando Dominante Cólimbrite et PorUtgali: 

2 Prova-o níto s6 a forma por que o conde subscreve nos docn- 
mentos da epocha, em logar superior ao do próprio infante e igual 
ao da condessa ou rainha D. Thereza, e a seguinte informação dft 
HisT. CoMPosTEL. : f»et Fernando Petridt qui, ioíi iUilerrae principfi- 
batur, . .» Liv. iii, cap. xxiv. 

3 Viceto. Hist. de Galicia, tom. v, pag. õO. 



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351 

do valido de D. Thereza* em Portugal e o seu 
poder sobre a sua amante, o estado portuguez era 
um natural auxiliar ás pretençÕes da Galliza. A 
rainha, procurando subjugar Portugal, teria que- 
rido manietar um adversário importante; supe- 
rior á razão de rehaver territórios que annos antes 
e de boamente deixara ceder á ii-mã, seria essa 
a razão da guerra. O arcebispo Gelmires fingia 
estar ao lado de I). Urraca, por conveniências de 
ordem pessoal e politica, mas no fundo o seu cora- 
ção e até o seu interesse estavam com D. The- 
reza, e ao mesmo tempo, pelas suas solemnes pro- 
messas a Callixto II, tinha de ser favorável á causa 
de AfFonso Raymundes; doesta situação dúbia se 
saiu pela manha. Ao principio a guerra de Portu- 
gal até o favorecia, por distrahir da Galliza as 
attenções de D. Urraca; mas vendo o incremento 
que tomava a invasão, e a força que a D. Urraca 
d'ahi adviria, pretextou interesses e necessidades 
inadiáveis que o reclamavam em Conipostella; in- 
vocou o foro dos burguezes d'aquella cidade que 
não eram obrigados a servir fora do seu districto, 
o que levou D. Urraca a dispensal-os. Ao mesmo 
tempo horrorisavam-no as cruezas inúteis da inva- 
são, diz a Historia Compostellana. A rainha não se 
deixava mover por tão ponderosas razões; .pers- 
crutava o fundo de todos esses pretextos. Gelmires 
appellou para o legado do Papa, o cardeal Boso, 
que, no segredo da situação, conseguiu ser soli- 
citado para não faltar ao concilio que se ia reunir 
em Sahagun. 

D. Urraca, longe de ceder, redobrou de precau- prisa© de oei- 
çôes e vigilâncias, deixou sair o bispo, mas resol- 
veu prendel-o. Para dar o golpe tinha de se libertar 

* Sobre a opinião de ter D. Thereza casado com D. Fernando 
Peres vid. Mon. Lusit., parte iii, liv. ix, cap. ii, e Herculano, HisL 
de Port.y tomo i, nota xiv. 



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;552 



de outras preoccupaçôes, que podiam conipliciu- a 
aituação ; ao interesse do ódio cederam todos os de- 
mais interesses de momento. 

Essa seria a razào das pazes com a irmS, a qual 
necessitava nao só de não continuar a persegiiil-a, 
mas de a chamar á sua causa ; d'alii as largas ge- 
nerosidades e os accrescimos do condado portiiguez. 

Consentiu eutao que as tropas do bispo regres- 
sassem j)ara a sua terra, mas conseguiu retel-o 
junto de si; e mal a gente que lhe era affecta trans- 
l)oz o Minho, o mandou prender. 

lia também a versão de que D. Urraca deixara 
sair apenas os cavalleiros villôes e os peões de Com- 
postella, tendo ficado com o bispo os seus homens 
de armas, á frente dos quaes abertamente mani- 
festou a sua desobediência*; mas isso não é accei- 
tavel, porquanto a rebellar-se no campo Gelmirrs 
tel-o-ía feito quando n'elle tinha a sua hoste. 
Segundo esta versão a rebeldia armada, a que 
D. Urraca cedeu, foi em frente de Lanhoso; a prisão 
foi no regresso das tropas para a Galliza, quando 
já os homens de armas do prelado haviam trans- 
posto o Minlio. 

Evidentemente D. Urraca não quizera apenas 
castigar um acto isolado de insubordinação; alguma 
cousa de mais complexo se passava em Galliza c 
Portugal que ella julgara poder atalhar com um 
golpe de mao. Ao mandar prender Gelmires deu 
ordem para que fossem postos alcaides de sua con- 
fiança nos castellos da diocese compostellana, e 
presos três irmãos do prelado e outros seus parti- 
dários, mandando-os encerrar a todos no eastcllo 
de Orcillon^ 



* Viccto. Hint. de Oallicia, tom. v, pag 56. 

2 Este casteno de OrciUon deve ser o que está na província de 
Orense, legua e meia de Hibadabia, hoje cm ruínas. Havia outro 
eastcllo de OrciUon entre Astorga e Oviedo. 



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353 

Ao mesmo tempo fugiam aterrados o arcebispo 
de Braga, D. Paio, e o bispo de Orense, 1). Diogo. 
Era extensa a trama. 

N'e8ta expedição a Tuy e a Portugal a rainlia nov« ucuca de 
fizera-se acompanhar do fillio; affectava fazer com 
elle causa commum; procurava assim trazer ac- 
comraodados os gallegos que não deixavam por 
isso de se agitar; Portugal manter-se-ia quieto 
com as novas concessões; toda a força da sua 
energia era concentrada na acção directa contra 
o bispo de Compostella, que parecia ter ao seu 
lado o arcebispo de Braga, D. Paio, e o bispo 
de Orense, e porventura, como centro de uma 
grande colligaçao, D. Thereza, que indirectamente 
o apoiava e ás occultas lhe commuuícava o plano 
da irmã de o prender, mandando-lhe mesmo offe- 
recer nm dos seus castellos para refugio, ou um 
dos seus barcos para se retirar. A condessa de 
Portugal trabalhava assim habilmente na sua mis- ' 

síxo de sustentar a integridade do seu estado, e ao 
astuto Gelmires, portanto, deve a nacionalidade 
portuguezi o relevante serviço de ter evitado que, 
com a derrota e desapparecimento de D. Thereza 
se afundasse á nascença o organismo que ella e sen 
marido tanto haviam procurado sustentar e en- 
grandecer. 

No meio d'este jogo de arteirices de nm e outro pnct« com i>. 
lado, D. Urraca, mettida entre muitos fogos, pro- 
curava desenvencilhar-se pela melhor forma possi- 
vel. D. Thereza tirava da situação todo o partido; 
um pacto que devia ter sido lavrado em Lanhoso 
representou para D. Urraca o preço por que asse- 
gurava a paz com Portugal, e para D. Thereza a 
sancção official da posse dos territórios que, desde 
o tempo do conde D. Henrique, Portugal preten- 
dera reivindicar, e que comprehendiam nao só as 
provincias de Tuy e Orense, de que ella já se 



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354 



tinha apossado, mas o domiiiio c o senhorio de 
muitas terras nos já referidos districtos de Zamora, 
Touro, Salamanca, Avihi, com direitos senho- 
reaes, alem dos de Valhadolid e Toledo, com a 
promessa de amisade, auxilio e protecção da parte 
da rainha, a troco de D. Thereza lhe jurar «amparo 
e defeza contra os seus inimigos, quer mouros 
quer christaos, e prometter não dar acolhimento a 
nenhum vassallo da rainha levantado em terras ou 
castellos, nem a nenhum traidor*.! 

Ao sueste da Galliza as íiovas acquísiçôes iam 
até ás margens do Bivey, por todo o território do 
Lima; ao sudoeste comprehendiam Tuy e as suas 
dependências ". 



1 nJinhn'ra. — Juramcntuni et eoiivciiicntíe que feeit Rejíiua ilo- 
iniiia hurraca gorinana sue jnfaiite domnc tarasic. 

7>./^;; — Hcc est juramontum et convonicntiam ijuod facit regiim 
doinna hurracha ad sua gcritiana infanta domna tarasia, que li sedeat 
arnica per fcd sine maio engano quomodo bona germana ad bona 
germana, et que uon faciat morte de suo corpo nec prisiono uec con- 
siliet pro {ov per) facere, et si lo consiliado tenet que lo disfaciat, 
et de la regina ad sua germana zainora cum suos directos. Exima 
cum Buos directos. Salamanca et ripa de torme cum suo directo, 
avila cum suos directos, arevalo cum suos directos. Conkacumsuoí 
directos. Olmedo cum suos directos, portelo cum suos directos mun- 
ias et tudiela et medina de zofran^á cum suos directos, tauro cum 
suos directos, et torre cum suos directos, medina et pausada cum 
suos directos. Senabria et ripeira et valdaria et baronzcU cum suas 
directos, talaveira et kouria cum suos directos. Setmancas et mo- 
rales que stan pro ad indicio de egas gondesindiz et geda mencndiz 
et cl con (conde?) domno monio cum fernando iobaiiis et exemono 
lúpus c^ue si potuerint avenire que sed. et si non mittant sorte:* 
quales lurent et quos iurarent levent illam. et que sic ista houor 
que la rcgina da ad g<^rmana quomodo et altera que illa tcnet qu 
li a adiuvet ad ampnrar et defender contra mauros e christianoa 
par fé sine maio engano, et berma et populata quomodo bona ger- 
mana ad bona germana, et que nou coliat suo vassalo cum sna ho- 
nore aur aleivoso que noluerit ex conduzer cum iudítio directo et ú 
illa regina isto nou nttcndcrit que des illo die que li deaiander la 
infante ad X dies se illa noluerit intregarc que nos scdeamus sotto:? 
et vos pcriuratos ex tau' {tantumf) quantum la infiintc volaeritad- 
tender adenante.» Do Liher Fidci da Sé de ni*aga. Alex. Heifu- 
lano, Historia de Part., tomo i, nota x. Foi publicado pela primeira 
vez, mas inexacta e com falbas, na Mwiarchiu Lnidíana. Hv. í», 
pag. 42. 

2 Viceto. línt, de Gídlic.ia, tom. v, pag. 68. 



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355 

Ficava assim o condado de Portugal muito mais AiArgâmcnto do 
accrescido, quasi duplicado, mas ficava também ^^J^** '*'*'*" 
accentuada a subalternidade de D. Thereza, que 
no pacto se assigna apenas infanta, e a sua depen- 
dência da irmã, de quem se confessava mera logar- 
tenente (tenens}y ou possuidora de um dominio ou 
terra do senhorio da rainha. Para o brio soberano 
de D. Urraca era isso bastante, porque tanto lhe 
fazia que o condado portuguez terminasse no 
Minho e nas serras de Tmz-os-Montes ou em 
Orense e Toledo, comtanto que permanecesse en- 
globado no seu reino; para D. Thereza a consagi*a- 
ção oífícial de um dominio directo mais vasto repre- 
sentava um grande passo no sentido da sua posse 
definitiva; da posse viria a soberania, quando se 
oíFerecesse ensejo propicio. 

Mas D. Urraca, longe de conjurar o perigo, o 
fora directamente provocar, e foi esse o ponto de 
partida da sua ruina. 

A prisHo do bispo da Compostella irritara na Reacçso »• Oâi- 
Galliza os ânimos contra a rainha; do castello de 
Orcillon fora o bispo passado para o de Cira; 
Gelmires tinha partidários poderosos, e fortes liga- 
ções com os que seguiam a parciaHdade de AfFonso 
Raymundes, o qual, embora apparentemente ligado 
á mãe, não desistia, ou não desistiam por elle, 
das suas pretenções e direitos. Compostella excita- 
va-se; n^ella e seus arredores se reuniam os agita- 
dores, 

D. Urraca dirigiu-se á Compostella na idéa 
talvez de apasiguar os ânimos ou de se impor. Os 
cónegos, em signal de lucto, vestiram paramentos 
negros; o legado do Papa, cardeal Boso, conspi- 
rava também, e queria tomar uma attitude mais 
decisiva. 

Via a rainha erguer-se contra ella a opinião; seu Movimento re- 
próprio filho e os barões que o cercavam, retira- 



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356 

ram-se pai a o norte, para alem do Tambre, a duas 
léguas de Compostella, e a rainha viu-se obrigada 
a dar a liberdade a Gelmires, conservando porém 
em seu poder os eastellos que lhe pertenciam, ape- 
sar d'elle, segundo a Historia Compostellana, os 
ter reclamado logo, apenas saiu da prisão e se di- 
rigiu á sé, onde foi recebido procis^sionalmente pelo 
cabido, e onde se achava também ás occultas a 
rainha. 

Gelmires, já sem rebuço e a pretexto de se lhe 
nao restituírem os eastellos, tomava a direcção do 
movimento; agora eram todos abertamente contra 
a rainha, que pelas suas disscnções com o marido, 
pela sua opposição aos direitos do filho que queria 
sentar-se no throno do pae, pelos seus amores com 
o conde Pedro de Lara, e pelo seu espirito irre- 
quieto e enredador, trazia por todos os lados irri- 
tados os ânimos contra si. Travou-se a guerra, 

pr,z do Monte que só tcrmiuou pelo tratado de paz de Monte 
Sacro de 21 de dezembro de 1121. 

D.Thoroíaaban- D. Thcrcza dc Portugal nao era tao ingénua que 
se conservasse ao lado de 1). Urraca, agora que a 
estrella desta abertamente declinava no ceu onde 
brilhara com tao diversa luz; e alem d'isso as suas 
verdadeiras ligações tinham sido sempre com Gel- 
mires e os adversários da irmã. O approximar- 
se doesta tinha sido um expediente de occasiSo. 
Daria força ao grande partido de AíFonso Raymun- 
des que assim, elevado ao* throno de seu pae, res- 
peitaria os dominios e senhorios da tia, e a deixa- 
ria viver em paz, com as suas novas terras c novos 
amores. Alem de que, bastaria o facto de Fernando 
Peres de Trava, o antigo alferes-mór do bispo de 
Compostella, imperar no espirito da condessa, para 
se concluir desde logo que o caminho por ella 
seguido seria o mesmo que o do conde I). Pe- 
dro Froylaz, pae de Fernando, e de outros ba- 



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357 

roes da GalUza, partidarioa do joveii rei. Affoií- 
8o VII reunia em volta de si todos os elementos 
valiosos do seu reino; podia bem dizer que repre- 
sentava a opinião da nação, se esta palavra tivesse 
cabimento n'esta epocha. 

Itealmente D. Tliereza, nos primeiros annos ap«z om Portn- 
seguir, isto é, de fins de 1121 a primavera de ***" 
1127, gosou tranquillamente a posse do seu con- 
dado. 

l)'este interregno de paz se serviu para cuidar 
da organisação interna do condado. Em 1125 
mandou povoar e restaurar Soure, que em 1117 
fora destruida pelos almorávidas, nomeando capi- 
tão d'essa cidade e castello a Gonçalo Gonçalves 
que adiante veremos distinguir-se em mais de uma 
occasiào; e a igreja foi reediticada por mandado do 
bispo de Coimbra, D. Gonçalo. Anteriormente 
fora já reediticada e restaurada Santa Eulália, 
sendo entregue em novembro de 1122, juncta- 
mente com Soure, ao conde D. Fernando Peres 
de Trava*. Soure foi depois dada á Ordem dos 
Templários em troca do castello de Coja, sobre o 
Alva, que, cedido á condessa, esta doou ao bispo de 
Coimbra. 

Os almorávidas continuavam em lucta com o rei 
de Aragão; a irmã mantinha os pactos que as 
duas haviam firmado. 



> «E porque da entrada dos Mouros estavâo ainda destruídas alguas 
fortAlezae, tratou de se restaurarem, fazendo entrcj^a delias aos ca- 
pitães de mais confiança. Kra pessoa principalissima no Reyno o 
Còde Dom Fernando, e muy favorecido da Rainha, a este fidalgo 
fez entrega do Castello de Santa Olaya ja reedificado e cometeo a 
restauração de Soure. Ha disto memoria em o livro da Sé de Coim- 
bra, como ja em diíFerente lugar temos mostrado. Fortaleceu o con<Ie 
a Santa Olaya, lhe pos grosso presidio de soldados; a povoação de 
Soure ou por se nâo obrigar a tanto, ou por o tempo nAo dar então 
lugar, se reservou para outra occasiâo.» Fr. C. Brandão. Mottmxfi. 
Lusit.f parte iii, liv. ix, cap. i e xi. Se^ue-se um outro trecho do 
livro da Sé do Coimbra onde se trata da reediiicação do castello, 
igreja e povoação de Soure. 



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358 

E verdade que á proporção que seu filho Affonso 
Henriques ia crescendo em idade, mais avoluma- 
prodroraos.iiTe.vam cni volta d'elle os elementos que um dia ha- 
viam de affastar do poder D. Tliereza e o seu favo- 
rito, causa principal do descontentamento e dis- 
córdias que lavravam dentro do nascente estado. 

Se algumas inquietações podia trazer a D. The- 
reza essa curta preparação da tempestade que a 
havia de vencer, não eram ellas de natureza a 
crear-lhe receios sérios, nem os factos que vinhara 
á suppuração taes que ella os não podesse domi- 
nar promptamente. 

o infante Affoii- O infautc cra ainda menino; os que por elle tra- 
go }ífnriniif>s. in <v . •! .1 

balhavam nao encontravam amda um ponto de 
apoio sufficiente; mas tudo se ia dispondo n'esse 
sentido. 

A exemplo do que no anno anterior se passara 

com Affonso Raymundes, que em Compostella se 

Arma..« cavai- amiára cavallciro, em dia de Pentecostes, conforme 

loiro om Zamo- ■% • t tt i • a /*• tt 

ia. era uso dos reis de Uespanha, assim Affonso Hen- 

riques se armara também cavalleiro na cathedral 
de Zamora ainda incorporada no condado portu- 
guez, em 1125, cingindo o seu agigantado corpo 
com a loriga, e vestindo as armas que tomara 
de sobre o altar, consoante era devido á sua cate- 
goria* e como affirmação da sua independência. 



^ «Em iicLxiiT. Infans inelytus Alfonsus Henricus Comitís filias 
actatis nnno xiii in ecclezia Zamorensi Cathedrali, ab aUari Salva- 
toris ípsc sibi manu própria sumpsit militaria ai*ma, ut mos est Re- 
^um : induit se Lorica, 8Ícut gigas, qui magnus erat corpore, siini- 
]Í8 factos est Leoni in facinoribus suis, el sicut catulus Leonis tn- 
giens in venatione». Chron. Goth. — Variante: — «habens etatis an- 
nos fere quntordecim apud sedem Zamoreuscm, ab alta rio Santi Sal- 
vatoris ipse sibi manu própria sumpsit militaria arma ab altarí} et 
ibidem ante altari inductus est et accinctus mtlitaribus armis, aicat 
moris est Regibus facere in die sancto Pentecostes. Induit vero se 
loricam sicut Gygaa, qui magnus erat corpore et succinxit se arma 
bellica sua; in preliis similis fa/;tus est leoni- in operibus suis, et 
sicut catulus leonis rugens in venatione». — PorUig, Mon, — JSí- 
rríp/. Vol. I, pag. 11. 



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859 

Devia orçar então pelos quinze annos, idade mí- 
nima em que se podia realizar essa cerimonia im- 
portante, que representava, n'e8ses tempos de 
cavallaria, o verdadeiro inicio da vida, è, na si- 
tuação especial em que se encontrava o infante, 
queria dizer que elle se preparava para a grande 
lucta, não só das armas, mas do direito contra sua 
niSe e contra o seu valido, cuja situação na corte 
altamente escandalisava todos. Acompanhado dos 
seus ricos homens e barões, revestidos das suas 
armas, em luzido e bellico cortejo, a nenhum 
deu a honra de lhe impor as insignias, nem de 
nenhum a podia receber. O tinir das armas com 
que cingira a máscula estatura foi como um signa] 
de guerra. 

Não era uma situação nova n'es8es tempos, nem Disconu*.. 
nos que lhe precedeivxm ou succederam : luna rai- 
nha ainda moça, com um filho menor que ha de vir 
a ser o soberano, mas cujo advento ella procura 
adiar, substituindo o seu poder pelo de um favorito 
que toma o papel de chefe da nação. 

Não é um caso sporadico na historia das rai- 
nhas ; e as duas filhas de Ximena Muniones, uma 
om Castella outra em Portugal, seguiihn a mesma 
esteira da deshonestidade, e provocavam as mesmas 
reacções na opinião. 

Parece que vinlia de longe a conspiração contra con.piMçío. 
o papel que no nascente estado e junto de D. The- 
reza representava Fernando Peres de Trava, o 
qual até se apresentava como seu marido * ; Hercu- 
lano quer filiar n'esse movimento a prisão do me- 
tropolita de Braga, D. Paio, em 1122. Voltava de Antecedentes. 
Zamora o arcebispo D. Paio quando foi preso; 



1 C/arta de fundaçAo do mosteiro de Monte-Hamo em 1124. 
Ycpes Coron, Geu. de S. Ben. T. 7.'^ App. escrit. 34. Herculano: 
Hisf, de PorLj tom. i, nota xiv. 



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360 

D. Tlicreza que em tanlos pontos tinha a sua vida 
semelhante á da irmà, quiz ter também em seus 
annnes imi alto prelado prisioneiio, por conspi- 
rar c tiair. Foi necessária a intervenção do papa 
e a ameaça de excommimhao para D. Thereza lhe 
dar a liberdade mezes depois ^ Era D. Paio irmão 
de Gonçalo Mendes o Lidador^ e, portanto, da tío- 
bre familia dos Maias de Riba-Douro, cuja influen- 
cia na enthronisaçao de Affonso Henriques e na 
independência de Portugal ficou assignalada na his- 
toria. Era natural que já então fosse suspeito de 
parcialidade a favor do infimte. 
MoriedoD. Ur Em uiarço de 1126 morria D. Urraca em Sal - 
«k.Tffonlò Vil! dana, e Affonso VII, que desde 1122 «adquirira 
verdadeira supremacia nos estados de sua niile», 
foi coroado em Leão; a sua tia, a condeesa e rainha 
de Portugal, respeitara os pactos realisados por 
sua mae, mas sentindo-se agora livre de todas as 
peias, e sem o dever de* acceitar situações que 
por elle nao haviam sido creadas, pensou em reha- 
ver a integridade do império de seu pae, guardou, 
porén), a realisaçao doesse intento para momento 
opportuno; desde logo nao era possível, porque 
tinha a combater dentro do reino rebeldias insof- 
fridas, e, alem das fronteiras, as ambições do Kei 
de Aragão, seu padrasto, que ainda tinha castellos 
á sua voz. 
r«H« com D. Veiu o rei a Zamora e ali formou um pacto de 
amisade por um detemiinado periodo, — iisqve ml 
desttnatuni tempus — , com D. Thereza e com o 
conde Fernando Peres de Trava; assegurada a 
tranquillidade na sua fronteira oriental, e vencidas 
as difficuldades internas, o rei pensaria mais tarde 



í BuUa íle junho do- 1122 enviada pelo Papa ao arcebispo (icl- 
mivc». 



Thercsa. 



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3G1 

na fronteira do occidente, onde, por emqiianto lhe 
convinha a paz. 

Ainda em vida de sua m^e Affonso Raymundes, prcpaiavaopara 
com dezanove annos de idade, se armara cavalleirp 
(1124), colhendo do altar mór da catliedral de 
Compostella, por suas próprias niaos, as armas 
com que iniciou a sua carreira militar, no propó- 
sito talvez de as estreiar ainda esse anuo, em que 
esteve enxinentc um conflicto entre os dois, tendo-se 
reunido um concilio para regular os tcnnos eui 
que se havia de asscnhu' a concórdia e ordenar a 
justi(;a; a esse concilio, onde dominava a influen- 
cia de Gelmires, ligado com o Papa Callixto II, 
assistiram os bispos seus suífraganeos, de Orense, 
Tuy, Coimbra, í^orto, Mondonedo e Ávila com 
seus abbades, faltando por niotivo justificado os de 
liraga e Astorga. 

Com a morte da rainha póJe dizer-se que todo unifitavâo du 
o reino se submetteu á auctoridade de Affonso VII, 
comtudo algum tempo durou a resistência de al- 
guns dos antigos partidários de D. Urraca, e a de 
alguns castellos que permaneceram em posse de 
aragoneses. Unificar e sujeitar nas suas màos todas 
as forças do reino, foi o primeiro cuidado de quem 
por três vezes já fora coroado Rei da Galliza, e 
agora, cingindo também as coroas de Leão e Cas- 
tella; reunia sob o seu sceptro o poderoso es- 
tado de seu avô Affonso VI. A situação de Por- 
tugal tinha também de ser resolvida para a inte- 
gração d'esse estado; mas a pacificação interna c 
a extirpação dos vestigios do dominio ou ingerên- 
cia de aiagoneses na administração do reino eram 
assumptos que mereciam preferencia em seus cui- 
dados. 

Entre os agitadores do reino estavam o antigo fa- o« roboidc 
vorito de D. Urraca, Pedro Gonçalves de Lara e 
seu irmão Rodrigo, que se apoderaram de Palencia. 



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362 

Tendo reduzido outros castellos de menor impor- 
tância, o rei assaltou e tomou essa cidade*. Dois 
annos depois renovamm-se as rebelliões e eram 
repreniidos de novo pelo rei e por Gelmires a quem 
fora dado o governo da Galliza. 

Nogociaçõca de Entrc Affouso VII de Castella e Affonso I de 
fc*ía*?A?»gíi! Aragão seu padrasto houve negociações demora- 
das para a restituição dos castellos, mas foi tudo 
baldado. Os dois soberanos mutuamente invadiram 

Hottindadea. OS tcrritorios do adversário; o aragonez era o pri- 
meiro a realizar a invasSo, por Rioja, pelo valle de 
Tâmara, quatro léguas de Falência; o castelhano 
entrou também pelas terras de Aragão e tomou 
Castro-jeriz ; as duas fortes hostes encontraram-se 
no valle de Tâmara. 

vaniagnuí obiL Parccc quc nas hostilidades, ou n'um provável 

sTuez^ *'*' combate, — do qual aliás nao rezam as chronicas, 
que só se referem á hesitação do aragonez em ata- 
car, o que nao é admissivel, e A traição do conde 
de Lara, inimigo do rei castelhano, que indo na 
dianteira, recusou o combate — , melhores vanta- 
gens obteve o aragonez; porque tendo intervindo 
com os seus bons officios alguns prelados e homens 
importantes, tanto de um como do outro lado, se 
assentaram as pazes, com a condição de ficar 
D. Affonso de Aragão com o território comprehen- 
dido entre a villa de Villorado e a cidade de Cala- 
horra, ficando^ n'elle incorpoi:adas as províncias de 
Guipiizcoa e Alava. 

Pacto de Tama- Os cscriptores hcspanhocs querem attribuir este 
pacto de Tâmara, ao desejo, por parte de AflFonso 
de Castella, «de não faltar á promessa de ser amigo 
do aragonez e de o ter no logar de seu pae»*; mas 
nen) o aragonez merecia essas generosidades, pelos 



* B. Viceto. Hútt. de QalUciaj tom. v, pag. 77. 
2 D. Manuel Colmeiro. Reys Crietiaiios, cap. iii. 



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363 

seus antecedentes, nem é natural que acabasse pela 
condescendência quem começara pela guerra e pela 
invasão; o que leva, portanto, a crer que a situa- 
ção das armas era melhor para o aragoiiez, cousa 
que realmente nao seria para admirar, dadas as 
suas altas qualidades de guerreiro, e ao seu «or- 
gulho e confianza de conquistador avesado a las 
lides y a las vietorias»*. Por isso o appellidaram 
de Batalhador. Ha ainda a notar que não foram 
pelo aragonez entregues n^essa occasiao as fortale- 
zas que em Castelhi lhe obedeciam, mas sim dois 
aunos depois, quando novamente invadiu este paiz, 
cercando Moron, e generosamente accedeu ás pro- 
postas de paz feitas pelo enteado. 

D' este periodo em que as attençoes andavam d. There»» or- 
distrahidas do que se passava dentro do condado mêíc ô*"Jôn- 
portuguez se aproveitou D. Thereza para tratar da 
organisação militar do seu estado, e para fortificar 
a fronteira, erguendo castellos novos e presidiando 
os da fronteira do Minho. Alem d'isso D. Tliereza 
«tinha por si nao só os barões de Portugal, mas 
também Fernando Peres, seu amante, e os caval- 
leiros de Galliza que á sombra d'elle tinham vindo 
residir em Portugal; não lhe faltavam, também, 
homens de armas e riquezas para sustentar a 
guerra; orgulhosa do seu poder, D. Thereza, que 
durante o governo de D. Urraca evitara o decla- 
rar-se de todo independente, constrangida, talvez, 
agora pelas pretensões mais precisas de Âffonso VII, 
recusava formalmente cumprir com as obrigações 
nascidas da tenencia que, conforme o tratado de , 
1121 e attenta a origem primitiva dos domínios 
de que era senhora, o rei leonês entendia que ella 
exercitava»*. 



* Lafucnte. Ilifit Gen. de Eu/)., Jiv. ii, cap. iv. 
2 Herculano. HisL de Port., tom. i, liv. i. 



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3()4 

AfTon^oviipôc Serviu isto de pretexto ou de motivo para que 
80 cm mçAu. ^g-Q^g^ yH, alliviado agora das preoccupações 
pelo lado de Aragiío, procurasse liquidar a questão 
de Portugal, Tinha conseguido dominar o movi- 
mento insurreccional de CJalliza, onde até mandara 
arrazar fortalezas, como a de Grallaiía (Grallieira) 
e Raneta. Pesava-llie o estarem ainda sob o domí- 
nio directo da condessa de Portugal os territórios 
de Orense e Tuy e outros que haviam vindo do 
pacto com sua mae; e mesmo quanto á situa<;ào 
d'esse condado dentro do seu reino, necessário se 
tornava esch\recel-a; as rasões que o haviam levado 
a temporisar, a adiar, a procurar para isso as pa- 
zes e o accordo, já nao subsistiam. 

iiivfl.ic i»ortu- Com um forte exercito, reunido em Galliza, de 
***'' que fazia parte o bispo Gelmires com todo o seu 

poder, entrou pela primavera de 1127 nas comar- 
cas de Tuy e Orense, chamou á sua directa, obe- 
diência os castellos que n'ellas tinham voz por 
D. Thereza; ali reforçou as suas tropas, e, entrando 
em Portugal, conseguiu no fim de seis semanas de 
hostilidades e violências de toda a natureza, que a 
infanta reconhecesse a sua auctorídade suprema c 
se declarasse sua vassalla. D. Affonso VII retirou 
para Compostelfa; o condado portuguez fora nova- 
mente reduzido aos seus limites para aquém do Mi- 
nho, e serras dos Tras-os-Montes, tendo Leiria como 
sentinella vigilante na incerta fronteira do sul. 

Cerco deGuima- N'esta iuvasão se poz um apertado cerco a Gui- 
marães, onde estava a Condessa e o filho; Hercu- 
lano coUoca n'essa data o tocante episodio de Egas 
Moniz. 

lurervençâo de Era Egas Moniz um rico homem conceituado e 
hgaaMouiz. pj.Q|jQ^ j^j^ ^^ infautc D. Affonso, amante da sua 

terra, zeloso pelos interesses do que era seu pupillo 
e de tudo que havia de constituir o seu futuro 
dominio. 



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365 



As terras de Entre Douro e Minho tinham sido 
assoladas; as calamidades, se se prolongassem, re- 
presentariam a ruina do povo; um rigoroso assedio 
cingia Guimarães n'um cinto de ferro e fogo; era 
ella defendida, é certo, por quanto havia de nobre 
e de esforçado nos dominios de D. Thereza e ali 
tinham o principal papel os partidários mais acér- 
rimos e valiosos de Affonso Henriques, os senhores 
da Maia. Diante do invasor as discórdias que iam 
já accesas entre mãe e filho, e os seus partidários 
reciprocamente, tinham tido um momento de tré- 
gua. Continuar o cerco era collocar todos n'uma 
situação violenta. Prolongar essa situação, na me- 
lhor das hypotheses, isto é, na de se lograr resis- 
tir, seria uma ruína! O poder de Affonso Vil era 
grande; a sua expedição não tinha por fim propria- 
mente vexar e opprimir sua tia, com quem come- 
çara o seu reinado por fixar um pacto de amisade 
e de concórdia; o principal objectivo d'ella era 
rehaver os castellos de alem-Douro e os mais com 
que o condado portuguez se tinha engrandecido, e 
affirmai' n'elle a sua soberania. Esses castellos esta- 
vam senhoreados; a vassalagem de Portugal, que 
tantas vezes se acceitara para outras tantas se des- 
fazer, era moeda de pouco preço desde que se não 
negociasse com ella de boa fé; ou então, — e seria 
esse o caso de Egas Moniz, que na tradição nos 
apparece como homem integro e dè boa intenção — , 
significaria para muitos uma homenagem devida 
ao soberano que na sua coroa real, fundida de 
muitas coroas, queria reivindicar toda a herança 
que lhe fora legada por seu avô Affonso VI. E 
quem sabe se o arcebispo Gelmires, que sempre se 
mostrara affecto a D. Thereza, teria realmente 
influido no animo de Affonso VII para acceitar a 
paz, como já no tempo de D. Urraca contribuirá 
para libertar Portugal dos horrores de uma inva- 

ss 



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3G6 

sSo? Pelo menos gabam-se d' isso os panegyristas 
do astuto prelado *. Também teria tido influencia 
no caso o conde Fernando Peres, aconselhando 
D. Thereza á obediência ao sobrinho, e seria esse 
o motivo das boas graças em que passou a estar 
com Affonso VII em nomedo qual o vemos depois 
combatendo Portugal e o partido portuguez. 

N'esta ordem de idéas, e no intuito principal de 

aflfastar os terríveis males da guerra, teria Egas 

Moniz pensado no meio de fazer levantar o cerco 

de Guimarães. 

Diriffeseacar- Dirigindo-se aos arraíacs de Affonso VII ali lhe 

raiae* de Af- /> • . j ^' «^ J 

fonsovii. fana ver a sem vantagem da continuação do asse- 
dio. O castello estava bem provido de homens, de 
armas e mantimentos; não era fácil empreza o do- 
minal-o, em vista da resistência dos seus defenso- 
res, constituidos pela flor da nobreza de Portugal 
e pelos honrados burguezes vimaranenses, anima- 
dos dos mais guerreiros sentimentos, como pelo 
foral, que no anno seguinte lhes foi confirmado, 
ficou exposto aos vindouros *. 

Mas, admittindo mesmo que a cidade se ren- 
desse, o que luciava com isso o rei? Os castellos 
da região gallaica que elle pretendia chamar á sua 
obediência, já não tinham voz pela condessa de 
Portugal, e esse era, como vimos, o principal fim 
politico da expedição. Zamora, onde dois annos an- 
tes Afi^onso Henriques se armara cavalleiro (prova 
de que estava ainda incorporada nos seus dominios), 
seguira a mesma sorte, visto que não mais a en- 



* « . . . eí ipee concorriam inter regem et reginam suo consilio atque 
eolertia reformaint». Hist. Comp., liv. ii, cap. lxzxv, fl. i. 

2 «Nos fecistis honorem et cahvni siijyer me, et jecisti mihi servi- 
titim honvm et fidele ... et de illas hereditaies de illos hnrg^icses qui 
mecinn sttstimtervnt male et pena in Vimaranes nunquam donentfos- 
sadeiras.n Foral dado pelo infante D. Affonso Henriques. Õkal.maii 
IIGG (27 abril 1128). 



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368 

reza, o pendão altivo em volta do qual se conti- 
nuava a fazer a integração da alma portugueza. 
Aflfonao Henri- Não estcvc, portanto, Aflfònso Henriques pelos 
peiu o ajnate geuerosos ajustcs uo seu aio, e aproveitou o pri- 
meiro ensejo para manifestar que não acceitavaa 
soberania do primo. 

Mas nâo consente o peito 
Do moço illustre a outrem ser sujeito K 

lyàhi a resolução de Egas Moniz de ir á corte 
de Leão, humildemente trajado, descalços os pés, 
onde mal iria já a espora de cavalleiro, e com um 
baraço ao pescoço, em attitude de réu confesso, 
em signal do castigo que merecia, e ao qual elle, 
com toda a sua familia, se ia expontaneamente offe- 
recer e entregar, confessando de joelhos o seu erro, 
a sua fé traida, a sua esperança desfeita. 

Vêl-o cá vae co'os filhos a entregar-se 
A corda ao collo, nú de seda e panno^. 

E com seus filhos e mulher se parte 

A alevantar com elles a fiança ; 

Descalços e despidos, de tal arte, 

Que mais move a piedade que a vingança 3. 

Era unicamente o appellar para as formalidades 
da epocha, a fim de realisar a honra da sua palavra 
e provar a lizura do seu acto e das suas intenções? 
Era uma imitação do que poucos annos antes se 
passara com o conde Pêro Ansures na corte de 
Aragão, nas guerras de Afibnso I com D. Urraca 
sua mulher?^ Fosse como fosse, acto era este de 

^ Camões. Luziadas. Cant. iii. 

* Idem. Cant. viii. 
2 Idem. Cant. iii. 

* «E foy quando elRey Dom Afibnso de Aragão fazia guerra em 
Castella contra sua mulher a Eainha Dona Urraca, o Conde D. Pe- 
ransures, não obstãte que avia feyto omenagens a el Rey de alguas 
fortalezas, as entregou depoys á Kaynha. £ ainda que a acção pa- 
recia justificada, por ser aquella Princesa Rainha proprietária, a 
que seus vassalos devião obediência, cuydadoso depoys da fé que a 



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370 



prestigio e força real, estavam do lado de D. The- 
reza, alem do seu valido (que dispunha de muitas 
cidades e castellos, pois era cônsul ou conde em Por- 
tugal e em Coimbra, alcaide mór de Santa Eulália 
e Soure, como também alcaide mór em Galliza 
do castello de Pharo), o seu irmão Bemiudo Peres 
que governava em Vizeu, e que, começando, ao que 
parece, por ter relações amorosas com D. Thereza *, 
acabara por lhe casar com a filha D. Urraca ^e 
muitos outros fidalgos gallegos, e também portu- 
guezes. O maior numero d'estes, porém, era parti- 
dário de D. Afibnso, e entre elles apparecem como 
seus alUados, na carta de couto á diocese de Braga 
de maio de 1128, que é ao mesmo tempo unia es- 
pécie de pacto, o poderoso arcebispo d'aquella 
cidade D. Paio Sueiro Mendes, o gordo (grossus). 
seu irmão, Ermigio Moniz, senhor da terra de 
Feira, que já na revolução do anno anterior se 
manifestara contra D. Thereza e a favor do infante, 
sendo o personagem mais influente ^ Sancho Nu- 
nes, primeiro mando, ao que parece, de D. Sancha, 
filha de D. Thereza e do conde D. Henrique*, e 
Garcia Soares. N'esse pacto se compromette Af- 
fonso Henriques a importantes doações e mercês 
ao prelado bracharense — quando, ajudado por 



^ Ilenri Schaeffer. Hist. de Port., epoc. I, liv. i, cap. ii. 

2 «La condesa Dona Eva Perez de Trava fue hennaiia dcl 
coude D. Feroan Perez de Trastuinara de G alicia, segundo marido 
de la Keyna Dofia Teresa de Portugal, (sic) dei conde D. Bermudo 
Perez de Trava, que caso con Dona Urraca, Infanta de Portugal, 
hija de la misma Reyna Dona Teresa, y dei conde Don Enrique de 
Borgona». Salazar y Castro. Ilist. de la Casa de Lara^ liv. u, 
pag. 99. 

3 A. Herculano. Hist. de Port, tom. i, nota xii. 

4 D. Sancha parece que casou duas vezes. De Sancho Nunes dis 
Herculano : «marido que era ou depois foi de D. Sancha, irmã do 
infante»; é provável que fosse o primeiro marido, porque em 1145 
fez D. Sancha e seu marido Fernão Mendes de Bragança, doação 
rio seu castello de Langroiva á ordem do Templo. Vid. o doe* eo) 
Viterbo. Elucidar io^ tom. ii, pag. 353. 



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taneo. 



372 

lado era, como vimos também, da poderosa familia 
dos senhores da Maia, partidários do infante. 

Em outros documentos se encontram nomes de 
muitos partidários decididos de AflFonso Henriques, 
entre elles Egas Mendes, conde do districto de 
Neyva, cujo castello, como o de Feira, de que era 
senhor Ermigio Mendes, foi dos primeiros que se 
declarou pelo infante. Guimarães, capital do estado, 
seguira o mesmo partido. 

Governo simui- Dcpois da rcvolução de 1127 apparece D. The- 
reza ora congraçada com o filho, assignando juntos 
os documentos officiaes, ora firmando-os simulta- 
neamente, deixando ver que ella governava ao sul 
do Douro, nas terras da antiga Lusitânia ou do 
condado de Coimbra, e AflFonso Henriques sobre- 
tudo ao norte doesse rio, no antigo condado por- 
tugalense onde eram as terras e domínios dos seus 
principaes partidários, os senhores da Maia. 

Effeitosdainv». Essa rcbelião que já fortemente se manifestara 
nos principios de 1 1 27, fora sustada pela invasão de 
AflFonso VII de Castella, o que levou alguns escri- 
ptores a suppor que o castelhano viera em auxilio 
da tia, a oppor-se ás pretençoes do sobrinho con- 
tra ella; mas, evidentemente, elle trabalhava era 
seu próprio interesse, porquanto se contentou com 
rehaver as terras da Galliza que sua mae cedera a 
D. Thereza, com a sujeição d'esta á sua soberania, 
e com o acto de submissão de Egas Moniz, pren- 
dendo a acção futura de seu sobrinho. Nenhum 
documento prova que, ao par d'estes factos, se 
tivesse dado qualquer intervenção do rei nos negó- 
cios internos do condado a favor da tia; alem de 
que a pretenção de AflEbnso Henriques era idêntica 
á que AflFonso VII sustentara contra sua mãe. 

A rebeiiiio re- Lcvautado O ccrco de Guimarães, livres os por- 
tuguezes da mvasão que bem se podia já chamar 
estrangeira, porque o titulo de indignos forasteiros, 



■ao. 



crudeice. 



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374 

vencesse a mae ou o filho, ambos seus vassallos, 
porquanto nao suspeitava que deixasse de ser 
satisfeito o compromisso solemne de Egas Moniz. 
Mesmo no seu foro intimo elle devia ser mais pelo 
herdeiro do senhorio de um districto, que pugnava 
pelos seus direitos, do que por quem lhes usurpava 
j em ^proveito de estranhos. 

Marcha íobre As tropas que vinham com Thereza juntaram-se 

Uiitmarics. /• i i , ii 

OS que loram das terras portuguezas que lhe eram 
affectas, e marcharam sobre Guimarães; como se 
fez essa juncção, principalmente das tropas da re- 
gião ao sul do Douro, — que era natural tomassem 
parte no conflicto e também na derrota, pois de 
outro modo não se explicava que permanecessem 
inertes, — nao o dizem os documentos. Como quando 
seu marido combatia em Leão e ella surgia nos 
arraiaes bellicosos a insuflar-lhe novas energias, ou 
como quando dentro dos muros de Coimbra pes- 
soalmente animava os que resistiam aos embates 
dos almorávidas, eil-a agora á frente das hostes 
colligadas de gallegos e portuguezes, que vinham 
luctar pelo que ella reputava ser o seu direito e o 
do seu amante. 
Batalha de s. Saiu-lhc ao cncoutro Affonso Henriques com o 

Mamede. • . • • i i i /^ ■ •«• 

seu exercito, e nas proximidades de Uuimaraes, 
nos campos de S. Mamede, se travou a memorável 
batalha na qual se lançou a primeira pedra nos 
fundamentos da monarchia portugueza. 

Também é imposivel, por falta de informações, 
dizer como teria sido esse encontro; devia, porém, 
ter o typo dos que se travavam n'essa epocha, 
entre besteiros, frecheiros e cayalleiros de armas, 
de um e do outro lado, em embates violentos de 
mesnadas ligeiras ou de pesados esquadrões, onde 
a tempera das armas e o vigor dos braços eram os 
factores principaes da victoria. De como seriam 
n'este período da Edade Media em Portugal a or- 



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376 

coroar do melhor êxito as suas aspirações á justiça 
e á liberdade ! Outra coisa seria. 

Altitude de Af. Arrojaudo do seu estado os estrangeiros, e en- 

que?. *""* cerrando no castello de Lanhoso sua mãe (segundo 
reza a tradição, que os docuínentos aliás não con- 
firmam, havendo talvez equivoco com a prisão an- 
terior da condessa por ordem da irmã), ou limitan- 
do-se a Fazel-a acompanhar na expulsão a sorte 
d'aquelle por quem se inimisara com os seus e se 
perdera, depois de ser feita prisioneira e posta em 
liberdade pelo filho, D. Affonso deu-se por satis- 
feito ; generoso passo que contrasta com a cruesa dos 
costumes n' esses tempos, mas que mostra quanto 
no animo do infante preponderava apenas a neces- 
sidade de affirraar o seu direito, pois se conside- 
rava o legitimo representante dos sentimentos e 
aspirações dos senhores que dominavam na região 
cujo senhorio elle herdara de seu pae. 

Desappareee da Nuuca uiais SC rcgista uos auuaes da historia 
íSir ' ^'portugueza, a partir doesta data, o nome A^ for- 
mosíssima infanta, como em documentos oflBciaes a 
chamava seu marido, o conde D. Henrique; mas se 
pelo seu temperamento, pelos efieitos mesmos da 
sua formosura, pela influencia dos costumes licen- 
ciosos da epocha, a sua vida como mulher lhe acar- 
retou a ella e ao seu estado desgostos e amarguras, 
ao par de muitos gosos Íntimos que o vicio e a 
licença também logram conceder, a verdade é que, 
como chefe doesse estado, como representante das 
aspirações que n'elle buscavam a independência e 
a autonomia, como fundadora dos primeiros alicer- 
ces do edificio de uma nacionalidade que se man- 
tém de pé ha oito séculos, é D. Thereza credora da 
consideração e apreço dos portuguezes. 

AsMobr*. Producto perfeito do seu meio, tendo crystali- 

sado em si maior somma dos elementos em sus- 
pensão por ser maior a superficie em que, pela sua 



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377 



posição, esse meio actuava; mixto de grandes qua- 
lidades e de grandes defeitos, mas entre os quaes, 
como politica, sobrelevavam as primeiras; dotada 
de uma grande energia de vontade e de um grande 
talento de intriga, ella soubera ser, conforme lhe 
convinha, um instrumento ora de cohesão ora de 
dissolução. O nascente Portugal deveu-lhe não só a 
afirmativa primeira da sua autonomia, mas o seu 
engrandecimento territorial para o norte e nas- 
cente, aspiração constante dos primeiros reis por- 
tuguezes, que parecia querer integrar no territó- 
rio do condado portugalense toda a região gallaica 
do antigo império romano, ou todo o reino fundado 
pelas armas suevas, e Tevar, por outro lado, até 
perto de Toledo o seu dominio; deveu-lhe alem 
d'Í8S0 o conter em respeito ao sul os mussulmanos 
irriquietos. 

Era D. Thereza uma mulher corajosa e guer- 
reira, que pessoalmente assistiu a mais de um con- 
flicto armado, prova de que, nem só as mulheres 
germanas, nem só as mulheres árabes acompa- 
nhavam os homens aos combates para lhes incu- 
tir coragem e os fortalecer na lucta, mas também as 
portuguezas souber^^m inscrever, desde o começo 
da historia do paiz, o seu nome illustre nas laminas 
de oiro que perpetuam a dedicação e a coragem, 
como sendo dos esmaltes mais bellos da alma hu- 
mana. 

Ao par de muitos desgostos que lhe teriam acar- 
retado as questões de ordem complexa em que se 
agitou a sua existência, grandes consolos esta- 
riam reservados para o seu coração de mulher e de 
rainha. Como responsável dos destinos de um nas- 
cente estado teve o orgulho de ver que fizera mais 
pela affirmação dos seus direitos do que o próprio 
seu marido, aliás campeão denodado do mesmo 
ideal; como mulher foi amada, deveras amada, 



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cuUno. 



378 

pelo menos pelos dois homens aos quaes ligara a 
sua existência: o conde D. Henrique, que em ins- 
trumentos públicos se comprasia em manifestar o 
seu desvanecimento pela sua belleza, tendo sempre 
provado o poder que ella n'elle exercia, e o conde 
D. Fernando Peres, o qual, mesmo depois de ella 
morta, e em documentos públicos também, deixou 
aftirmado o seu culto pela memoria de quem tanto 
o quizera engrandecer, e que por tanto o amar se 
perdera. 

Mas esse mesmo seu erro, que o amor porque 
foi sincero absolve, bem serviu os destinos da na- 
cionalidade portugueza, fazendo com que em volta 
do infante 1). Henrique se congregassem os ele- 
mentos que a haviam de revigorar, logo á nas- 
cença. 

opiniso do Her. Fallaudo dc D. Tliereza, diz com justiça Hercu- 
lano: «a bastarda de Affonso VI era pela astúcia e 
animo viril digna consorte do ousado e emprehen- 
dedor borgonhez. A leoa defendeu o antro onde 
não se ouvia já o rugido do seu fero senhor, com a 
mesma energia e esforço de que elle dera repetidos 
exemplos. Durante quinze annos luctoii para con- 
servar intacta a independência da terra- que lhe 
chamava rainha, e quando o filho lhe arrancou da 
mao a herança paterna, só havia um anno que a 
altiva dona curvara a cervís ante a fortuna de seu 
sobrinho Affonso Eaimundes, o joven imperador 
de LeSo e Castella. Era tarde. Portugal não devia 
tornar a ser uma província leoneza» *. 

Opinião de Nem todos os escriptores se coUocam n'este 
ponto de vista de quem sabe destnnçar o bem do 
mal, e transportar-se, para apreciar os homens 
e os factos, ao meio a que elles pertencem; assim 



* A. Herculano. O Boho, i. 



HchaefTer. 



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380 

meza de caracter e astuciosa prudência. No intento 
de desenvolver as forças do seu pequeno estado#e 
de o separar inteiramente da monarchia leonexa, 
foi invariável; porém, nas manifestações exteriores 
doeste nobre pensamento, regulou-se cautelosa- 
mente pelas circumstancias accidentaes da penín- 
sula »*. 
opiniio de Vi- No paiz vizinho um escriptor que se dedicou ao 
estudo da historia da Galliza e que não podia dei- 
xar de a relacionar n'esta epocha com a historia do 
Portugal nascente, diz de D. Thereza: «Teem 
dissertado largamente sobre o seu consorcio cora 
Fernando Peres, que nada auctorisa a admittir 
visto que este era casado com Sancha Gonzalez de 
Lara; e emquanto ao valor histórico do seu go- 
verno é completamente depreciado, quando aliás 
nos quatorze annos da sua viuvez, os seus actos de- 
monstram bem a tenacidade e dextreza com que 
procurava desenvolver e realisar o pensamento da 
independência de Portugal que o conde Henrique 
lhe ligara. Cedendo á força das circumstancias, 
nao duvidava reconhecer a supremacia da coroa de 
Hespanha, para obter a paz, quando d'ella carecia, 
salvo o recusar-se á obediência quando entendia 
poder resistir. Associando-se habilmente aos ban- 
dos politicos que despedaçavam a monarchia hes- 
panhola, Thereza ia creando no meio d'ella, para 
ella e para os seus, uma pátria. Apesar das inva- 
sões de christãos e de mouros, e das devastações e 
males causados por uns e outros nos territórios 
dos seus estados, estes cresciam em população, em 
riquezas e em força militar: viris ^ armis, afqiie 
opihus potens ^. Pelas armas e pela politica augmen- 



* Â Fundação da Monarchia Portuguesa. Narração anti-iberica, 
por A. A. Teixeira de Vascoucellos, pag. 73. Lisboa. 
2 Hisf. Cospost., liv. 11. cap. lxxxv. 



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381 

tou a extensão do seu senhorio de Portugal ao 
oriente e ao norte, conservando ao sul a linha de 
fronteiras que seu marido lhe deixara traçada» *• 

São palavras de justiça. 

A historia deve estudar os homens como o re- como se deve 
sultado do seu meio; deve considerar os factos «ude iiutonca. 
não como consequência unicamente da vontade, do 
capricho dos homens, mas como productos do or- 
ganismo individual actuado e modificado pelo or- 
ganismo social, o qual, pela sua vez, recebe a ac- 
ção modificadora do meio em que se desenvolve. 
«Somos obrigados a conceber o homem histórico, 
diz Lacombe, como o homem geral, aflfectado por 
um conjuncto particular de ciroumstancias ou, se 
querem, por um meio especial. . . ; os homens dos 
diversos tempos vera submetter um mesmo fundo 
de natureza ao império de meios diversos»^. 

O homem, com a irreductibilidade dos seus ins- 
tinctos, embora mais ou menos modificados nos 
seus effeitos, e das suas paixões, embora mais ou 
menos attenuadas nos seus impulsos, conserva-se 
no fundo o mesmo atra vez do tempo e do espaço; 
é uma verdade histórica incontestável, isto é, «uma 
realidade que se apresenta em diversos tempos e 
logares com uma connexão demonstrada pelas cau- 
sas que a produziram». Evidentemente, nem no seu 
conteúdo moral nem na sua parte formal o homem 
de hoje é o mesmo que o homem do século xii. 
No fundo, pouca differença se pôde encontrar, por 
exemplo, quanto aos seus instinctos de ferocidade 
e cruesa, entre o homem antigo e o allemão, o russo, 
o francez, que na ultima intervenção das potencias 
na China, se distrahiam, segundo os próprios de- 
poimentos, a atirar aos chinezes indefezos nos cam- 



í Viceto. Hist de la Gallicia, tom. v. 

2 P. Lacombe. De VHisU comidtrée comme acience, cap. vii. 

24 



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382 



pos, com o mesmo prazer com que atiravam aos 
gansos e patos, ou a deitar-lhes abaixo as casas fa- 
zendo-lhes cair as paredes em cima, por brinca- 
deira, ou a destruir-lhes os telhados pai*a se arro- 
jarem sobre a cabeça dos desgraçados, e que até 
aos pobres cypaios do exercito inglez faziam espe- 
ras, como a coelhos, para lhes atirar ás pernas, e 
os despojar de sapatos ^ Entre estes civilisados de 
agora e o homem medievo que se comprasia em 
mutilar os seus semelhantes, em o maltratar e o 
opprimir, pelo mesmo principio da inferioridade 
social, é pequena realmente a differença. Mas, por 
sobre esse fundo irreductivel, que enorme trans- 
formação se tem produzido no modo de ser da hu- 
manidade culta, pela influencia das circumstancias 
que se vão modificando com o tempo? 

Não se pôde julgar uma individualidade da 
Edade Media com o critério dos nossos dias, em 
que as idéas, os sentimentos, as relações sociaes, 
o conteúdo moral, soffreram uma modificação pro- 
funda. As opiniões, os gostos, os actos dos homens 
dependem das condições do meio social em que se 
criam e desenvolvem. A historia não moralisa; 
narra e explica os phenomenos sociaes, tanto 
quanto a explicação cabe no conhecimento das 
causas, próximas ou remotas, que deram origem a 
esses phenomenos, e no critério applicado para 
julgar dos effeitos. 

Para o historiador não ha homens bons ou maus; 
ha epochas melhores ou peiores, eflPeitos sociaes 
nocivos ou benéficos que actuaram na marcha da 
civilisação, isto é, no encadeamento fatal dos senti- 
mentos e das idéas atravez do tempo e do espaço. 
Os homens que n'e8se meio preponderam, com- 



* Bemie dea Eevues, 



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383 



quanto entrem em muito com o seu caracter pes- 
soal, não são mais do que o producto d'esse meio, 
e ao mesmo tempo os instrumentos pelos quaes 
este actua, tendo começado por actuar n^esses ho- 
mens e por 08 formar. 

Para a historia do Portugal nascente D. Thereza syntbeso de pa- 
representa uma grande energia moral onde conver- ^rf^t ^' ^**^' 
giram, no sentido do progresso das idéas e dos sen- 
timentos, os impulsos de liberdade, de independên- 
cia, de altivo orgulho regional que caracterisam 
desde o principio os homens nados e creados no 
torrão que já se podia chamar portuguez; na his- 
toria social do seu tempo é uma de tantas mulhe- 
res que pela sua posição e pelo seu temperamento 
representam a synthese da rudeza, da licença dos 
costumes e da violência e energia dos sentimentos 
da sua epocha. 

No altivo pórtico da nacionalidade portugueza 
a sua figura destaca-se n'um alto relevo. 




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DOCUMENTOS 



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Doouinento I 

(Pag. 267) 



Del Rey Ramiro domde desçendeo a geerafom dos boos e nobres O- 
daliyos de Casteiia e Portagall e dalguuns feitos qae elie e os 
qae delie descenderam fezeram. 

Ouue huum rrey em Leom de gramdes feitos a que 
chamarom rrey Ramiro o segundo, e o porque lhe cha- 
marom segundo foy porque ouue hi outro rrey Ramiro 
que foy anfelle : e outro ouue hi rrey Ramiro o terceiro. 
Este rrey Ramiro o segumdo desçemdeo da linha dereita 
delrrey dom Affomsso o catoUico que cobrou a terra a 
mouros depois que foy perdida por rrey Rodrigo como sse 
mostra no titullo III dos rreys gentiis de Pérsia e dos em- 
peradores de Roma parrafo VIL Rey Ramiro o segumdo 
ounyo fallar da fermusura e bomdades de huuma moura 
e em como era d'alto samgue e irmãa d'Álboazer Albo- 
çadam, filhos de dom Çadam Cada bisneto de rrey Aboali, 
o que comquereo a terra no tempo de rrey Rodrigo. Este 
Alboazare Alboçadam era senhor de toda a terra dês Gaya 
atá a Samtarem, e ouue muitas batalhas com christSaos e 
estremadamente com este rrey Ramiro^ e rrey Ramiro 
fez com elle gramdes amizades por cobrar aquella moura 
que elle muito amaua. E fez emfimta que o amaua muyto, 
e mamdoulhe dizer queo queria veer por se aver de conhe- 
cer com elle por as amisades seerem mais firmes : e Al- 
boazer Alboçadam mandoulhe dizer que lhe prazia dello e 



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que fosse a Gaya e hi se veria com el. E rrey Kamiro 
foisse lá em três gallees com fidalgos e pediolhe aquella 
moura que lha desse e fallaya christaa e casaria com ella: 
e Alboazer Alboçadam lhe rrespomdeo, «tu teens molher 
e filhos delia e és christãao, como podes tu casar duas 
vezes ?A e ell lhe disse que uerdade era, mais que elle era 
tanto seu parente da rrainha dona Aldora sa molher que 
a samta egreja os parteria. E Alboazer Alboçadam jurou- 
lhe por sa ley de Mafomede que lha nom daria por todo 
o rreyno que elle avia, ca a tiinha esposada com rrey de 
Marrocos. Este rrey Ramiro trazia huum grande astrol- 
logo que auia nome Aaman, e per suas artes tiroua huuma 
noite donde estaua e leuoua aas galees que hi estauam 
aprestes : e emtrou rrey Ramiro com a moura em huuma 
galee, e a esto chegou Alboazer Alboçadam e alli foy a 
contemda gramde antre elles, e despereçerom hi dos de 
rrey Ramiro XXII dos boons que hi leuaua e da outra 
companha muyta. E el leuou a moura a Minhor, depois a 
Leom e bautizoua e pôslhe nome Artiga que queria tanto 
dizer naquell tempo castigada e emsinada e comprida de 
todoUos beens. Alboazer Alboçadam têuesse por mal vil- 
tado desto c pemsou em como poderia vimgar tall desom- 
rra : e ouuio fallar em como a rrainha dona Aldora molher de 
rrey Ramiro estaua em Minhor, postou sas náaos e outras 
velías o melhor que pode e mais emcuberto, e foy aaquell 
logar de Minhor e emtrou a villa e filhou a rrainha dona 
Aldora e meteoa nas náaos cora donas e domzellas que hi 
achou e da outra companha muita, e veosse ao castello 
de Gaya que era naquelle tempo de gramdes edifícios e 
de nobres paaços. A elrrey Ramiro contarem este feito, e 
foy em tamanha tristeza que foi louco huuns doze dias: 
e como cobrou seu entendimento mamdou por seu filho o 
iíFamte dom Hordonho e por alguuns de seus vassallos que 
emtemdeo que eram pêra gram feito, e meteosse com elles 
em çimquo galees ca nom pode mais auer. El nom quis 
leuar galiotes senom aquelles que emtemdeo que poderiam 
rreger as galees, e mamdou aos fidallgos que rremassera 
em logar dos galliotes : esto fez el porque as galees eram 
poucas e porhirem mais dos fidallgos e as gallees hirem 
mais apuradas pêra aquell mester por que hia. E el cubrio 
as galees de pano verde e emtrou com ellas por sam 
Johane de Furado que ora chamam sam Johane da Foz. 
Aquelle logar de huuma parte e da outra era a rribeira 
cuberta d'aruores, e as galees emcostouas sô os rramos 



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delias, e porque eram cubertas de pano verde nom pare- 
ciam. £1 deçeo de noite á terra com todollos seus e fallou 
com ho iffamte que ase deitassem a ssô as aruores o mais 
emcubertamente que o fazer podesse e per nenhuma guisa 
nom S86 abalassem atáa que ouuissem a aoz do seu corno, 
e ouuindoo que lhe acorressem a gram pressa. El vis- 
tíosse em panos de tacanho e sua espada e seu lorigom e 
o corno sso ssy, e foisse sóo deitar a huuma fonte que 
estaua sô o castello de Gaya: e esto fazia rrey Ramiro 
por veer a rrainha sa molher pêra aver comsselho com 
ella em como poderia mais compridamente aver dereyto 
d'Alboazar Alboçadam e de seus filhos e de toda sa com- 
panha, ca tiinha que pelo consselho delia cobraria todo 
ca cometemdo este feito em outra maneyra que poderia 
escapar Alboazer Alboçadam e seus filhos. E porque elle 
era de gram coraçam puinha em esta guisa seu feito em 
gram vemtuira: mas as cousas que som hordenadas de 
Deus vêem aquello que a elle praz e nom assy como os 
homeens peemsam. Aconteçeo assy que Alboazar Alboça- 
dam fora correr monte comtra AlafoSes, e huuma sergente 
que avia nome Perona naturall de Framça que leuarom 
com a rainha seruia anfela leuamtousse pela manhãa assy 
como avia de custume de lhe hir pofagua pêra as mãaos 
aaquella fonte achou hi jazer rrey Ramiro e nom no co- 
nheçeo : e elle pediolhe per arauia da agua por Deus ca 
ese nom podia dalli leuamtar, e ella deulha per huum açe- 
ter, e elle meteo huum camafeo na boca, e aquell camafeu 
avia partido com sa molher a rrainha permeatade, e elle 
deusse a beuer e deytou o camafeu no açeter, e a ser- 
gente foisse e deu a agua aa rrainha. E ella. vio o camafeo 
e conheçeo logo, e a rrainha preguntou quem achara no 
caminho, e ella rrespomdeo que nom achara nemguem, e 
ella lhe disse que mentia e que lho nom negasse e que 
lhe faria bem e mercêe : e a sergente lhe disse que achara 
hi huum mouro doemte e lazerado e lhe pedira da agua 
que benesse por Deus e que lha dera: e a rrainha lhe 
disse que lhe fosse por elle e o trouuesse emcubertamente. 
E a sergente foy lá e disselhe «homem pobre a rrainha 
minha senhora vos mamda chamar, e esto he per vosso 
bem ca ella mamdará pensar de vós:» e rrey Ramiro 
rrespoudeo sô ssy aassi o mande Deusi». Foisse com ella 
e entraram pella porta da camará, e conheçeo a rrainha 
e disse «rrey Ramiro que te adusse aqui?0 e elle lhe rres- 
pomdeo «o vosso amor» e ella lhe disse «veeste morto:» 



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elle lhe disso a pequena marauílha pois o faço por vosso 
amor» e ella respomdeo «nom me as tu amor pois daqui 
leuaste Artiga que mais preças que mim, maia vayte ora 
pêra essa trascamara e escusar meey destas donas e dom- 
zellas e fairmey logo pêra ti». Á camará era d^abouedae 
como rrey Ramiro foy dentro fechou ella a porta com 
huum gram cadeado. E elle jazendo na camará chegou 
Alboazer Alboçadam e foysse pêra a ssa camará, e a rrai- 
nha lhe disse «se tu aqui tiuesses rrey Ramiro que lhe 
farias?» o mouro respomdeo «o que elle faria a mym, ma- 
talo com gramdes tormentos:» e rrey Ramiro ouuia tudo: 
e a rrainha disse «pois senhor aprestes o teens ca aqui 
estáa em esta trascamara fechado^ e ora te podes delle 
vimgar aa tua vontade.» E elrrey Ramiro emtemdeo que 
era emganado per sa molher e que já dalli nom podia 
escapar senon per arte alguuma : e maginou que era tempo 
de sse ajudar de seu saber, e disse a gram alta voz, cAl- 
boazer Alboçadam sabe que eu te errey mall, mostrandote 
amizade leuey da ta casa ta irmãa que nom era da minha 
ley: eu me confessey este peccado a meu abade, e elle 
me deu em pemdemça que me veesse meter em teu poder 
o mais vilmente que podesse, e se me tu matar quisesses 
que te pedisse que como eu fezera tam gram peccado ante 
a ta pessoa e ante os teus em filhar ta irmfta mostrandote 
boo amor, que bem assy me desses morto em praça ver- 
gonhosa : e por quamto o peccado que eu fiz foy em gram- 
des terras soado que bem assy a minha morte fosse soada 
por huum corno e mostrada a todos os teus. £ ora te 
peço, pois de morrer ei, que faças chamar teus filhos to- 
dos e filhas e teus parentes e as gentes desta villa e me 
faças hir a este curral que he de grande ouuida e me 
ponhas em logar alto e mo leixes tanjer meu corno que 
trago pêra esto a tanto atáa que saya a alma do corpo, 
e em esto filharás vimgança de mym, e teus filhos e pa- 
rentes averam prazer e a minha alma será salua : esto me 
nom deues de negar por saluamento de minha alma, ca 
sabes que per ta ley deues saluar se poderes as almas de 
todas as leys.» Esto dizia el por fazer viir alli todos seus 
filhos e parentes por se vimgar delles, ca em outra guisa 
nom os poderia achar em huum, e porque o curral era 
alto de muros e nom avia mais que huuma porta per hu 
os seus aviam d'emtrar. Alboazer Alboçadam pemssou no 
que lhe pedia e filhou delle piedade e disse contra a 
rrainha, «este homem rrepemdido he de seu peccado, mais 



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cy eu errado a cUe que elle a mjm, gram torto faria em 
o matar pois se pooem em meu poder.» A rraiuha rres- 
pomdeolhe aAIboazer Almoçadam, fraco de coraçom! eu 
sey quem he rrejr Ramiro, e sey de certo se o saluas de 
morte que lhe nom podes escapar que a nom premdas 
delle, ca elle he arteyroso e vingador assy como tu sabes : 
e nom ouuiste tu dizer como elle tirou os olhos a dom 
Hordonho seu irmSao que era moor ca el de dias por o 
deserdar do rreyno? e nom te acordas quamtas lides 
ouueste com elle e te vemçeo e te matou e catinou muitos 
boos? e já te esqueçeo a força que te fez a ta irmãa, e 
em como eu era sa molher me trouueste que he a moor 
desomrra que os christãaos podem aver? Nom és pêra 
viuer nem pêra nada se te nom vimgas : e sse o tu fazes 
por tua alma por aqui a saluas pois he homem d'outra ley 
e he em contrayro da lua, e tu dálhe a morte que te 
pede pois já vem consselhado de seu abade, ca gram 
peccado farias se lha partisses.! Alboazer Alboçadam 
olhou o dizer da rrainha e disse em seu coraçom cde máa 
ventura he ho homem que sse fia per nenhuuma molher: 
esta he sa molher lidima e tem iffantes e iífamtas delle e 
quer sa morte desomrrada ! eu nom ei porque delia íii, 
eu alomgalaey de mim.» E pemssou em no que lhe dizia 
a rrainha em como rrey Ramiro era arteyroso e vimgador 
e rreçeousse delle se o nom matasse e mandou chamar 
todoUos que eram naquelle logar, e disse a rrey Ramiro 
<tu veeste aqui e fezeste gram loucura ca nos teus paaços 
poderás filhar esta peemdemça: e porque sei sé me tu 
tenesses em teu poder que nom escaparia aa morte, eu 
querote comprir o que me pedes por saluamento de tua 
aíma.» Mamdou tirar da camará e leuouo ao curral e 
poello sobre huum gram padrom que hi estaua, e mamdou 
que tamgesse seu como a tanto atáa que lhe sahisse o 
fôlego. E elrrey Ramiro lhe pedio que fezesse hi estar a 
rrainha e as donas e domzellas e todos seus filhos e seus 
parentes e çidadaâos naquell currall : e Alboazer Alboça- 
dam fezeo assy. E rrey Ramiro tangeo seu como a todo 
seu poder pêra o ouuirem os seus: e o iffamte dom Or- 
denho seu filho quamdo ouuio o como acorreolhe com 
seus vassallos, e meteromsse pella porta do curral : e rrey 
Ramiro deçeosse do padram domde estaua e veo comtra 
o iffamte e disselhe, cmeu filho vossa madre nom moyra 
nem as donas e domzellas que com ella veerom, e guar- 
dadea de cajom ca outra morte merece.» Alli tirou a 



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392 



espada da baynha e deu com ella Alboazer Alboçadam 
per cima da cabeça que o femdeo atáa os peitos. Alli mor- 
reram quatro filhos e três filhas d' Alboazer Alboçadam e 
todos os mouros e mouras que estauam no currall, e nom 
ficou em essa villa de Gaya pedra com pedra que todo 
nom fosse em terra: e filhou rrey Ramiro sa molher com 
sas donas e domzellas e quamto aver achou e meteo nas 
gallees. E depois que esto ouue acabado chamou o iffamte 
seu filho e os seus fidallgos e contoulhes todo como ILe 
aveera com a rrainha sa molher, e el que lhe dera a vida 
por fazer delia mais crua justiça na sa terra. Esto ouue- 
rom todos por estranho de tamanha maldade de molher, 
e ao iíFamte dom Ordonho sayrom as lagremas pellos 
olhos e disse comtra seu padre, «senhor a mjm nom cabe 
de fallar em esto porque he minha madre senam tanto 
que oulhees por vossa homrra.» Emtrarom emtom nas 
gallees e chegarem aa Foz d'Ancora e amarrarem sas 
gallees por folgarem porque aviam muito trabalhado 
aquelles dias. Alli foram dizer a elrrey que a rrainha siia 
chorando, e elrrey disse «vaamola veer:» foy lá e pregum- 
toulhe porque choraua, e ella rrespomdeo, «porque ma- 
taste aquelle mouro que era melhor que ti.» E o iffamte 
disse contra seu padre, «esto he demo, que querees delle 
que pode ser que vos fugirá?» e elrrey mandoua emtom 
amarrar a huuma àióo e lamçalla no mar, e dês aqnelle 
tempo lhe chamarem Foz d^Ancora. E por este peccado 
que disse o iffamte dom Ordonho comtra sa madre disse- 
rem despois as gentes que por esso fora deserdado dos 
poboos de Castella: este deserdamento se mostra mais 
compridamente no titullo III.'' dos rreys gentiis e godos 
parrafo VIL Rey Ramiro foysse a Leom e fez sas cortes 
muy rricas e faílou com os seus de ssa terra e mostrou- 
Ihes as maldades da rrainha Alda sa molher, e que elle 
avia por bem de casar com dona Artiga que era d'alto 
linhagem : e elles todos a huuma voz a louuarom e ho 
ouuerom por bem, porque dissera por ella o gramde 
estroUogo Aman que ela era pedra preciosa antre as mo- 
Iheres que naquelle tempo avia : e ainda disse mais que 
tanto avia seer boa chriatâa que Deus per sua honrra lhe 
daria geeraçom de homeens boos e de gramdes feitos e 
avemturados em bem. E bem parece que Aman disse 
verdade ca ella foy de boa vida, e fez o raoesteiro de sam 
Juliam e outros ospitaaes muitos: e os que delia deçem- 
derom forom muito compridos do que o gramde astrolego 



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393 



disse qae foy Aman. Este Ãman por sa arte dezia muy 
compridamente as cousas que aviam de viir. Este rrey 
ouue huum filho em dona Artiga que chamarem iSamte 
dom Aboazer Ramirez: este chamarom por sobrenome 
çide Aboazar porque naquel tempo fez muitas lides com 
mouros, e tirouos de Sam Eomãao e de Crasto d^Aueoso 
e de Crasto de Gomdomar e de Todea e de todo d'Amtre 
Doyro e Minho e d^Aalem dos Montes comtra Bragamça 
e passouos aalem Doyro a Lamego a Sam Martinho de 
Mouros e foyos tirar de comtra Coymbra: e fez outra 
filha que chamarom dona Artiga Ramirez. — Este Boazer 
Ramirez casou com dona Elena Godiiz filha de dom Go- 
dinho das Esturas. Ella com seu marido fumdarom o 
moesteiro de sam Nícoláao a que ora chamam samto Tisso 
de rriba d^Aue, e guardauomno nas fazendas dom Guter 
Tellez e dom Sauarigo Erit e dom Traicosem de Torqui- 
des: estes eram seus vassallos e senhores de boos caua- 
leiros. Este Alboazer Ramirez fez huum filho em esta 
sa molher que chamarom Trastameyro Aboazer, e outro 
Ermeiro Aboazer: este Trastameiro Aboazer foi casado 
com dona Eomeldola Gomçalluez irmãa do conde dom 
Fernam Gonçalluez filhos do comde dom Gomçallo Nuniz 
que foy filho de dom Nuno Rosoyra assy como se mostra 
no titullo IIII.^ dos juizes que fezerom os castellaãos 
donde veerom os rreys de Castella parrafo primo, e fez 
em ella dom Gomçallo Trastamirez da Maya, e dona Or- 
lamda Trastamirez. Este dom Trastameiro Aboazar casou 
com dona Dordia Assorez irmâa de dom Sarrazinho Oso- 
rez, e fez em ella dom Fernam Trastamirez, e dona 
Ermesemda Trastamirez. — Este dom Gomçallo Trasta- 
mirez de Maya foi casado com dona Miçia Rodriguez 
filha de dom Ruuy Vermuiz, avôo do dom Diego Laimdez 
padre de dom Ruuy Diaz çide como se mostra no titullo 
Vni.*^ deste Ruuy Diaz parrafo IIII.**, e fez em ella dom 
Meem Gomçalluez da Maya: este dom Gomçallo Trasta- 
mirez foy outra vez casado com dona Husoo Soarez filha 
de dom Sesnam Diaz, e fez em ella huuma filha que cha- 
marem dona Ermesemda Gonçalluez. Este dom Meem 
Gomçalluez da Maya foi casado com dona Leonguida Soarez 
que chamarom em sobrenome a Tainha, e foy filha de 
dom Soeiro Geeudez da Várzea como se mostra no titullo 
XLn de dom Goido Araldcz parrafo primeiro, e fez em 
ella dom Soeiro Memdez o boo da Maya, e Gomçallo 
Meemdez o lidador, e dona Ousoana Meemdez. Estes 



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394 



todos se chamarom da Maya porque se ganhou por os 
seus avóos e aviamna por sua: e a Maya chamauasse 
naquel tempo dês Doyro atáa Lima.» 



Liv. de Linhagens do Conde D. Pedro, PoRTUG. Momem. 

SCRPTORES. 



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Dooumento II 

(Pag. 308) 



Pacto entre os Condes D. Raymnndo e D. Henrique 

138. Raymundi Galletiae, et Henrici Fortugalie Comi- 
tum Hugoni Abbati Cluniacensi Domino atque Reveren- 
dissimo Cluniacensi Abbati Hugoni, omnique beati Fetri 
Congregationi Raymundus Comes, ejus que filius, et Hen- 
ricus Comes, ejus famíliaris, cum dilectione salutem in 
Christo. Sciatis, carisssime Pater, quod postquam vestrum 
vidimus Legatum, pro Dei omnipotentis, atque Beati Petri 
Apostoli timore, vestraque dignitatis reverentia, quod no- 
bis mandastis, in manu Domini Dalmatí Gevert fecimus. 

In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Pignns 
integrae dilectionis, quo conjuncti sunt in amore Raymun- 
dus Comes, Comesque Henricus, et hoc juramento. 

Ego quidem Henricus, absque ulla divortii faJsitate, tibi 
Comiti Raymundo membrorum tuorum sanitatem, tuae vi- 
tae integram dilectionem, tuique carceris invitam mihi 
occursionem juro. Juro etiam, quod post obitnm Regis AI- 
defonsi tibi omni modo contra onmem hominem atque mu- 
lierem bano totam terram Regis Aldephonsi defendere 
fideliter, ut Domino singulari, atque adquirere praeparatus 
occurram. Juro etiam, si thesaurum Toleti prius te ha- 
buero, duas partes tibi dabo, et tertiam mihi retinebo. 
Amen. Et ego Comes Raymundus tibi Comiti H enrico tuo- 
rum membrorum sanitarem, tuaeque vitae integram dile- 
ctionem, tui que carceris invitam occursionem juro. Juro 
etiam, quod post mortem Regis Aldephonsi me tibi datu- 
rum Toletum, terram que totam subjacentem ei, totam 



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396 



que terram, quam obtines modo a me concessam, habeas 
tali pacto; ut sis inde meus homo, et de me eam habeas 
Domino; et postquam illas, tibi dedero, demittas míhi 
omnes terras de Leon, et de Castella, et si aliquis mihi 
vel tibi obsistere voluerit, et injuriam nobis fecerit, guer- 
ram simul in eum vel unusquisque per se ineamus, usque 
quo terram illam mihi, vel tibi pacifice demittat, et postea 
tibi eam praebeam. Juro etiam si thesaurum Toleti prius 
te habuerO; tertiam partem tibi dabo, et duas remanentes 
mihi servabo. 

Fiducia quam Comes Eaymundus facit in 
manu Domini Dalmatii Gevet. 

Si ego Comes Raymundus non possum tibi Comiti Hen- 
rico dare Toletum, ut promlsi, dabo tibi Gallaeciam tali 
pacto, ut tu adjuves mihi acquirere totam terram de Leon, 
et de Castella: es postquam inde Dominus pacifico fuero, 
dabo tibi Gallaeciam, ut postquam eam tibi dedero, de- 
mittas mihi terras de Leon, et de Castella. Igitur Deo 
jttbente, sic quoque Sancta Dei Ecclesia piis orationibus 
ínterveniat. Amen. 

Foi publicado pela primeira vez por D'Achery, Speci- 
legium; e depois por Aguirre, Conditos de Espaha, t. v, 
em 1755; e por João Pedro Ribeiro, Dissertações Chro- 
nologicas, t. iii, p. i, 1813. 



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Documento ni 

(Pag. 310) 



CAPITULO XXI 



De las cosas que sncedieron despues de Ia naerte 
dei Rey D. Alonso entre el Gonde Enrique, y el Rey de AragoD 

Sobre todo es de saber, que el Rey D. Alonso de noble 
memoria, mientra que él viviese de una manceba, pêro 
bien noble, había habido una hija llamada Teresa, la qual 
él habia casado con un Conde, Uamado Enrique, que vé- 
nia de sangre Real de Francia; el qual en quanto el Rey 
D. Alonso vevia, noblemente domo á los MoroS; guer- 
reando contra ellos; por lo qual el dicho Rey le dió con 
8u hija en casamiento á Coimbra, é á la Província de Por- 
tugal, que son fronteras de Moros, en las quales con el 
exercício batalloso, muy noblemente engrandescia su Ca- 
balleria; pêro poços dias antes que el Rey íicíese fin de 
vivir, no se por qué saiSa, ó discórdia se partió airado de 
él, é porque aquesto era ansi; no estuvo presente quando 
el Rey queria morir, é disponia de Ia sucesion dei Reyno 
este Conde non era presente; por Io qual por zelo dei 
Reyno movido, traspasó los Montes Perineos por haber 
ayuda de los Franceses, con los quales guarnecido, é es- 
coltado, digo esforzado, por fnerza tuvíese el Reyno de 
Espafla. £ como la âaqueza humanai sea suje ta á vários, 
é diversos acaecimientos, acaescióie una desdicha, que fué 
preso, é detenído en prision; pêro Dios hubíéndole com- 
pasion, Io saco. En el tiempo que el Rey de Aragon fuera 
desechado, é alanzado de la Reyna, retomábase, é porque 



95 



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398 



él pudiese sin peligro pasar por el Reyno de Aragon, dán- 
dole su fé, prometiéndole, que él en imo con él, con todas 
sus fuerzas contra la Reyna, guerrearia con esta condi- 
cion, que todo aquello, que dei Reyno de la Reyna ganase, 
fuese partido por la metad entre ambos. E asi allegada 
gran hueste, ibanse para Sepúlveda; lo qual como oyese 
el noble Conde, llamado Gomez, que en aquella sazon mo- 
raba en Burgos con la Reyna, con poços en el campo de 
Espafia fué contra ellos. E por quanto sin consejo con po- 
ços acometió, grande, é diíicile cosa, fuertemente peleando 
murió en la batalla. Ia qual vitoria acabada viniéronse para 
Sepúlveda. E asi como morasen los nobles, que eran con 
la Reyna, enviaron Embaxadores ai Conde Enrique, qae 
le dixesen, que injustamente él facia contra la Reyna, é 
los nobles suyos, apartándose de ellos, é llegándose ai 
tirano su enemigo. Mas que le rogaron, que luego se par- 
tiesen dei Rey de Âragon, é á ellos se traspasase, que 
ellos acabarian con la Reyna, que con él partiese dei 
Reyno con suerte fraternal, y que esto habia de hacer de 
buena voluntad, recordándose de la amistad antigua, é 
compaSia de ellos, é que él seria Capitan de ellos, y Prín- 
cipe dei Exército. Las quales cosas oidas el Conde Enri- 
que, faabido consejo con los suyos, casi como quien va á 
ver sus heredades, partióse dei Rey, y habiendo su fabla 
con el poderoso Feman Garcia, vlnose á un Castillo lla- 
mado Monzon, onde la Reyna entonces estaba, é el sobre- 
dicho pacto confirmo, lo qual como fuese manifestado ai 
Rey, partióse de Sepúlveda, é fuese à mas andar ai Cas- 
tillo fuerte llamado PeSafiel, é los hombres, que moraban 
allende el rio de Duero, è son llamados Pardos, en aquel 
tiempo seguian ai Rey de Aragon ; pêro la Reyna, é el 
Conde Enrique allegada mucha gente, hombres de pié, 
onde á caballo, cercaron el Castillo de Penafiel. E por 
quanto la natura le fortifico, é de ligero no se podia tomar 
el exército de la gente de armas, toda la gente que estaba 
ai redor á fierro, y á fuego destruyó, é toda la sustancia 
robô. El bien lo merecia, por quanto los moradores, des- 
preciado el Sefiorio natural, allegáronse ai tirano, é roba- 
dor. En esto estando, Doila Teresa, muger dei Conde En- 
rique, fija dei Rey D. Alonso, que habia quedado en 
Coimbra, vinose para él, é despues de poços dias comenzó 
á incitar ai marido, diciéndole : primero habia de partir el 
Reyno, segun que habia quedado, é después debria echar 
ai Rey. Decia aun mas: gran enga&o parece por honor é 



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399 



Reyno de otro trabajar vos con los vaestros, é Budar por 
alcanzar ai destruidor; é entre estas cosas, como es cos- 
tumbre de las lengnas lisonjeras, la muger dei Conde era 
ya Ilamada de los suyos Reyna, lo qual ojendo la Reyna, 
mal lo sabia, mayormente como se viese desamparada dei 
solaz varonil, é á su hermana veria con el ayuntamiento 
de varon sobresalir. E como á la division dei Reyno fuese 
apremiada, llamó ocultamente un consejero dei Rey, que 
habia nombre Castano, fabló con él en puridad; é asi quita- 
ron la cerca, é se despartieron, é á Palencia se vinieron ; 
é dados ai de la una é de la otra parte nobles, é pruden- 
tes varones, comenzaron á partir el Reyno for igual suer- 
te; en la qual division entre todas las otras cosas so la 
suerte dei Conde cayó Zamora, que es Ciudad mucho 
abastada, é eso mismo el Castillo dei nombre dei rio 11a- 
mado Ceya, el qual luego . fué entregado en mano dei 
Conde. E estas cosas acabadas, establecieron, é ordena- 
ron que la Reyna con sua hermana Teresa se fuesen para 
Leon, é el Conde se fuese á tomar á Zamora con los Ca- 
balleros de Ia Reyna, á los quales ella mando secretamente 
que no diesen la Ciudad ai Conde ; é la Reyna ya habia 
mandado á los de Palencia, que viniendo el Rey de Ara- 
gon, que le abriesen las puertas, ca ya habia enviado por 
él á Fernan Garcia; é todo aquesto se facia ocultamente, 
é la Reyna veniase á la Villa de Sant Fagun, é semejan- 
temente mando á los Burgeses, que abríesen ai Rey las 
puertas ; ca ya los Burgeses habian quitado el poderio dei 
Abad, los Porteros, y puertas de la Villa, de mancra, que 
si el Abad, ó algun Monge queria entrar, ó salir, por de- 
baxo de Ia cadena habia de pasar, como un labrador. Otrosi 
cortaban madera dei Monte para facer, y alzar las Torres, 
sin licencia dei Abad, ni aunque no fuese sobre ello deman- 
dado, ni sin facérselo saber. E la Reyna fuese luego para 
Leon dexada su hermana en Sant Fagun. E catad, que 
un dia el Abad, y los Monges, no sabiendolo, el-Rey entro 
en Ia Villa, é mando á los suyos, que persiguiesen á la mu- 
ger de Enrique, la qual, oyendo su venida, habia ya fuido, 
y ansi no la pudieron comprehender. 

Hist, dei Real Monasterio de Sahagun, por el P. M. Fr, 
Komualdo Escalona. Madrid, mdcclxxxii. 



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Documento IV 

(Pag. 367) 



Sepulchro de Egas Moniz 

Este venerando monumento sepulchral existe ainda, muito 
deteriorado e maltratado, no mosteiro de Paço de Sousa ; 
nelie estSe representados, esculpidos em pedra, os episó- 
dios da celebre jt>mada de Egas Moniz á corte de Toledo, 
a sua morte, o seu enterro. Em consequência de varias 
deslocações do sitio onde primeiramente fôra oollocado, 
as suas pedras acham-se fora do local que deviam occupar 
para a representaç&o das scenas que figuram ; uma d'ellas 
mesmo está invertida, e confundidas com ellas as pedras 
do monumento dos filhos do honrado rico-homem português. 
A figura que representa Egas Moniz a cavallo está muti- 
lada, faltando-lhe a cabeça, acima da barba, existindo o 
relevo da corda ao pecoço. 

O académico António de Almeida publicou nas Memorioê 
da Academia Real das Sciencias, tomo xi, a descripção dos 
monumentos que encontrou no Diatario de Paço de Sousa, 
de fr. António da Soledade, cai*torario do convento. Diz 
o seguinte : (cNa testa do nascente estava esculpida de me^o 
relego hum cavallo, e nelle montado hum homem com armas 
brancas, e a cabeça descoberta: Na primeira pedra da 
frente estava esculpido hum homem a pé com huma lança 
ou dardo ao hombro, em cabello, com armas brancas e 
sayote, e botins aíé ao meio da perna em postura de ir 
caminhando. Atraz deste homem estava esculpido na mesma 
pedra D. Egas Moniz, montado em hum cavallo, este com 
hum feitio de gualdrapa e bem ajaezado. D. Egas com as 



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402 



pernas nuas, e vestido com uma roupa singella^ que imita 
camiza : faltando-lhe ametade do corpo*do peito para sima, 
que o quebrarão (e diz a BenedictiDa que estava com as 
cordas ao pescoço quando existia no cprporal). - 

a Unida a esta pedra se seguia a terceira, na qual está 
também esculpido o seu enterro; dous homens pegando 
hum pelos pez e outro pela cabeça de D. Egas Moniz, e 
metendo-o em hum tumulo : pela parte de traz desta está 
huma mulher na perspectiva de quem se lamenta. Logo 
adiante do tumulo hum abbade em huma cadeira revestido 
com capa, mitra, e báculo, e hum livro na mSo. 

«Na testa do Poente está esculpida huma mulher com a 
mão direita sustentando o rosto, e com a esquerda pe- 
gando no cotobello da direita, em forma de a'dmiraçXo laa- 
timoza ; no braço esquerdo lhe está pegando a mSo de huma 
pessoa ; o corpo desta não apparece, e entende que o cor- 
tarão, ou quebrarão. 

«Sobre estas pedras estava a tampa, ou cúpula do mo- 
numento, fazendo lhe também trez faces ; ao pé das pedras 
tem duas faixas, huma mais abaixo, outra por simn, a 
tampa ou cúpula acaba em feitio mais estreito^ e bem la- 
vrada. Na primeira faixa está o Epitaphio escripto de le- 
tra gótica occupando todo o comprimento da cúpula. Na se- 
gunda faixa tem gravada a éra em que falesceo, eserípta 
em letra destes nossos tempos e posta ás avessas .... 
vêm-se só os dous pontos últimos . . . , e quando mudarão a 
pedra quebrarão os ditos dous pontos». 

O epitaphio diz: 

IIlC KEQUIESCAT F{arnu)hVS DEI EgAS JIoNIZ 

vir inclitus 
Era millesima centésima lxxxiiii 

Corresponde ao anno de Christo 1146. 

Publicaram desenhos deste venerando monumento o aca- 
démico António de Almeida na sua Memoria Polemica ( 183 1 ), 
o Panorama (1837), os Quadros Históricos, de Castilho 
(1838), o Árchivo Pittoresco (1859), a Revista Arckeolo- 
gica (1890). 



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índice 



íntroducçSo: p»k- 

iDÍiueiicia dos Árabes na milicia portugueza ^ 

L — O que devemos aos árabes 1 T) 

II. — Organisaçâo militar 77 

O condado portuguez : 

I. — Um episodio da Reconquista 201 

II. — O condado de Portugal 243 

ÍII. — O conde D. Henrique, seu governo 281 

IV. — O governo de D. ITiereza. 333 

Documentos 380 



niustrações 
Estampas 

I. — latagan modeino, 1218 da Hégira (Da colIecçÂo do 

Dr. Teixeira de Aragão) 138 

II. — Capacete árabe. (Da collecção de Sua Majestade 

El-Rei) 142 

III. — Almiger Regis (Da miniatura do Livro dos Testa- 
mentos ou Privilégios que se conserva na cathedral 
de Oviedo, e representa AíFonso, o Casto, de Cas- 
tella) 249 

IV. — Cintra, o Castello dos Mouros (Do Livro das fortor 

lezas de Duarte das Armas) 307 

Figuras 

1.» — Alfange 13G 

2.*— Cimitarra 137 

3.* — Espada e bainha 138 

4.» — Lança com bandeirola 139 

5.» — Lança para incendiar 140 

6.« — Capsula de nafta 141 

7.« — Gomia 141 

8.« — Azagraia 142 

9.' — Quebade (arco) 143 



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404 

Pag. 

IO." — Ceáme ou nivel (setta) IH 

li.- — Aljava 144 

12.*— Besta 145 

13.- — Capacete 145 

14.*— Morrifto 146 

15.« — Capacete 146 

16.« — Morriâo 147 

17.« — Magfar 147 

18.*— Zardia 147 

19.- — Couraça. 148 

20.« — Couraça 148 

2l.*— Musca 148 

22.- — Botute 148 

23.- — Algalota 149 

24.» — Darga 149 

25.-— Darga 15(» 

2G.« — Darga 150 

27." — Soldado de infanteria 151 

28.* — Sella 15:» 

29.«— Acicate 152 

30.- — Efitribo liVJ 

31.- — Cabeçada 153 

32.* — Estribo e acicate (século iii) 154 

33.» — Estribo 155 

34.._Chirimia 155 

35.» — Chirimia 155 

3G.« — Atambor 156 

37.«— Atabale 156 

38.* — Árabes lançando substancias incendiarias 156 

39.«— Flechas de fogo 157 

40.* — Maça de fogo 157 

41.* — Carcaz de settas de nafta 157 

42.* — Bandeira 158 

43.* — Bandeira 159 

44.« — Signa 160 



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lElrrata» 



Ondo Be lô : 

Gassam 

lemen 

Cairum 

de Espagne (nota) 

Cairum 

phanatismo 

Èemsaide 

doB nossos Algarves 

Almakari 

Bemalaki 

almoravidas 

Alotacem 

Molamide 

AbulValid 

Kosiri 

Sahibacalá 

Mokulam 

Muçabem 

al-zagani 

Cazwini 

Ben Batuta 

Mabunad Abadalim 

Abul Caieme 

mustaçaf 

A arte de mudejar (cota). 

Abú Alaquim 

Bemadi 

Xemeadim 

Dhiffa 

Bemazil 

Bemazil 

Bemazil 

Acirafe 

Massa (cota) 

Avincera 

AUemamnm (cota) 

Documento A (nota) 

Bolonha 



Leia se : Pag. 

Gaçam 1(5 

Temem 16 

Cairuám 25 

d*Espagne 29 

Cairuám 35 

fanatismo 36 

Bem Said 39 

do noeso Algarve 39-40 

Almacari 47 

Benalaqui 48 

Almoravidas 52 

Almotacem 52 

Motamide 54 

Abnlualide 54 

Nociri 56 

Sabibaçfllá 57 

Mocatam 62 

Muça Bem 62 

Al-Sagani 62 

Cazuini 66 

Bem Batuta 67 

Mahunade Adallal 70 

Abul Caceme 70 

almotacé 73 

A arte mudejar 73 

Abú Alaquem 84 

Benadi 96 

Xemçadim 102 

diafa 114 

Benazil 119 

Benazil 121 

Benazil 126 

Açarafe 138 

Maça 157 

Avicena 175 

Almamum 223 

Documento 1 267 

Borgonha 271 



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YC 62316 




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